A Mulher no Pêndulo
Eva passou o resto da noite desmontando o relógio com Caetano sentado na cadeira dos clientes, calado demais para rico acostumado a controlar serviço. Dentro da caixa havia umidade sem mofo, engrenagens limpas por água que não deveria limpar nada e um compartimento atrás do pêndulo. Nele encontrou cartas dobradas, uma mecha de cabelo presa por fita verde e uma fotografia de Elisa Reis ao lado de Teresa Alcântara, jovem, sorrindo na porta da mesma oficina. Eva conhecia cada rachadura daquela fachada. A mãe nunca contara que trabalhara para os Reis, nem que conhecera a mulher desaparecida. Caetano se levantou para ver a foto e ficou perto demais. Eva percebeu o calor dele antes de organizar a própria distância.
As cartas revelavam um acordo. Elisa queria fugir, sim, mas não com músico. Queria fugir da família, do casamento arranjado e de um inventário que escondia desvio de dinheiro da fábrica Reis. Teresa ajudaria a preparar documentos falsos e consertaria o relógio para guardar provas até Elisa chegar a Porto Claro. A viagem nunca aconteceu. Na última carta, Elisa dizia que descobrira um quarto sob a escada da casa, onde o pai guardava recibos e fotografias de funcionários feridos. Depois disso, nada. Eva leu em voz alta, e a oficina pareceu ficar menor. Caetano disse que o bisavô dele era homenageado em rua, escola e auditório. Eva respondeu que cidade adorava dar placa a homem antes de perguntar quem pagou a conta.
Perto do amanhecer, o pêndulo se moveu sozinho. No vidro do mostrador surgiu uma imagem tremida, primeiro chuva, depois uma sala antiga. Teresa, a mãe de Eva, aparecia jovem, escondida perto de uma porta. Elisa vinha atrás, segurando uma pasta. Um homem mais velho entrou no corredor. Não havia som, apenas água batendo por dentro do relógio. O homem tomou a pasta de Elisa, segurou seu rosto com familiaridade brutal e apontou para o relógio. Teresa tentou sair do esconderijo, mas alguém a puxou para trás. A imagem terminou com Elisa olhando direto para o vidro, os olhos presos em Eva através das décadas. Caetano sussurrou o nome do bisavô. Pela primeira vez, a vergonha dele pareceu maior que o medo.
Eva abriu a oficina ao meio-dia sem ter dormido. Caetano voltou com café, documentos da casa Reis e uma disposição suspeita para obedecer. Ela aceitou o café e recusou a parte obediente. Precisavam entrar na casa antes que a família percebesse que o relógio falava com gente fora do sangue Reis. Caetano avisou que a mãe dele organizava jantar naquela noite com avaliadores do leilão, parentes e advogado. Eva disse que ótimo, multidões facilitavam invasões discretas quando todos fingiam educação. Ele perguntou se ela sempre invadia casas de cliente. Ela respondeu que apenas quando móveis começavam a chover provas. O sorriso dele veio inteiro dessa vez, cansado e bonito o bastante para virar problema.
Na casa Reis, o corredor dos retratos parecia tribunal de mortos bem vestidos. O retrato de Elisa estava virado para a parede, exatamente como Caetano descrevera. Eva o desvirou. A mulher da fotografia tinha o mesmo olhar direto visto no relógio. Atrás da moldura, havia outra carta, endereçada a Teresa. Dizia que, se Elisa não voltasse até domingo, Teresa deveria abrir o relógio na presença de alguém que ainda pudesse sentir culpa sem transformá-la em desculpa. Eva olhou para Caetano. Ele leu a frase e não se defendeu. Disse que queria ser essa pessoa, se ainda desse tempo. A resposta foi boa demais para ser segura. Do andar de cima, a mãe dele chamou pelo nome completo, e o relógio, mesmo longe dali, começou a badalar dentro da memória de Eva.