SEGUNDO ACTO Malazarte · Capítulo 3 de 4
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SEGUNDO ACTO

SEGUNDO ACTO

N'uma sombria sala de visitas, Eduardo está só. Alguns instantes depois, sua mãe, vestida para sahir, vem do interior da casa. Ella pára deante da mesa onde, n'uma gaiola, jaz morto o canário de Almira.

EDUARDO

Morto também! Tudo é morto...

A MÃE

Andava tão triste...

EDUARDO

Entristeceu no dia de Natal, mas um pouco antes de nos...

A MÃE

A morte dá aviso... Só nós não entendemos.

EDUARDO

Estamos tão distantes da natureza que caminhamos como cegos e surdos.

A MÃE

E' assim a fatalidade nos surprehendeu! Nenhum dos três que restavam nesta casa, foi poupado!

EDUARDO

Onde está Militina?

A MÃE

Foi á egreja pôr uma vela por alma do filho. Vou ao seu encontro.

EDUARDO

Porque a deixou sahir só?

A MÃE

Por alguns momentos não ha perigo. E inoffensiva... Mettidana sua dôr, não vê o mundo, e ninguém lhe faz mal; todos a conhecem.

EDUARDO

Ella está louca, ea loucura mette medo. Minha pobre Militina! E sempre as mesmas allucinações, a visão persistente e horrível do filho afogado n'aquella fatídica pescaria! Tivemos o mesmo Natal.

A MÃE

Militina accusa Malazarte da morte de Raymundo.

EDUARDO

No emtanto, foi o acaso. A canoa virou, e os dois tiveram deluctar com as ondas. Raymundo perdeu as forças e se afogou. E'a historia trágica e simples dos pescadores. O mar é um espanto. Malazarte venceu as ondas.

A MÃE

E a triste Militina enlouqueceu...

EDUARDO

A sua loucura vem do pavor continuo e implacável que cada um de nós procura esconder e disfarçar. A loucura nos circumda a vida, espreita-nos a menor imprevidencia, a mais ligeira desattenção. Precisamos de uma energia immensa e de uma astucia formidável para nos defendermos; a mesquinha e frágil velhinha não teve forças para esse combate, e succumbiu. A Mãe fica silenciosa. Eduardo põe sobre um ramo de flores o passarinho morto.

A MÃE

São as flores para a sepultura de Almira?

EDUARDO

S ã o; vou leval-as á tarde, e o canário vae como uma flor morta neste túmulo de flores... Elle tem a cor do sol: era a lembrança radiante que nos restava de Almira. Tudo morre vertiginosamente. E'uma corrida phantastica para a morte. No emtanto, tudo se transforma, e essas pennas douradas vão se mudar em palhetas de luz, como o canto se misturou á vibração sonora do universo... Almira também tornou-se immortal nas expressões da natureza, na luz, na côr, no som, nas fôrmas ethereas; mas eu quizera que ella fosse sempre a minha Almira, a companheira da minha alma, o desejo deste meu ser. E ella não me voltará mais! Que importa que esteja transmudada em cousas eternas, mas sem a nossa carne, sem o nosso coração, e por isso distantes, longínquas e aborrecidas! A natureza é poderosa, é a força que destróe, que separa, que transforma, mas que não restitue... Eu a odeio...

A MÃE

Refugia te em Deus, meu filho!

EDUARDO

Deus ou natureza é a mesma cousa: a dôr me separou de ambos e de todos os outros seres. Eu vejo cada um de nós num angustioso isolamento. Viver é tremer e nada é mais trágico do que a não conformidade com as outras cousas. Tudo se me torna extranho e hostil.

A MÃE

Eu não te quero ser extranha e hostil.

EDUARDO

Oh! mamãe, tu és a illusão que me resta, de que sou ligado á vida realmente e não como eu imagino ás vezes.

A MÃE

Meu filho, vive dentro dessa realidade tangível e estreita que é o teu destino, e não nessas imaginações em que te agitas. Vive das tradições da tua terra e realisa no futuro os sonhos e as esperanças da tua raça; fica ao meu lado, nós somos inseparáveis, e se tudo se desenraiza em torno de nós, permaneçamos aqui neste sanctuario das nossas alegrias e das nossas dores.

EDUARDO

Mãe, tudo se desmorona e me aterra. O advogado apparece aporta, Eduardo e a Mãe o recebem inquietos.

A MÃE

Temos uma decisão favorarel do credor?

O ADVOGADO

A proposta não foi acceita. O meu constituinte não quer absolutamente transigir. Não admitte nenhuma prorogação do contracto; e depois daquella historia do urubu, está intratável.

A MÃE

Sempre Malazarte!... Que desgraça, Eduardo!

EDUARDO

Eu dizia, Mãe, tudo se desmorona... Deixe-me cumprir o meu dever; isto já seria superior ás suas forças. Vá vêr Militina, estou inquieto pelo que lhe possa acontecer sósinha na rua. A Mãe saúda o advogado e retira-se.

EDUARDO

Toda a idéa de accordo mallograda! No emtanto, a nossa proposta era razoável nas circumstancias fataes em que estamos, pela morte tão imprevista de meu pae.

O ADVOGADO

Nada mais é possível. O meu constitunite quer liquidar de uma vez o contracto.

EDUARDO

Então, é irremediavelmente a penhora, a execução, a nossa expulsão desta casa?

O ADVOGADO

São as instrucções que recebi, e o credor julga que a propriedade não representa sequer a metade do valor da hypotheca. Emfim, veremos na occasião opportuna.

EDUARDO

Mas isto é uma extorsão de usurario!

O ADVOGADO

E' conforme o direito. Elle tem por si a lei.

EDUARDO

E a isto se reduz todo o systema de leis: á protecção do capital e á manutenção -da aüctoridade-, seja aquella a mais prepotente e esta a mais odiosa. E' uma vasta e revoltante oppressão inscripta nos códigos.. São as leis do pavor...

A propriedade e a auctoridade são os dois fetiches que somos obrigados a temer e a venerar! O resto é insignificante; a própria vida, a honra, o pensamento e tudo o que fazabelleza da existência humana, não merece senão frágeis disposições legaes, e tão débeis que ninguém lhes attende.

O ADVOGADO

As leis encerram uma grande sabedoria. Elias são as mesmas de todos os tempos, nos seus principios immutaveis. São eternas. Sem auctoridade, sem propriedade, não poderia haver coexistência humana. São os alicerces da construcção que nos veiu do passado, e que é admirável.

EDUARDO

Vivemos em uma sociedade que, baseada em taes leis, é o campo de batalha entre ricos e pobres, entre governantes e governados. Tudo é violência e anniquilamento da parte daquelles que têm a auctoridade e a riqueza.

O ADVOGADO

É o direito, elle é o termo da relação entre os homens, como o espaço é a relação entre os corpos. O direito é o companheiro da nossa existência, e o maior mal que pôde acontecer á sociedade, é a revolta contra a ordem jurídica.

EDUARDO

Como isto é artficial e fora da natureza! Cada um vive dentro do seu mundo especial e não vê o mundo. A esta concepção fundamental de uma ordem jurídica, um mathe5o MALAZARTE matico oppõe o conceito do numero e da geometria do universo; um biólogo não vê na vida senão a lucta das espécies, a selecção, a mutação e as fatalidades da herança e do destino. Na verdade, todos esses pontos de vista em que cada um se colloca, não exprimem uma degradação da intelligencia? No emtanto, ha outra vida que não é esta, dentro das muralhas da sociedade. H a uma vida universal, que se reflecte na arte, naphilosophia e na religião. E' a consciência do infinito, a vida suprema acima dos códigos e dos gestos do terror, e que faz do mundo uma maravilha.

O ADVOGADO

Seria a vida sem o principio moral, que inspira o direito.

EDUARDO

O principio moral não passa de uma phantasia, de uma conjectura, que o homem inventa para a sua falsa escravidão. O homem é um aspecto da natureza como os demais seres. Não é possível dentro do universo estabelecer-se um principio para regular differentemente o destino de seres que são tão fataes como os outros. Seria preciso que houvesse liberdade na natureza e que o homem fosse capaz de determinar o seu destino. A contingência das cousas, o livre arbitrio, o acaso, tudo isso não passa de artifícios da nossa ignorância. Ha uma fatalidade infrangivel no universo.

O ADVOGADO

Se tudo é fatal, a própria sociedade, que é a categoria dos homens, e o direito, que é a relação entre elles, são necessários e irremediáveis. Devemo-nos submetter a essas forças.

EDUARDO

Esta é a agonia indizivel do meu espirito. Vêr a fatalidade de todas as cousas, agitar-me dentro deste mundo execrado e de que não me posso libertar! A virtude fundamental é perseverar na sua personalidade até ao extremo, e nesta tragédia suprema do próprio ser toda a violência é legitima e bella.

O ADVOGADO

A sociedade também se defende e esmaga, e justifica-se deante desse principio.

EDUARDO

Tudo isto eu sinto e vejo e não tenho a força de me oppór. Ha uma grande covardia inicial no espirito humano, que nos entibia para sempre... A minha vida é esta tortura: comprehender a inutilidade de todo o esforço... Como proderei salvar este patrimônio de família, que se terá de perder em minhas mãos? E' muito pesado o fardo que nos lega o passado...

O ADVOGADO

Eu o vejo esclarecido quanto á sua responsabilidade. Posso retirar-me. (Sáe.) Eduardo fica só, meditando longo tempo, e Malazarte.

MALAZARTE

Sempre só! Tu tremes? Causo-te medo?

EDUARDO

Tu invades a minha solidão.

MALAZARTE

E porque esta solidão?

EDUARDO

E' a minha separação de tudo. Vejo as cousas na sua tristeza...

MALAZARTE

Mas eu sempre te mostrei a alegria.

EDUARDO

Agora tu me fazes horror.

MALAZARTE

Tu não me podes fugir.

EDUARDO

Porque, se tudo me afasta de ti?

MALAZARTE

Desde muito longe acompanho a tua vida. Eu te fui a felicidade e a indifferença bemfazeja. Os nossos rumos foram diversos, mas as nossas naturezas foram as mesmas. Havia entre nós uma attracção, que não se devia quebrar.

EDUARDO

Nesse tempo eu era outro. Hoje não posso supportar a tua indifferença. Oh! que desespero para mim a tua impassibilidade deante da vida!

MALAZARTE

Para que comprehender a vida? Basta-me viver.

EDUARDO

Ha um mysterio implacável que nos cerca.

MALAZARTE

Eu sou um mysterio, tu és outro mysterio.

EDUARDO

E' isto que nos separa.

MALAZARTE

Tu querias que eu passasse a existência como tu, em lamentações? Não! O tempo é rápido, não perdoa nem espera. Se eu não vivesse livremente, olhando tudo como de passagem, seguindo as cousas, rindo, gosando, amando, vivendo emfim, estaria também solitário, immovel, triste como um penedo.

EDUARDO

Eu vivo no espaço angustioso que a dôr me traçou. Não posso ir além. Essa tua alegria me aterra... A serie dos infortúnios é crescente e infinita. Desde aquella tua apparição na noite de Natal, tudo é tristeza em torno de nós.

MALAZARTE

Tu também me responsabilisas pelas desgraças que aconteceram aqui?

EDUARDO

Estás sempre envolvido na fatalidade.

MALAZARTE

E' esse o meu quinhão. Posto em face de gente triste, enferma e pusillanime e ser responsável pelo seu destino! Por toda a parte, essa maldição dos covardes que precisam responsabilisar alguém pelas misérias que lhes veiu da própria natureza... A minha presença é funesta! Sou eu que altero as cousas e torno em maldades os benefícios que elles esperavam para a sua vida mesquinha. Sou eu que faço nascer o soffrimento e a expiação. Eu sou a praga! Sou o personagem sinistro que tudo incita como um flagello formidável. Se o sol osabraza, eu sou o sol; se o vento os derruba, eu sou o vento; se o raio os fulmina, eu sou o raio; se o mar os traga, eu sou o mar... A h! miseráveis, que elles olhem para si mesmos e vejam se são dignos de viver. O próprio mal, que trazem em si, revolta-se e os destróe. E o ódio delles se ergue contra a minha serenidade... Eu continuo impassivel e zombo dessa cólera que me amaldiçoa. Outros se alegram em mim, os fortes, os grandes, os que não temem e sabem que tudo é fatalmente bello, e fazem do mundo um encanto e um prodígio. Para esses é que eu existo, e toda a minha energia, o meu sangue, a minha alma é para lhes dar a alegria e a belleza.

EDUARDO

Alegria?

MALAZARTE

A alegria é o bem, a tristeza é o mal. Tu te diminues na agonia. Vem commigo, vamos desta prisão, fujamos de tudo J2 o

"ri í ü isto... Eu te mostrarei outros mundos e de novo estaremos unidos. Não te deixarei mais.

EDUARDO

Nada me demove d'aqui, fico na solidão e nella me conforto. Viverei com as minhas saudades. Os meus pensamentos são espectros, elles saem da sepultura onde enterrei para sempre a minha inconsciencia.

MALAZARTE

Tu te afastas da vida e morrerás de tristeza e dôr, emquanto eu irei seguindo o meu fado, alegre hoje, descuidado amanhã, vendo desapparecer, deante de mim tudo que vae morrereme fita no ultimo instante com espanto e terror. Se não fores commigo, se não tiveres de novo a tua liberdade, se não juntares a tua natureza á minha, não terás mais repouso... Os espectros te matarão.

EDUARDO

Eu amo os espectros.

MALAZARTE

Fica na tua solidão.

EDUARDO

Ficarei. Malazarte sáe

Eduardo fica na trágica solidão da consciência que fragmenta o Universo e separa o homem de todas as cousas. Ouve-se um grande tumulto de gente que entra em desordem e em algazarra pelo jardim.

AS VOZES

Mãe da lua! Mãe da lua! Dyonisia entra na sala protegendo Militina, que é perseguida por parotos. -DYONISIA

Fora, miseráveis! OS GAROTOS

Mãe da lua! Mãe da lua!

DYONISIA

Rua, canalha! Os garotos vão sahindo, murmurando e escarnecendo: Mãe da lua! Mãe da lua!

Dyonisia os expulsa n'uma attitude de domínio. Militina refugiase junto de Eduardo.

DYONISIA, a Militina

E'aqui a tua casa, minha pobre velhinha?

EDUARDO

Socega, estou ao teu lado.

MILITINA, desvairada e não reconhecendo Eduardo.

Meu filho! Raymundo, vae dansar, ouve o reisado, leva a tua Philoca... Eu também quero dansar. Oh! Malazarte, não mates meu filho. (Apercebendo-se do seu engano.) Não é meu filho... Malazarte carregou-o para o fundo do mar e o afogou. O mar é sangue... Quem és tu, mulher? A Outra, a do meu Raymundo, era escura como elle, era o fogo ardente, e tu trazes o mar nos olhos. — Vae, vae, volta! Aqui é a minha casa... Elles me quizeram matar e tu me salvaste. Porque me salvaste? Não te conheço, minha branca...

EDUARDO

Socega, Militina. Ninguém te fará mal.

MILITINA

E Malazarte?

EDUARDO

Nem Malazarte; e se foi elle que matou teu filho, serás vingada.

MILITINA

Ah! Dudú, meu filho não morreu... Uma mulher o levou. (A Dyonisia.) Fala tu, que me salvaste ávida, e com certeza escondes o meu Raymundo, fala, demônio... Oh! tu és bella como uma santa... Meu anjo da guarda! S. Miguel Archanjo!

DYONISIA

Minha velhinha, agora eu te deixo e vou tranquilla. (A Eduardo.) Não consinta que saia sósinha á rua. Poderão fazer-lhe mal. Ainda ha pouco, vi o seu vulto magrinho, vacillante, a correr pelas ruas, e atraz esse bando de garotos vagabundos, n'uma gritaria furiosa. Atiravam-lhe pedras... Deixa vêr, minha mãesinha, se alguma te apanhou. (Examina carinhosamente Militina.) Não, não estás ferida... Mas como está variando!

EDUARDO

Não é de medo. Este desvario lhe veiu depois da morte do filho.

DYONISIA

Seu filho morreu?

EDUARDO

Não sabia? Como assim? um facto tão conhecido, um processo...

DYONISIA

Eu não sei nada.

EDUARDO

Não é d'aqui?

DYONISIA

Sou do outro lado da bahia.

MILITINA

Ella cheira ao sal do mar!

EDUARDO

O mar! Como é triste o mar!

MILITINA

Meu filho... Mundico, tu estás no céo... Elle é a lua, e a luz da noite é triste porque vem da lua morta. Eu sou a mãe da lua! (Sâe, cantarolando, plangente.) Mãe da lua! Mãe da lua!

DYONISIA

Que casa triste!... Porque tanta tristeza? Elles disseram que eu era uma sereia.

EDUARDO

A morte e o amor...

DYONISIA

O amor não é triste... Lá do outro lado do mar, da minha praia immensa, eu sou a que os homens amam e que sempre lhes sorri. Sou eu que lhes teço as redes com que elles pescam, e eu teço cantando. Sou eu que os desperto á madrugada, quando dá a preamar e nós sahimos na barca a pescar pelas águas cheias de luz... e eu canto paraattrahir os peixes... A's tardes de tormenta, eu me sento sobre a praia e canto ainda para o mar. A minha voz se mistura com o vento, com o rumor das vagas, com o clamor do mar livre, e na força do meu canto pareço subir, subir... Outras vezes, tudo é silencio, e eu venho á noite sósinha ouvir o suspiro do mar, e quando elle se banha na luz do luar. Uma noite que eu estava sentada assim na praia ardente, os homens me viram toda núa e disseram que eu era uma sereia e eu os beijei a todos. Eu os beijei; e emquanto o meu corpo branqueiado pela claridade do luar se abraçava aos corpos dos homens, o mar bramia exaltado e o vento soprava furiosamente. Foi uma grande exaltação a daquella noite! A minha bocca não se fartava de beijar. Eu dei a alegria e a vida... Eu sou um mar de amor!

EDUARDO

E quem te conduziu até aqui? Que te trouxe da praia luminosa a esta casa triste? 6o MALAZARTE

DYONISIA

As ondas do mar... Os meus companheiros sahiram hoje de madrugada para o mar, e eu com elles. A maré era grande, a água não muito fria, e tudo promettia uma excellente pescaria. Fomos assim mar afora, quando de repente começou a soprar forte, e como o mar crescia e vinha sobre nós, os pescadores não ousaram affrontar as ondas bravas; e como manobrassem muito depressa e com violência para voltarem ao porto, rasgou-se a vela. Ficámos boiando sobre as águas bravias. Aterrados, elles me disseram: « Dyonisia! Dyonisia! canta. » E eu cantei para espantar o medo... O mar se foi acalmando, e as vagas nos trouxeram para este lado da bahia. Atracámos. Em terra elles me mandaram comprar panno para concertar a vela. Eu sou mulher de pescadores.

EDUARDO

Vocês são mais resignados que as ondas, mas sempre vagando como ellas. Como é bom estar"longe desta cidade! Oh! fora de tudo isto!

DYONISIA

Como é extranha a cidade aqui dentro! De lá, do outro lado, é tão linda, toda branca, recebendo o sol e espalhando a luz. Delia levantam-se arvores, palmeiras enfileiradas como uma floresta em marcha, ou então uma palmeira solitária se ergue para o céo, como um desejo que subisse da terra amorosa... A'noite, parece que as estrellas baixam á terra e um clarão de braseiro illumina o mundo quieto. De vez em quando, luzes como vagalumes correm por entre outras luzes paradas... Outras vezes, são fogos que dansam...

EDUARDO

Nunca eu a vi assim. E'preciso ir lá fora para ter essa miragem. O espectaculo só é bello de longe, de muito longe.

DYONISIA

Venha uma noite...

EDUARDO

Uma noite? Talvez!... Não.

DYONISIA

Sim, á noite. Não imagina como é lindo! As grandes manchas verdes muito socegadas recolhem a luz estrellada do céo e da terra e espalham uma côr que é a do fundo do mar.

EDUARDO

O fundo do mar?

DYONISIA

E á noite os montes e as pedras são gigantes phantasticos. Como mettem medo! A mim não, mas aos homens que imaginam... A água da bahia cerca brandamente a cidade e é uma água que tem luz e canta em surdina. As pequenas ilhas são como bosques verdes encravados num areial de prata.

EDUARDO

Aqui dentro tudo é differente!

DYONISIA

Agora de manhã eu vi as casas e a gente. Os caminhos não têm aquella luz, estão cheios de lama; as casas são prisões. E como tudo é feio e sinistro! Ha medo do sol, ha medo do céo, ha medo e terror por toda a parte. E'a cidade do espanto. Vi templos para proteger os homens, vi deuses de soffrimento, deuses que têm lagrimas nos olhos como escravos suppliciados. Ouvi cantos de morte, um grande lamento por toda a parte, vi gente famelica de olhos faiscantes, vi gente apavorada gritando e espantando os outros. E tudo tão feio! E os corpos deformados e mulheres amortalhadas como múmias, para esconder a nudez... Aquillo, mulheres! Vi o amor. Eu sei bem que é o terror que o faz assim. O terror é o vosso creador... Oh! a miragem! a miragem! Eu volto ao mar e de lá continuarei o sonho!

EDUARDO

E tu sabes o caminho?

DYONISIA

O caminho do mar? Eu o tenho nos meus olhos, que só vêm o mar.

EDUARDO

Os teus olhos... e por elles se vê a maravilha que está no fundo das águas. Como tudo aqui é sombrio e fechado!

DYONISIA

Lá tudo é luminoso e livre.

EDUARDO

Aqui é o meu destino. Volta para a immensidade. Volta emquanto ha sol; depois as trevas baixarão. Não deixes que a escuridão te envolva...

DYONISIA

As sombras chegam... Vou-me embora.

EDUARDO

E eu fico separado de tudo.

DYONISIA

Lá nós somos um com tudo o que existe. Os meus homens são como rochedos, toscos, ásperos, e os rochedos são como os homens do mar, rudes, calados, meditabundos. A's vezes, dentro da luz, sobre o mar calmo, os barcos parecem pássaros de azas abertas, são gaivotas ou cysnes; outras vezes os cysnes e as gaivotas abrem as azas e são barcos...

EDUARDO

Tudo se transforma, Dyonisia.

DYONISIA

E que alegria em tudo! Quando o mar geme, é um canto ão bello que esquecemos ser uma lamentação... E eu me rio das desgraças do mar. Se um pássaro canta lugubre á noite, nós gosamos do som puro e da clara melodia que nos enchem os ouvidos. Eu só vejo a belleza e não a dôr! Só ha alegria na vida...

EDUARDO

Eu só conheço a dôr.

DYONISIA

E'preciso fugir a este desespero em que vós todos viveis. Deixe esta cidade de terror.

EDUARDO

Para ir além?

DYONISIA

Atravessar o mar.

EDUARDO

O mar! Sabes?... o mar me espanta. E'um pavor que me ficou desde creança e que não me deixa... Metteram-me medo e um terror tão grande que gerou phantasmas em meu espirito. Quando eu era pequeno, da janella que dá para este jardim, eu via á noitinha sahir do fundo do poço uma mulher loura, com um pente de ouro com que penteava os longos cabellos, e ella me sorria... Era tão bella! E eu ainda vejo dentro dos meus olhos essa mulher... Era loura como tu, os cabellos eram assim, tinham dentro delles o sol... Como os teus olhos também são verdes! E'que tu também vens do mar... Ella sorria assim... Oh! apaga esse brilho dos teus lábios... DYQNISIA Eu sorrio sempre.

EDUARDO

Eu quizera a tua força para vencer o mar. Dá-me a tua alegria... Tu és forte e bella. A tua cabeça espalha a luz do sol.

DYONISIA

Lá tudo é bello e tudo é luz!

EDUARDO

Raio de sol que se fez mulher! os teus lábios têm a frescura e a carne das flores nuas.

DYONISIA

Lá eu sou toda núa...

EDUARDO

Oh! esplendor da nudez... Nesse corpo vive toda a natureza e por elle eu me sinto em communhão profunda com as outras cousas. Beijam-se demoradamente e Eduardo desperta para a nova vida.

DYONISIA

Eu te sorrirei sempre.

EDUARDO

Tu és eterna, Dyonisia!

DYONISIA

Vem... Vamos... Eu te cantarei os cantos do mar. Tudo é um só e inextinguivel canto: mar, vento, aves, plantas, e nos busios da praia, tu ouvirás ainda a minha voz. Não é o canto das águas, é o meu canto: guardado para os que amo, o canto que te espera, canto de saudade e de amor... São as vozes dos meus profundos desejos.

EDUARDO

Eu ouço esse canto na tua voz... e a alegria se apodera de mim...

DYONISIA

Vamos dentro da luz.

EDUARDO

Sim, vamos... Não ha senão luz e vida. Eu sinto que a dôr morreu ao poder do teu encanto invencível...

DYONISIA

O nosso mundo é immenso como o mar e cheio de alegria.

EDUARDO

Esse mundo nasce em mim. És tu nas mil fôrmas, és tu, raio do sol, mulher! És tu, Amor! Toda creação é um mysterio de amor.

DYONISIA

Vamos para o meu recanto secreto, onde tudo é tão bello, tão tranquillo, e onde tu serás meu. Tudo te espera, a água do mar, o sol, as arvores, os próprios rochedos calados... Vamos!...

EDUARDO

Aqui tudo é sombrio.

DYONISIA

Lá tudo é radiante.

EDUARDO

Dyonisia, eu quero ávida, o amor... Enlaçados vão deixando a casa.

DYONISIA

Eu sorrio, eu canto, eu sou um mar de amor. Desapparecem lentamente A Mãe chega e os vê.

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