O Jantar dos Reis O Relógio que Chovia Dentro · Capítulo 3 de 4
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O Jantar dos Reis

O jantar dos Reis tinha talheres de prata, taças finas e a atmosfera de velório onde o morto ainda assinava cheque. Eva entrou pela porta de serviço com crachá falso de restauradora do leilão, carregando uma maleta de ferramentas e a paciência curta. Caetano a encontrou no corredor da copa e apontou para a escada de fundos. A mãe dele, Helena Reis, recebia convidados no salão principal com vestido vinho e sorriso capaz de congelar água. O advogado da família falava sobre valor histórico do relógio, peça rara, procedência impecável, oportunidade internacional. Eva pensou na chuva dentro da madeira e na palavra impecável saindo de boca treinada. A casa inteira parecia preparada para vender ausência sem recibo.

O quarto sob a escada existia. Ficava atrás de uma estante estreita, acionada por uma trava escondida no rodapé. Caetano conhecia a trava porque brincava ali quando criança e fora punido por entrar sem permissão. Dentro, havia caixas de arquivo, livros contábeis e um vestido verde pendurado no fundo, protegido por capa transparente. Eva reconheceu a fita da mecha de cabelo. O vestido de Elisa tinha marcas antigas no punho e uma mancha escura perto da barra. Caetano ficou imóvel. Eva abriu as caixas. Encontrou recibos de suborno, registros de acidente na fábrica, cartas de funcionários e uma certidão falsa de embarque de Elisa para a Argentina. A fuga fora fabricada depois do desaparecimento.

Helena Reis apareceu na porta secreta antes que eles saíssem. Não gritou. Gente como ela não gritava quando a casa ainda obedecia. Perguntou quanto Eva queria para esquecer o quarto. Caetano respondeu pela restauradora, erro que pagou imediatamente com o olhar dela. Eva deu um passo à frente e disse que aceitava pagamento em verdade, à vista, sem parcelamento familiar. Helena riu baixo. Contou que Elisa ameaçou destruir o pai e a fábrica, e que Teresa Alcântara, mãe de Eva, recebeu dinheiro para sumir com parte dos documentos. Eva sentiu a frase acertar o lugar onde guardava a memória da mãe como coisa limpa. Caetano disse que aquilo podia ser mentira. Eva respondeu que podia, e mesmo assim precisava ser conferido.

A discussão subiu de volume, e o salão ouviu. Convidados chegaram ao corredor, o advogado atrás, avaliadores com celulares discretos na mão. Helena tentou converter flagrante em narrativa, dizendo que Caetano estava emocionalmente instável e que Eva era oportunista contratada por concorrentes do leilão. Foi quando a chuva começou. Primeiro no teto do corredor, depois dentro dos lustres, depois no copo que Helena segurava. A água caía de lugar nenhum, fina, persistente, sem molhar o chão fora do caminho até a estante. No salão, o relógio havia sido colocado para exibição, embora Caetano jurasse tê-lo deixado na oficina. Ele badalou três vezes. As portas do mostrador abriram, e a voz de Elisa saiu de dentro da madeira, rouca, clara, chamando Teresa Alcântara pelo nome.

Eva caminhou até o relógio diante de todos. A voz de Elisa não acusou Teresa. Pediu perdão a ela. Disse que Teresa tentara salvar as provas e fora ameaçada depois, obrigada a calar para manter a filha viva. Eva segurou a borda do relógio com as duas mãos. O alívio veio misturado à raiva de ter passado anos sem saber que a mãe carregara medo por ela. Caetano ficou ao seu lado. Helena ordenou que desligassem aquilo, frase inútil diante de madeira chovendo dentro. O advogado tentou tomar uma das caixas, mas um avaliador o filmava. A sala, que começara a noite como vitrine de leilão, virou audiência improvisada. Eva abriu o compartimento do pêndulo e retirou a última carta, selada com cera verde. No verso estava escrito apenas. Ao primeiro Reis que escolher perder dinheiro.

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