A Última Badalada
Caetano abriu a última carta diante da família, dos avaliadores e da chuva fina que escorria por dentro do relógio sem tocar o tapete persa. Elisa escrevera para alguém que ainda não conhecia, um descendente capaz de escolher nome antes de patrimônio. Contava que o pai a trancara no quarto sob a escada depois de descobrir os documentos, que Teresa tentou chamar ajuda e foi impedida por ameaças contra a filha pequena. Contava também que o relógio fora preparado por Teresa para guardar cartas em compartimentos sucessivos, um truque de oficina transformado em cofre sentimental. A última linha pediu que o relógio não fosse vendido. Deveria ficar onde pudesse marcar a hora exata em que a mentira da família terminasse.
Helena Reis tentou sair. Caetano segurou a porta do salão, não com violência, apenas com presença. Disse que chamara a imprensa local e o Ministério Público antes do jantar, caso o quarto existisse. Eva olhou para ele, surpresa. Ele respondeu ao olhar com discrição. Talvez tivesse aprendido algo sobre informação completa. As sirenes chegaram quinze minutos depois. Até lá, Helena falou o bastante para se condenar em três frentes diferentes. Chamou Elisa de ingrata, Teresa de empregada ambiciosa, Eva de filha de cúmplice e Caetano de menino fraco. A cada insulto, o relógio soltava uma gota mais grossa, batendo no fundo de madeira igual ponto final. Quando a polícia entrou, a chuva parou.
A casa Reis perdeu o leilão, o verniz e parte dos convidados antes da meia-noite. Caetano entregou as caixas, a certidão falsa e as cartas. Eva recolheu a fotografia de Teresa com Elisa e guardou dentro da maleta. Queria odiar a mãe por ter calado. Queria abraçá-la por ter sobrevivido tempo suficiente para criar uma filha longe daquela casa. Como as duas coisas cabiam no mesmo peito, decidiu adiar julgamento. Caetano a encontrou na varanda, onde o ar cheirava a terra molhada. Pediu desculpa por tudo que carregava no sobrenome. Eva disse que sobrenome podia virar arma se a pessoa empunhasse errado. Ele aceitou a frase com a seriedade adequada.
O relógio voltou para a oficina de Eva, não como mercadoria. Caetano assinou a doação formal para um futuro arquivo de memória operária que ela ainda nem sabia montar. Durante uma semana, a peça permaneceu muda. Sem chuva, sem cartas, sem badaladas fora de hora. Eva restaurou o mostrador, limpou engrenagens e manteve a rachadura principal, porque conserto não precisava apagar cicatriz. Caetano aparecia todas as tardes com café e documentos. Às vezes falavam de Elisa. Às vezes de Teresa. Às vezes não falavam quase nada, e a oficina ficava cheia de um silêncio útil, desses que deixam duas pessoas descobrirem presença sem correr para definição.
Na oitava noite, choveu na cidade inteira. Eva fechava a oficina quando o relógio bateu três badaladas, pontual pela primeira vez. Dentro do vidro, não havia água. Apenas uma frase surgindo no mostrador em vapor fino. Obrigada por não vender. Caetano estava à porta, molhado da rua, segurando uma sacola de pão doce e uma timidez incompatível com seu tamanho. Eva leu a frase para ele. Depois abriu espaço para que entrasse. O beijo aconteceu perto da bancada, entre ferramentas, cartas secando e madeira antiga. Foi cuidadoso no começo, depois menos. Quando se afastaram, o relógio continuava quieto, respeitando o que qualquer objeto sensato deveria respeitar. Eva olhou para Caetano e disse que, se a família dele mandasse outro móvel problemático, cobraria o triplo. Ele respondeu que pagaria antes das três da manhã.