Carnaval Carioca
CARNAVAL CARIOCA A MANUEL BANDEIRA (1923)
A fornalha estrala em mascarados cheiros silvos Bulhas de cor bruta aos trambolhões, Cetins sedas cassas fundidas no riso febril... Brasil! Rio de Janeiro! Queimadas de verão! E ao longe, do tição do Corcovado a fumarada das nuvens pelo céu.
Carnaval... Minha frieza de paulista, Policiamentos interiores, Temores da exceção... E o excesso goitacá pardo selvagem! Cafrarias desabaladas Ruínas de linhas puras Um negro dois brancos três mulatos, despudores... O animal desembesta aos botes pinotes desengonços No heroísmo do prazer sem máscaras supremo natural.
Tremi de frio nos meus preconceitos eruditos Ante o sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor. Risadas e danças Batuques maxixes Jeitos de micos piricicas Ditos pesados, graça popular... Ris? Todos riem...
O indivíduo é caixeiro de armarinho na Gamboa. Cama de ferro curta por demais, Espelho mentiroso de mascate E no cabide roupas lustrosas demais.. Dança uma joça repinicada De gestos pinchando ridículos no ar. Corpo gordo que nem de matrona Rebolando embolado nas saias baianas, Braço de fora, pelanca pulando no espaço E no decote cabeludo cascavéis saracoteando Desritmando a forçura dos músculos viris. Fantasiou-se de baiana, A Baía é boa terra... Está feliz.
Entoa à toa a toada safada E no escuro da boca banguela O halo dos beiços de carmim. Vibrações em redor. Pinhos gargalhadas e assobios Mulatos remeleixos e buduns. Palmas. Pandeiros. — Aí, baiana! Baiana do coração! Serpentinas que saltam dos autos em monóculos curiosos, Este cachorro espavorido, Guarda-civil indiferente. Fiscalizemos as piruetas... Então só eu que vi? Risos. Tudo aplaude. Tudo canta: — Aí, baiana faceira, Baiana do coração! Ele tinha nos beiços sonoros beijando se rindo Uma ruga esquecida uma ruga longínqua Como esgar duma angústia indistinta ignorante... Só eu pude gozá-la. E talvez a cama de ferro curta por demais...
Carnaval... A baiana se foi na religião de Carnaval Como quem cumpre uma promessa. Todos cumprem suas promessas de gozar. Explodem rencos roucos trilos tchique-tchiques E o falsete enguia esguia rabejando pelo aquário multicor. Cordões de machos mulherizados, Ingleses evadidos da pruderie, Argentinos mascarando a admiração com desdéns superiores Degringolando em lenga-lenga de milonga, Polacas de indiscutível índole nagô, Yankees fantasiados de norte-americanos... Coiosada emproada se aturdindo turtuveando Entre os carnavalescos de verdade Que pererecam pararacas em derengues meneios cantigas, chinfrim de gozar!
Tem outra raça ainda. O mocinho vai fuçando o manacá naturalizado espanhola. Ela se deixa bolinar na multidão compacta. Por engano.
Quando aproximam dos polícias Como ela é pura conversando com as amigas! Pobre do moço olhando as fantasias dos outros, Pobre do solitário com o chapéu cai-cai nos olhos! Naturalmente é um poeta...
Eu mesmo... Eu mesmo, Carnaval... Eu te levava uns olhos novos Pra serem lapidados em mil sensações bonitas, Meus lábios murmurejando de comoção assustada Haviam de ter puríssimo destino... É que sou poeta E na banalidade larga dos meus cantos Fundir-se-ão de mãos dadas alegrias e tristuras, bens e males, Todas as coisas finitas Em rondas aladas sobrenaturais.
Ânsia heroica dos meus sentidos Pra acordar o segredo de seres e coisas. Eu colho nos dedos as rédeas que param o infrene das vidas, Sou o compasso que une todos os compassos, E com a magia dos meus versos Criando ambientes longínquos e piedosos Transporto em realidades superiores A mesquinhez da realidade. Eu bailo em poemas, multicolorido! Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha! Sou dançarino brasileiro! Sou dançarino e danço! E nos meus passos conscientes Glorifico a verdade das coisas existentes Fixando os ecos e as miragens. Sou um tupi tangendo um alaúde E a trágica mixórdia dos fenômenos terrestres Eu celestizo em eurritmias soberanas, Oh encantamento da Poesia imortal!... Onde que andou minha missão de poeta, Carnaval? Puxou-me a ventania, Segundo círculo do Inferno, Rajadas de confetes hálitos diabólicos perfumes Fazendo relar pelo corpo da gente Semíramis Marília Helena Cleópatra e Francesca. Milhares de Julietas! Domitilas fantasiadas de cow-girls, Isoldas de pijama bem francesas, Alsacianas portuguesas holandesas... Geografia Êh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar! Levou a breca o destino do poeta, Barreei meus lábios com o carmim doce dos dela...
Teu amor provinha de desejos irritados, Irritados como os morros do nascente nas primeiras horas da manhã. Teu beijo era como o grito da araponga, Me alumeava atordoava com o golpe estridente viril. Teu abraço era como a noite dormida na rede Que traz o dia de membros moles mornos de torpor. Te possuindo eu me alimentei com o mel dos guarupus, Mel ácido, mel que não sacia, Mel que dá sede quando as fontes estão muitas léguas além, Quando a soalheira é mais desoladora E o corpo mais exausto.
Carnaval... Porém nunca tive intenção de escrever sobre ti... Morreu o poeta e um gramofone escravo Arranhou discos de sensações...
I Em baixo do Hotel Avenida em 1923 Na mais pujante civilização do Brasil Os negros sambando em cadência. Tão sublime, tão áfrica! A mais moça bulcão polido ondulações lentas lentamente Com as arrecadas chispando raios glaucos oiro na luz peluda de pó. Só as ancas ventre dissolvendo-se em vaivens de ondas em cio. Termina se benzendo religiosa talqualmente num ritual.
E o bombo gargalhante de tostões Sincopa a graça da danada.
II Na capota franjada com xale chinês Amor curumim abre as asas de ruim papelão. Amor abandonou as setas sem prestígio E se agarra na cinta fecunda da mãe. Vênus Vitoriosa emerge de ondas crespas serpentinas, De ondas encapeladas por mexicanos e marqueses cavalgando autos perseguidores. — Quero ir pra casa, mamãe!
Amor com medo dos desejos...
III O casal jovem rompendo a multidão. O bando de mascarados de supetão em bofetadas de confete na mulher. — Olhe só a boquinha dela! — Ria um pouco, beleza! — Come do meu! O marido esperou (com paciência) que a esposa se desvencilhasse do bando de máscaras E lá foram rompendo a multidão. Ela apertava femininamente contra o seio o braço protetor do esposo. Do esposo recebido ante a imponência catedrática da Lei E as benção invisíveis — extraviadas? — do Senhor...
Meu Deus... Onde que jazem tuas atrações? Pra que lados de fora da Terra Fugiu a paz das naves religiosas E a calma boa de rezar ao pé da cruz? Reboa o batuque. São priscas risadas São almas farristas Aos pinchos e guinchos Cambeteando na noite estival. Pierrôs-fêmeas em calções mais estreitos que as pernas, gambiarras iluminadas! Oblatas de confetes no ar, Incenso e mirra marca Rodo nacional Açulam raivas de gozar.
O cabra enverga fraque de cetim verde no esqueleto. Magro magro asceta de longos jejuns dificílimos. Jantou gafanhotos. E gesticula fala canta. Prédicas de meu Senhor... Será que vai enumerar teus pecados e anátemas justos? A boca dele florirá de bênçãos e perdões...
Porém de que lados de fora da Terra Falam agora as tuas prédicas? Quedê teus padres? Quedê teus arcebispos purpurinos? Quedele o tempo em que Felipe Neri Sem fraque de cetim verde no esqueleto Agarrava a contar as parábolas lindas De que os padres não se lembram mais? Por onde pregam os Sumés de meu Senhor? Aqueles a quem deixaste a tua Escola Fingem ignorar que gostamos de parábolas lindas, E todos nos pusemos sapeando histórias de pecado Porque não tinha mais histórias pra escutar...
Senhor! Deus bom, Deus grande sobre a terra e sobre o mar, Grande sobre a alegria e o esquecimento humano, Vem de novo em nosso rancho, Senhor! Tu que inventaste as asas alvinhas dos anjos E a figura batuta de Satanás; Tu, tão humilde e imaginoso Que permitiste Isis guampuda nos templos do Nilo, Que indicaste a bandeira triunfal de Dionísio pros gregos E empinaste Tupã sobre os Andes da América...
Aleluia! Louvemos o Criador com os sons dos saxofones arrastados, Louvemo-Lo com os salpicos dos xilofones nítidos! Louvemos o Senhor com os riscos dos reco-recos e os estouros do tantã, Louvemo-Lo com a instrumentarada crespa do jazz-band! Louvemo-Lo com os violões de cordas de tripa e as cordeonas imigrantes, Louvemo-Lo com as flautas dos choros mulatos e os cavaquinhos das serestas ambulantes! Louvemos O que permanece através das festanças virtuosas e dos gozos ilegítimos! Louvemo-Lo sempre e sobre tudo! Louvemo-Lo com todos os instrumentos e todos os ritmos!...
Vem de novo em nosso rancho, Senhor! Descobrirei no colo dengoso da Serra do Mar Um derrame no verde mais claro do vale, Arrebanharei os cordões do carnaval E pros carlitos marinheiros gigoletes e arlequins Tu contarás de novo com tua voz que é ver o leite Essas histórias passadas cheias de bons samaritanos, Dessas histórias cotubas em que Madalena atapetava com os cabelos o teu chão...
...Pacapacapacapão!... pacapão! pão! pão!...
Pão e circo! Roma imperial se escarrapacha no anfiteatro da Avenida. Os bandos passam coloridos, Gesticulam virgens, Semivirgens, Virgens em todas as frações Num desespero de gozar.
Homens soltos Mulheres soltas Mais duas virgens fuxicando o almofadinha Maridos camaradas Mães urbanas Meninos Meninas Meninos O de dois anos dormindo no colo da mãe... — Não me aperte! — Desculpe, Madama! Falsetes em desarmonia Coros luzes serpentinas serpentinas Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas Matusalém cirandas Brueghel — Diacho! Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas... E a multidão compacta se aglomera aglutina mastiga em aproveitamentos brincadeiras asfixias desejadas delírios sardinhas desmaios Serpentinas serpentinas coros luzes sons E sons!