PRIMEIRO ACTO
PRIMEIRO ACTO
A' tarde, n'um jardim um pouco em desordem, para o qual dá a varanda de uma casa. A varanda mobiliada modestamente serve de sala de jantar. Nas grades e nos varáos vêm-se trepadeiras, parasitas e um canário n'uma gaiola. No jardim um caramanchão, bancos, e no fundo um poço de bordas guarnecidas de plantas. O jardim é cercado de grade, com um portão que abre para a rua. Na varanda a Mãe examina papeis de família, que estão n'uma caixa aberta sobre a mesa, e Militina faz renda.
A MÃE
Sempre que vejo estes papeis, o cordão se me aperta. São as minhas reliquias! Aqui está toda a minha vida, a nossa vida... Quando elle era vivo, quantas vezes na sua ausência não me fechava no meu quarto, e sósinha não revia todas estas lembranças, não aspirava este cheiro antigo e saudoso!.. Hoje que elle é morto, quasi me falta o animo de abrir este relicario. Parece-me um sacrilégio tocarem cousas alegres com a alma triste...
MILITINA
E' espalhar cinza n'um canteiro de flores.
A MÃE, continuando a examinar os papeis.
Estacaria... Oh! foi da nossa primeira separação depois de casados... Elle me escrevia assim, Militina: « — Como são longos e ásperos os dias da saudade! Eu te vejo em tudo; mas, quando te busco, tu não estás nestas cousas extranhasque me cercam. Sejamos fortes na tristeza, e sobretudo na alegria, quando nos reunirmos de novo. Faço esta viagem em tão angustiosa recordação de ti que muitas vezes me esqueço de que temos um filho... »
MILITINA
Pobre Eduardo!
A MÃE
Porque? Elle tinha o seu logar.
MILITINA
Sempre o esquecido, o ultimo... O amor de marido e mulher abafava no coração de ambos o amor pelo filho. Deus Nosso Senhor não podia consentir nisso toda vida.
A MÃE
Aqui estão as relíquias desse amor! A morte nos puniu pelo que esquecemos na vida.
MILITINA
A Dudú não faltou mãe.
A MÃE
Sim, elle te deve tudo, e hoje eu te invejo, Militina.
MILITINA
Do coração delle estou certa como da luz que me allumia. Assim devia ser. Um menino que amammentei nos meus peitos como o filho do meu ventre, que velei dias e noites, que embalei no berço e na rede, annos e annos, a quem contei tantas historias á noite até um de nós dois cabecear de somno, que conduzi á escola como meu companheiro, meu amiguinho, meu anjo da guarda na terra, então não é meu filho?
A MÃE
Elle é teu filho... Mas, depois da morte do pae, eu me sinto tão agarrada a elle... A tristeza gerou em mim um sentimento que não conhecia nos tempos felizes. O filho nasce na dôr e o meu acaba de renascer para mim. Agora é tarde, é amor de velha. E ainda assim, que não farei para pagar em ternuras os annos de esquecimento! Eu o quero commigo, sempre ao meu lado; quero que a sua existência seja a minha, que elle sinta e comprehenda a força da minha affeição; no emtanto, parece-me que lhe sou tão extranha que os meus soffrimentos não são os seus... Nestes seis mezes do nosso luto, em que me vejo desamparada, eu o quizera mais attento a mim... Eduardo já é um homem.
MILITINA
Para que o atormentar tão cedo?
A MÃE
Temos de salvar os nossos bens, de nos arranjar com os credores e de fazer juntos todo este trabalho da reconstrucção da nossa vida.
MILITINA
Os filhos pagam pelos pães... Que culpa tem Dudú Jdesta afflicção a que chegaram?
A MÃE
Se ficámos nesta extremidade, foi pelo bem que praticámos. E tu sabes, Militina, que não me arrependo. Que casa foi mais hospitaleira que a nossa? Quem foi o pae da pobreza, o verdadeiro santo desta cidade? Elle nos deixou sem nada, mas só queria o nosso bem emacções que contam para Deus. E a sua memória ainda é mais venerada do que se me tivesse deixado rica, com a lembrança do mal ame torturar o coração. E ninguém podia imaginar que se fosse tão depressa. Eu só quero que o filho lhe siga os passos na vida. Porque, se assim não fosse, tudo seria uma grande desordem... Ouvem-se cantos de Natal
MILITINA
Que triste Natal!
A MÃE
Estes cantos me entristecem ainda mais. Quem diria no anno passado que estaríamos assim! Nós, tão alegres, de casa em casa, visitando os presépios, e talvez os mesmos cantos cantando á nossa porta. Tu vês, elles não param aqui. A tristeza os espanta. As duas mulheres escutam os cantos, que se vão afastando.
MILITINA
Louvado seja o menino J e s u s!
A MÃE
Deus proteja meu filho... Militina, vae chamar Eduardo.
MILITINA, desce ao jardim e chama.
Eduardo? Dudú? Meu filho?
A VOZ DE EDUARDO
Titina! Titina! Eduardo, no esplendor da mocidade, apparece, e acariciando Militina: — Ah! minha bruxa, ella vae vir, e eu estava a colher-lhe flores. Militina sorri, maravilhada.
A MÃE
Ouve, meu filho. D'aqui a pouco, virá o nosso credor por causa da hypotheca da casa, que se vence brevemente. Além do capital, temos amortizações e juros atrazados a pagar. Nada nos resta... Pensei em contrahir um empréstimo com alguns dos nossos derradeiros amigos e evitar talvez assim a catastrophe. Mas para isso é preciso empenhares o teu futuro. Tu és afinal o homem da casa, e a tua mocidade não é uma escusa.
EDUARDO
Minha mãe... Como quer que eu tome a mim tamanho encargo?
A MÃE
Oh! Eduardo! Então sou eu sósinha que devo tudo salvar? Eu, que estou mais para a morte do que para a vida?
EDUARDO
Para que falar com essa exaltação? A vida, oh! mamãe, não (• triste! Eu sei que a nossa situação é aborrecida, mas para que nos occuparmos agora disso, quando ainda falta tanto hmpo? Hoje, véspera de Natal! Oh! que vontade eu tive de ir cantando nesses bandos que passaram! A vida augmenta de belleza e cresce na alegria, minha mãe!
MILITINA
Vae, Dudú.
EDUARDO
Estou á espera de Almira, que passará por aqui, para que a vejam. Como deve estar linda, vestida de pastora! Aquelles cabellos negros cacheados, os olhos pretos e ardentes, a bocca rubra e risonha, o porte, a cabecinha erguida e altiva... Dize, Titina, se ha outra mais bonita.
MILITINA
Ella deve trazer sempre uma figa.
EDUARDO
Que tolice! Ninguém lhe fará mal, ella é minha, e eu quero realisaro nosso sonho, Militina.
MILITINA
Dudú não fará mais caso de mim.
EDUARDO
Eu? Quantas vezes não digo a Almira que te levaríamos para a nossa casa, se não fosse mamãe ficar sósinha.
A MÃE, continuando a examinar os papeis.
Eu conto tão pouco...
EDUARDO
Oh! minha mãe! Tu, Militina, nos contarias as historias dos outros tempos; e como te faria bem viver na atmosphera do amor...
A MÃE
Aqui estão os títulos da hypotheca. É preciso que leias isto e vejas se ha meio de fazer qualquer proposta e de obter alguma concessão...
EDUARDO
Basta que você os tenha examinado. Deixemos essas cousas enfadonhas.
A MÃE
Attende, meu filho. Ha tempo para as outras cousas; agora pensa em mim.
EDUARDO
Eu penso, e por isso quero que você saiba quanto sou feliz. Esse amor profundo me encanta e exalta, e sou amado, mamãe. Esta manhã bem cedo andámos á beira do mar; Almira vinha do banho, gottejante, fresca e rosada. Em torno de nós tudo parecia entorpecido de somno. A bahia espreguiçava-se n'um grande repouso, e a luz do sol na alegria do nascer estendia-se de leve sobre as ondas mansas... A caricia que me vinha da voz de Almira e dos seus gestos lentos e brandos, era cheia de langor. Era um grande affecto meigo e sereno... Para que pensar em tristeza, mamãe, quando a vida é tão doce? Eu vi o sol illuminar o mundo, o vento refrescar a terra e o mar como um desejo de amor!
MILITINA
A vida nasce do mar... MALAZARTE q
A MÃE
E por isso devemos temel-a mais.
EDUARDO
Temer a vida seria temer o amor, porque viver é amar. E será para mim uma tortura esperar...
A MÃE
Não te agonies, meu filho. E, se não te posso valer, Deus ama os que se amam.
EDUARDO
Pór Almira vencerei. Ella vae chegar, tudo se transformará, e nós sahiremos enamorados, por esta noite de Natal...
MILITINA
Eu velarei, esperando-te.
A MÃE
Nosso pobre Natal!
MILITINA
Mas sempre Natal; e ainda haverá doces para vocês, meus filhos. Militina entra na casa, a Mãe e Eduardo descem ao jardim.
A MÃE
Não ha mais Natal para nós, Eduardo. io MALAZARTE
EDUARDO
E ' o mesmo e perpetuo renascimento no amor,e o próprio Deus é infante, porque elle é o amor, o firucto tenro do amor. Tu d o é amor!
A MÃE
Ouvi um dia essa mesma voz...
EDUARDO
Não vê, mamãe, como tudo em volta de nós se confunde amorosamente? A luz se mistura aos cantos, os pássaros ás arvores, as borboletas ás flores... E' que a natureza toda é divina e indivisivel.
A MÃE
Esse sortilegio torna a desgraça infinita.
EDUARDO
Elle faz a natureza eterna revelar-se pelo amor. Foi aqui dentro desta luz bemfazeja, neste jardim, que Almira me appareceu e me encantou para sempre. Estas arvores, estas plantas foram as companheiras das nossas primeiras ternuras, e quando aqui repousamos maravilhados ou passamos unidos, ellas nos enlaçam com os seus ramos floridos. O nosso amor viverá. Este é o delicioso jardim do mysterio, e estas flores que viram o amor, Almira vae offerecel-as ao menino Deus.
Eduardo e a Mãe vão pelo jardim apanhando as flores, e desapparecem. a,
MALAZARTE n Malazarte, como um mytho florestal, surge dentre os bambus. Traz uma viola e um urubu atado ao pé por uma corrente. Malazarte vem até á varanda, e não vendo ninguém, bate com o cacete, chamando. Continuando tudo em silencio, elle volta para o jardim e deita-se n'um dos bancos meio occulto pela folhagem. O urubu fica pousado no encosto do banco, fúnebre, phantastico. Malazarte fecha os olhos e parece dormir.
Militina chega á varanda com um prato de comida, que vae pôr sobre a mesa, vê Malazarte, espanta-se e murmura inquieta: C r u z, c r e d o, e s t e d e m ô n i o por aqui (chamando timidamente) M a l a z a r t e! M a l a z a r t e!
Malazarte não responde, parecendo sempre dormir. Militina esconde os pratos no armário, vae buscar outros, sempre desconfiada, espreitando Malazarte. Este percebe tudo e continua a simular que dorme. Militina senta-se na varanda e prosegue o seu trabalho de renda.
O Credor, entrando pela porta do jardim, sem ver Malazarte• dirige-se a Militina: O n d e está a sua patroa?
MILITINA
Ella está no jardim. V o u chamal-a. F a ç a o favor de entrar...
O Credor examina a casa com attenção e cupidez. A Mãe de Eduardo apparece apressada.
O CREDOR
Não me esperava?
A MÃE
S i m. E m q u a n t o n ã o chegava, dava uma volta pelo j a r d i m...
MALAZARTE
O CREDOR
A terra aqui me parece boa. As arvores crescem bem e ha uma excellente exposição ao sol para as flores... A horta ainda está como d'antes? Que horta e que pomar, um regalo!
A MÃE
Com os nossos pequenos recursos, pouco podemos fazer; apenas conservamos o jardim. A horta que meu marido tanto zelava, já não é a mesma cousa; o pomar está abandonado... o CREDOR
Como? Que está me rezando ahi? Então deixaram tudo se devastar! E não sabiam que isto não lhes pertence?
A MÃE
Tudo isto ainda é nosso, podemos fazer o que nos apraz. o CREDOR
E eu então? Quando se trata de conservar a propriedade, não se lembram de mim; mas quando me querem arrancar prorogações de prazos e outras chicanas, então é aquella choradeira, e eu sou um coração de ouro e o resto da ladainha... Ah! isto não vae mais assim!
A MÃE
Para que nos humilhar? A nossa pobreza não nos envergonha.
O CREDOR
E ' isto mesmo... Quem deve ter vergonha, sou eu, de ter dinheiro para emprestar. Sou o agiota, o sovina, unhas de fome; mas em outro tempo, quando seu marido quiz dinheiro e me propoz este embrulho, eu era o salvador, a providencia. São todos da mesma fazenda.
A MÃE
Queira respeitar a memória de meu marido. Eduardo, trazendo-flores, entra seguido de Militina.
EDUARDO
Militina, estas flores com o calor vão morrer, e seria uma grande tristeza. Põe-nas em um jarro d'agua.
MILITINA
Para que tanta flor?
EDUARDO
Para a pastora Almira offerecer esta noite ao menino Jesus.
O CREDOR
Não vim aqui para tratar de flores nem de meninos Jesus... Querem me embrulhar, não ha duvida. Desta vez não admitto mystificações. De hoje a dois mezes vence-se o prazo da hypotheca, e eu preciso saber se posso contar com o dinheiro, sem um real de menos. E'o meu direito. H MALAZARTE
EDUARDO
Ainda falta tanto tempo!
O CREDOR
Esta agora é fresca. Então, a sessenta dias do prazo de uma divida, velha de cinco annos, o credor não sabe se pôde ou não contar com o seu dinheiro? E esta!
A MÃE
T e n h a paciência, nós temos as melhores intenções... o CREDOR
Boas intenções! Olhem o inferno! Deixemos de discussão inútil. Paga ou não paga no prazo?
A MÃE
Não sei ainda. Vou tentar um empréstimo com alguns amigos... o CREDOR
Não faltava mais nada. Amigos nesta época! Ora, amigos!
A MÃE
E se não fôr possível, cumpra-se a vontade de Deus. O Credor não dá mais attenção; continua a examinar a casa.
EDUARDO, que estava absorto e alheio á discussão.
Não ouvi hoje cantar o canário.
A MÃE
Oh! Eduardo!
EDUARDO
Parece triste, e Almira vae ficar inconsolavel, se elle não cantar mais. o CREDOR, examinando a casa.
Não sei mesmo se vale a divida. Vinte contos de capital, doze por cento de juros ao anno, amortizações, juros atrazados, vae tudo em quarenta contos, e isto não me parece valer tanto, talvez só a metade; estou roubado.
A MÃE, a Eduardo.
Minha casa, a primeira, a única da minha vida de casada, vendida, em mãos de outros! Ser expulsa deste lar, onde foi toda a minha felicidade. Este tecto, estas paredes, estes aposentos são relíquias de outros tempos, consolo da minha solidão.Tudo aqui me falado passado... Entrei noiva por uma noite tão bella; aqui nasceste e cresceste, meu filho. Pensei ser o meu túmulo, onde foi o meu paraíso. Teu pae morreu na casa que fundou, ao passo que eu serei corrida deste canto da terra, separada das minhas lembranças, errante, miserável (ao credor). Tenha piedade, deixe-me este lar! Longe de tudo, onde amei, vivi, soffri, longe destas arvores plantadas pelas nossas mãos descuidadas e amorosas, que será de mim?
Ouvem-se cantos de Natal. Silencio na casa e no jardim. i6 MALAZARTE
A MÃE
Pela grande noite de hoje, piedade! o CREDOR
Estragaram-me o pomar, tudo destruído, como se lhes pertencesse; não se lembraram de mim, que afinal sou o dono verdadeiro, e agora lagrimas, choradeira... Vae pelo jardim, bisbilhotando tudo; a Mãe o acompanha implorando. Eduardo, um pouco abstracto, isola-se, dá umas voltas pelo jardim. Ouve-se a voz de Malazarte.
MALAZARTE, fingindo accordar.
Não ha nada que se coma?
EDUARDO
Malazarte! Que foi feito de ti?
MALAZARTE
Vogando por este mundo a dentro... Venho do sertão. Depois que pela ultima vez estive aqui, encontrei uns boiadeiros, que me propuzeram ir com elles lá para as chapadas, e como nada me prende, fui, andei pastoreando o gado. Sol de rachar! E que pastarias sem fim! Sempre a cavallo, puxando a boiada de restinga em restinga, de açude em açude, quando era secca, e de tezo em tezo quando era tempo de chuva. Vida como esta, nem de frade! Desde a noitinha a viola cantava e dansava-se debaixo das ramadas. Mulher era fartura por aquellas bandas, e bem feitas e sacudidas. ... Vogando por este mundo a dentro.
Quantas não levei á garupa do meu cavallo pelo sertão grande! E se algum cabra, por ciúme ou damnação, queria batalhar commigo, encontrava homem. Deixei muitos estirados no campo; a ponta da minha pajehú bebeu muito sangue... Cançado de batalhar com o gado, embrenhei-me na matta a derrubar madeira. Não houve jequitibá, nem aroeira, nem pau d'arco que me resistisse. Ah! que gosto vêr uma arvore bruta, um pau de respeito cahir ao peso do machado! Eu parecia um raio rachando aquelles gigantes de meio a meio, e depois arrastava-se a madeira até ao rio. E sobre esses paus, sobre essas arvores feitas balsas, pelas águas a baixo, eu vinha cantando...
EDUARDO
Malazarte, tu és um destruidor!
MALAZARTE
Que importa destruir, se tudo renasce e não se acaba, nem pelo fogo, nem pela água. Olha, eu vi no sertão uma secca terrível, o sol tinha chupado todos os rios, todas lagoas e poças, o gado e a gente não tinham o que beber, o povo andava amedrontado e rezava pedindo misericórdia... Um bello dia, desabou uma chuva, e que chuva! Foi um dilúvio, os rios transbordaram, os campos alagaram, os açudes rebentaram, e o povo implorou de novo misericórdia... Tudo isto não é pavor de creança? Porque este temor, se tudo vem e vae, se tudo nasce e morre, tudo morre e nasce? A minha existência não tem propósito nem fim. Andei peregrinando por estes mundos... Subi ao alto das montanhas para matar o gavião no ninho, cacei nas florestas a anta, desci ao fundo das minas para arrancar o ouro, dormi ao relento na face da terra, no sertão das onças contei as estrellas do céo, e sempre caminhando, sempre mudando, fiz a volta de todas as cousas, e aqui estou de novo... Basta de conversa fiada, minha gente... Não ha o que comer?
EDUARDO, chamando.
Militina? Militina? (Militina apparece d varanda.) Malazarte voltou e quer comer. A Mãe e o Credor vêm chegando do fundo do iardim.
MILITINA
Não ha nada.
MALAZARTE
Está bom... Então vamos por ahi afora caçar de comer. (Simula partir, segura o pé do urubu que grasna.) Que é que estás dizendo, guloso? E'mentira tua. Militina já disse que não ha nada. Paciência, meu negro. Vamos para adeante, vagando, a vêr se apanhamos qualquer cousa.
O CREDOR, curioso e intrigado.
Como? Urubu fala?
MALAZARTE
Este não só fala, como adivinha o que está mais escondido.
O CREDOR, desconfiado.
Se fala e adivinha, que lhe disse elle?
MALAZARTE
Vá lá... Não creio... porque, quando se trata de comida, este urubu é tão guloso que chega a mentir. Tu vaes ser apanhado, moleque... Elle disse que naquelle armário ha um prato de carne e muita farinha escondida.
O CREDOR, a Militina
E Verdade?
MILITINA, fazendo uma cruz com os dedos e cuspindo.
Cruz, credo, capeta! o CREDOR E'verdade?
MILITINA
E'... sim senhor... T'arrenego, urubu do inferno.
EDUARDO
Dá alguma cousa a Malazarte e ao urubu que adivinha... Militina sáe resmungando.
O CREDOR, maravilhado.
Que prodígio! Onde descobriu essa preciosidade?
MALAZARTE
Numa batida de onça... Eu vinha seguindo o rasto de uma pintada, quando dei com a bicha já morta e sobre ella fazendo carniça um bando de urubus. Fiquei damnado de ter perdido meu tempo e disparei a arma. 2o MALAZARTE
O CREDOR
Sobre os urubus?
MALAZARTE
Não, porque urubu não se mata... Só para espantar... Os bichos remontaram para o céo, e só ficou um, que me olhava com olhos tão compridos e tão tristes e fazendo uma cara de metter pena... Cheguei-me a elle, e o bicho, coitadinho, me deu o pé... o CREDOR
Como papagaio...
MALAZARTE
... me deu o pé e eu fui trazendo-o desta maneira pelo caminho; quando cançava, largava o urubu, que vinha voando, acompanhando-me. Assim andámos dias e noites, atravessámos mattas, campos, rios e alagadiços;,o urubu sempre junto, calado, agourento. o CREDOR, enternecido. Coitado! Talvez seja encantado.
MALAZARTE
Eu acredito. Mas elle é muito reservado a este respeito, não diz palavra... Quando havia de comer, repartíamos; quando não havia, jejuavamos como camaradas de desgraça... E fui notando o que elle ia resmungando na sua linguagem, e em pouco tempo aprendi-lhe o segredo. Temme servido de muito; nunca mais me faltou nada, porque O urubu calado, agourento. este urubu sabe de historias e de cousas do arco da velha. As aves negras têm partes com o diabo... Hein! rapaz? estás ouvindo? Olhem só esta cara!
MILITINA, trazendo um pra/o de comida.
Aqui tem carne e farinha.
MALAZARTE, ao urubu.
Vamos á boia, camarada. (Come.)
EDUARDO
Sem vergonha...
MALAZARTE, ao urubu.
Que é, meu negro? Cala este bico. Basta o que já nos deram. (O urubu grasna.)
O CREDOR
Que diz elle?... Que diz elle?
MALAZARTE
Elle está dizendo que nós não podemos acabar o jantar sem doce, e que naquelle armário ha um bolo...
MILITINA
Agouro do inferno!
A MÃE
Dá logo tudo.
MILITINA
Não faltava mais nada... (Sde indignada.)
O CREDOR
Mas este bicho é um thesouro... Quer vendel-o?
MALAZARTE
Ninguém lhe dá o preço, e quem possuir esta jóia, tem a fortuna feita. Como já lhes contei, não preciso trabalhar para comer. Elle descobre tudo, as cousas mais escondidas, até dinheiro... o CREDOR
Dinheiro? Oh! quanto quer pelo urubu?...
MALAZARTE
Uma feita, nós iamos pela rua, quando elle começou a me falar na sua lingua; eu não dei attenção e fui andando. O urubu, que tem um gênio do diabo, ficou bravo e entrou a me picar feio e forte... Parei e elle me disse: Levanta essa pedra, que ahi tem dinheiro escondido. Arranquei a pedra, era verdade: achei uma porção de moedinhas de ouro, douradinhas como estreitas. (Mostra uma moeda.) Aqui tem uma. o CREDOR
Ouro estrangeiro, que não se encontra aqui; devia ser um thesouro. Diga quanto quer pelo bicho, abra preço...
MALAZARTE
Não se vende. (Cantarolando.) Urubu chenchem! Que faz ganhar vintém...
O CREDOR
Duzentos mil réis...
MALAZARTE
Nem um conto de réis...
O CREDOR, ao urubu.
Urubu real, Para Portugal Quem passa, meu louro?
MALAZARTE
Urubu não é papagaio... A carne acabou, a farinha ficou. Mais carne!
MILITINA
Desaforo...
A MÃE
Ora, Militina, dá... (Militina entra na casa.)
O CREDOR, a Malazarte.
Mas, como se comprehende o que elle diz?
MALAZARTE
Isto, meu amigo, é meu segredo.
MILITINA, trazendo comida.
Aqui tem mais carne.
MALAZARTE
Agora a farinha acabou, mais farinha para a carne que ficou.
O CREDOR
Quatrocentos mil réis...
MALAZARTE
Voscemecê tem muita vontade no passarinho, está se vendo... mas quatrocentos mil réis é pouco dinheiro na verdade. o CREDOR
Quinhentos e á vista.
MALAZARTE
Emfim, eu largo para lhe fazer gosto... desde que bate o cobre. o CREDOR
Aqui o tem... (Entrega o dinheiro.)
MALAZARTE
Trate bem do meu camarada, elle tem um gênio damnado, ás vezes embirra em não querer falar, não se lhe arranca uma palavra christã. Se, porém, daqui a um mez elle não dér de lingua, ha um remédio... Voscemecê é casado? o CREDOR
Sou... E porque?
MALAZARTE
Se este urubu, que é muito seu, não falar, sua mulher que molhe a cabeça delle, como ella sabe... Eu appareço um dia destes para lhes ensinar a linguagem dos urubus...
O CREDOR, com o urubu na mão.
Como minha mulher vae ficar contente com esta raridade, com esta extranha maravilha... Adeus... (Aopartir, volta-se para Eduardo e a Màe.)]k sabem as minhas condições. Não cedo nada. Commigo ninguém brinca... Ninguém me embaça. (Sáe iriumphante.)
EDUARDO, a Malazarte.
Onde apanhaste aquelle urubu e aquella moeda, patife?
MALAZARTE
O urubu, apanhei-o ainda ha pouco na praia. Eu estava sem um vintém, então fui caçar urubu para ganhar dez mil réis no matadouro... E fui tão feliz que apanhei esse... Quando vinha pelo cáes, encontrei uns marinheiros inglezes, que me circumdaram e arremetteram de socco... Eu respondi com uma rasteira... E foigodam,para aqui, cabeçada paraalli. Afinal fizemos as pazes e entrámos a beber numa venda... jogámos dados e eu ganhei aos beefs a moeda de ouro...
A MÃE
Deus te perdoe, Malazarte. (Retira-se acompanhada de Eduardo.) Malazarte, só, conla enthusiasmado o dinheiro e bebe de uma garrafa que trazia escondida no bolso.
PHILOMENA, entrando pela porta do jardim.
Malazarte! Oh! meu rapaz!
MALAZARTE
A Philoca! Tão catita sempre, tão seductora, tão cheirosa!
PHILOMENA
Pensei que já tinhas ido para o outro mundo... Nunca mais deste signal de vida...
MALAZARTE
Muitas saudades minhas?
PHILOMENA
Pudera não. Tu eras a nossa alegria, a nossa alma, ninguém te eguala na dansa e na viola. Quem puxa um desafio como tu? E sempre rei da vida! Toda esta rapaziada por aqui é mofina, ninguém te vale. Quando me lembro do que tu és, todo meu corpo estremece. Depois que te foste, tudo ficou tão triste... As nossas festas parecem enterros, é como se fossem velórios. Vem comnosco esta noite, vamos por ahi cantando um reisado, de presépio em presépio, e acabemos por dansar um samba ao batuque do tambor...
MALAZARTE, querendo abraçal-a.
Vamos... e depois do samba...
PHILOMENA, desviando-se.
Ouve, meu velho, eu vim encontrar-me com o meu noivo... De verdade, eu vou me casar...
MALAZARTE
Casar? E esta! Quem é o pamonha?
PHILOMENA
O filho da velha Militina.
MALAZARTE
Raymundo? Só mesmo esse pascacio. E porque tu, uma rapariga livre e fresca, vaes te casar?
PHILOMENA
Porque é a moda. Anda por aqui um bando de frades a casarem a torto e a direito. Raymundo me arrastava a aza e, como eu sempre o tive no secco, vae um dia elle me propõe esse casório. Porque não?
MALAZARTE
E nós então?
PHILOMENA
Como d'antes, atrevido... Quem não pôde, não inventa modas... Isto de casamento triste como de gente graúda não é commigo: a arraia miúda deve continuar na sua liberdade.
MALAZARTE
Como tu és sabida, minha Philó!
PHILOMENA
Eu sou como tu, como os nossos, comer, beber, amar. E tudo é bello!
MALAZARTE
Dá-me este cheiro do matto, das plantas e das flores queimadas pelo sol, e que tu espalhas dando o desejo e o amor... N'esta noite verei de novo este corpo dansar; basta que tu andes, já é a dansa...
PHILOMENA ri, inebriada. Malazarte!
MALAZARTE
O teu riso abre o coração... Que saudades desse riso lá na matta!...
PHILOMENA
Toca as cantigas do sertão.
MALAZARTE
E tu, dansa, Philoca! Malazarte toca e Philomena dansa.
RAYMUNDO, entranto pela porta do jardim, olha-os um instante.
Bravo, Philomena! Bravo, Malazarte!
MALAZARTE
Viva!
RAYMUNDO
Que fim levaste?
MALAZARTE
Dei a volta das cousas e aqui estou.
PHILOMENA
Malazarte vae comnosco esta noite, e como elle não tem egual na viola, nem no canto o nosso reisado será o primeiro.
RAYMUNDO
Será uma noite cheia... E depois, de manhãsinha, vou á pesca, porque peixe anda em cardume por ahi...
MALAZARTE
Tu sempre na pesca?
RAYMUNDO
Não queres vir commigo?
MALAZARTE
Depois de tanto tempo de matto, tenho vontade do mar.
RAYMUNDO
Está feito. Tu tocas a viola para chamar o peixe.
PHILOMENA, supersticiosa.
E a sereia canta para apanhar os pescadores... Tenho medo de pescaria em noite de Natal. Nesta noite de alegria, em que tudo renasce, matar os pobres peixes que também são creaturas de Deus...
RAYMUNDO
Pareces minha mãe com as tuas abusões... E eu aqui a perlengar, esquecendo a velha... Entra na casa... 3o MALAZARTE
PHILOMENA
Malazarte, não te mettas em pescaria em noite de Natal! Nosso Senhor vae nascer e vocês vão matar...
MALAZARTE
Tu tens medo de matar? Que me importa a morte? Vida e morte, para mim tudo é o mesmo. Olha, a noite está chegando; n'uma noite como esta, eu pensei em ti, eu te desejei lá no sertão... (Estreita Philomena nos braços e a beija.) Ouvem-se cantos de Reis, que se approximam da casa.
PHILOMENA
São elles! Vamos. Raymundo? Mundico?
RAYMUNDO, vindo da casa.
Vamos. Malazarte arrebata Philomena e saem n'um immenso enthusiasmo. Raymundo segue-os. No alto da varanda Eduardo e Militina os vêm partir Os cantos vão cessando ao longe.
EDUARDO
Oh! alegria!
MILITINA
Alegria atrevida, que não respeita a tristeza desta casa. Tudo vem desse maldito Malazarte. E lá foi elle carregando Philomena, e o meu pobre Raymundo, embeiçado por esta ventoinha, atraz dos dois como um carneiro. Em toda a parte sopra este espirito mau; se não é o próprio capeta, ... Malazarte é a vida esplendida. tem partes com elle. Ninguém sabe de onde veiu; um bello dia appareceu por aqui, fazendo todos os officios, mettendose em todas as casas, e cheio desta alegria infernal que se não acaba nunca. Dudú, Deus Nosso Senhor não ama gente que não tem a sua hora de tristeza e não chora. E esse demônio ri a todo o instante, dansa, canta, mente, furta, seduz as mulheres, enfeitiça todo mundo. Não é o próprio demônio, que veiu para nos tentar?
EDUARDO, sorrindo.
O demônio? E'a vida, a força, o enthusiasmo, Militina... Vocês vivem no valle de lagrimas e não perdoam a alegria. Malazarte é a vida esplendida, é uma expressão maravilhosa da própria natureza, nas suas transformações infinitas: hontem sol, arvore, mar, vento, leão, e hoje homem...
MILITINA
Até tu, Eduardo! Não disse que é feitiço que pegou em toda a gente?... Menos em mim, com a graça de Deus. (benze-se) Quando eu te juro que Malazarte é o diabo, é porque já tive uma visão. Tu ris? Uma noitinha, eu estava rezando sentada na minha rede e apenas com a luz da lamparina deante de Nossa Senhora, quando vi o diabo, que vinha caminhando para mim com pés de pato e olhos de fogo, e fazendo caretas para me aterrar... Continuei a rezar, e elle foi chegando, e quando esbarrou com o santo terço, deu um estouro; nisto eu ouço uma gargalhada: o diabo tinha desapparecido e deante de mim estava Malazarte a me arrancar o rosário... Então?
EDUARDO
Como o terror faz inventar historias! Melhor que essa, eram as outras tão bellas, que me contavas quando eu era pequenino, á noitinha mesmo, para me adormecer.
MILITINA
Naquelle tempo tudo aqui era tranquillo. Com que devoção rezavas na tua caminha, com medo dos encantados, dos gênios e dos lobishomens!
EDUARDO
Que medo, e que nunca mais me deixou de todo! Tudo ainda rola na minha cabeça. As historias que me contaste, Militina, não se apagaram ainda, estão frescas como me chegaram á imaginação de creança... Nellas está toda a minha meninice... Foste tu, minha mãesinha, que me creaste a imaginação, e eu te devo esta maravilha que cada um de nós tem no fundo da alma e vae carregando como um thesouro pelo tempo adeante. Foste tu que me fizeste vêr os encantos dos jardins de Bagdad; tu me mostraste as grutas, as pedras preciosas, as moradas dos gênios; tu me deste a lâmpada de Aladim, e o Oriente fabuloso passou aos meus olhos como uma phantasia. Nos teus contos recolhi a alma antiga, assisti aos combates dos cavalleiros, batalhei ao flanco de Roldão e chorei dos tristes amores de Isolda. Ah! Militina, como tu me encantaste a infância! Tudo o que aprendi depois, não vale as fábulas com que encheste a minha cabecinha de creança. São ellas, grandes, famosas ou humildes, quasi ignoradas, as geraA maravilha que cada um tem no fundo da a! doras do meu espirito, e não o que recebi depois, tão árido e triste. Oh! entranhada e longinqua poesia da raça! Como me sinto nos outros tempos, quando escuto dentro de mim a melancolia do mar e do destino que se canta na Náo Calharineta.
MILITINA, cantando.
Acima, acima, gageiro, Acima, ao tope real, Olha se enxergas Hespanha, Areias de Portugal!
EDUARDO
E a alma das nossas florestas que me revelaste... O currupira tenebroso, diabólico, terrível, astuto e mysterioso, eu o sinto dentro de mim como a divindade das mattas, e elle me apavora... E o triste carão que chora por não mudar as pennas, perpetuamente as mesmas... E a pelle do jurupary, que n'uma fome atroz devora faminta o próprio corpo que ella reveste... A própria vegetação chora nesses contos, os cabellos se mudam em plantas que se lamentam...
MILITINA
Jardineiro de meu pae, Não me cortes os cabellos, Minha mãe me penteiou, Minha madrasta me enterrou... Chô, chô, passarinho!
EDUARDO
Porque todos esses cantos do povo são tristes?
MILITINA
Porque vêm do coração.
EDUARDO
E'o longo soffrimento. O canto acompanha sempre a vida.
MILITINA
O diamante também é uma lagrima! (No portão apparece Almira, que Militina vê.) Para ti, tudo é differente, meu filho; tu tens o Amor...
ALMIRA, radiante, vestida de pastora para as festas do Natal.
Que amores são esses?
EDUARDO
Oh! minha pastora!
MILITINA
Benza-te o menino Jesus.
ALMIRA
Toda a gente está tão alegre nas ruas, e eu só ouvi me chamar bella pastorinha!
EDUARDO
Faceira!
MILITINA
Como vocês são felizes, meus filhos!
ALMIRA
E porque não esta velhinha querida, que nos conta tão bellas historias?
EDUARDO
Nós recordávamos as historias...
ALMIRA
Militina, minha velha feiticeira, conta uma historia; eu fico quietinha...
MILITINA
A noite ainda não está fechada. Não se conta historia de dia. Não quero criar rabo...
ALMIRA
Que tolices! Má! Que estavas contando a Dudú?
MILITINA
Não era nenhuma historia: falávamos de encantamentos... Mas vocês estão muito sabidos, não acreditam em mais nada, pensam que tudo é um punhado de mentiras...
ALMIRA
Eu acredito em encantados. Ah! se eu encontrasse uma fada...
EDUARDO
Que lhe pedirias?
ALMIRA
A sua varinha de condão para ter de repente uma casinha cheia de pássaros, uma fonte, muita arvore, muita flor e muita fructa...
EDUARDO
Para que?
ALMIRA
Que tolo! Para nos casarmos hoje mesmo...
MILITINA
Essas fadas foram-se... Só resta a mãe d'agua.
ALMIRA
A mãe d'agua! EVerdade, Dudú?
EDUARDO
Quando eu era pequeno, eu a vi muitas vezes a esta hora, sentada á beira do poço. Depois nunca mais a vi.
MILITINA
Ella anda por ahi... E tomem tento, que é traiçoeira... A's vezes canta: tapem os ouvidos e fujam, é o canto da sereia que attráe os marinheiros e faz perder os barcos... Mãe d'agua gosta de amor de homem, e quantos ella não tem carregado para o fundo do poço! Ella é traiçoeira, eu estou dizendo, e quem lhe ouviu o canto ou lhe viu os olhos, está enfeitiçado e perdido de amores. Basta, meus filhos, já tagarellei muito, vou rezar. (Ella sobe á varanda e, fitando ... Eu a vi muitas vezes a esta hora, sentada á beira do poço. Eduardo e Almira que estão silenciosos e scismando, murmura): Amor, Amor, que melancolia! Militina illumina um presépio que está na varanda. Sobre a mangedoura descem os raios da estreita do Oriente.
ALMIRA
E'a esta hora que a mãe d'agua apparece?
EDUARDO
Era... Mas ha muito que ella não vem...
ALMIRA
Quem sabe se não voltará um dia? Era bella, muito bella mesmo, a que tu vias?
EDUARDO
Oh! muito. Toda dourada, os cabellos immensos envolviam-lhe o corpo, os olhos eram verdes...
ALMIRA
Da cor do mar...
EDUARDO
... a pelle muito alva... Ella se penteiava com um pente de ouro, e as gottas d'agua desciam-lhe sobre o corpo...
ALMIRA
Como diamantes...
EDUARDO
... e o sol já morrendo as bebia soffrego...
ALMIRA
Eu quizera ser a mãe d'agua...
EDUARDO
Para que? Uma visão!
ALMIRA
Para me amares mais...
EDUARDO
Amo-te como és. O teu amor me sustenta e encanta. Como tu és cada dia mais linda! Almira, nesta hora em que tudo em volta de nós se abranda, tudo serena, em que a crueldade da natureza se attenúa, os teus traços se illuminam, a tua fôrma se espiritualisa. Tu annuncias em mim a vida nova.
ALMIRA
Oh! Eduardo, como te amo!
EDUARDO
Eu só quero a tua meiguice, a tua voz... Daqui a pouco cântaras para mim deante do presépio...
ALMIRA
Eu cantarei te amando, eu dansarei te olhando... Não é hora de partir?
EDUARDO
Vamos. A noite vem vindo, e que noite! Iremos e voltaremos por ella muito unidos. (Abraçam-se estreitamente.)
ALMIRA
E as minhas flores para o menino Deus?
EDUARDO
Vou buscal-as. Eduardo entra na casa para buscar as flores. Almira fica só, scisma, e depois de alguma hesitação vae até á beira do poço e fita-o no fundo, absorta.
EDUARDO
Almira, aqui estão as tuas flores... Que estás a vêr?
ALMIRA
Como é fundo este poço! A água lá em baixo é pura como um espelho. (Eduardo se approxima e olha. Almira envia beijos ás sombras queellesvém nagua do poço.) As nossas imagens ficam tão grandes e os beijos que te envio, parecem sem fim...
EDUARDO
E'a miragem, que tudo engrandece...
ALMIRA
Eu gosto de nos vêr no espelho da água, abraçados assim e beijando-nos. (Beijam-se, voltados para a bocca do poço.) O nosso amor cresce ainda mais...
EDUARDO
Elle é immortal! 4o MALAZARTE
ALMIRA
Vêr o próprio amor augmenta-lhe a doçura e faz estremecer... E no fundo sombrio do poço, que mysterios!
EDUARDO
A água do poço só reflecte o céo... O céo nos envolve de todos os lados...
ALMIRA
Assim as nossas imagens se reflectem no céo, enlaçando-se. (Eduardo atira uma flor dentro do poço.)
EDUARDO
Esta flor é para a Almira do céo.
ALMIRA
E a Almira do céo te retribue assim. (Beija-o ardentemente.)
EDUARDO
Vou encher a tua cesta de flores. (Almira fica mirando o poço.)
ALMIRA, falando, como em sonho.
Quem me dera ser a mãe d'agua, para morar na água que é o espelho do céo! Lá no fundo está o seu palácio de crystal...
EDUARDO
Aqui estão as flores... mas a cesta não ficou bem cheia... Felizmente, ha ainda muita rosa no jardim. (Vae, apanhando flores.) ... Eu te dou as minhas flores para que tu cantes.
ALMIRA
E a mãe d'agua não vem... E hoje eu quizera que ella viesse, porque estás commigo. Que ciúme não teria de me vêr nos teus braços! Dudú, se ella ama tanto, porque dá a morte no amor? O amor não é a vida? E porque o amor e a morte são inseparáveis? (Eduardo desapparece no jardim. Almira pôe-se em pé sobre a borda do poço, possuida de um encanto mágico.) Oh! mãe d'agua, canta. Eu te dou as minhas flores para que tu cantes; eu quero essa voz de sedução infinita, que repetirei ao meu amado, e elle será eternamente meu. Ensina-me o teu segredo... Toma esta rosa, mais esta... Vem... vem... eu te desejo ardentemente; oh! tu que és invencível no amor, eu quero o teu sorriso. Canta... Dá-me o teu mysterio, mãe d'agua... Ah! eu te vejo... Emfim! Eduardo! Ella sobe n'agua... ella me sorri... ella me chama...
Almira, attrahida pelo mysteria, desaparece no poço. Eduardo vem do fundo do jardim carregado de flores e vê á beira do poço a mãe d'água, que lhe sorri.