A Mochila na Gruta
Miguel apagou a lanterna no mesmo instante em que a lancha parou diante da gruta. Lara segurava a mochila de Marina com as duas mãos, sentindo a umidade antiga passar pelo pano. Do lado de fora, duas vozes discutiam a maré, uma masculina, outra feminina, ambas tentando parecer calmas e falhando por excesso de cuidado. Miguel reconheceu a voz do secretário de obras, Paulo Valadares, homem que na época do desaparecimento era noivo de Marina e hoje posava de benfeitor da vila. A voz feminina pertencia à delegada Celeste, aposentada havia três anos, responsável por assinar o relatório do acidente. Lara entendeu que a gruta não guardava apenas lembrança. Guardava gente viva demais interessada em silêncio.
A mochila tinha caderno, câmera descartável, carteira molhada e um envelope plástico com três folhas. Marina investigava desvio de verba da estrada da falésia, obra fantasma que enriqueceu Paulo, financiou campanha e colocou o pai de Lara no meio por assinatura técnica. Havia fotos de máquinas paradas, recibos duplicados e um bilhete de Marina para Lara, nunca entregue. Dizia que, se algo acontecesse, Miguel sabia a primeira parte, e o pai sabia a pior. Lara leu sem respirar direito. Miguel, ao lado dela, disse que tentou contar. Na noite da tempestade, o pai de Lara o procurou com dinheiro e ameaça. Se Miguel insistisse na história da segunda pessoa na trilha, Paulo transformaria a morte de Marina em fuga com amante local. Miguel tinha vinte e dois anos, mãe doente e covardia suficiente para assinar o segundo depoimento.
Lara quis bater nele. Quis também entender, e isso a irritou ainda mais. Do lado de fora, Celeste ordenou que alguém verificasse a fenda interna. Miguel pegou a mochila e puxou Lara por uma passagem baixa. A gruta continuava para dentro da falésia, estreita, cheia de poças e inscrições antigas. Os sinos batiam atrás deles. Lara perguntou por que ele não saiu da vila depois. Miguel respondeu que fugir teria sido confortável demais. Ficou para levar turista à falésia, para impedir curioso de entrar na gruta errada, para esperar alguém da família Fontes voltar com raiva suficiente. Ela disse que raiva não era plano. Ele respondeu que, até aquela tarde, era tudo que tinham.
A passagem saía numa praia escondida do outro lado da rocha. O céu escurecia, e a maré começava a subir. Miguel chamou um amigo por rádio, mas o aparelho falhou depois de um chiado. Lara abriu a câmera descartável de Marina com cuidado e encontrou o filme ainda dentro. Precisavam revelar, copiar, mandar para fora da vila. Paulo e Celeste tinham lancha, polícia antiga e gente na prefeitura. Lara tinha uma mochila, um guia culpado e a habilidade de desconfiar de todo mundo. Miguel sugeriu a antiga casa do faroleiro, desativada, onde havia energia por gerador e um quarto escuro usado por fotógrafos locais. Lara perguntou se ele tinha levado muitas mulheres para esse cenário conveniente. Ele respondeu que só turistas com câmera cara e uma irmã desaparecida que talvez merecesse justiça.
A casa do faroleiro ficava no alto, depois de uma trilha coberta por capim salgado. Subiram quase no escuro. Lara escorregou duas vezes, e Miguel a segurou sem aproveitar o contato. Isso, irritantemente, ajudou. No alto, a luz da vila piscava distante. Enquanto o filme secava no banheiro adaptado, Lara abriu o envelope de Marina pela segunda vez e encontrou uma página colada ao plástico. Era uma foto pequena de Paulo discutindo com o pai dela na beira da estrada, três dias antes da tempestade. No verso, Marina escrevera que confiaria o pacote a alguém chamado C. A inicial podia ser Celeste. Podia ser Caio, pai de Lara. Podia ser Clara, a própria mãe, sempre excluída das versões por parecer frágil demais. A revelação terminou quando alguém bateu na porta da casa do faroleiro e uma voz de mulher chamou Miguel pelo nome.