TERCEIRO ACTO Malazarte · Capítulo 4 de 4
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TERCEIRO ACTO

TERCEIRO ACTO

A praia da Boa-Viagem, na bahia do Rio de Janeiro. Dyonisia, de cabellos soltos, ligeiramente vestida, de pés descalços, deitada sobre um pequeno rochedo, escuta n'um busio os seus cantos de amor e sorri maravilhada. Depois de alguns momentos, approxima-se lentamente da praia uma barca em que vem Malazarte. Ao tocar a praia, Malazarte salta em terra e amarra a barca. Malazarte vae seguindo pela praia, quando vê Dyonisia, e radiante dirige-se a ella.

MALAZARTE

Que estás ouvindo ahi? 7o MALAZARTE

DYONISIA, mysteriosa e faceira.

Nada...

MALAZARTE

Nada? Sim... Conheço essa velha historia... Tu queres ouvira maré que vem businando de longe... E' o que ensinam os pescadores... O mar sopra no busio antes de soprar na praia. Acreditas nisso? Que o mar canta?

DYONISIA

Não é o que eu estou ouvindo...

MALAZARTE

Que é então?

DYONISIA

Cantos de amor!

MALAZARTE

Cantos de amor... Quaes?

DYONISIA

Os meus... os que eu canto quando estou apaixonada e sósinha guardo aqui para os meus namorados...

MALAZARTE

Deixa-me ouvir.

DYONISIA

Não, tu não és meu amante.

MALAZARTE

Mas posso ser... se tu quizeres... hein? Como tu és bella! Como és dourada e côr de rosa... Dá-me o busio...

P' a" t O. § a

DYONISIA

Nunca... Não foi para ti que eu cantei. Elle estava bem escondido e eu vim buscal-o para quem tu sabes.

MALAZARTE

Mas eu o quero para mim. Dá-me... Elle persegue Dyonisia, que risonha corre. Alguns instantes depois, Malazarte apodera-se do busio.

DYONISIA, inquieta.

Ah! não escutes, Malazarte!

MALAZARTE, escutando no busio.

Eu ouço um murmúrio longínquo. Não é o vento nem o mar. E'umá voz de doçura e de caricias, uma voz de mulher, sim, murmúrios de amor... Assim cantou para mim a minha primeira namorada, quando eu me fazia homem... Ha tanto tempo já! Ainda guardo o som dessa voz. São de verdade os teus cantos, Dyonisia?

DYONISIA, voluptuosa e seductora.

São os meus suspiros e os meus desejos. Porque descobriste o mysterio?

MALAZARTE

O mysterio da voz... Agora te conheço melhor: não é somente por essa voz profunda e secreta que tu seduzes, Dyonisia. Tudo em ti é amor!

DYONISIA

O amor é a minha vida, Malazarte.

MALAZARTE

Tu és o amor. Os teus olhos têm uma luz ardente e meiga, e os teus cabellos são ouro e fogo. Deixa-m'os tocar. (Elle toma nas mãos os cabellos de Dyonisia.) Como são vivos!

DYONISIA

Sempre em desordem.

MALAZARTE

Quem pôde reter as chammas? Malazarte acaricia os cabellos de Dyonisia que, de novo reclinada sobre o rochedo, sorri n'um voluptuoso encantamento.

DYONISIA

Tu... somente tu... As tuas mãos queimam, mas apaziguam... Que força em tuas mãos! E, no emtanto, não me fazes nenhum mal. E'extraordinario! Dizem que és terrível, violento e m á o...

MALAZARTE

Eu?

DYONISIA

Contam tanta cousa a teu respeito...

MALAZARTE

Mas, emfim, o que?

DYONISIA

Cousas interessantes, mas tão inquietadoras! Dize lá o que se passou ultimamente comtigo e as filhas de um sujeito que tem uma roça e foi teu patrão...

MALAZARTE

Ora, pouca cousa...

DYONISIA

Conta...

MALAZARTE

A historia foi que esse endemoniado roceiro tinha três filhas: Catharina, Rita e Benedicta. Logo que entrei para o serviço, as caboclas se inflammaram e começaram a me grelar cada olho... Fiquei logo assanhado... mas o difficil era escolher entre as damnadinhas. Se Catharina tinha olhos de veada, Rita tinha os cabellos cacheados, que me faziam cócegas, e Benedicta, a m a i s cafusa, tinha um corpinho de amor... Não havia duvida, eu precisava das três... Mas como havia de ser?... Como havia de ser? A velha andava arrepellada e espionava as pequenas. Ora, um dia entre os dias, eu estava com o patrão tratando do gado, quando a este se metteu na cabeça que era tempo de lua e occasião de fazer uma boa plantação. Quando chegámos á horta, não estavam as ferramentas. Então, volta-se o patrão e diz: « Pedro Malazarte, vae buscar a enxada, a foice e a pá, todas três! » — Eu puz cebo nas canellas e fui voando, imaginando commigo mesmo: « Chegou o momento de pegar as pequenas e embrulhar a velha candongueira... » Chego á casa e topo as bichinhas com a mãe tecendo rede, socegadinhas que era um gosto. Sem mais aquella, fui dizendo: « Patroa, o patrão quer as filhas delle lá embaixo para ajudarem aplantação. Elias têm boa mão e hoje é lua. » A velha rosnou; oh! diabo! — Eu repeti a mensagem. A megera disse que bastava ir uma. As coitadinhas, que deliciosas creaturas e espertinhas! tinham entendido e me miravam. Criei animo e gritei com toda a força dos meus peitos para o patrão: « Todas três, senhor meu a m o? — E a voz do velho chegou fraquinha: « Sim, todas três, Malazarte. » — A velha resmungou, mas obedeceu. E eu parti com as três pequenas. Uma feita no caminho, a casa se escondeu, e nós tomámos pela estrada grande afora...

DYONISIA

E depois... que fizeste?

MALAZARTE

O que tu farias no meu caso... Ah! tu não...

DYONISIA

Todas três?

MALAZARTE

Sim. Porque não?

DYONISIA salta aos joelhos de Malazarte e abraça-o.

Que bello! Gosto disso...

MALAZARTE

E eu então? Mas não ha nada de espantar, porque a velha Militina, que sabia historias do tempo antigo, me contou que um rei teve trezentas n'umanoite... Que sorte!

DYONISIA

E'mentira... Eu te affirmo.

MALAZARTE

Porque não ha assim tanto dessa fazenda, mesmo n'aquelles tempos...

DYONISIA

Tu serias capaz?

MALAZARTE

Tu vales mais que trezentas... Mas deixemos estas historias. Vamos pelo mar afora, a barca está ahi; vamos, Dyonisia... Toma este annel! Vem.

DYONISIA, encantada e hesitante.

Quem te deu? Uma mulher... eu juro.

MALAZARTE

Não... Furtei.

DYONISIA

Ladrão, oh! eu te conheço!

MALAZARTE

Mas dessa vez furtei de ladrões.

DYONISIA

Onde?

MALAZARTE

N'uma fazenda velha, onde eu trabalhava.

DYONISIA

Que trabalhador!

MALAZARTE

Quando não ha outro meio de arranjar de comer... depois, varia-se um pouco.

DYONISIA

Mas vamos á historia do annel...

MALAZARTE

Sim, no tempo em que eu trabalhava no campo, só se falava de uma quadrilha de ladrões, e havia um pavor dos diabos. E o que intrigava o povo, era que ninguém descobria os salteadores, nem onde elles escondiam os furtos, e tudo andava saqueado. Um espanto geral. Ora, uma noite fui á caça e trepei n'uma arvore, para fazer uma espera, porque o bicho devia dar de madrugada. E assim fiquei quieto, e quando o dia já vinha vindo, ouvi um barulho extranho no matto. Parecia uma tropa de soldados marchando com cautela. Desconfiei que a funcçãoera commigo e preparei a arma para me defender... A gente tem sempre negócios com a policia... Puz-me á espreita, e que vi? Uma dúzia de homens, que lá do alto me pareciam anões, carregando caixas, malas e saccos pesados. Os camaradas caminhavam com difficuldade debaixo da carga. Emfim, passado algum tempo, eis os patifes debaixo da minha arvore. São os ladrões! Elles contam as façanhas daquella noite. Alguns tinham apenas devastado gallinheiros; outros, porém, traziam dinheiro e jóias. « Oh! lá, diz um delles, que era o chefe, escondam tudo isso e vamos comer. » Os companheiros obedecem e, levantando uma pedra, descem debaixo da terra por um buraco e ahi escondem tudo, salvo a comida. Depois voltam acima, e principia uma scena de feitiçaria, rezas e cantos lugubres... « A mesa », manda o chefe, e todos começam a devorar. Oh! que fome canina! Oh! que lobishomens! Comem as aves cruas, quasi vivas, aos pedaços sangrentos. Fazia nojo, e eu, damnado, em cima, com vontade de lhes mandar chumbo. De repente, um delles, farto e cançado, com a bocca cheia a escorrer sangue, com os olhos accesos, grita: « Água! — Á g u a? escarnecem os outros. — Água? bebe sangue... » Então eu lá de cima lhes mando água... Atordoados, olham para o alto, e que espanto, que pânico n'aquellas caras medonhas. Agitam-se todos e berram: « O céo chove uma chuva fedorenta! » — Espavoridos, correm pela negrura da matta a dentro... Então eu desci e, sem mais aquella, apanhei o dinheiro e as jóias, e fiquei rico por muito tempo. Só resta este annel. Toma-o e dá-me o busio.

DYONISIA, hesitando.

Nunca... MALAZARTE apodera-se do busio n'um voluptuoso enthusiasmo.

Eu quero esse canto de amor... dá-me... Eu o busco também, porque ahi tu cantaste e amaste como o mar, a floresta, o sol e tudo o que tem vida eterna. Oh! como é delicioso! Esta concha é a tua bocca, cheia de amor e de doçura. (Beija loucamente o busio e, de repente, como um Tritão, sopra ardente e radiante.)

DYONISIA, inquieta e amorosa.

Que fazes?

I 3

DYONISIA, sorrindo, languida e amorosa.

Vem, Eduardo. Como é doce e extranho o amor nesta liberdade e nesta luz! Tudo aqui é o infinito, nada nos impede de nos pertencermos um ao outro, como o sol e a onda do mar. E que irradiação em teu ser, quando te aperto ao meu seio... Gosto tanto de acariciar os teus cabellos!

EDUARDO

Tu acalmas e illuminas!

DYONISIA

Eu te acalmo! Como amo loucamente os teus olhos, quando elles têm este fogo da vida que está no teu coração abrasado! (beija-o).

EDUARDO

E da tua bocca recebo o sopro mysterioso da minha vida nova. Dá-me ainda... sempre.

DYONISIA, beijando-o febrilmente.

Toma, toma!

EDUARDO

Os teus beijos e as tuas caricias são para mim a vida. A vida eterna! Dyonisia, eu me sinto como as outras cousas inconscientes e felizes. Em ti, meu amor, tudo, tudo!

DYONISIA

E'o divino esquecimento... 8o MALAZARTE

EDUARDO

Nos teus braços, na tua bocca, nos teus olhos, em todo o teu corpo, o meu ser se desperta. Os teus gestos de amor são infinitos como as expressões da Natureza.

DYONISIA

Deixa mirar-me no fundo dos teus olhos maravilhados... São como um poço sombrio, e lá em baixo a água... Eu ahi me vejo extranha e outra... Eu me vejo!... Tu me amas!

EDUARDO

Parece que ha muito tempo ahi guardo a tua imagem. Como és bella e singular! (Beija-a e depois contempla-a docemente, vê o busio, sorri e vae apanhal-o. Dyonisia o impede vivamente).

DYONISIA

Não. Deixa-o... Está tudo acabado.

EDUARDO

Acabado? O que?

DYONISIA

Vim aqui buscal-o. Os meus cantos ahi não estão mais, aquelles que te esperavam... Malazarte soprou dentro do busio. Foram-se!

EDUARDO

Malazarte?

DYONISIA

Elle passou neste instante e soprou dentro do busio como um furacão... Queforça, que enthusiasmo, ecomo elle mente!

EDUARDO

Oh! é um farcista, um trapaceiro... eu o conheço.

DYONISIA

Talvez... mas como sabe inventar, e que historias tão divertidas conta!

EDUARDO

Mentiras.

DYONISIA

Mas tão bellas! Quem me dera mentir como elle! Sim... A mentira é mais verdadeira do que a verdade de toda a gente. Não sei me explicar, ella tem mais vida, mais sangue, mais côr. Vale mais do que a verdade, porque representa as cousas que deviam ser e que não são por culpa nossa. Eduardo fica silencioso, a scismar

DYONISIA carinhosa.

Não penses mais nisso... Se eu não te posso dar aquelles cantos que tu ouvirias toda a vida, dar-te-ei cousa melhor...

EDUARDO

Que? mysteriosa!...

DYONISIA

O meuthesouro... As maravilhas do mar, pérolas, estrellas, coraes, e flores do fundo do oceano, que jamais tu viste... Esse thesouro vem da mãe d'agua! A água, como todas as cousas, tem mãe... Ella é eternamente viva, porque é a fonte da existência e a renova perpetuamente. E'infinita e S MALAZARTE se multiplica sem se fatigar. Está na origem de tudo... Desce dos céos e torna a voltar das profundezas da terra e gera as nuvens errantes. Corre sobre a face do mundo, que ella embelleza, e das entranhas da vida sobe aos olhos dos homens para os consolar... (Ella vae buscar o thesouro.)

EDUARDO, seguindo-a.

Dyonisia!

DYONISIA

Espera-me ahi. Não quero que ninguém descubra os meus segredos... (Sáe.) Na praia chega a Mãe de Eduardo, que o busca. Eduardo fica commovido e attonito, ao vêl-a.

A MÃE

Meu filho... Emfim!

Eduardo continua silencioso.

A MÃE

Não me conheces? Que te fiz?

EDUARDO, lenta e dolorosamente.

Que me queres? Porque vens com esse ar sombrio, com esses olhos tristes? Porque turbas o mysterio do amor e da vida? Volta!

A MÃE

Ha mezes que me abandonaste... Todos os nossos bens foram vendidos. Tomaram-me a casa... E porque me deixaste?Que te fiz, a ti, meu único filho? Devias ser o meu arrimo e a minha consolação... Porque fugiste de mim?

EDUARDO

Não sei... Deixei a morte e a dôr...

A MÃE

Eu te faço horror... Ah! comprehendo. Tu fugiste á minha tristeza... Se eu adivinhasse, meu filho, teria feito da minha vida outra cousa, teria occultado as minhas afflicções; eu as teria enterrado bem no fundo do coração e no men rosto enrugado verias brilhar a alegria! Que não faria por ti, para te guardar sempre ao meu lado, ligado eternamente a mim, como o filho é ligado á mãe nas suas entranhas...

EDUARDO

Agora conheço a felicidade.

A MÃE

E a mim esqueceste!

EDUARDO

Fui attrahido pela força do Amor! Encerrado em nossa vida sombria, angustiado, Mãe, parti para matar esta sede de felicidade, que é a minha tortura.

A MÃE

Eu sou tua mãe e não te quizera jamais privar do teu quinhão de felicidade... Perdoa, se o não te pude dar...

EDUARDO

Tu me esqueceste, Mãe!

A MÃE

Nós nos esquecemos um do outro... A dôr se apoderou de nós... Eu tinha todas as minhas angustias, e tu a saudade da morta...

EDUARDO

Vivíamos no soffrimento.

A MÃE

Dize... Encontraste ao menos a felicidade?... Não sei; temo que não sejas feliz, meu filho...

EDUARDO

Mãe, sou feliz... A MÃE

E essa mulher? EDUARDO

Dyonisia? A MÃE

Não a conheço... Apenas a vi... Em que horrível instante! Parecia que ella me levava a vida... Nesse dia fiquei só, a noite foi chegando...

EDUARDO, depois de algum silencio, e como n'um sonho.

Por ella possuo toda natureza, por ella eu me confundo com o Universo... E' a inconsciencia suprema que dá o amor... A sociedade nos occulta a natureza, e o amor a revela... E'o êxtase e o esquecimento... E tu vês, Mãe, como os meus olhos estão cheios de belleza... Oh! o espectaculo maravilhoso não é somente a belleza, é a vida toda!

A MÃE

Não é uma vida consciente a tua... E' um delírio!

EDUARDO

A consciência fez-nos monstros a ti e a mim. Estamos em frente da natureza como phantasmas amedrontados. Tudo nos espanta: as forças do Universo, a belleza, a vida, a alegria, e nós fizemos da sociedade uma organisação contra a natureza... E' preciso matar ávida! E'o pacto de alliança... e nós nos enchafurdamos nesta lama... Oh! os seres livres!... Vê Malazarte, vê Dyonisia; eu quero a inconsciencia delles. São forças, vivem, brilham, porque só fazem os gestos da natureza. Passam, transformam-se como as nuvens e a luz... E nós, Mãe? E eu? Jamais serei um com o Universo... Para sempre a separação. A sociedade me deu esta consciência... Eu posso affrontar a sociedade, mas, oh! mamãe, temo a natureza. Bem no fundo do meu ser ha um sentimento remoto, uma lembrança que se não apaga, e que me separa das forças do Universo, e que me diz que elle é elle, e que eu sou eu até á morte... E depois outras agonias vieram... Arranca-me esta consciência, filha do terror...

A MÃE

Meu filho, não te comprehendo; e que posso fazer para esse soffrimento de mim desconhecido?... Vem commigo... Vem para o meu lado...

EDUARDO

Não, eu fico, quero ir até ao extremo. Escuta, tenho necessidade de tudo te dizer... Mamãe, porque estas cousas em nossa alma? Tu és mãe, deves saber mais do que eu, conheces os mysterio da vida que se passa em ti, e por elle estás ligada ás origens da creação...

A MÃE

Eu sou uma pobre mulher.

EDUARDO

Ah! si soubesses o que é a minha alma... Trago em mim todos os terrores antigos e profundos... São os espectros vagos, informes, mas quanto poderosos! São os creadores! Tira-me tudo isto do espirito. E'o teu dever... Foste tu, Mãe, que me transmittiste o maior dos males, porque por elle estou morto e jamais vivi... Arranca-me tudo isto... e serás abençoada. Será a remissão do peccado inicial... Ah! tu não podes! Só Dyonisia pôde!

A MÃE

Eduardo, é a loucura, o desespero da felicidade que te dá o delírio. A vida é ainda outra cousa... Olha em torno de ti, meu filho. Ha um dever para com os outros... Ha o soffrimento humano. E'o teu dever...

EDUARDO

O dever para com o soffrimento? Sou eu que não comprehendo a tua linguagem... A Natureza conhece esse Só dyonisia. dever? Pergunta ao sol se elle faz o seu dever, dando-nos o calor e a luz? Interroga a Natureza em tudo. Oh! quando seremos nós, verdadeiramente, as simples expressões da vida?

A MÃE

E a consciência, desgraçado?

EDUARDO

Devíamos viver na inconsciencia absoluta, como os astros e as arvores; mas se, por fatalidade da nossa íntelligencia nasce a consciência da vida, então que ella nos dê o sentimento do nosso logar no Universo, e faça a natureza ostentar-se como um espectaculo divino e que todo o nosso ser seja uma expressão da vida immortal, n'uma perpetua transformação... Então, não haveria mais pavor...

A MÃE

Haverá sempre, meu filho, o mysterio, que só Deus conhece.

EDUARDO

Mãe, vejo que estamos separados para sempre. Volta ao teu mundo engendrado pelo Terror...

A MÃE

Eduardo, tu és meu filho.

EDUARDO

Libertei-me de ti e de tudo o que representas... Dyonisia, Dyonisia, vem!... Na praia vem chegando Militina, guiada por Malazarte.

EDUARDO

Militina! aqui!

A MÃE

Pobre louca, procurando sempre na praia o filho...

MALAZARTE

Vem, minha velha... O vento está quente e a areia queima. Procuremos um pouco de sombra, e deixa o mar tranquillo... Elle não tem teu filho, o mar... Tu não o conheces, elle mata, mas é muito soberbo para guardar os cadáveres. Elle os restitue á terra, que come os mortos...

MILITINA

Não, ainda não restituiu meu filho, mas elle o fará... Supplicarei tanto que terá piedade de mim. (Dirigindo-se ao mar.) Porque tomaste meu filho? Era tão bonito! Não o comas... Quizeste te vingar, porque elle apanhava os teus peixes? Era para mim, sua mãe! Eu gosto tanto de peixe... E o meu Raymundo era um bom filho, que queria muito bem á sua mãesinha, e que lhe cantava ás noites as mesmas cantigas de pescador, que elle te cantava. Onde está agora? Responde... O pobresinho deve estar com fome... (Começa a deitar ao mar a comida que trouxe na cesta.) Tu não me voltas, mas tu comes... E se estás morto, tua alma não terá fome... Toma mais! Como tens fome, meu filho! Faz frio ahi em baixo d'agua? Hein? Dize á tua mãesinha... Não ouço nada, fala mais alto! Ah! elle não quer que tu saias da Luz bemdita, allumia meu filho. água e venhas aos meus braços? Elle não quer... Ah! tu és mau, furor de Deus! tu me queres pôr maluca? Cala-te, maldito, enganador d'aquelles que te amam... Dá-me meu filho, ou então... então não cessarás nunca de te agitar de dia nem de noite... não terás repouso nem calma; por meus soluços e maldições, serás o espanto eterno, a separação dos homens e das terras, serás castigado pelas rodas dos vapores e retalhado pelas quilhas... Ah! soffres dessas feridas? Gemes?... E o meu coração não soffre? não sangra também? (Ri horrivelmente. A Mae e Eduardo se agrupam aterrados. Malazarte torna-se impassível.)

MILITINA, a Eduardo.

Tu estás ahi, Dudú? Eu te conheço... tu és bom, tu vieste também buscar o teu companheiro, o teu irmão de leite... Vem... ajuda-me... Sabes? elle não morreu... elle está no fundo do már... (Silencio.) E se elle está morto! Virgem Santissima, Mãe dos homens e das águas! Nossa Senhora dos Navegantes, piedade de sua alma! Elle está morto... Morreu sem a Santa Luz! Na escuridão... horror! Aqui está uma vela, que o allumiará na eternidade. (Accende uma vela dentro de nm rochedo.) Luz bemdita, allumia meu filho! Afasta delle as mães d'agua perversas, que moram nestas grutas...

A VOZ DE DYONISIA

Eduardo! Eduardo!... A estrella (Dyonisia apparece), as pérolas, o coral! Todo o meu thesouro! Para o filho da Terra as maravilhas do mar! 9o MALAZARTE

MILITINA

Ah! A mulher loura! Eu te reconheço... E'ahi que tu moras... Foste tu que levaste meu filho... Tu o enfeitiçaste, pérfida!

EDUARDO

Ella salvou a tua vida.

MILITINA

Ella tomou a de meu filho... Eu a conheço, ella é bella... Tem o olhar das esmeraldas... E'o mar... Malvada! Dá-me meu filho. (Dyonisia sorri.)

EDUARDO

Oh! basta... Porque tu vieste, tu também? Porque me trouxeram até aqui os clamores dos vossos desesperos?...

MILITINA

Eu quero meu filho... que ella m'o restitua... (Avançapara Dyonisia e recua.) Não me olhes assim, fecha os teus olhos ou eu os arranco... Fecha esses olhos, bruxa!

A MÃE

Eduardo, meu filho, vem... Esta mulher... Oh! Mãe Santissima, misericórdia! (Ella senta-se acabrunhada n'uma pedra.) Militina continua pela praia a implorar o mar e desapparece.

MALAZARTE, a Eduardo

Tu és cruel!

EDUARDO

Separei-me de tudo e vim muito longe. Ide á vossa vida, chorae, ficae no soffrimento...

MALAZARTE

Eu estou em toda a parte.

EDUARDO

Eu sei.

MALAZARTE

E porque me queres metter n'um circulo como um peru? Eu rio e posso chorar também. Não sou nunca o mesmo. Para mim, viver é mudar. Estas pobres mulheres soffrem, e eu tenho pena...

EDUARDO

Estou longe dessas tristezas... Tudo é alegria e esquecimento... São lamentações muito distantes de mim...

MALAZARTE

Entretanto, tão próximas...

EDUARDO, a Dyonisia, que durante esse tempo contemplava absorta

o mar.

Dyonisia, que estás a olhar?

DYONISIA

Eu vejo o mar e sobre elle o vento que passa. E'a alegria, e ella faz estremecer... O mar soffre?

MALAZARTE

Elle se lamenta também... Que importa? Olha as ondas que correm e brincam como pássaros...

DYONISIA

Que belleza, Malazarte!

MALAZARTE

Que vontade de me ir pelo mar afora... Gosto delle assim, fremente! Sobre elle fica-se alegre como o vento e as vagas...

DYONISIA

Sobre o mar canta-se sempre... Sonha-se, ama-se, domina-se...

MALAZARTE

A terra me fatiga, porque é sempre tranquilla... O mar remexe-se, tem nervos como nós...

DYONISIA

Elle espanta e attráe.

MALAZARTE

A minha barca está ahi... vem...

DYONISIA

Eu? partir?... (Olha profundamente Eduardo.)

EDUARDO

Tu tremes, Dyonisia... O mysterio te tenta. Desejas a perpetua mudança...

DYONISIA

Quero ficar comtigo... Nós somos inseparáveis e unidos para sempre...

A MÃE, sahindo do seu profundo silencio.

Tudo é separação e dôr!

MALAZARTE

Oh! diabo... eu ia partir esquecendo as pobres creaturas... Vamos... Voltem para a casa... Mas onde anda Militina? (Chama-a.) Militina!

MILITINA, errante pela praia, vê um osso, apanha-o e contempla-o.

Ainda um... E'preciso procurar os outros... São de meu filho ou de outros mortos, de que elle devorou a carne e rejeitou o esqueleto na praia. E os animaes do mar, e as aves do céo fizeram carniça!... Pobre filho! juntarei os teus ossos e tu te levantaras radiante no dia da resurr-eição... Tu resuscitarás, Raymundo.... Eu te verei... eu te verei...

MALAZARTE

Vamos, deixa-te disso, vem rezar em casa; isso consola a gente velha... Malazarte conduz as duas mulheres pela mão.

A MÃE, olhando dolorosamente o filho.

Eduardo! Eduardo fica triste, scismando. Dyonisia tem um movimento de revolta e exclama extranhamente. o4 MALAZARTE

DYONISIA

Ah! a maluca! Tu sabes? ella me divertiu... (Imitando Militina.) Eis aqui um osso, mais outro... Olha: ella esqueceu um, o seu morto não será perfeito... Será capenga no dia da resurreição... Isso alegrará a companhia...

EDUARDO

Dyonisia, deixa essa brincadeira cruel...

DYONISIA

Que tens? Ainda ha pouco estavas tão forte...

EDUARDO

Deixa em paz os mortos...

DYONISIA

Os mortos? Estes ossos? Os mortos?

EDUARDO

Ha sempre qualquer cousa de sagrado que fica... Esses ossos talvez sejam de náufragos...

DYONISIA

E eu que te julgava livre! Não, tu estás ainda preso a estas idéas contra a vida. Este osso te espanta. Vae. (Fala ao osso.), volta á terra, e alimenta com a tua cal bemfazeja as plantas e as flores. Tu não te levantarás n'um esqueleto no dia do Juizo. A tua vida é continua e eterna, não estás morto, és vivo e dás a vida. Vae, nada é morto, tudo é vivo... (Arremessa o osso.)

EDUARDO

Eu sei que nada é morto.

DYONISIA

E nada espera a resurreição... Crê que eu sorrio quando dizem que no ultimo dia a carne se transformará gloriosa... Eu me olho... Aqui tens o meu semblante, os meus olhos e a minha bocca... Aqui tens o meu corpo... Estou morta?

EDUARDO

A carne é gloriosa!...

DYONISIA

Ha um dia final? Aquelle que vive nos ardores da carne, está transformado... Para elle os dias se succedem intermináveis e bellos no frenesi do amor!...

EDUARDO

Eu esqueço a dôr e a vida, Dyonisia eterna! Tudo se desperta...

DYONISIA

E'a resurreição do corpo... Por tanto tempo martyrisado, elle se ostenta... Começa a sua liberdade e recebe da luz a vida que transmitte aos outros seres... Tudo estremece de novo, como outr'ora. O véo sombrio que envolvia as cousas, despedaçou-se pela força do sol, e os corpos erguemse dos túmulos, onde o terror do pecado e do castigo os havia sepultado... E'a festa divina da natureza... Não ha 9b MALAZARTE bem nem mal... Tudo que é bello, é o bem... O Universo é bello em suas representações que passam e se transmudam... Como és bello agora que és livre e transfigurado... E eu não tenho receio de te desvelar o meu corpo... Ser núa como o sol! Oh! os corpos se levantam graciosos como palmeiras... Oh! alegria, oh! delírio! A carne do homem e a carne da mulher são como sumptuosas flores nuas... Resurreição! Resurreição! Eduardo fica inquieto da exaltação de Dyonisia.

DYONISIA

Eu te atormento e te faço medo...

EDUARDO

Esqueçamos tudo eamemo-nos, Dyonisia.

DYONISIA

Tu não tens a força de esquecer. Estás ainda neste mundo ao qual te arranquei, mas aonde voltam os teus pensamentos...

EDUARDO

Eu sou livre. Separei-me desse mundo.

DYONISIA

A tua separação não é a libertação absoluta.

EDUARDO

Ella será... mas fiquemos aqui; porque ir mais longe?...

DYONISIA

E' preciso que eu continue.

EDUARDO

Aonde vaes tu?

DYONISIA

Não sei...

EDUARDO

Aonde vamos nós?

DYONISIA

Para que saber?

EDUARDO

Todo o desconhecido me espanta...

DYONISIA

Como és covarde!...

EDUARDO

Dyonisia?

DYONISIA

Não me conhecias quando partiste commigo... O resto é como eu, incerto e mysterioso... Não sabes que nada é eterno na vida immortal?

EDUARDO

Ha sempre este terror que nos vem do fundo da consciência... Somos bem mesquinhos. Precisamos da sociedade, necessitamos destas casas, das leis, de tudo o que occulta e protege o homem... Para sermos livres e felizes, precisamos de baluartes...

DYONISIA

Eu não vejo esses baluartes, estou fora dessas illusões...

EDUARDO

Tu és feliz!

DYONISIA

Eu te quizera egual á luz... em toda a parte e na origem das cousas...

EDUARDO

Tu és a luz...

DYONISIA

Eu te quizera inconsciente como o vento que sopra e no emtanto acaricia... como a água abundante e fresca, como a côr infinita das cousas que crêa a magia para os nossos olhos...

EDUARDO

Eu vivo da tua magia, Dyonisia...

DYONISIA

Sim, a luz, o sol, a côr, o mar... Ser tudo isso e não ser nada disso.

EDUARDO

Minha alegria!

DYONISIA

Eu quizera desapparecer na tua natureza como a luz desapparece docemente nas trevas poderosas... Tu carregas o fardo do passado e o espanto do futuro... Só Malazarte é extranho ao tempo... é o espelho do universo, sempre eterno, sempre vário...

MALAZARTE, entra n'um grande júbilo

Ao mar! ao mar!

EDUARDO

Onde as deixaste?

MALAZARTE

Quem?

DYONISIA

As velhas! E'em que elle pensa...

MALAZARTE

Levei-as durante um quarto de hora... mas era muito conduzil-as até á casa. Elias conhecem o caminho. Os velhos são como os cegos e os cães: não se enganam de estrada. Agora, para o mar!... O vento anda por ahi, vae soprar e nós vamos dansar na barca...

DYONISIA, rindo, commandando o mar

Move-te, agita-te, espanta, mar! sopra, vento!... eu quero o mar grosso, eu quero cantar e rir no temporal!

MALAZARTE

Não te cances; ahi vem o temporal, que tu chamas...

EDUARDO

Fiquemos aqui tranquillos.

MALAZARTE

Tomemos a barca... quero mostrar-lhes uma cousa muito linda... ioo MALAZARTE

DYONISIA

O que?

MALAZARTE

Outro dia, estava sósinho na barca, o vento era fresco, puz a embarcação no bom rumo e me deitei, olhando as nuvens que brincavam lá em cima... Assim fiquei até que dormi. De repente, um choque... Despertei e vi que ia de encontro a um rochedo, que seguramente lá não estava antes... Oh! se eu conheço o mar por aqui!...

DYONISIA

Onde esse rochedo? Na immensidade das águas?...

MALAZARTE

Sim, muito longe... na immensidade das águas... A' vista do rochedo, virei a barca e approximei-me o mais de leve possível da ilhota. Naquella água funda, naquelle oceano escuro, a ilha era como uma flor vermelha, aberta sobre o mar. Atraquei, pulei em terra, e a maravilha augmentou: toda a ilha era um palácio de coral.

DYONISIA

O palácio de coral!

MALAZARTE

A agua cerca-o de todos os lados... Entrei. No interior estão aberturas por onde o sol penetra... A' noite a lua deitada sobre o leito de coral dorme um somno côr de rosa...

DYONISIA

E depois? Desappareceu tudo?

MALAZARTE

Não. Tudo alli permanece para sempre.

DYONISIA

Oh! eu quero vêr... eu quero...

MALAZARTE

Elle é teu, Dyonisia! Vem vêl-o!

DYONISIA

Vou... Eduardo, é preciso ir...

EDUARDO

E' preciso ficar, Dyonisia.

MALAZARTE

Dyonisia!... O palácio de coral...

DYONISIA

O meu palácio!... O meu sonho, que se realisa. Alguma cousa que estava em mim e que vem de ti, Malazarte!

MALAZARTE

E' tarde! Vem!

DYONISIA

Eu o desejava sem saber. Eram todos os meus desejos, inquietos e desenfreiados... Eu errava sobre a terra e o buscava... O meu palácio estava no fundo das águas... Elle sáe das águas... Sinto em mim, no mais remoto do meu ser, como um retorno...

EDUARDO

Não, Dyonisia. Escuta, é uma mentira que elle nos conta... E' a tua ultima invenção, impostor? Vae-te, bandido!

MALAZARTE

Tu te zangas, homem da verdade? Vem v e r a mentira...

DYONISIA

E, no emtanto, elle existe!

EDUARDO

Existe? Mentira! illusão, desgraçada! Durante alguns momentos, Dyonisia vê o palácio de coral... Ella olha Eduardo e, dissimulando a sua visão e a sua fé, quer attrahil-o para o mar

DYONISIA

Eu vou comtigo... Cantarei emquanto atravessarmos o mar...

EDUARDO

Nunca!

DYONISIA

Vem... tu és o meu domínio, o meu reino; em teu sangue e em tua alma vivo na força da minha natureza... Vem... E' no mysterio do mar, e deante de todos os mysterios, que devemos realisar a união absoluta dos nossos seres...

EDUARDO

Tu me aterras!

DYONISIA

Covarde, covarde! E' assim que sois, apavorados deante da mais simples cousa da natureza, deante da água...

MALAZARTE

Deixa-o... Tu és livre e forte. A barca está prompta, e se o vento nos ajudar, tu verás abrasado pelo sol o teu palácio de coral!

DYONISIA

O meu palácio de coral!... Não, eu não devo. O sonho é bello, mas este sonho me matará... Sinto que não serei mais eu... (A Eduardo.) que sem ti a minha vida se acabará; o sonho vae desapparecer, e tudo entrará na inconsciencia profunda... (Fitando Malazarte.) O sonho é bello, a natureza é a vida eterna...

MALAZARTE

Vem á immensidade das águas...

DYONISIA

Quero a ilha de coral, quero a magia da luz, a côr e a água banhando a minha morada...

EDUARDO

Não... Fica nesta terra, que foi a do nosso amor... Não me fujas...

DYONISIA

Quem se pôde reter na violência do desejo? Ha sempre alguma cousa além que é necessária aquelles que vivem do absoluto... Dá-me a eternidade! Tu não podes!

MALAZARTE na barca. Vem, Dyonisia... Tu serás a voz do mar! Vem!

DYONISIA

Eu serei essa voz eterna... Eu serei o murmúrio infinito do amor e do desejo... Oh! alegria, se Dyonisia morrer...

MALAZARTE

A voz do mar cantará eternamente. Dyonisia entra na barca, que parte lentamente, levando Malazarte e Dyonisia. Na praia, Eduardo fica só. Tudo é separação e dôr!

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