A Festa Repetida
Helena decidiu recriar a noite do desaparecimento usando os registros do hotel, fotos antigas e a lista de convidados. Nuno achou a ideia imprudente, o que para ela soou quase confirmação de que funcionaria. Convocaram funcionários antigos para uma falsa gravação promocional sobre a história do Miramar. Valdir apareceu nervoso, Leda trouxe uniforme impecável e Murilo voltou dizendo que precisava receber acerto. A cada pergunta, alguém corrigia detalhe pequeno demais para ter sido esquecido. A música da festa começara antes da meia-noite. Teresa descera pela escada de serviço. O marido dela, Álvaro, não estava no salão quando os fogos começaram.
Durante a encenação, Helena encontrou no bar uma gaveta com fundo solto. Dentro havia recibos de táxi, fotografias queimadas pela metade e uma pulseira de ouro com as iniciais de Teresa. Nuno reconheceu a pulseira imediatamente. Disse que ela estava na bolsa guardada por ele, a mesma bolsa que sumira. Valdir tentou tomar a peça da mão de Helena, alegando patrimônio do hotel. Nuno o segurou pelo colarinho, e o porteiro quebrou. Contou que Álvaro pagara para todos repetirem a versão do sumiço voluntário. Teresa pretendia fugir levando documentos de desvio da empresa do marido. Álvaro chegou bêbado, houve briga, houve sangue na suíte.
A carta final veio com Leda. A governanta chorava sem ruído, segurando um envelope guardado por dez anos dentro de uma lata de biscoitos. Teresa sobrevivera à briga por algumas horas. Leda ajudou Nuno a escondê-la no quarto de serviço porque temia Álvaro, que controlava polícia, imprensa e dinheiro. Quando voltou com remédio, encontrou a mulher morta e o corpo sumido. Valdir levara Teresa para a antiga câmara fria desativada, onde Álvaro mandara concretar uma parede no mês seguinte. Helena ouviu tudo com o estômago fechado. Nuno, ao lado dela, parecia finalmente entender por que lembrava apenas de sangue, vidro e uma mão escapando da sua.