Primavera, Espasmo e Guilherme Há uma Gota de Sangue em Cada Poema · Capítulo 4 de 6
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Primavera, Espasmo e Guilherme

Primavera

Fora desmantelado, quando, golfando pêla íauce aberta 0 atestado dos órfãos e das viuvas, um grande obiis lhe rebentara ao lado.. No modesto recanto do jardim da aldeia miserável e deserta, na sua herança má de mudo e eterno, extático e sem fim, viu, no outono, morrer o Sol das chuvas, entrajou-se de neve em pleno inverno; e agora, á sussurrante primavera mostra no beiço o riso do jasm im ...

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Converteu-se. Sorriu á natureza; perdoou a rabujice ao vento s u l; e, no êxtase imortal — Santa Tereza da primavera — êle ollia esperançosamente, essa visão seráfica e esplendente, a claridade mágica do azul. . . Na culatra soaberta, onde altos estampidos gerara a bala estrepitosa e fera, fizeram ninho as andorinhas... Culatra! — geradora de gemidos, geradora de implumes avezin h as!... Cobre-lhe uma roseira o desnudo cinismo. Tem a bençãm do luar, nas noites perfumosas. Vem ungil-o ás manhãs o Sol de Abril. t: 0 canhão convertido, odorante e gentil, na imota unção de seu catolicismo, ouve 0 «Te Deiim» das abelhas sobre as rosas.

Espasmo

Êle morre. E tam só! Move-se e chama. Quer chamar: sai-lhe a voz quasi sumida; e pêlo esforço, sôbre o chão de a:am a jorra mais sangue da fe rid a ... Vai m o rrer... Angustiado, a noití inteira, — noite encantada dum estio morno — viu 0 tempo seguir entre as horas caladas; nem percebeu a Lua cálida e trigueira, com mil clarões afuzilando em torno-, e 0 broche colossal das estréias douradas!

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Olha agora. A alvorada começa de brilhar nos longes glabros. Perto, galhos de arbustos sonolentos, onde a luz se dissolve na orvalhada, são corno verdes candelabros, coníortando-lhe os iilthiios m om entos... Estira os b ra ço s... Os odores, em revoada puríssima e louçã, sobem, cantantes, multicores, cheios da força nova da manhã, Èle pudera ouvir, caindo, quando o estilhaço lhe rasgara o abdomeni, as joviais ovações dos seus soldados, e, na fugida, os inimigos dizimados, e os seus, em fúria, os perseguindo... — E não restara um homem.

Depois, reviu os seus, a procural-o, — altos lamentos pêla noite c la r a ... Por pouco 0 não pisara a pata duin cavalo!

Quis gritar, mas não poude. E, único gesto que abriu, foi um desfiar de lágrimas, silente; e, olhos febris, rosto congesto, viu seus liLilanos

partirem tristes, tristem ente... V í-'-

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E os passarinlios rieni desum anos... Sobem aos ares os primeiros hinos, num triunfal e transbordante surto; e em cima dêle, com seus pios cristalinos, libra uma cotovia o vôo cu rto ... \'ai expirar. Já, numa ardéncla louca, sente a sêde da febre que o acabrunlia.. . Vai e x p irar... Mas só o estio o testemunha, e a abelha matinal que lhe zumbe na boca.-

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E üretchen? a rosada companheira de dez meses apenas! e o filhinho que está para nascer por êsses dias?. — Tantas quenturas de lareira! tanto aconchê^'o de seu ninho! tanto amor! tantas a le g ria s!... Principiavam ao longe os roncos e os estouros Vincou desoladoramente a fronte. Aáorreu sozinho. Mas o Sol, lá do liorisonie. pôs 0 espasmo da Juz hos seus cabelos louros.

Quilherm

Ser feliz é ser grande. Imenso de alma, inda que o corpo se lhe d o b re ... E alcançar a região etéria e calma, onde a alma viva enfim, nua e desimpedida, Indiferentemente ou sendo rico, ou sendo pobre, ser feliz é encontrar no fim da vida, de torna-viagem para a povoação, a inflexível consciência, e encaral-a de frente e ajoelhar para a coroação.

Ser grande é ser bom. Justo na maneira de agir e no discernim ento... Não é apenas plagiar Alexandre ou Augusto, sem t]ue de glória e lionras se tarte: antes é mitigar o liumano sofrimento, e ter o bem como estandarte. Ser grande é compartir o choro largo do mundo; agindo de tal forma, a deixar para o fraco uma lei e uma norma, e um beijo doce em cada lábio a m a rg o ... E’ pêla força real das sábias energias, apagar o sarcasmo e as iro n ia s... E’, pêlo amôr cpie aleita e orvalha, e pêlo gênio cálido e eficaz por sôbre a inveja uma eternal mortalha, e erguer, sôbre a mortalha, a figura da paz.

E, não pensando em si, dar a felicidade, — conhecendo que a glória apenas dura 0 quartü-de-hora desta vida, no minuto sem fim da eternidade — desdenhar para si toda ventura; desatulhar a estrada interrompida; e, sem baquear na faina um só instante, para que o povo passe adeante terraplenar os Pireneus e o Jura: é ter a luz e compreender a luz, é ser bom íinalmente, é ser Je s u s !...

— Mas 0 pior dos lioineris dêste iniindo, O menor, o mais triste, o mais mesquinlio. deve de ser o Iiomem que andando seii caminlio, é infecundo no espírito, e fecundo só nos desvairos e erros que pratica; deve de ser o liomem que andando seu caminlio, faz desgraçado quem se llie aproxima; e á própria caravana, inumerável, rica, faz tomal-o por DeuS; e a enlouquece e d izim a... Infeliz! Pensa* em luz, e engendra escuridades; quer replantar o bem, o mal deita ra iz e s !... — Certo; é a maior das infelicidades fazer dos outros Iiomens infelizes.

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