O Livro Físico A Morte Renunciada · Capítulo 3 de 12
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O Livro Físico

O carro chegou ao Cartório do Quarto Subdistrito às oito e vinte e sete, depois de quarenta minutos de trânsito lento, vidros embaçados e ruas onde a chuva empurrava folhas para dentro dos bueiros. Verônica passou a viagem com a pasta preta sobre o colo, protegida por dentro do casaco, relendo mentalmente os números escritos no verso da ficha: C-118, folha 43, termo 217. O motorista tentou conversar duas vezes, primeiro sobre enchentes, depois sobre velórios, e desistiu ao perceber que a passageira respondia com sílabas. No celular, Lívia enviara cinco mensagens, todas em versões diferentes da mesma ordem. Volte. Atenda. Você está se expondo. A última dizia que Osvaldo poderia encontrá-las para explicar tudo com calma. Verônica apagou a notificação sem abrir a conversa.

O cartório ocupava o térreo de um prédio estreito, entre uma loja de molduras e uma assistência técnica de celulares. A fachada tinha letras douradas gastas, uma rampa com piso escorregadio e uma porta automática que abria com atraso, obrigando cada pessoa a esperar alguns segundos diante do próprio reflexo no vidro. Lá dentro, o ar condicionado deixava o ambiente frio demais para a manhã úmida. Havia guichês numerados, cadeiras de plástico, uma máquina de senhas e um mural com avisos de nascimento, casamento, óbito, reconhecimento de firma, apostilamento, certidões digitais. A vida civil inteira cabia ali, reduzida a filas, carimbos e formulários.

Verônica retirou uma senha para registros antigos e esperou junto a uma parede onde retratos de tabeliães anteriores formavam uma genealogia severa. Anselmo Vilar aparecia na terceira moldura a partir da esquerda, cabelo grisalho, queixo alto, terno escuro, mandato iniciado em 2012 e encerrado em 2018. A fotografia parecia mais recente que o cargo. Havia brilho demais no papel, sinal de impressão substituída há pouco, e o parafuso inferior direito ainda conservava a marca clara de remoção. Verônica anotou esse detalhe no celular. Quem atualiza retrato de tabelião aposentado em um cartório sem trocar o aviso amarelado sobre taxa de certidão?

Quando sua senha apareceu, ela foi atendida por uma funcionária chamada Renata, crachá azul, unhas curtas, expressão treinada para negar pedidos sem produzir conflito. Verônica apresentou a cópia autenticada da certidão antiga e pediu acesso ao livro C-118, folha 43, termo 217. Renata leu o documento, conferiu a matrícula no sistema e perguntou se Verônica desejava segunda via. Verônica respondeu que precisava consultar o assento físico. A funcionária ergueu os olhos. "Consulta direta depende de autorização interna." Verônica tirou da bolsa a carteira funcional vencida do Instituto de Criminalística. A validade tinha expirado havia três anos, e ela sabia que aquilo valia pouco. Ainda assim, o brasão e a palavra perita mudaram o modo como Renata segurava o papel.

"A senhora está atuando em nome de algum órgão?", Renata perguntou. Verônica disse que atuava em nome da própria mãe. A frase produziu uma pausa administrativa. A funcionária digitou algo, apagou, digitou de novo, levantou e desapareceu por uma porta lateral. Verônica ficou no guichê, com a certidão antiga aberta sobre o balcão e a fila atrás dela acumulando impaciência. Um homem reclamou de inventário. Uma mulher com bebê pediu prioridade. A máquina de senhas chamou três números que ninguém atendeu. Do outro lado do vidro fosco, Verônica ouviu a palavra arquivo, depois o nome Anselmo, pronunciado em tom baixo demais para conversa comum.

Renata voltou acompanhada de um homem magro, de camisa branca e gravata de tricô, que se apresentou como Fábio, substituto do oficial titular. Ele levou Verônica para uma sala pequena, sem janela, onde havia uma mesa oval, duas cadeiras e uma câmera no canto superior. Pediu que ela deixasse a bolsa no chão e assinasse um termo de consulta. Verônica leu o formulário inteiro antes de preencher. O texto dizia que o manuseio do livro seria feito por funcionário do cartório, que fotografias dependiam de autorização e que anotações manuscritas eram permitidas. No campo motivo, ela escreveu: divergência de óbito em duplicidade. Fábio leu a frase, passou a língua pelos lábios e chamou alguém pelo ramal interno.

O livro chegou em um carrinho metálico empurrado por uma arquivista idosa, dona Iolanda, segundo o crachá preso com alfinete. O volume tinha capa preta, lombada reforçada com fita de restauração e etiquetas sobrepostas, uma antiga, uma nova, ambas com o código C-118. A arquivista abriu a caixa de proteção, calçou luvas de algodão e apoiou o livro sobre uma almofada de espuma. Verônica conteve o impulso de tocar. O corpo sabia reconhecer objeto de prova antes que a cabeça organizasse o argumento. O papel, ali, tinha presença de testemunha. O contato guardado no papel importava mais que qualquer promessa de verdade. Alguém encostara a mão naquela folha, assinara, pressionara caneta, deixara força, hesitação, pressa.

Dona Iolanda virou as folhas com uma espátula chata até chegar à quarenta e três. O termo 217 ocupava a metade inferior da página. Estela Duarte, filha de Eunice e Arnaldo, divorciada, residente na casa da Rua Pires de Almeida, falecida no Hospital Santa Úrsula em 14 de agosto de 2015, às duas e quarenta. Médico declarante: Osvaldo Meireles. Oficial responsável: Anselmo Vilar. Declarante: Verônica Duarte. A assinatura estava ali, em tinta azul, logo abaixo da declaração de ciência. A inclinação, o tamanho do H, a perda de pressão no segundo nome, o traço final curto. Nenhuma impressora, carimbo ou cópia intermediária explicava aquela presença. O livro físico guardava a mão dela.

Verônica pediu uma lupa. Dona Iolanda abriu uma gaveta e entregou uma com aro de metal. A tinta da assinatura penetrava nas fibras do papel de modo irregular, mais carregada no início, quase seca no final. Havia tremor fino nas hastes verticais, diferente do tremor de imitação. A caneta parara duas vezes dentro do sobrenome, deixando dois pontos microscópicos, pequenos acúmulos de tinta que surgem quando a mão interrompe o gesto sem levantar a ponta. Verônica conhecia aquela interrupção. Fazia o mesmo quando assinava sob dor de cabeça forte. Ao lado da assinatura, no espaço reservado ao documento de identidade, alguém anotara o número de RG correto e, logo abaixo, uma impressão digital borrada, colhida no tampão de tinta do cartório.

"Essa digital foi exigida por quê?", Verônica perguntou. Fábio inclinou-se sobre a página, sem encostar. Disse que, em 2015, alguns assentos recebiam digital quando o oficial julgava necessário reforço de identificação. "Declarante nervoso, documento danificado, divergência de cadastro, coisa assim." Verônica perguntou quem decidia. Fábio apontou para a assinatura do tabelião aposentado. Anselmo. A arquivista manteve os olhos na folha, com a boca fechada em linha reta. Verônica olhou para a digital, depois para a assinatura. A digital não tinha definição suficiente para confronto completo, porém mostrava uma cicatriz oblíqua no polegar direito. Verônica levou a própria mão à mesa. No polegar dela havia a mesma cicatriz, feita aos dezessete anos, quando quebrou um copo na pia de Estela.

Na margem esquerda do termo havia uma anotação posterior, em letra menor, feita com caneta preta: requerimento de cancelamento indeferido, 22/09/2016. Comparecimento presencial sem reconhecimento bastante. Ver protocolo A-44/19. Verônica leu a frase em silêncio, depois pediu o protocolo citado. Fábio disse que protocolos administrativos de cancelamento ficavam em outro setor e que talvez estivessem digitalizados. Dona Iolanda corrigiu baixo, sem olhar para ele: "Os de 2016 ficaram na sala fria depois da infiltração." Fábio endireitou a postura. Verônica fingiu que não notou a repreensão. Perguntou quem comparecera em 2016. A arquivista virou o livro um centímetro, indicando a margem inferior. Ali, quase encoberto pela restauração, havia um nome escrito a lápis: Ana Vidal.

O ar da sala ficou menor. Verônica copiou a anotação no bloco, letra por letra, número por número. Estela tentara cancelar a própria morte usando outro nome, ou alguém levara Ana Vidal para tentar desfazer o registro de Estela. Qualquer uma das hipóteses exigia uma pessoa viva diante de um balcão, um funcionário disposto a recusar o reconhecimento e um protocolo que nunca chegara ao sistema público. Fábio ofereceu uma certidão de inteiro teor, com prazo de três dias úteis. Verônica disse que precisava do protocolo A-44/19 naquele momento. Ele respondeu que isso exigia pedido formal, assinatura da chefia, talvez despacho do oficial. Dona Iolanda fechou o livro devagar, e o som da capa no suporte encerrou a conversa sem autorização de ninguém.

Verônica saiu da sala com a cópia autenticada, o termo de consulta e a mão direita dormente. No balcão, Renata evitou olhar para ela. Um telefone tocou dentro da sala lateral. Fábio atendeu, falou pouco, desligou e chamou a arquivista pelo nome inteiro, Iolanda Amaral, com a rigidez de quem precisa lembrar hierarquia depois de perder controle. Verônica alcançou a porta automática e viu, pelo vidro, um carro preto parado do outro lado da rua. No banco de trás, Lívia olhava para o cartório com o celular encostado ao ouvido. No banco da frente, de perfil, Osvaldo Meireles mantinha as duas mãos sobre uma pasta azul.

Antes que a porta abrisse, Renata correu até Verônica segurando um envelope pequeno. "A senhora esqueceu isso", disse. Verônica olhou para as próprias mãos. Não havia esquecido nada. O envelope era do cartório, antigo, amarelado nas bordas, sem remetente. Renata estava pálida demais para fingir naturalidade. "Dona Iolanda pediu para entregar só lá fora, mas eu não posso sair do balcão." Verônica recebeu o envelope, saiu pela porta e abriu sob a marquise, protegendo o papel da chuva com o corpo. Dentro havia uma cópia simples do protocolo A-44/19. Na primeira linha, ao lado de requerente, lia-se: Estela Duarte, viva, acompanhada por Verônica Duarte. A data era 22 de setembro de 2016. No campo observações, Anselmo Vilar escrevera: declarante aparenta confusão induzida; manter óbito sem cancelamento até manifestação médica de Osvaldo Meireles.

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