O Baú Vermelho
Vicente tentou impedir a ida ao baú com argumentos ruins, depois com silêncio, depois com um pedido simples. Disse que não queria ver a avó transformada em monstro por gravações velhas. Mara respondeu que monstro raramente precisava de arquivista para existir, apenas de família protegendo legenda errada. O baú ficava no quarto de Ismênia, aos pés de uma cama estreita, coberto por uma manta de crochê e protegido por três cadeados diferentes. Vicente tinha duas chaves. A terceira estava escondida dentro de uma caixa de pó compacto sobre a penteadeira. Mara encontrou em menos de um minuto. Ele perguntou se ela sempre invadia mortos com tanta eficiência. Ela disse que mortos organizados facilitavam.
Dentro do baú havia rolos de filme, cartas, um diário de capa preta e doze máscaras de teatro embrulhadas em jornal. O diário pertencia a Ismênia, escrito em frases curtas, sem sentimentalismo. Contava que o marido, Álvaro Salles, filmava ensaios privados, ameaças, brigas e cenas íntimas para controlar sua carreira. Guardava cópias em espelhos falsos, instalados pela casa durante uma reforma. Ismênia descobriu tarde. Quando tentou fugir, Álvaro espalhou boatos sobre loucura, vício e instabilidade. Mara leu em voz alta até Vicente sentar na beira da cama. O rosto dele perdeu a defesa. Disse que a família sempre falou que a avó destruía todo homem que chegava perto. Mara apontou para o diário. Disse que talvez alguns homens viessem prontos para queda.
O quarto respondeu com uma pancada no guarda-roupa. Um dos espelhos cobertos, alto e estreito, soltou dois alfinetes. Vicente pediu que Mara não abrisse. Dessa vez, ela hesitou. Não por obedecer, e sim porque o medo dele deixara de parecer superstição herdada. Ainda assim, o pano caiu. No vidro, Ismênia aparecia velha, já no mesmo quarto, usando camisola azul. Falava sozinha para o espelho. A imagem tinha som baixo, arranhado. Ela dizia que Álvaro morrera sem devolver todas as fitas, que o filho repetira o silêncio e que o neto herdaria a casa junto com a mentira. Depois se aproximava do vidro e batia três vezes. A versão refletida não batia junto. Batia depois, atrasada, olhando para um ponto atrás de Mara.
Mara virou. Não havia ninguém. Vicente estava pálido, perto da porta. O espelho mostrou, porém, uma mulher atrás dela, vestida com figurino de noiva, rosto coberto por véu. Ismênia usara aquele traje em sua novela mais famosa. A noiva do reflexo ergueu a mão e apontou para a parede da cabeceira. Mara encontrou ali uma fenda fina no papel de parede. Atrás, havia um compartimento com uma fita etiquetada A Última Cena. Vicente fechou os olhos. Disse que a avó morreu no dia em que a família tentou interná-la, depois de uma reunião naquele quarto. A fita talvez mostrasse isso. Mara colocou a fita na câmera antiga encontrada no baú. O aparelho ligou sozinho, e a tela exibiu a data de vinte anos antes.