A Declaração de Exaustão A Morte Renunciada · Capítulo 4 de 12
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A Declaração de Exaustão

Verônica dobrou a cópia do protocolo A-44/19 e guardou o papel dentro da carteira, atrás do documento de identidade, lugar onde Lívia jamais procuraria sem tornar pública a violência do gesto. A marquise do cartório mal segurava a chuva. Gotas grossas escorriam pelo toldo, caíam sobre a calçada e respingavam nos sapatos de quem saía com certidões dentro de pastas plásticas. Do outro lado da rua, o carro preto continuava parado. Lívia falava ao celular com a cabeça inclinada, a mão livre pousada sobre o painel, enquanto Osvaldo Meireles permanecia imóvel no banco dianteiro, a pasta azul apoiada nas pernas e o rosto voltado para a entrada do cartório.

Verônica poderia voltar para dentro e pedir que chamassem a polícia, porém a palavra protocolo ainda estava quente demais no bolso. A polícia pediria documento, relato, autoridade, e Osvaldo tinha prontuários antigos com carimbo, assinatura e uma década de vantagem. Ela abriu o aplicativo de transporte, digitou a casa de Estela e percebeu que o sinal oscilava entre uma barra e nenhuma. O primeiro carro recusou. O segundo ficou procurando rota por quase um minuto. Quando ela levantou os olhos, Lívia já cruzava a rua segurando um guarda-chuva que servia mais para esconder o rosto do que para proteger da água.

"Você saiu correndo de casa, foi a um cartório sozinha, pressionou funcionários e agora está guardando papel dentro da roupa", Lívia disse, sem saudação, baixo o suficiente para não chamar atenção dos usuários na porta. "Se você ouvir isso com um mínimo de distância, vai entender por que eu estou preocupada." Verônica respondeu que preocupação não costuma vir sentada ao lado do psiquiatra que assinou a morte errada de uma mulher viva. A frase passou pelo rosto da irmã e deixou uma marca breve, logo coberta por uma expressão cansada, quase doméstica, dessas que se usam diante de criança insistente ou parente bêbado em almoço de domingo.

Osvaldo saiu do carro com lentidão calculada. Estava de terno escuro, sem guarda-chuva, e deixava a chuva marcar os ombros para parecer menos interessado em controle do que em urgência. Tinha envelhecido pouco desde o laudo particular que arruinara Verônica, ou talvez ela guardasse dele uma imagem tão fixa que qualquer alteração parecesse apenas retoque. Cumprimentou-a pelo nome completo, Verônica Duarte, com voz clínica e educada. Disse que lamentava a morte de Estela, que compreendia a sobrecarga, que ninguém pretendia tirar dela autonomia. Enquanto falava, a mão direita segurava a pasta azul contra o corpo, e o polegar mantinha presa uma folha solta marcada com adesivo vermelho.

"Eu tenho uma certidão de 2015 assinada pelo senhor", Verônica disse. Osvaldo inclinou a cabeça, sem negar. "Tenho um protocolo de 2016 em que minha mãe aparece viva e acompanhada por mim. Tenho uma anotação de Anselmo dizendo que a morte deveria continuar ativa até manifestação médica sua." Lívia segurou o braço dela de leve, com dedos frios, e pediu para conversar no carro, longe da chuva. Verônica afastou a mão da irmã. Osvaldo olhou para a fila na porta do cartório, depois para o segurança, depois para a câmera externa. Só então abriu a pasta azul. O documento de cima trazia timbre da Clínica Santa Úrsula e o título "Declaração de Exaustão Aguda e Risco de Desorganização".

A data era daquela manhã. O nome de Verônica aparecia no cabeçalho, seguido do CPF, do endereço e de uma síntese de histórico psiquiátrico que cabia em poucas linhas e mentia com eficiência. Luto recente. Privação de sono. Conduta persecutória dirigida a familiares. Busca compulsiva por documentos sem finalidade objetiva. Risco de dano a si e a terceiros por interpretação delirante de registros civis. Assinatura de Osvaldo Meireles no rodapé, carimbo, CRM, telefone de plantão. Havia ainda um campo vazio para ciência de familiar responsável. Lívia já tinha preenchido o próprio nome abaixo, em letra apressada.

"Isso não interna ninguém", Verônica disse, mantendo a voz plana. Osvaldo concordou depressa, satisfeito por encontrar uma frase que pudesse usar contra ela depois. Explicou que se tratava apenas de encaminhamento preventivo, uma avaliação breve, duas horas de observação, talvez uma medicação leve para que ela conseguisse dormir antes do velório administrativo que a família ainda precisava resolver. A expressão velório administrativo saiu com naturalidade insuportável. Verônica pensou na mesa de Estela, nas pastas catalogadas, na ficha de Ana Vidal, no carimbo que transformara uma mulher viva em óbito ativo. Para Osvaldo, pessoas eram etapas de procedimento.

Lívia tirou da bolsa uma cartela de comprimidos sem rótulo, igual à encontrada no quarto de Estela. Segurou-a na palma aberta, num gesto que parecia oferta e ameaça ao mesmo tempo. Disse que Verônica usara aquele remédio em 2016, por prescrição regular, depois de uma crise no instituto. Disse que Estela guardara cartelas por hábito, que a mãe acumulava tudo, que documentos antigos ganhavam proporções absurdas quando alguém estava há dois dias sem dormir. Verônica olhou para os comprimidos, depois para o rosto da irmã. "Onde você encontrou essa cartela?", perguntou. Lívia fechou a mão, tarde demais para esconder o tremor.

O aplicativo enfim confirmou um motorista a cinco minutos, e a tela acesa na mão de Verônica chamou a atenção de Osvaldo. Ele deu um passo pequeno, quase cordial, posicionando-se entre ela e a rua. "Verônica, eu prefiro que você não saia sozinha agora." A frase veio com preferência, não com ordem, e por isso mesmo tinha mais perigo. Lívia, ao lado, começou a chorar sem desorganizar a maquiagem. Disse que não podia perder a mãe e a irmã no mesmo dia, que todo mundo sabia do que ocorrera no instituto, que Benício Nóbrega não estaria ali para apagar as consequências outra vez. O nome de Benício, pronunciado daquele jeito, retirou o ar da calçada por um segundo.

Verônica abriu o gravador do celular com o polegar, dentro do bolso do casaco, e deixou a tela apagada. "O que Benício tem a ver com isso?" Lívia pareceu se arrepender antes de terminar a inspiração. Osvaldo respondeu por ela. Disse que Benício fora testemunha de um episódio de descontrole, que tentara protegê-la de um inquérito disciplinar, que certas pessoas confundiam lealdade com licença para destruir provas. Verônica ouviu a gravação começar com um chiado discreto. Pela primeira vez naquela manhã, a voz de Osvaldo entrava em um arquivo que não pertencia a ele. Ela pediu que repetisse a frase sobre destruir provas.

Osvaldo sorriu sem mostrar os dentes. "Você continua muito competente quando quer armar uma cena", disse. Em seguida, ergueu a mão para o carro preto. A porta traseira abriu, e um homem de jaqueta azul desceu segurando uma prancheta plastificada. Não parecia funcionário do cartório nem policial. Tinha a postura de motorista acostumado a transferência de paciente, olhar fixo, cabelo raspado, sapatos impermeáveis. Lívia murmurou que era apenas apoio da clínica, chamado por precaução. Verônica recuou até a parede do prédio, protegendo a carteira com o cotovelo. O segurança do cartório observava de dentro, indeciso, separado da cena pelo vidro automático e por anos de treinamento para evitar assunto familiar.

O motorista do aplicativo apareceu na esquina e reduziu ao ver o grupo. Verônica levantou a mão, correu até o meio-fio e entrou no banco traseiro antes que Osvaldo pudesse transformar o movimento em contenção. Lívia bateu no vidro com a palma aberta. O homem da prancheta chegou perto da porta, porém o motorista travou o carro por dentro, assustado o bastante para ser útil. "Segue", Verônica disse, mostrando o destino na tela. O carro arrancou com brusquidão, recebendo buzina de um ônibus e dois xingamentos de um motociclista. Pelo vidro traseiro, ela viu Osvaldo parado na chuva, sem pressa, falando ao telefone. Lívia segurava a cartela de comprimidos contra o peito.

Verônica pediu ao motorista que desse duas voltas antes de seguir para a Rua Pires de Almeida. Ele reclamou do trânsito, depois se calou ao ver pelo retrovisor que a passageira gravava um áudio e escrevia ao mesmo tempo. Ela salvou o arquivo com o nome "Osvaldo_cartorio_17mai", enviou uma cópia para o próprio e-mail e outra para um armazenamento antigo que usava na época do instituto. Em seguida, fotografou o protocolo A-44/19 sobre a bolsa, tomando cuidado para capturar a frase inteira de Anselmo. A imagem ficou tremida na primeira tentativa. Na segunda, a observação apareceu legível: declarante aparenta confusão induzida; manter óbito sem cancelamento até manifestação médica de Osvaldo Meireles.

Na casa de Estela, o portão estava apenas encostado. Verônica percebeu antes de o motorista parar. A faixa de isolamento, que ficara dobrada na lixeira, agora estava esticada no chão do hall, molhada e pisada. Ela pagou pelo aplicativo, pediu que o carro aguardasse um minuto e entrou sem acender as luzes. A sala de jantar tinha gavetas abertas, guardanapos espalhados, talheres fora da flanela. No andar de cima, a porta do quarto de Estela batia contra o batente em intervalos irregulares. Alguém passara por ali depois que ela saíra para o cartório, procurando o que faltava na pasta azul ou retirando o que Estela escondera além da gaveta lacrada.

A terceira gaveta do armário estava aberta. As pastas continuavam ali, porém o caderno verde desaparecera. No lugar dele, sobre o fundo de madeira, havia uma folha arrancada de receituário médico, presa por uma tachinha enferrujada. A letra de Osvaldo era menor do que a do carimbo, limpa, inclinada para a esquerda. "Verônica apresenta resistência previsível ao luto e fixação documental. Em caso de recusa familiar, acionar Benício Nóbrega." A data no canto era 22 de setembro de 2016, a mesma do protocolo em que Estela tentara desfazer a própria morte. Verônica leu o nome de Benício uma vez, depois ouviu o celular vibrar no bolso. A mensagem vinha de número sem foto: "Se Osvaldo já mencionou meu nome, saia da casa. Ele sabe que você encontrou o livro."

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