A Casa do Faroleiro
A mulher na porta era Clara Fontes, mãe de Lara, usando capa de chuva, botas sujas e a expressão mais lúcida que a filha vira em anos. Lara ficou parada com a fotografia de Paulo na mão, incapaz de encaixar aquela presença na imagem da mãe recolhida, medicada, mantida longe de qualquer decisão familiar. Clara entrou sem esperar convite. Disse que demoraram demais na gruta e que Paulo já mandara gente vigiar a estrada. Miguel fechou a porta e não pareceu surpreso o bastante. Lara percebeu. A mãe olhou para ele e disse que tinha avisado para contar tudo caso a filha voltasse. Lara riu uma vez, sem humor. Perguntou quantas pessoas estavam administrando sua vida em reuniões secretas de vila.
Clara contou que Marina descobriu a fraude e procurou o pai primeiro. Caio Fontes assinara laudos falsos da obra, pressionado por dívidas e por Paulo, mas tentou recuar quando percebeu que a estrada malfeita poderia matar gente. Na noite da tempestade, Marina levou as provas para a gruta, onde encontraria Clara. Paulo chegou antes, acompanhado de Celeste. Houve briga na trilha. Marina correu para a beira da falésia, caiu ou foi empurrada, Clara nunca soube. Quando chegou, encontrou apenas a mochila escondida por Miguel, o pai de Lara em choque e Paulo mandando todos escolherem qual mentira sobreviveria. Clara aceitou silêncio para proteger Lara de uma acusação fabricada contra o pai. O preço foi virar viúva de marido vivo e mãe de filha que a julgava fraca.
Lara ouviu sem interromper, o que exigiu quase toda a força que tinha. Miguel ficou perto da janela, vigiando a trilha. O filme da câmera terminou de secar, e as fotos reveladas mostraram a sequência que faltava. Paulo segurando Marina pelo braço. Celeste ao fundo. Caio tentando intervir. Clara chegando pela estrada. A última imagem era tremida, tirada talvez no momento em que Marina correu. Nela, Paulo estava com a mão aberta nas costas dela. A imagem talvez fosse insuficiente para condenação imediata, porém destruía a versão do acidente solitário. Clara tirou do bolso um pen drive. Disse que guardava a cópia de áudios do pai confessando os laudos falsos e o encobrimento. Nunca entregou porque Paulo ameaçou interná-la por instabilidade e tomar a pousada.
Paulo chegou antes da polícia da capital, que Clara dizia ter acionado por uma promotora fora da vila. Veio com Celeste e dois homens. Cercaram a casa do faroleiro enquanto a chuva começava de novo. Paulo pediu conversa. Lara abriu a janela apenas o bastante para ouvi-lo. Ele disse que Marina era instável, que todos sofreram, que mexer naquilo destruiria a memória do pai dela. Lara respondeu que memória construída por criminoso não merecia reforma, merecia demolição. Miguel colocou as fotos e o áudio numa nuvem pelo sinal fraco do gerador conectado a uma antena velha. Celeste percebeu tarde. Mandou arrombar a porta. Clara pegou uma espingarda antiga na parede, descarregada, e apontou com tanta convicção que os homens pararam.
As sirenes chegaram pela estrada de cima, não pela vila. Paulo tentou correr para a trilha da falésia. Lara foi atrás antes que qualquer pessoa prudente segurasse. Miguel a alcançou perto das pedras molhadas. Paulo escorregou, levantou e puxou Lara pelo braço, repetindo a mesma brutalidade registrada na foto de Marina. Miguel chegou por trás e o derrubou. Lara caiu de joelhos, a poucos metros da beirada. Abaixo, o mar batia forte, indiferente a versões. Paulo gritava que Marina caiu sozinha. Clara apareceu na trilha, ofegante, e disse que mentira repetida por dez anos ainda era mentira. A promotora ouviu. Os policiais também. Lara ficou olhando para o ponto onde a irmã desaparecera e, pela primeira vez, sentiu que a falésia devolvia algo além de vento.