Plantão Fechado
Ramos cortou a energia do posto às duas da manhã. A luz de emergência tingiu o corredor de vermelho, e a chuva voltou batendo nas telhas com força de pedrada. Laura trancou a farmácia, colocou o gravador no bolso interno do casaco e mandou as técnicas ficarem na sala de observação com os dois pacientes internados. Caio conhecia a planta do prédio porque havia levado encomendas ali por meses. Conduziu Laura pelo corredor lateral até a sala de arquivo, onde as fichas de Elisa haviam desaparecido desde a semana da morte. No lugar delas, havia caixas vazias e cheiro recente de papel queimado.
A caminhonete preta parou nos fundos sem farol. Dois homens entraram pela lavanderia, e Ramos veio pela recepção, falando no celular com alguém que chamava de deputado. Laura gravou a conversa enquanto Caio segurava a porta por dentro, o braço machucado tremendo de esforço. O médico confessou o desvio, a pressão sobre Elisa e a montagem do acidente, irritado com a necessidade de explicar aquilo a subordinados que, segundo ele, deveriam agradecer por manterem seus empregos. Laura sentiu vontade de abrir a porta e atacá-lo ali mesmo, porém manteve o gravador perto da boca, porque a voz dele valia mais viva que a coragem dela.
Quando a porta cedeu, Caio puxou Laura para a saída de serviço e a empurrou para dentro da ambulância velha. Ele ligou o motor com uma ligação direta que pareceu conhecida demais, e ela não perguntou nada até alcançarem a estrada. A caminhonete veio atrás, colada, jogando luz branca dentro da cabine. Laura segurou o painel, Caio dirigiu com uma mão só e o gravador caiu no colo dela, ainda ligado. Na curva onde Elisa morrera, Laura viu marcas antigas no guard rail, cobertas por tinta recente. Caio freou antes do impacto planejado, deixou a caminhonete passar e bater contra o barranco. O silêncio depois da batida trouxe uma verdade simples. Elisa tinha sido caçada.