Depois da Tempestade A Garota da Falésia Azul · Capítulo 4 de 4
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Depois da Tempestade

Pedra Clara tentou se dividir entre espanto e memória conveniente. De repente, todo mundo sempre desconfiara de Paulo, todo mundo sempre achara Celeste rígida demais, todo mundo sempre vira Marina como moça inteligente, não como garota impulsiva da versão oficial. Lara deixou a vila falar. Tinha aprendido com o mar que barulho não significava movimento útil. Paulo foi preso preventivamente, Celeste depôs durante seis horas, e a prefeitura descobriu, com atraso teatral, documentos que antes não sabia procurar. A pousada dos Fontes reabriu para abrigar jornalistas, promotores e parentes que chegavam com flores atrasadas. Clara circulava entre todos com café, documentos e uma dignidade que não pedia mais licença para existir.

Miguel prestou novo depoimento. Dessa vez, falou tudo, inclusive a própria covardia. Lara ficou do lado de fora da sala, sem decidir se aquilo era suficiente. Depois ele saiu, cansado, e disse que entendia se ela nunca mais quisesse vê-lo. Ela respondeu que frases dramáticas deveriam ser proibidas em delegacia litorânea. Ele quase sorriu. A verdade era mais difícil. Ele mentiu, calou, ficou. Também protegeu a gruta, guardou pedaços, esperou. Lara não sabia que nome dar a essa mistura. Talvez nenhum nome ainda. Caminharam até o cais sem tocar um no outro, e isso foi melhor que reconciliação apressada.

O corpo de Marina nunca apareceu. A mochila, as fotos e os áudios permitiram reabrir o caso e mudar o registro. Acidente virou homicídio investigado. Para a lei, ainda faltariam etapas, recursos, perícias, audiências. Para Lara, a mudança começou quando Clara levou a fita azul até a Falésia Azul e amarrou numa pedra perto da trilha. As duas ficaram ali por quase uma hora. Nenhuma chorou bonito. Choraram com raiva, fungando, brigando com vento e cabelo no rosto. Clara pediu perdão por ter deixado Lara crescer sozinha dentro da mentira. Lara disse que perdão precisaria de manutenção, igual pousada velha. A mãe aceitou. Aquilo já superava qualquer conversa que a família conseguira ter em dez anos.

Miguel reformou o barco durante as semanas seguintes e ajudou Clara com turistas curiosos que confundiam tragédia com passeio. Lara ficou para resolver a pousada e descobriu que ficar não doía tanto quanto esperava. Às vezes encontrava Miguel no cais antes do amanhecer, preparando motor, separando coletes, fingindo surpresa ao vê-la com café. Conversavam sobre coisas pequenas, peixe caro, telhado, a promotora, o humor seco de Clara. Um dia ele perguntou se poderia mostrar a ela uma praia sem história ruim. Lara disse que aceitava, desde que ele entendesse que praia nenhuma começaria inocente só por falta de processo. Ele respondeu que podia trabalhar com expectativas realistas.

Foram depois da primeira audiência. A praia ficava além da falésia, num trecho de areia clara que Marina fotografara muitas vezes. Miguel ancorou longe das pedras e deixou Lara descer primeiro. O mar estava baixo, quase manso. Ela caminhou até a beira e guardou no bolso uma concha pequena. Miguel ficou a alguns passos, esperando. Lara virou e perguntou se ele pretendia passar a vida inteira aguardando autorização. Ele respondeu que, com ela, parecia política sensata. Ela riu, e o riso abriu uma fresta onde antes havia apenas caso, morte e culpa. O beijo veio devagar, sem apagar nada, sem prometer cura rápida. Atrás deles, a Falésia Azul seguia alta. Pela primeira vez, Lara conseguiu olhar para cima sem sentir que o mundo empurrava de volta.

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