Maré Baixa O Hotel das Cartas Anonimas · Capítulo 4 de 4
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Maré Baixa

A polícia abriu a parede da câmara fria ao amanhecer, diante de Helena, Nuno, Leda e meia cidade reunida atrás da fita de isolamento. Encontraram restos humanos, a fivela de um sapato e a bolsa pequena de Teresa, protegida pelo frio antigo e pelo cimento mal feito. Dentro dela havia documentos, recibos e uma carta assinada pela própria hóspede, explicando que o marido usava empresas falsas para roubar sócios. Álvaro tentou fugir antes do meio-dia, porém foi preso no aeroporto com passaporte novo e calma de quem pagara por silêncio a vida inteira. Valdir negociou depoimento. Leda aceitou culpa menor e entregou nomes.

Nuno passou dias sem conseguir entrar no hotel. Ficava na praia, sentado perto dos barcos, encarando o prédio com raiva atrasada. Helena o encontrou ali depois de resolver fornecedores, hóspedes curiosos e jornalistas que fingiam respeito. Ele disse que comprara o Miramar para vencer uma acusação e acabou dono de um túmulo. Helena respondeu que túmulos também podiam receber nome certo, cerimônia e fim de mentira. Nuno riu pela primeira vez desde a abertura da parede, um riso baixo, quebrado. Quando ela se sentou ao lado dele, os ombros se tocaram. O beijo veio sem teatro, com gosto de café frio, sal e cansaço.

O hotel reabriu três meses depois com outro nome. A suíte trinta e dois virou sala de leitura, clara, sem luxo falso, com fotografias da história local e uma placa pequena para Teresa Valim, escrita a pedido da irmã dela. Helena ficou como gerente e sócia minoritária, depois de obrigar Nuno a colocar tudo em contrato revisado por advogado externo. Leda mandava flores toda segunda. Valdir respondia processo. Álvaro aguardava julgamento. Nas noites de vento, Helena ainda ouvia o prédio estalar, porém agora reconhecia madeira, janela e mar, não segredo. Nuno costumava fechar a recepção com ela. Antes de apagar as luzes, deixavam a porta da antiga suíte aberta.

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