Devastação, Natal e Lovaina Há uma Gota de Sangue em Cada Poema · Capítulo 5 de 6
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Devastação, Natal e Lovaina

Devastação

Já foi aqui a civilização, Brilhou a luz. Cantou a fé. Riu o trabalho. — Mas no rebanho ha-de haver sempre algum tresmallK tresmalhou a afeição; e veiu a derrocada. Seguindo os largos rios nos seus cursos, nas faldas da cadeia abruta e torturada, junto ao primeiro roble secular, muito antes, tinham vindo os homens se agrupar, na defeza comum contra as renas e os ursos. — E a esperança brilhou, como sempre, a primeira, m 3\ m

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Conseguiram veneer. O último urso brama, e rebenta-llie o crâneo o machado de p e d ra ... Já pascem, junto ao lar, domesticadas renas; o homem pensa em plantar, e o terreno se redra, Enfim, na encantação de amplas tardes serenas, — canta no alqueive o rouxinol, a terra cheira ao convívio do bem-estar, o homem poude mirar a companheira e coloca-la num an d o r... E quando, pêlas manhãs claras, avoaçou a calhandra sôbre as searas, houve searas também, plantadas pêlo amor. — E 0 amor brilhou em cada lar.

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Pêlo trabalho, pêlo engoiho o homem procura fortificar então sua ventura. E ’ só lançar a mão: e mais, e mais, grassa na concha dos convales calmos a poesia alourada dos trig a is ... . . . E só lançar a voz: e sôbre o monte, e sôbre o vale, e no horisonte, e em toda parte lhe respondem outras v o z e s ... Sobem os fumos pêlo céu — que ao fogo já se derretem os metais — já se não temem animais ferozes; tudo é p ro g re sso !... Então, reunidos no sopé da cadeia, a cantar, como em glórias e salmos, soltam aos ares o primeiro r ô g o ...

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— E rebrilhou a fé.

Grea-se o livro. Os lioniens pensam. Pensam e agitam-se ern tumulto. Por sobre, os seus trabalhos paira a bençani: e todos os trabalhos tomam vulto; O saber suspicaz penetra o alto segrêdo da vida. E’ tudo um labutar de sciência O homem afoita-se, descobre, perde o medo

— E brilha, altiva e íorte, a inteligência.

E êle atinge atinai o cume do Jungfrau. Olha em redor e vê, na campina tamanha, uma herança que é sua e que se perde alem: e tem um pensamento mau. Êle atingiu o cume da montanha! Só êle é grande, mais ninguém! Cogita, e se entremeia em labirintos de sofismas agudos; e, infeliz! diz tudo 0 que não pensa ou que não sente, mas 0 que sente ou pensa nunca diz. Construi teorias, alevanta em plintos novo ideal, que lhe é Deus; e, indiferente encara o mundo e nada o m aravilh a...

— E 0 orgulho máximo e insensato, brilha.

Vem a rivalidade, a traiçào, a mentira, 0 exagêro da glória, a negação da ialta; Caim mata de novo Abel, - mas por mais alla que sobressaia a eterna voz, aos seus ouvidos não ha voz que tira! — Mesmo os Abeis tornaram-se Gains; e os homens todos, na avareza atroz. ganiram, defendendo os bens, como m astin s... A afeição tresmalhou, h no esterco fecundo de mil invejas e ambições, abrolha a flôr de purpura da g u e rra ... E o inundo todo, a tremer nos seus arcanos olha. Nêsse ponto do globo, onde o passado viu continuar, em surto resplendente, as civilizações do antigo oriente, nas águas batismais das energias novas, tudo é um imenso plaino devastado! O homem voltou ao seu estado primitivo; blasfema, odeia, trai, e sepulta-se vivo em trincheiras, sinistras como c o v a s ... Cruza os espaços, rebentando, atroa a cólera do obüs; e no arruido, no choque e na fumaça, a civilização perde a coroa, e treme, e foge, e tomba e se espedaça, desertando da grande l u z ! .. .

Deante de tanto mal e tanta ruina, de tanta inveja parda e estulta, deante dêsse ódio trio e crû, pálida, imóvel, trágica e divina, sôbre a devastação que cresce e avulta, surgiu a minha dôr, como um mármore nû. Surgiu, cresceu, e, imensamente branca, com 0 branco triste dos enfermos, na compunção atroz do seu sofrer, a minha dor sem lágrimas, nos ermos onde 0 ultimo eco dos canhões estanca, gelou 0 íntimo gesto e nada quis dizer. Apenas, a sorrir, num sorriso que punge, palida, imóvel, trágica e divina, olha sem ver para a d evastação ... A esperança talvez lhe santifica e unge 0 olhar, mas o sorriso, o sorriso que a mina. Irai 0 penoso íel duma desilusão.

A neve, sempre a mesma, cai, continua de cair: e o vento - Bruscas rajadas brancas — se desfralda, como túnica de avantesma, rasg^ando-se á desmantelada espalda do grande, velho m onum ento... hm Reims, os sinos não badalam mais!

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Fêlas ruas escurecidas andam caladamente os grupos uniformes.. Não tem mais galas o natal! apenas no trabalhar dos hospitais, tratam da cura de feridas de hediondas chagas e lesões enormes, alvas mulheres silenciosas e seren as... N atal... Mas não ha luzes nas cap elas!.. Nem pratas de lavrados castiçais onde luziluzam as v e la s !... N a ta l... Mas nãc» ha longas espirais de incenso, a se enroscar pêlos a lta re s!... No colo virgem de Maria, junto dos anjos tutelares, rindo, estendendo seus bracinhos mis, nem se lembraram quem se lembraria! nem se lembraram de repor J e s u s !... hm Reims, os sinos não badalam mais!

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Num silêncio de múmia, brancacenta, a noite c o rre ... Batem doze badaladas. Onde estão as canções desabaladas dos sinos g á rru io s?... — briorenta, a ^Tande catedral emudeceu; e para ela a alej^ria dos natais, toda a alegria dos natais m orreu !... — Em Reims, os sinos nào badalam mais

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Abriani-se inda no ar al^-uns obuses, como ilocos de paina ; e, ao barulhar bramante do barulho, tectos tombavam, e brotavam luzes, onde iôra L o v a in a ... m 4\ ^

• - ,\\íis no meio do ciitullm, nas avenidas e nas alamedas tresloLicadas, sem rumo, onde ladrava, sob o fumo, a cainçallia das labaredas; mas pêlas vastas praças atupidas de destroços lieris de monumentos; nas ruas de comércio, onde mil \ idas jaziam, envolvidas na mortalha dos desmoronamentos; mas nos palácios, nas mansardas, nos esqueletos das habitações, nas escolas estraçalhadas, nos átrios, nos terraços, nas escadas, no torvelini dos mortos e das tardas, na boca muda dos canhões, naquele hediondo incêndio triunfal: não calculei ao desastroso mal toda a incomensurável extensão! Não vi o exício duma ^rei humana, 0 destino infeliz duma raça espartana, 0 fim terrível duma g e ra çã o ! Si houve crime nefando, não lhe medi a im ensidade: só, dentre as ruiuas da universidade, cu vi os grandes livros íumejíando!

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