Coco do Major e modas
COCO DO MAJOR (RIO GRANDE DO NORTE) A ANTÔNIO BENTO DE ARAÚJO LIMA
O major Venâncio da Silva Guarda as filhas com olho e ferrolho, Que vidinha mais caningada — seu mano — Elas levam no engenho do velho!
Nem bem a arraiada sonora Vem tangendo as juremas da estrada Já as três se botam na renda — seu mano — Trequetreque de bilros, mais nada.
Vai, um mocetão paroara Destorcido porém sem cabeça Apostou num coco da praia — seu mano — Que daria uma espiada nas moças
Pois a fala do lambanceiro Foi parar direitinho no ouvido Do major Venâncio da Silva — seu mano — Que afinal nem se deu por achado.
Bate alguém na sede do engenho. — Seu major, ando morto de sede, Por favor me dê um copo de água... — seu mano — — Pois não, moço! Se apeie da égua.
Dois negrões agarram o afoito, O major assobia pra dentro. Vêm três moças lindas chorando — seu mano — Com quartinhas de barro cinzento.
— Esta é minha filha mais velha, Beba, moço, que essa água é de sanga. E os negrões obrigam o pobre — seu mano — A engolir a primeira moringa.
— Esta é minha filha do meio, Beba, moço, que essa água é do corgo. E os negrões obrigam o pobre — seu mano — A engolir a moringa, já vesgo.
— Esta é minha filha mais nova, Beba, moço, que essa água é de corgo. E os negrões afogam o pobre — seu mano — Que adubou os faxeiros do monte.
O major Venâncio da Silva Tem as filhas mais lindas do norte Mas ninguém não viu as meninas — seu mano — Que ele as guarda com água de pote.
MODA DA CADEIA DE PORTO ALEGRE A MARIO PEDROSA
Dona Rita amouxa em casa Uma porção de riqueza Que o marido, que Deus tenha! Por amor dela ajuntou. A riqueza de que falo É cobres, porque dos filhos Só um mocinho não gorou.
Apesar dessa família Já grande em pleno viçor, Quando ela pensa em gatunos Corre pela espinha dela Uma friagem de horror.
Também não tem na cidade Correição de segurança Adonde gatuno que entra Perde pra sempre a esperança De outra vez ir gatunar. Dona Rita passa as noites Sem dormir, sem descansar. Qualquer barulhinho a pobre Levanta, vai assuntar.
Pois então ela resolve, Gasta mas gasta pra bem: Faz construir uma cadeia Que mais segura não tem Por este grande Brasil.
Era mesmo um casarão Alvo que nem tabatinga, Com tanta grade tamanha Que apertava o coração.
Toda a gente ia passear Lá no largo da Cadeia Mas porém se espera um preso Pra estreia da correição.
Agora o filho entra tarde. Dona Rita sossegada Costura, pesponta meias Enquanto sono não vem. Só de pensar na cadeia Dona Rita dorme bem.
Foi então que numa festa Já quase de-manhãzinha O filho de dona Rita Botou seis tiros no peito De outro moço, rival dele Nuns negócios de paixão.
Estrearam a correição. Dona Rita não foi ver.
Definha que não definha, Durou uns pares de meses, Afinal veio a morrer.
Falam também que de-noite O carcereiro rondando Escuta pelo caminho O choro de dona Rita Gemendo devagarzinho...
Mas isso de assombração Só quem vê é que acredita...
PAISAGEM N.° 5
De-dia um Solzão de matar taperá Passeou na cidade o fogo de Deus. Os paulistas andaram que nem caçaremas tontas Daqui pra ali buscando as sombras de mentira. Mas agorinha mesmo deram às vinte horas. De já-hoje quando a noite agarrou empurrando a luz quente pra trás do horizonte Brisou uma friagem de inverno refrescando os praceanos e a cidade rica. As famílias pararam de suar. Janelas abertas e portas abertas em todas as casas. Se boia, se conversa descansado. Nas varandas portas terraços escuros Acende apagam os vaga-lumes dos cigarros.
Todas as bulhas se ajuntam num riso feliz.
Faz gosto a gente andar assim atôa Reparando na calma da sua cidade natal.
MODA DA CAMA DE GONÇALO PIRES
Gonçalo Pires possui uma cama, Em nossa vila não tem mais nenhuma, Gonçalo Pires se dá um estadão, Só ele na terra dorme gostoso Em traste bonito de estimação.
Delem! dem! dem!... O Sr. Ouvidor, Representante de Felipe IV, Já vem subindo pelo Cubatão. O dr. Antônio Rebello Coelho Vem nesta vila fazer correição.
Delem! dem! dem!... São Paulo nos acuda! Se agita a Municipalidade, Ouvidor-geral não dorme no chão! Gonçalo Pires não quer emprestar Cama cobertor lençol e colchão.
Mas os vereadores são bons paulistas E Francisco Jorge, o procurador, Recebe da Câmara autorização: Trará a cama de Gonçalo Pires, Ele que deixe-se de mangação!
Gonçalo Pires resmunga, peleja, Mas a autoridade é da Autoridade, Lá vêm pelas ruas em procissão, Cobertos de olhos relampeando inveja Cama cobertor lençol e colchão.
Que úmido frio... Das várzeas em torno Na noite vazia que não tem fim Dissolve as casinhas a cerração... O Ouvidor-geral sonha em cama boa E Gonçalo Pires dorme no chão.
Delem! dem! dem!... O Ouvidor vai-se embora. Sai mais festejado que quando entrou... A Câmara impa de satisfação. Mas os vereadores são bons paulistas: — Que entregue-se a cama com prontidão.
Gonçalo Pires rejeita o bem dele. Não dorme em cheiro de ouvidor-geral!... Se reúne a Câmara em nova sessão. — Lave-se o lansol! indica o notário. Qual! Gonçalo empaca na rejeição.
Sete anos levam nessa pendenga A Câmara paulista e Gonçalo Pires, Paulista emperrando, não cede não. E a história não sabe que fim levaram Cama cobertor lençol e colchão.