A Última Cena
A gravação começava no quarto, com Ismênia sentada na cama e três familiares diante dela. O filho, a nora e um advogado. Vicente aparecia menino no canto, talvez oito anos, segurando um carrinho. Mara olhou para ele. Vicente não lembrava daquela noite, ou dizia não lembrar. Na fita, o advogado falava em interdição, proteção patrimonial, risco à própria imagem. Ismênia ria, pequena, sem alegria. Depois abria uma pasta e colocava sobre a cama fotografias de Álvaro, documentos de chantagem e cartas de atrizes que ele também havia filmado. O filho chamava aquilo de sujeira antiga. A nora dizia que imprensa destruiria todos. Ismênia respondia que todos já estavam destruídos, apenas bem vestidos.
A parte final tremia. Alguém tentava tomar a câmera. O menino Vicente chorava. Ismênia caminhava até o espelho maior, aquele da sala, levando uma das fitas. Dizia que, se a família preferia reflexo limpo, ela deixaria a verdade onde ninguém conseguiria olhar sem se ver junto. O filho segurava seu braço. Ela caía. A fita não mostrava empurrão claro. Mostrava pressa em não chamar médico, pressa em recolher papéis, pressa em cobrir espelhos. Mara pausou a imagem no rosto do menino. Vicente estava olhando para o pai, não para a avó. O corpo adulto dele parecia ter guardado aquela direção por duas décadas.
Vicente saiu do quarto. Mara o encontrou na cozinha, lavando as mãos sem necessidade. Ele disse que vendeu a casa porque queria terminar com aquilo, não por dinheiro. Mara respondeu que vender sem abrir os espelhos apenas transferia a assombração com escritura. Ele riu uma vez, muito baixo. Disse que ela falava como quem nunca precisou herdar vergonha alheia. Mara contou que catalogava acervos desde os vinte e três porque a mãe vendera cada objeto da avó sem perguntar o que era lembrança e o que era prova. Aprendera que coisa guardada tinha consequência, e coisa vendida também. Vicente a olhou de um jeito novo, menos cliente, mais homem cansado diante de alguém que enxergava o dano sem pedir espetáculo.
A casa começou a bater todos os espelhos ao mesmo tempo. Panos caíam nos corredores, revelando cenas de Ismênia em idades diferentes, cada reflexo atrasado alguns segundos, cada versão apontando para a sala principal. Mara e Vicente correram. No espelho maior, a atriz velha esperava de pé. A imagem tinha a nitidez de pessoa viva. Pediu, sem voz, que abrissem a parede atrás do vidro. Vicente pegou uma ferramenta. Quebrou a moldura com raiva e cuidado, combinação difícil. Atrás do espelho havia um vão cheio de fitas, fotografias e contratos assinados por Álvaro. Também havia uma carta para Vicente. Ele abriu com mãos trêmulas. Ismênia escrevera que ele era criança, não cúmplice, e que a casa não precisava de venda. Precisava de testemunha.