Espelhos Descobertos
Mara suspendeu o leilão antes do amanhecer. Enviou cópias digitais das fitas para três lugares, ligou para uma jornalista de cultura que devia favores e avisou ao advogado da família que qualquer tentativa de retirar material da casa seria tratada como destruição de acervo e obstrução. Vicente ouviu tudo sem interferir. Depois assinou autorização para transformar o inventário em arquivo público, com restrições para vítimas ainda vivas. O ato parecia simples no papel e devastador na sala. Cada assinatura retirava um tijolo da versão familiar. A casa, estranhamente, ficava mais clara. Não feliz. Clara.
Ao meio-dia, os parentes chegaram furiosos. O pai de Vicente, velho, elegante e frágil apenas na aparência, chamou Ismênia de mulher teatral até o fim. Vicente respondeu que talvez teatro fosse o único idioma disponível quando ninguém aceitava depoimento. Mara ficou ao lado dele, não como escudo, e sim como profissional com documentos suficientes para estragar uma dinastia. A jornalista chegou logo depois. Uma das atrizes mencionadas nas cartas ainda vivia e confirmou parte da história por telefone. O pai de Vicente sentou, enfim, diante do espelho maior descoberto. O reflexo dele demorou alguns segundos para acompanhá-lo. Quando acompanhou, chorava. O homem real não.
A casa virou arquivo três meses depois. Os espelhos permaneceram descobertos, restaurados e catalogados, cada um com texto explicativo, contexto e aviso de conteúdo. Algumas pessoas diziam ver Ismênia passando pelos corredores no fim da tarde. Mara nunca viu. Talvez porque a atriz já tivesse dito a ela o necessário. Vicente manteve a casa, vendeu outros imóveis, rompeu com parte da família e aprendeu a falar da avó sem escolher entre santa e louca. Mara continuou responsável pelo acervo, indo duas vezes por semana. No começo, dizia que era trabalho. Depois parou de desperdiçar mentira pequena.
O romance entre eles começou sem cena bonita. Uma tarde, depois de catalogarem a última fita, Vicente preparou café ruim e pediu desculpa por todas as vezes em que tentou impedi-la de abrir portas. Mara disse que desculpa aceita não virava senha permanente. Ele respondeu que sabia. Ela beijou primeiro, porque estava cansada de esperar homens traumáticos concluírem raciocínio. O beijo teve gosto de café queimado e casa antiga. Nenhum espelho atrasou o reflexo. No vidro da sala, os dois apareceram no mesmo instante, imperfeitos, vivos e sem pano cobrindo. Mara considerou um bom laudo final.