Luz de Volta A Ilha do Ultimo Farol · Capítulo 4 de 4
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Luz de Volta

A tempestade encontrou o barco no fim da tarde. Sem rádio confiável e com o motor falhando, Tomás guiou pela cor da água, pela memória das correntes e por uma teimosia que Clara teria chamado de arrogância se não estivesse ocupada mantendo a bomba manual funcionando. A fita do pai dela ficou dentro de uma panela seca, junto com o livro e os documentos. Quando o combustível terminou, os dois passaram uma hora à deriva, presos a uma calma cruel depois de tanto barulho. Clara deitou a cabeça no ombro de Tomás e enfim contou que passara metade da vida odiando o pai por ter sumido. Agora precisava aprender outro ódio, voltado aos vivos certos.

Foram encontrados por pescadores às três da manhã. No porto, Menezes tentou controlar a história antes que eles pisassem no cais, porém Clara entregou a fita a uma repórter local que devia favores ao pai dela. A gravação trazia nomes, datas e a voz de Menezes ordenando que a explosão parecesse acidente. A prisão veio lenta, cheia de telefonema e advogado caro, ainda assim veio. A ilha deixou de ser área proibida por ordem de quem mentia e virou cena de investigação. Os restos do pai de Clara foram achados perto da antiga casa dos vigias, enrolados numa lona azul, com a chave gêmea da dela no bolso.

Meses depois, Clara voltou à ilha com Tomás, desta vez em barco revisado, autorização oficial e flores simples. O farol ainda estava torto, porém a lente nova brilhava no alto, instalada por gente da cidade que queria tirar a ferrugem da própria culpa. Clara deixou as flores na casa dos vigias e ficou em silêncio. Tomás esperou perto da porta, respeitando aquele minuto que não lhe pertencia. Quando ela voltou, beijou-o sem cerimônia, com gosto de sal e despedida antiga. Depois pediu que ele a levasse para casa pelo caminho mais comprido. Tomás riu, ligou o motor e obedeceu, porque certas voltas valem justamente por demorarem.

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