Depois da Sirene A Enfermeira da Estrada Velha · Capítulo 4 de 4
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Depois da Sirene

A gravação chegou à promotoria antes do meio-dia, levada por Laura, Caio e uma das técnicas do posto, que decidiu falar depois de reconhecer o deputado no áudio. Ramos foi preso na saída de uma clínica particular, com passagens compradas e dinheiro escondido no estepe do carro. A empresa de segurança negou tudo até a polícia encontrar caixas de medicamentos em um galpão alugado no nome de um sobrinho. A morte de Elisa deixou de ser acidente no sistema, troca burocrática pequena para quem via de fora, imensa para Laura, que passou anos ouvindo explicações vazias em mesas de delegacia.

Caio ficou internado dois dias por causa da febre e dos pontos abertos. Laura o visitou fora do horário, levando café ruim da máquina e uma ordem explícita para ele parar de agir feito herói ferido em novela barata. Ele riu baixo, pegou a mão dela e pediu desculpa por ter chegado tarde. Laura quis responder com dureza, porém a frase morreu antes de ferir. Disse apenas que tarde ainda era diferente de nunca. O beijo aconteceu sem pressa, com o cuidado de quem conhecia hematomas demais para fingir leveza. Nenhum deles prometeu cura. Prometeram presença, que naquele momento parecia contrato suficiente.

Um mês depois, Laura assumiu a coordenação do posto da curva. A placa foi trocada, as câmeras antigas retiradas e o armário dezenove ficou vazio, aberto, à vista de todos. Na parede da recepção, ela colocou uma foto de Elisa sorrindo com o crachá torto, sem legenda solene, porque a irmã detestava homenagem comprida. Caio passou a aparecer nas tardes de sexta, trazendo pão, notícias do processo e uma paciência que Laura testava sem admitir. A Estrada Velha continuava perigosa, cheia de buracos, boatos e caminhões apressados. Ainda assim, pela primeira vez desde a morte de Elisa, Laura conseguia fechar o plantão sem olhar para trás a cada ruído.

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