A Gruta da Maré Cheia
Eles escaparam pela janela lateral usando cabos antigos de manutenção e desceram até a gruta antes que os homens terminassem a busca no farol. A maré subia rápido, empurrando espuma para dentro da pedra aberta. As caixas guardavam barras de ouro, munição e documentos molhados em sacos transparentes. Clara encontrou um envelope com o nome do pai. Dentro havia fotografias de homens importantes no porto, recibos de combustível e uma fita pequena, dessas usadas em gravador antigo. Tomás pegou a fita e soube que nenhum jornal receberia aquilo se eles morressem na ilha. Precisavam sair com prova, motor funcionando e casco remendado.
O chefe do grupo chegou antes deles alcançarem a praia. Era Menezes, dono de metade dos barcos de São Bento e padrinho de batismo de Tomás. O homem sorriu com decepção familiar, perguntando quanto custava o silêncio. Tomás respondeu que silêncio dele sempre fora caro e naquele dia estava fora de venda. Clara ergueu o livro de serviço, exigindo saber onde o pai fora enterrado. Menezes disse que o mar resolvia serviço de gente teimosa. A frase quebrou algo nela. Clara avançou, Tomás segurou seu braço, e o gesto impediu que ela levasse o tiro que atingiu a pedra atrás de sua cabeça.
A fuga começou sem plano bonito. Tomás derrubou uma caixa de munição na água, Clara lançou a lanterna acesa sobre uma lona suja de óleo e a gruta virou gritaria. A fumaça cobriu a entrada por minutos suficientes. Correram até o barco, taparam o furo com resina de emergência e pedaço de banco arrancado, depois empurraram a embarcação enquanto balas batiam na areia. O motor pegou na terceira tentativa. Clara ficou ajoelhada no convés, segurando o livro contra o corpo, rosto molhado de água salgada e raiva. Tomás virou o barco para mar aberto, mesmo sabendo que o combustível talvez não bastasse para voltar.