A Escada de Ferro A Ilha do Ultimo Farol · Capítulo 2 de 4
Obra Menu

A Escada de Ferro

Os homens na praia falavam baixo e carregavam caixas para dentro de uma gruta aberta pela maré. Tomás contou quatro, talvez cinco, todos com botas novas demais para pescadores. Clara queria correr para o farol, convencida de que o livro de serviço explicaria a presença deles. Tomás queria voltar ao barco, porém o segundo tiro furou o casco perto da linha de água e encerrou a discussão. Subiram por uma escada de ferro presa ao rochedo, antiga, úmida, rangendo em cada degrau. Clara ia na frente, rápida por desespero. Tomás seguia logo atrás, segurando a cintura dela quando o vento empurrava ambos contra o vazio.

A porta do farol estava aberta. Dentro havia cheiro de óleo velho, metal quente e comida recente. Alguém dormira ali na noite anterior. Clara encontrou a sala da lente destruída, com vidros espalhados pelo chão e nomes riscados na parede. O livro de serviço estava escondido dentro da base da escada, protegido por uma placa solta que só abriria com a chave de bronze. As últimas páginas não traziam registro de acidente. Traziam coordenadas, horários de barcos sem bandeira e a assinatura do pai de Clara ao lado de uma frase curta. Se eu desaparecer, vendi caro a minha recusa.

Tomás leu as coordenadas e reconheceu uma rota usada para contrabando de ouro retirado de garimpo ilegal. O farol servira de sinal noturno para embarcações clandestinas, até o pai de Clara tentar denunciar o esquema. Antes que pudessem guardar o livro, ouviram passos subindo. Tomás apagou a lanterna e levou Clara para a sala inferior. Ela tremia, irritada por tremer. Ele segurou suas mãos para impedir que a chave batesse contra o peito dela. O silêncio entre os dois ficou íntimo demais para aquele perigo. Clara aproximou o rosto do dele, parou a um sopro, e escolheu guardar o beijo para depois, caso ainda houvesse depois.

1/1
Menu

Fazer anotação