Tempo das águas, Poema, Tostão de chuva e Lenda do céu
TEMPO DAS ÁGUAS
O gado estava amoitando na capoeira Agora é a gupiara agachada lombo do morro Vazia que não tem mais fim.
De repente faz cócega na cara da gente A mão de chuva do vento. Tempo perdido se afobar, Ela já vem na cola do liburno. Olhe a folhinha seca. Salta que salta ressabiada, corcoveia, Desembestou que nem potranca chucra pasto fora. Você quase nem tem tempo de vestir a capa boa E despenca a chuva de Deus. O espaço num átimo se enche de ar leviano E a água lava até a espinha da gente E encrespa a crina do animal. Que gostosura! Você rejeita o forde da fazenda na porteira E continua tchoque-tchoque na tijuqueira peguenta da estrada.
Em casa, No brim novo com cheiro de ribeirão Você deita na rede da varanda, Chupita o traço da abrideira... E se conversa.
E se conversa sobre a baixa do café.
POEMA
Neste rio tem uma iara...
De primeiro o velho que tinha visto a iara Contava que ela era feiosa, muito! Preta gorda manquitola ver peixe-boi. Felizmente velho já morreu faz tempo. Duma feita, madrugada de neblina Um moço que sofria de paixão Por causa duma índia que não queria ceder pra ele, Se levantou e desapareceu na água do rio. Então principiaram falando que a iara cantava, era moça, Cabelos de limo verde do rio... Ontem o piá brincabrincando Subiu na igara do pai abicada no porto, Botou a mãozinha na água funda E vai, a piranha abocanhou a mãozinha do piá.
Neste rio tem uma iara...
TOSTÃO DE CHUVA
Quem é Antônio Jerônimo? É o sitiante Que mora no Fundão Numa biboca pobre. É pobre. Dantes Inda a coisa ia indo e ele possuía Um cavalo cardão. Mas a seca batera no roçado... Vai, Antônio Jerônimo um belo dia Só por debique de desabusado Falou assim: “Pois que nosso padim Pade Ciço que é milagreiro, contam, Me mande um tostão de chuva pra mim!" Pois então nosso “padim” padre Cícero Coçou a barba, matutando e disse: “Pros outros mando muita chuva não, Só dois vinténs. Mas pra Antônio Jerônimo Vou mandar um tostão”. No outro dia veio uma chuva boa Que foi uma festa pros nossos homens E o milho agradeceu bem. Porém No Fundão veio uma trovoada enorme Que num átimo virou tudo em lagoa E matou o cavalo de Antônio Jerônimo. Matou o cavalo.
LENDA DO CÉU
Andorinha, andorinha, Andorinha avoou, Andorinha caiu, Curumim a pegou.
— Piá, não me maltrata não! Eu levo você pro mato Enxergar bichos tamanhos E correr com os guanumbis...
O menino brincava, Andorinha sofria E dum lado pra outro Atordoada gemia:
— Piá, não me maltrata não! Eu levo você pro mar Ver as ondas ver as praias Ver os peixinhos do mar...
O menino malvado Taperá machucou. E já morre morrendo A coitada falou:
— Piá, não me maltrata não... Eu levo você pro céu... E nunca ninguém não cansa De ver as coisas do céu... É um sítio bonito mesmo Beiradeando o trem-de-ferro, Lá você acha sua gente Que faz muito que morreu. Assegura em minhas penas, Vamos embora com Deus...
Andorinha, andorinha, Andorinha avoou, Foi subindo pro céu, Curumim carregou.
— Assegura bem, menino, Não olha pra baixo não. Não tem sodade do mundo Que o mundo é só perdição.
E avoando avoando Afinal se chegou. Andorinha desceu. Curumim apeou.
Abriu os olhos e viu. Era o céu... oh boniteza! Tinha espingarda gangorra Estilingue... Tinha bichos E tinha tantas surpresas Que era mesmo um desperdício.
Olha um cachorro janguar! Olha a ave seriema! Olha aquelas três-marias Da gente bolear nhandus!... Era que nem um pomar Com tanta fruta aromando Que o ar ficava que ficava Bonzinho de respirar.
O curumim caminhava Seguindo os postes da linha, Lá pelo varjão se ouvia Duma fordeca a chispada, E no meio-dia quente Amulegando maneiro Um aboio tão chorado Que acuava no corpo doce O sono do brasileiro.
Tinha mandioca e assai Mate cana arroz café Muita banana e feijão Milho cacau... Tinha até Pra lá do cercado novo Cheio de taperebás Um rancho do nosso povo Com seu mastro de São João.
No galpão um homem comprido Duma quente morenez, Com a pele bem sapecada Pelo Sol deste país, Gemia uma sanfona ũa mazurca tão linda Que si parava um bocado O ouvido cantava ainda.
O menino olhou pro homem E gritou: — B’as tarde, tio! — Meu sobrinho, entra no rancho, Nossa gente já está aí.
E o piá se rindo matava Saudades do coração. Tomava a benção da mãe, Do pai, abraçava o irmão, Afinal topou com o primo Que era unha-e-carne com ele E comovidos os dois, Os dois se deram a mão. E foram brincar pra sempre Pelos pagos abençoados Do meio-dia do céu.
No céu sempre é meio-dia... Não tem noite, não tem doença E nem outra malvadez... A gente vive brincando... E não se morre outra vez.