O Posto da Curva
Laura chegou ao posto de saúde da Estrada Velha no fim de uma chuva comprida, com a mala no banco de trás, o jaleco ainda dobrado e o nome da irmã preso na boca desde a saída da cidade. O prédio ficava numa curva cercada por mato alto, caminhões parados e uma placa torta que prometia atendimento vinte e quatro horas, promessa que dependia de duas técnicas cansadas, um médico que dormia na sala de arquivo e dela, recém-transferida por escolha própria. Tinha voltado para aquela região porque Elisa morrera ali perto, oficialmente por acidente, embora a família tivesse recebido o laudo com páginas faltando e uma assinatura que mudava de inclinação a cada folha.
Na primeira noite, um motociclista apareceu sangrando no corredor, sem capacete, com cortes nas mãos e uma calma que irritou Laura antes mesmo de ela tocar nele. Chamava-se Caio Dantas, segundo o documento encharcado no bolso da jaqueta. Disse que caiu depois de fugir de uma caminhonete preta. Quando Laura perguntou por que alguém o perseguiria, ele respondeu que havia voltado para entregar uma coisa a Elisa, só soube da morte ao chegar e escolheu procurar a irmã dela. Laura apertou a gaze no ferimento com força suficiente para arrancar dele um riso curto. Se conhecia Elisa, deveria ter aparecido antes do enterro.
Caio pediu água e avisou que o posto tinha escuta. Laura achou a frase absurda até notar o técnico de manutenção no corredor, parado com uma caixa de ferramentas vazia, olhando para a porta da sala de sutura. O homem saiu sem falar. Laura terminou os pontos, guardou o prontuário sob outro nome e levou Caio para o alojamento dos fundos, contrariando o regulamento e a prudência que ensinava aos internos. Antes de apagar a luz, ele colocou na mesa uma chave pequena, presa a uma etiqueta de metal com o número dezenove. Laura reconheceu a letra de Elisa na etiqueta. O pulso dela falhou por um segundo, e a raiva deu lugar a uma atenção limpa, perigosa, impossível de adiar.