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Ativo

Simbionte Orbital
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rosana858 @rosana858

Um Beijo na Eternidade

No silêncio ensurdecedor, ela dorme com Morfeu. O amanhã lhe estende os braços, mas ela resiste à realidade do dia seguinte. Apaga a meia-luz em que noite e dia se fundem e mergulha incessantemente no passado.

A campainha toca. Ela atende à porta. Os olhos sem luz do visitante vislumbram além do véu de Ísis. O mito estende a mão para ela, que se deixa levar, presa no cumprimento. Caminham alguns passos até o terraço. Ela avista Pégaso e permite que sua liberdade voe. O poeta segura firmemente a rédea de ouro enquanto Helena, com o coração ardente, protege suas costas. Juntos, circulam Gaia, que pulsa no firmamento, e presenciam do alto Poseidon abençoando os mares e oceanos.

Agora, em terra firme, o grego a abandona na porta do magnífico templo. Ela sobe os degraus, sente a rigidez da pedra sob seus pés descalços. Atravessa o pórtico e entra majestosamente. Ela desfila elegância entre as vinte e quatro colunas gigantescas que abrigam o trono de Zeus. A maravilha do mundo antigo tem o corpo esculpido em marfim e ébano. A autoridade da visitante arranca um olhar frio e semiprecioso do deus, que a convida para participar da festa que acontece no salão.

Apolo, um dos filhos do anfitrião, recita uma poesia, e ela fica fascinada com a perfeição de sua anatomia. Ela fala, e sua voz contagia os convidados, que percebem que a beleza física dele é insignificante diante da sabedoria dela. O poeta tenta cativar sua atenção e lhe oferece uma bebida. Quem serve é o irmão Dionísio, que, fascinado por ela, revela, num beijo, que sua língua possui sabor de vinho. Na intimidade, ele lhe pede para ser chamado de Baco, já que dividem a mesma taça.

Disfarçada de fragilidade, ela caminha com suavidade. Tenta ocupar sua visão em todos os espaços. Olha para cima e observa a gigantesca cúpula amarela que coroa a morada dos deuses e presenteia o edifício com movimento celeste. Ela fecha os olhos e é invadida pelo jorro de luz abundante que desce do interior da abóbada, sustentada por oito pilares, e que traz, de surpresa, Eros apoiado em um deles. Ela percebe que o cupido tenta evitar seus olhos, então se aproxima o suficiente para que ele sinta o perfume do querer que exala de sua pele. Ele não resiste à sedutora fragrância, que propositalmente foge. Ingenuamente, ele a persegue até o jardim.

Junto ao lago de nenúfares, um rapaz está parado. A água cristalina reflete sua figura. Eros possui Helena, mergulha na sua fonte de prazer, penetra as pétalas do seu desejo. Narciso não se dá conta da magia do amor entre as duas criaturas e permanece solitário, perdido de paixão pela sua imagem refletida no espelho.

Ela deixa o Panteão, abrigado pelos matizes coloridos de seus aposentos, enquanto os deuses do Olimpo desfilam seus mistérios e belezas.

Na calçada, ela avista Tânatos e, assustada com sua fisionomia metálica e seu coração de ferro, sente o cheiro de morte que paira no ar. Foge apressada, pressente que ele tenta guiar sua alma para outros mundos.

O banquete celestial se dissolve em sobras e, quando Helena se dá conta, seus passos ecoam em corredores de pedra. As galerias se curvam em círculos secretos, à espera de serem decifrados. Ela vê o rastro e teme o eco de um bramido desolado. O monstruoso ser com corpo de homem e cabeça de touro habita o labirinto de sua mente. Ela desenrola o novelo do pensamento e coloca na linha o bravo Teseu, que mata a fera que existe dentro dela.

Na rua da Era do Bronze, ela ouve tiros e se esconde atrás das muralhas. Alguém passa e a carrega num abraço. O ventre de madeira abriga soldados. O coração da espartana saltita dentro do corpo inventado. Ela vaga pelas ruas de Troia enquanto é raptada por Páris. Agora, está dividida entre os beijos do sequestrador e a saudade do bruto e doce Menelau.

O rei vem ao seu encontro e, na fantasia épica, ela tem sangue da cor do Egeu. Juntos, partem sob o calor vermelho das labaredas que envolvem a cidade e começam a aquecer seu quarto.

O espírito dela sente que a viagem mitológica está prestes a terminar, então, além do limite de sua ousadia, dribla Cronos e retorna no tempo. Entra no Coliseu dirigindo uma biga que chama a atenção do felino que está na arena. O grito dos gladiadores apavora a urbe cristã. O imperador vem até ela e dá um beijo quente em seus lábios. Ela sente o cheiro da manhã fresca e envolve Nero com os braços enquanto esboça um sorriso adormecido.

O marido olha para Helena e fecha as cortinas do dia, enquanto cuida para que o lençol lhe proteja o sono. Cuidadosamente, tira o livro das mãos da esposa e o deposita na cabeceira. Ela beija em sonho, e seus lábios tocam o papel histórico, onde dormem mitos e lendas que se equilibram entre o sagrado e o profano.

Ele sai silenciosamente, enquanto Helena vive na Ilíada e continua sua Odisseia.

@rschumaher

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rosana858 @rosana858

O Espelho de Pandora

Não temas o que libertas — o que retorna é apenas aquilo que está pronto para ser compreendido.
Como todas as lendas, também esta tenta traduzir o que escapa à razão — aquilo que mora entre o mistério e a ignorância.
Mas e se Pandora não tivesse aberto a caixa?
Teríamos sido poupados da dor, da solidão e dos desvios do espírito?
Ou, sem os males, teríamos perdido também o impulso de nos compreender?

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O céu rugia como se antigos deuses despertassem em suas nuvens.
O vento uivava, trazendo a memória de Zeus e dos Titãs — um sopro quente que abria fendas entre galáxias.
Prometeu, porém, caminhava nas entrelinhas do ar, lembrando que todo fogo roubado é também um convite à consciência humana.
A tarde exalava o perfume de flores que jamais existiram neste século — fragrâncias vindas de um jardim desaparecido, onde as primeiras sacerdotisas dançavam com a lua.
Entre esses aromas, uma voz ergueu-se como eco de uma profecia esquecida:

— Eu não sou culpa. Sou o dom divino de ver o invisível.

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Na Grécia, uma pequena vila adormecida parecia um relicário de eras.
Uma prosaica rua escondia uma loja de antiguidades; o silêncio guardava mais que peças — sepultava pactos, segredos, invocações e presságios.
Quando a porta rangeu, a energia se adensou.
Um corvo cruzou o teto como mensageiro das antigas Moiras, anunciando que os fios do destino seriam tocados.
A moça entrou acompanhada do abutre — o guardião ancestral das passagens, incompreendido pelos séculos, mas reverenciado pelas pitonisas que sabiam ler em seu voo, o sinal do recomeço.
A forasteira viera para dizer que é impossível prender a alma da mulher, mesmo que em um vaso de ouro, envolto em papéis falsos e rótulos de mentiras.
Seus olhos buscavam o objeto que trazia seu nome — aquele que atravessara a história usando o medo como ferrolho para esconder a verdade.
Tateou prateleiras e paredes usando a psicometria.
Leu, com o terceiro olho, símbolos ocultos.
Lá fora, a tempestade batia contra as vidraças como se quisesse amedrontar quem ousa vislumbrar além da moldura.
A neve caía pesada, deixando tudo igual, branco, sem referência — apenas para testar a ousadia dos que não temem buscar pensamentos próprios.
Então o relógio badalou.
Não marcava horas, mas a passagem entre universos.
E, segura de si, ela cruzou o lusco-fusco e encontrou um velho baú.
A fechadura ruiu como se reconhecesse sua dona.
Dentro, repousava a ânfora — o coração adormecido do próprio mito.
Pandora se aproxima da caixa — aquela onde, um dia, disseram que armazenava inveja, crueldade, fome e desespero.
Passa os dedos sobre a tampa, como quem toca o sagrado.
Abre-a com delicadeza, afastando o fundo falso e o veludo vermelho.
E então vê.
Não há monstros.
Não há sombras.
Há apenas um espelho.
E, sem temor, ela se vê por inteira.
No reflexo, reconhece a si e a todas as mulheres que existiram antes e depois dela.
Revela ao mundo que o feminino nunca foi causa da discórdia,
mas o fio que tece a consciência do amor.
E, sob o cristal, como um sussurro guardado por milênios, repousa aquilo que jamais deveria ter sido aprisionado: a esperança — ainda viva, ainda pulsante.
Ela estava de volta não para apagar o passado, mas para ressignificar o que chamaram de maldição.
E maldição foi ela ter acreditado que a mulher não pode olhar além dos limites impostos a ela.
Porque, um dia, quando ela abriu aquela caixa, ela não sabia quem era. Não conhecia sua força.
Agora, porém, voltava para refazer o gesto — não por curiosidade, mas por consciência.

rosana858
rosana858 @rosana858

CAPÍTULO - IV

🌿 Maravilha Antiga – Jardins Suspensos da Babilônia (Iraque)
O vento sopra. Um aroma intenso de verde invade a passarela.
Em meio a águas artificiais, palmeiras e flores exóticas,
os Jardins Suspensos surgem como canteiros suntuosos.
Construídos — dizem — pelo rei Nabucodonosor II
para matar a saudade da esposa Amitis, que sonhava com montanhas e florestas.
A vegetação então sussurra ao vento:
— Ninguém sabe onde exatamente existimos.
— Alguns até duvidam da nossa existência.
Uma árvore imensa declara:
— Somos o paraíso de namoros que virou lenda.
E a lenda... vira maravilha. 💚
Ele se desfaz como miragem em alto mar, deixando os arqueólogos com o olhar perdido entre a realidade e a ilusão.

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🏛️ Maravilha Moderna – Petra (Jordânia)
As luzes mudam de cor — tons rosados revelam paredes esculpidas diretamente na rocha. Exibe um sistema de canalização de água desafiador para sua época.
Petra desfila, imponente como o deserto e silenciosa como segredos milenares.
Capital dos nabateus, guardiã de rotas comerciais,
seu olhar traz de volta os Jardins com admiração e serenidade:
— Querido, você vive no imaginário.
Eu… sobrevivo no silêncio das pedras.
Os Jardins retrucam, brilhando como visão elegante:
— E quem disse que existir é apenas ocupar um lugar físico?
A cidade rosa baila diante do pano de fundo e canta:
— Você representa o que o coração quer lembrar.
Eu… o que o mundo tenta esquecer e não consegue.
E por um instante raro, os dois se admiram.
Com olhar babilônico, ele sussurra:
— Sua cor é linda!
Petra fica vermelha e sorri:
— Confesso que seu perfume me atrai.
Os mais enigmáticos.
Os mais poéticos.
As mais inesquecíveis.
Os convidados assoviam, aplaudem e se desdobram tentando alcançar as celebridades que seduzem e brincam com as eras.

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🎭 Encerramento do Desfile
As quatorze maravilhas se alinham.
O palco treme. O mundo prende a respiração.
As luzes do anfiteatro da História oscilam.
O som do Universo é ampliado.
Uma voz divina ecoa:
— O que torna alguém uma maravilha
não é como foi feito…
mas como continua inspirando.
Os aplausos sacodem a eternidade.
A presença estabelece o que o Chronos não consegue apagar.

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CAPÍTULO - III

💔 Maravilha Antiga – Mausoléu de Halicarnasso (Turquia)
A luz baixa, e o clima fica romântico e trágico se entrelaçam.
Surge o Mausoléu, com o coração arquitetado.
Erguido para homenagear Mausolo, o rei da Cária —
uma obra do amor de Artemísia, sua esposa.
Tem pilares, esculturas e uma pirâmide no topo:
mistura de estilos gregos, egípcios e lícios — “arquitetura fusão” antes de virar moda.
Ele suspira:
— Fui construído pela saudade.
E pela dor de uma união que nem a morte separou…
A audiência suspira.
Finalmente alguém sensível!
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🤍 Maravilha Moderna – Taj Mahal (Índia)
E então, a porta se abre para… o maior romance em mármore já vivido.
Erguido pelo imperador Shah Jahan para sua amada Mumtaz Mahal.
Simetria perfeita, cristais semipreciosos, reflexos de lua no rio Yamuna…
O Taj Mahal avança entre seus quatro minaretes:
— Amor também me ergueu.
Mas para lembrar que a saudade pode ser bela como lápis-lazúli.
— Sou poema, sou lágrima, sou cúpula costurada com fios de ouro.
Eles trocam um olhar cúmplice.
O Mausoléu fecha os braços em colunas e pergunta:
— Copiou minha ideia de luto luxuoso?
Antes de você, quem chorava em mineral branco era eu!
O Taj responde com charme:
— Halicarnasso, por favor… sua beleza inspirou a minha.
Mas convenhamos: eu sou a versão de luxo.
O Mausoléu encara o destino em ruínas e conclui:
— O amor verdadeiro sobreviveu. A paixão de uma Artemísia me ergueu e você foi construído em memória a joia mais rara de um imperador. Permanecemos eternos.
Os espectadores se emocionam.
Até Zeus enxuga uma chispa discretamente.
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🗿 Maravilha Antiga – Colosso de Rodes (Grécia)
Música épica ecoa.
A estátua de trinta e dois metros de altura, feita de bronze — um super-herói da Antiguidade — entra. Ainda com o olhar que guarda o porto, ele caminha com passos pesados.
O deus grego diz:
— Eu sou o protetor das navegações. Titã, deus do Sol.
Primeiro “supercolosso” que o mundo já viu!
Eu vislumbro a grandeza de Rodes. Sob meus pés, o Egeu pede passagem.
Um terremoto me derrubou do pedestal.
Os paparazzi antigos ficaram traumatizados com o meu tombo colossal.
O auditório faz reverência imediata.
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🏛️ Maravilha Moderna – Coliseu (Itália)
Rugidos de feras ecoam. Ele entra.
Eis então a maior arena de gladiadores que Roma já ergueu:
cinquenta mil espectadores, batalhas, espetáculos, um mundo inteiro gritando “Ave!”.
O Coliseu observa o colega grego:
— Me desculpe, mas… ser “colosso” não é só altura.
— É aguentar o peso da história sem cair na primeira trepidação.
O Colosso cruza os braços de bronze:
— Querido, você faz o mundo acreditar que tapas e leões são entretenimento saudável…
O Coliseu responde orgulhoso:
— Espetáculo é espetáculo.
E eu ainda sou o cartão-postal mais clicado do nosso continente.
O Colosso dá uma piscadela metálica:
— Ok… você é grande.
— Mas “colosso”, só eu.
A plateia vai ao delírio.
O narrador quase precisa intervir com escudos e calmantes homéricos.
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O desfile continua no Capítulo IV

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CAPÍTULO - II

⚡ Maravilha Antiga – Estátua de Zeus (Grécia)
Um estrondo ecoa como trovão.
As nuvens se abrem feito cortinas — e surge o rei do Olimpo.
Sentado no trono com autoridade divina: doze metros de puro ouro, ébano e glória.
Na mão direita, a vitória; na esquerda, o cetro dos deuses.
Construída por Fídias, para lembrar aos mortais que os seres supremos mandam no jogo.
Zeus olha para as Sete jovens, ergue uma sobrancelha de marfim e diz:
— Moderninhos, vocês têm selfies demais e reverência de menos.
Um raio cai no cenário.
Silêncio absoluto.
A estátua cintila entre gemas preciosas.
Ninguém ousa responder.
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🏔️ Maravilha Moderna – Machu Picchu (Peru)
Ela surge como profecia nascida de montanha, silenciosa e sagrada:
Uma cidade inteira construída a quase dois mil e quatrocentos metros de altura, encaixando rochas com tanta precisão que nem uma folha de papel passa entre elas.
Machu Picchu ergue o que seria sua “voz” ancestral:
— Grande Zeus, não precisa exagerar nos efeitos especiais.
— No meu período, poder era silêncio, altitude e… estratégia.
Zeus rebate:
— Altitude? Eu moro no Olimpo, lembra?
Machu Picchu, tranquila como uma lhama sábia, responde apenas com existência — sólida e eterna.
Mas a plateia aplaude a engenharia da civilização inca.
E Zeus, mesmo contrariado, aceita: os Andes também têm suas divindades.
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🌙 Maravilha Antiga – Templo de Ártemis (Turquia)
Ele chega cercado de cento e vinte e sete colunas — como um exército de mármore.
É tão grandioso que dizem ter sido reconstruído três vezes, renascendo após desastres.
O Templo cede a palavra à deusa da caça, que fala:
— Eu era museu e galeria de arte num só corpo.
Ela lança uma flecha imaginária para o teto, só por glamour. O tecido cósmico se rasga e estrelas caem, bordando o mar.
Ártemis retorna ao monumento, que é ovacionado, e exala fragrâncias de flores noturnas que deixam o público enfeitiçado.
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🐍 Maravilha Moderna – Chichén Itzá (México)
A música muda — tambores maias tocam o ritmo do tzolkin.
Surge Kukulkán, pirâmide com escadarias alinhadas ao Sol.
A serpente de luz do equinócio toma forma.
Chichén Itzá cumprimenta com elegância:
— Saudações, Ártemis. Vejo que seu templo era famoso pela forma.
— O meu… pela transformação.
Ártemis responde com sorriso de predadora:
— Meu querido, rituais sob a lua eu inventei.
— Mas confesso que sua serpente é poesia que desce degraus.
Um encantamento paira no ar. Uma coruja pia para quebrar o feitiço.
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O desfile continua no Capítulo III

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CAPÍTULO - I

🌿 Mensagem da Autora
Escrevi este texto movida por um amor antigo — o amor pela História.
Desde sempre, ela me fascina. Não apenas pelos fatos ou pelos nomes,
mas pelas vozes que ainda ecoam em cada pedra, em cada ruína, em cada sonho humano que ousou existir.
Desejo que, ao ler estas palavras, você também sinta um pouco dessa vibração.
Que perceba que a História não vive apenas nos livros,
mas no coração de quem ainda se emociona diante da beleza do que fomos —
e do que podemos voltar a ser.
Não quero ensinar. Quero lembrar.
Quero que você caminhe comigo entre as Maravilhas do Mundo Antigo
e, por um instante, perceba que nada foi realmente perdido.
Tudo ainda vive — dentro de nós.

🌿 Para os que amam a História,
👑 o passado se veste de gala
🎭 e o tempo aplaude de pé —
um encontro repleto de humor, brilho e reflexão.

O Desfile das Maravilhas
Quando a História volta aos holofotes — deuses e mortais descobrem que nem o tempo apaga o que é sublime.

A História, inquieta ao perceber que os humanos já quase não se lembram de suas próprias origens, decide realizar um encontro grandioso:
As Sete Maravilhas do Mundo Antigo frente a frente com as Celebridades do Mundo Moderno.
O encontro épico está repleto de egos, mistérios e muita pose.
O local escolhido: um centro de convenções imaginário em pleno Atlântico, onde ondas batem como aplausos e drones projetam lembranças de séculos atrás.
Somente os nomes mais influentes foram convidados: historiadores, artistas, arqueólogos, pensadores, governantes…
Atores norte-americanos conduzem a noite — afinal, amam espetáculos que transformam em cenas de Hollywood.
As Maravilhas Antigas cruzam o tapete vermelho como quem traz consigo o pó da idade.
As Modernas sussurram, com certo desdém:
— Quem ainda lembra desses monumentos velhos de pedra?
Ofendidas, as Antigas erguem suas colunas e respondem:
— A humanidade vive da memória. E nós somos memória.
O público silencia.
Os refletores se acendem.
O desfile do século XXI começa.

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⛰️ Maravilha Antiga – Grande Pirâmide de Gizé (Egito)
Ela surge com a elegância de quem reina sozinha por mais de quatro mil e quinhentos anos.
O mestre de cerimônias anuncia:
Única sobrevivente das Sete Maravilhas Antigas!
Símbolo do Faraó Quéops!
Cento e quarenta e seis metros quando jovem — quase sem rugas!
Guardiã de enigmas, astros e espíritos!
A Pirâmide desliza como supermodelo de granito:
— Não envelheci… apenas me petrifiquei com estilo.
O público aplaude. Até os drones reverenciam.

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🧱 Maravilha Moderna – Grande Muralha (China)
Ela se estende por quilômetros, ondulando como serpente da Terra:
— Por favor, piramidinha… aqui chega a mais ilustre e longa do planeta.
A Pirâmide revira seus blocos e responde:
— Extensão não define grandeza, querida.
A Muralha rebate:
— Melhor comprida que saqueada por milênios.
Risos. A Pirâmide tosse de forma milenar, soltando um grão de areia:
— Magoei.
Os historiadores vibram. Os fotógrafos disparam flashes. E o evento prossegue.
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🗼 Maravilha Antiga – Farol de Alexandria (Egito)
Um hieróglifo plasmado de luz e bronze se materializa.
Três andares que antes guiavam navios e sonhos.
Sentinela da Biblioteca de Alexandria e guia dos mares.
O personagem avança na passarela e diz:
— Eu era o farol que iluminava destinos, o wi-fi marítimo antes de qualquer bússola.
Ele faz movimentos circulares; seu ápice de espelho reflete a energia solar e ofusca os presentes, que se curvam diante do seu brilho.
Os artistas aplaudem.
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✝️ Maravilha Moderna – Cristo Redentor (Brasil)
Acordes de bossa nova trazem harmonia.
Ele surge com trinta e oito metros de braços abertos, abraçando o mundo do alto do Corcovado.
Construído em pedra-sabão, símbolo da fé e da paz.
Sorri com serenidade e anuncia:
— Meu amigo Farol… eu também guio.
Mas guio corações.
O Farol pisca sua luz antiga:
— E quando um navio se perde? Você abre mais os braços?
Cristo sorri com calma celestial:
— Eu confio na fé do marinheiro.
A plateia dá um “ohhhh!”.
O Redentor deixa a passarela. As pessoas ficam em clima de oração.
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O desfile continua no Capítulo II

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O Riacho que Desejava ser Mar

Mais que opinião alheia, importa a verdade que você carrega de si.

Ele nascia no alto da serra, entre árvores frondosas, com uma vista deslumbrante. Deslizava pelas fendas feito um véu de noiva: leve, sereno, quase etéreo. Os animais que habitavam aquele lugar o observavam e murmuravam:

— Ele é estreito, raso… suas cachoeiras não têm cor. Nada se compara ao mar, vasto, profundo, da cor do céu.

O riacho, de tanto ouvir, começou a acreditar. Cada vez que olhava lá do alto, sentia-se pequeno, insignificante. Afinal, era apenas um fio de prata, e o rival, imenso, parecia ter todo o poder do mundo.

Ele observava os navios cruzando o tapete azul e se entristecia ainda mais. Queria ser gigante, abrigar tubarões, ser palco das acrobacias das baleias, berço de pérolas. Em suas piscinas só nadavam peixinhos, que refletiam sua pequenez. Mas o desejo de crescer era intenso. Sonhava em encontrar aquele que lhe causava inveja e perguntar-lhe o segredo da grandeza.

De tanto desejar, a força de seus pensamentos provocou uma tempestade em seu próprio abrigo. Rochas enormes rolaram da montanha em fúria e caíram lá embaixo com estrondo. Ignorando o desastre que havia provocado, ficou orgulhoso: se as pedras podiam descer, ele também podia. Então, deixou-se levar pela chuva torrencial, esticou seus braços fluentes e deslizou até a praia.

Ao chegar à areia, o sol era intenso e seu líquido cristalino se turvou, misturado à terra, à poluição e à pressa. Desesperado, correu em direção ao sonhado arquétipo. Uma onda veio ao seu encontro e o envolveu num abraço firme e salgado. O rio, assustado, se deixou levar. Misturou-se à maré profunda, sentiu o gosto do sal, das embarcações, a densidade do oceano, o poder que antes lhe parecia inalcançável.

Então ouviu pessoas comentando sobre sua beleza, sobre a delicadeza de sua bruma multicolorida, sobre a importância de suas águas cristalinas. Olhou para cima e sentiu vergonha dos sentimentos que carregava dentro de si. Saudade da origem, do silêncio, do verde da serra, das flores, da pureza de sua nascente.

E foi assim que descobriu seu valor: cada um tem sua medida, seu brilho. Ele era doce, essencial, único. E sua beleza, diferente da do mar, era igualmente grandiosa.

Infiltrou-se no solo o mais fundo que pôde, aconchegou-se num lençol freático e se deixou levar de volta ao seu leito no topo da colina, onde vive até hoje, amigo de todos os seres da floresta, mas sem permitir que a opinião alheia interfira em sua autoestima. Havia aprendido: ignorava o que pensavam sobre ele.

Agora sabia seu valor.

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rosana858 @rosana858

Separados pela Ilusão

Estava atrasada. O táxi cortava as ruas como se fugisse de algo — talvez de mim. Eu queria partir. Outro país, outro idioma, outro fuso. Qualquer coisa que me desse a ilusão de começar de novo. Na bagagem, além das roupas e dos documentos, levava uma dor que ainda latejava fundo: um romance que não deu certo.

Quando o avião decolou, senti um aperto estranho. Não era medo de altura, mas de não conseguir ir embora. A cidade encolhia sob as nuvens e, por um instante, senti alívio. Achava que estava escapando. Mas bastou olhar pela janela: tudo diminuía — casas, ruas, memórias — exceto o amor.

Esse crescia, como se a longitude aumentasse aquilo que eu queria enterrar.

Lá embaixo, a paisagem se desenrolava como um mapa vivo. Rios e lagos uniam lugares, campos, florestas. E pensei: talvez até o sofrimento seja uma forma de ligação. Dentro da aeronave, línguas diferentes se misturavam — português, inglês, espanhol. Pessoas distintas, destinos variados, cruzando as mesmas nuvens, respirando o mesmo ar pressurizado. A diferença era só a linguagem porque, no silêncio, no gesto, no olhar, éramos iguais.

Pedi um espumante. Brindei sozinha.

À tentativa de ignorar o sentimento.

À fantasia da distância como cura.

O jantar veio e, com ele, pensamentos:

Quem plantou esse trigo?

Quem embalou esse molho?

Tudo conectado — do campo ao prato, da terra ao céu.

Anoiteceu. O horizonte ficou escuro e salpicado de estrelas. Tecido cósmico. Tapeçaria divina. Onde estaria a aeronave agora? Em que país e em que tempo? E, mais do que isso, quem foi que decidiu dividir o globo em pedaços, como se fosse um quebra-cabeça, quando, na verdade, tudo sempre foi uma coisa só?

Olhei para a tela que mostrava o avião cingindo o espaço — uma animação boba, um ícone flutuando sobre tons de azul profundo. E foi ali, naquela representação simplificada do planeta, que algo dentro de mim se expandiu: o universo não tem demarcação. A vida inteira estamos tentando construir muros, quando, na verdade, o mundo é feito de pontes.

Por mais que o ser humano se esforce para separar, rotular, disputar e guerrear — por solo, poder, religião, ideias ou por amor — no fim das contas, nada disso importa. Estamos todos ligados. Por memória, por afeto, por ausência.

O mesmo mar que banha um país atravessa também outro. É a mesma água, em movimento, que abraça territórios que se dizem inimigos. As fronteiras são invenções humanas, linhas imaginárias traçadas por medo. Não há separação, apenas continuidade. Somos, talvez, peças do Todo, espalhadas por um cosmo imenso, misterioso e em evolução.

Talvez seja isso que chamam de vida: um eterno ir e vir, tentando costurar pedaços nossos espalhados pelo mundo. Talvez amar seja justamente reconhecer que nada está realmente distante. Que aquilo que dói, permanece. Que aquilo que é verdadeiro, encontra caminho.

Respirei fundo e fechei os olhos. Lá fora, o oceano continuava a se mover, indiferente às divisas. Aqui dentro, meu coração também — insistindo em se lembrar do que importa.

Porque, no fim, percebi que eu não estava fugindo de uma paixão.

Eu estava voltando para mim.

E quando estamos bem conosco… nunca estamos sozinhos.

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🍎 O Espírito da Big Apple
Um conto sobre personalidade, propósito e o desejo de ir além do que esperam de nós.
Afinal, há quem prefira ser escolhido — e há quem ouse escolher.

Dizem que, certa vez, em um pomar distante, nasceu um fruto diferente.
Trazia em si uma inquietude — uma vontade de ir além das raízes.
Desde pequena, sentia que a vida podia ser mais do que um simples pote de geleia.
Ela não queria amadurecer apenas para cair. Queria compreender o céu.
Apesar de ter nascido da mesma macieira, nunca se sentiu somente parte dela.
Enquanto as irmãs se vangloriavam da aparência da casca e da doçura da polpa, ela se perdia observando as borboletas, encantada com a possibilidade de um dia poder voar também.
— Sonhadora! — diziam. — Em vez de conversar com insetos, devia se preocupar em sobressair para que suas sementes sejam escolhidas na próxima safra!
Mas ela não queria ser escolhida. Queria escolher.
O tempo passou, e fez amizade com abelhas, joaninhas e até com algumas criaturas consideradas pragas.
Assim, o quintal passou a vibrar em harmonia — e os parasitas, sem sintonia com aquela vibração, buscaram outras plantações para habitar.
O lugar floresceu. Então, o mundo notou.
Um dia, chegaram homens com câmeras e microfones, tentando capturar o mistério daquela fazenda.
Ela pressentiu que algo sagrado estava para acontecer.
No instante em que o jornalista ergueu a lente, o panapanã coloriu o ar, e o sol rasgou as nuvens, iluminando seu galho.
Uma pomba branca pousou sobre ela — guardiã do instante.
E brilhou com uma intensidade jamais vista — como se o céu tivesse se inclinado para tocá-la.
A imagem correu o universo.
Símbolo do amor e da beleza, estampou capas de revistas, apareceu em comerciais e inspirou artistas.
Logo, os prêmios mais cobiçados da cidade — especialmente no mundo das corridas de cavalos — começaram a ser apelidados de “The Big Apple”, por causa do encanto e da grandeza daquele pomo vermelho.
O termo ganhou o coração dos nova-iorquinos e, mais tarde, tornou-se símbolo da metrópole que nunca dorme.
Desde então, dizem que o espírito da maçã vive em Nova York.
Esconde-se nas luzes dos arranha-céus, entre as árvores do Central Park e nas águas que cruzam o Hudson, no murmúrio das multidões que não param.
Porque a cidade, como ela, aprendeu a não se conformar com o cesto.
Aprendeu a brilhar.

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rosana858
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O Homem do Parque

Fui demitido depois de trinta anos trabalhando como almoxarife.

O chefe alegou que a empresa precisava “renovar o quadro” de colaboradores. Bonita forma de dizer que eu já não servia mais.

Estranho como o ser humano é, às vezes, tratado como uma peça gasta, sem conserto — um objeto que perdeu a utilidade.

Recolhi meus poucos pertences das gavetas e, enquanto caminhava até o portão, senti o peso leve de quem não carrega mais crachá, mas a estranheza de quem perdeu o chão.

Se meu corpo estava cansado, minha mente nunca estivera tão desperta.

Saí sem pressa.

Os passos, antes longos e céleres, tornaram-se lentos, como se eu redescobrisse o ritmo das horas.

Ao atravessar a rua, um som me chamou a atenção — o canto de um sabiá.

Foi então que reparei em um parque do outro lado da rua, algo que sempre estivera ali. Talvez a rotina acelerada tivesse me cegado.

Decidi adiar a volta para casa. Afinal, eu tinha o dia inteiro livre.

Entrei no bosque, curioso. O ar fresco tocou meu rosto, convidando a ficar.

As árvores altas entrelaçavam galhos sobre mim, formando uma catedral verde.

Sentei num banco. Admirei os patos. Me encantei com as flores dançando nas margens do lago.

A paisagem respirava, mas era ignorada.

Pessoas passavam correndo, com fones nos ouvidos, alheias à canção dos pássaros.

Mães empurravam carrinhos de bebê sem notar o sorriso dos filhos — presas às telas luminosas dos celulares.

Reconheci semblantes cansados, olhares apagados, corações perdidos...

Ali confirmei o que sempre soube: a idade de uma pessoa não se mede pelo tempo, mas pela luz que brilha na alma.

Dialoguei com idosos que ainda não sabiam que a existência se torna mais serena quando aceitamos e aprendemos com as diferenças.

Acredito que não estamos aqui a passeio. Precisamos dar nosso recado ao mundo, deixar marcas em gestos fraternos — e, quando fazemos isso, a trajetória ganha cor e significado.

A bagagem que levamos ao partir não é material; quanto mais leve a mala, mais suave a travessia.

A vida é didática — às vezes coloca obstáculos para que compreendamos o sentido de cada desafio.

E sorrio — porque ocasionalmente recebemos sinais cifrados, que podem vir pelo canto do sabiá.

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rosana858
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Doçuras ou Travessuras

No dia 31 de outubro, algo mágico acontece: o véu que cobre os mundos fica mais transparente!

Kundo, o duende da sabedoria, florescia de alegria.

Ele queria provar que o medo é uma forma de controle disfarçada.

Pelo Cosmos, criaturas fantásticas bailavam entre varinhas de condão, caldeirões fumegantes, poções mágicas e caveiras risonhas — e entre elas estava Mafalda, uma bruxinha de seis anos, com vestido púrpura e olhos ansiosos que faiscavam como estrelas.

De repente, um vento brincalhão de Kundo arrastou todos para o outro lado do véu — direto para uma festa na Terra!

A noite mágica já encantava a Vila dos Despertos, e a celebração de Halloween prometia surpresas assombradas.

A fogueira estalava com chamas atrevidas, e abóboras sorridentes iluminavam mesas repletas de doces em forma de morcegos, aranhas e monstrinhos coloridos.

Bruxas em vassouras deslizavam pelo ar, fadas cintilavam como arco-íris, fantasmas atravessavam paredes, zumbis tocavam músicas engraçadas, e múmias dançavam, sacudindo seus esqueletos em ritmo maluco — animando e convidando todos a entrar na roda.

Mafalda corria de mãos dadas com Duda, um garoto humano.

Eles riam e pediam doçuras em troca de travessuras.

Fantasmas zombeteiros atravessavam paredes, fazendo os humanos rir e aplaudir.

O olhar não julgava, e o impossível era verdade.

Era a lógica zombando das certezas.

O encantamento não exigia explicação — apenas abria espaço para que o mistério florescesse, e a magia surgisse.

O possível, disfarçado de impossível, brincava, se escondia e só se revelava para quem acreditava nele e lhe dava asas.

Então, Kundo subiu no palco com uma bola de cristal nas mãos.

— Agora vocês vão ver a verdade! — anunciou.

E o sorriso se perdeu diante da dúvida sobre o que viria a seguir.

E todos viram.

De um lado, humanos.

Do outro, criaturas fantásticas.

Por um instante, houve pânico.

Gritos.

Silêncio.

Mafalda e Duda olharam assustados.

Mas a inocência não compreendeu o porquê da confusão!

Continuaram de mãos dadas e começaram a rir.

E, aos poucos, o medo de todos se quebrou como vidro.

O horror não existia.

Era só brincadeira.

Kundo ergueu o véu, e a noite seguiu encantada, abrindo espaço para mais festejos.

No dia seguinte, todos os santos seriam lembrados.

E, logo depois, em 2 de novembro, flores e velas iluminariam a memória dos que nunca se vão.

Quando o sol nasceu, o feitiço se desfez.

As máscaras voltaram a cobrir rostos.

Mas, na Vila dos Despertos, ninguém esqueceu: o medo nada mais era que ignorância.

E todos — humanos, bruxas, fadas, fantasmas e duendes — pertenciam à mesma dança.

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rosana858
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O Chamado da Samotrácia

Ali dormem objetos antigos, obras de arte, mitos e muita história.
Caminho entre as alas do museu como quem atravessa gerações —
cada sala é um portal, cada vitrine um eco do que já foi vida.
Na maioria delas, o ar é denso, de séculos.
Os sarcófagos, expostos como joias raras, guardam o silêncio de civilizações que insistem em não partir.

Entre os artistas mais consagrados estão:
Michelangelo, que toca o divino com as mãos;
Da Vinci, que desafia um sorriso enigmático;
e Caravaggio, que captura sentimentos dançando entre a claridade e a escuridão profunda.

Sinto um chamado estranho que não identifico.
Meu coração me conduz à escadaria Daru.
Com cautela, subo os degraus, temendo acordar os espectros que vigiam os destroços da Grécia antiga.
E ali, no topo monumental, reina uma deusa alada — imóvel e viva.
Ela atrai a multidão que caminha cega, fascinada por seu brilho.

Como quem se aproxima de um altar,
paro diante dela, e um arrepio percorre meu corpo.
O mármore de Paros respira e pulsa.
A figura imponente cativa olhares e admiração, mesmo mutilada.
As asas, abertas ao sopro invisível do mar, ainda preso em suas dobras.
Ela não foi esculpida apenas em pedra —
foi moldada em sonhos, desejos e tempos suspensos.

A imagem transcende.
Sua essência flutua entre matéria e éter.
Com um pé na terra e outro no infinito,
sua envergadura triunfal abre águas invisíveis.

O vestido branco guarda o sal do criador.
Da proa de um navio imaginário, ela me convida a atravessar as eras.
E, de repente, o murmúrio do Louvre se dissolve.
O relógio se detém.
Os passos ecoam, distantes, desaparecendo nas paredes de rocha.
Do alto do palco de calcário, ela vibra — e o portal se abre.

Totalmente inebriada por sua presença, aceito o convite.
Embarco.
A nave flutua, rasgando o vazio.
Ao longe, avisto a ilha de Samotrácia.
Aporto num século que se foi.

Lembranças despertam.
A areia quente abraça meus pés.
O instante traz um perfume —
reconheço mesmo antes de lembrar.
É o mesmo que senti quando te perdi.
Um frio percorre o estômago.
A dor despedaça minha alma, que vaga à deriva.

Corro.
Subo a colina e te procuro junto às ruínas do Santuário dos Grandes Deuses.
Clamo por você entre os vestígios da época,
mas encontro apenas a resposta do teu nome.
Sou parte daqueles que estão no Templo dos Mistérios Sagrados.

Ali, uma mulher alada reina completa.
Flutuando à frente do barco, a deusa olha para o azul do Egeu.
Sua mão saúda a vitória com leveza.
O pé roça suavemente a nau.
A roupa é presa pelo vento.

Desesperada, busco teu rosto entre os corpos caídos no chão.
Grito. Driblo a guerra. Enfrento os soldados romanos.
Por um instante, vejo teu olhar —
mas ele se apaga, como uma estrela que decide voltar ao céu.
O sangue mancha minha pele.
Registra medo e perda do amor em minha essência.

A natureza completa seus ciclos.
A tempestade soterra tudo.
Minha fé e minha paixão repousam submersas.
A morte chega — e me leva,
para que eu possa surgir novamente.

Um lampejo me traz de volta ao museu.
Agora eu vejo: Nike, sem mãos.
Alcança o presente com a mesma grandeza
com que consagrou a vitória no passado.
Sem olhos, mas capaz de iluminar — de transformar Paris em cidade-luz.

Despeço-me do Louvre
Mergulho na noite.
Ainda tento encontrar você em qualquer resquício onde possa existir história —
onde o tempo, em segredo, ainda nos recorda.
Deixo para trás o peso das salas escuras, o cheiro de funeral, o ancestral fossilizado.
Levo comigo a saudade daquele dia — teu beijo,
e o sopro invisível da Samotrácia.

@rschumaher

rosana858
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O Livro que Você Escreve Todos os Dias

Dizem que, quando nascemos, um livro se abre no universo. As primeiras frases são escritas por mãos invisíveis — talvez o destino, talvez o acaso. Mas o restante… ah, o restante pertence apenas a nós.

Você sempre soube disso, mesmo sem perceber. Desde pequena, gostava de imaginar que a vida era uma grande história sendo desenhada a cada instante. E, como todo bom autor, aprendeu cedo que não existem linhas perfeitas — apenas aquelas que fazem sentido dentro do coração.

No começo, tentou seguir o roteiro que os outros sugeriam: textos previsíveis, personagens convenientes, finais seguros. Mas em algum momento percebeu que estava escrevendo uma biografia que não era a sua. Então, apagou, respirou fundo e decidiu recomeçar.

Foi assim que o gênero da sua história mudou.

Deixou de ser drama e passou a ser aventura.

Vieram os capítulos intensos — aqueles de luta, de insegurança e de noites insones. Mas também vieram as vitórias, as descobertas e o brilho de um novo amanhecer após cada tempestade. Você aprendeu que toda narrativa grandiosa precisa de emoção — e que o nome disso, no fundo, é crescimento.

O medo, esse personagem insistente, tentou roubar espaço em várias passagens. Mas você o venceu — não o eliminando, e sim convidando-o a caminhar ao seu lado, para que ele aprendesse o que é coragem.

Hoje, suas páginas estão marcadas por rabiscos e reescritas. Há trechos excluídos, parágrafos refeitos e versos que você decidiu transmutar. E é justamente isso que torna sua obra viva, autêntica e rara.

Não há nada mais mágico do que chegar ao epílogo e perceber que cada linha — até as mais doloridas — ajudou a construir uma história digna de ser lembrada.

Por isso, continue.

Não permita que ninguém escreva por você.

Seja intensa: ame, seja poesia, viva um romance.

Seja ousada — e, se for preciso, arranque páginas e recomece quantas vezes for necessário.

Seja sábia o bastante para reconhecer que só você sente o que pulsa dentro do seu próprio enredo.

E quando alguém, um dia, abrir o livro com o seu nome na capa, quero que sorria ao perceber:

essa foi uma vida que valeu ser lida.

@rschumaher

rosana858
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Fusão Lunar

A mulher deixa-se embalar pelo ritmo do vento que move a rede.
Observa a noite iluminada à sua frente.

A lua brinca de esconde-esconde.
Nuvens afoitas tentam apagar sua luz,
mas para ela, soberana e única, pouco importa estar em primeiro plano.

Sedutora e senhora de muitas faces,
ora se recolhe no quarto minguante, ora na fase nova.
Cresce ao longo das semanas e, finalmente, se entrega por inteiro —
plena e cheia, como nesta noite.

As duas vibram na mesma frequência; seus ciclos são um só.
Então, um intruso se aproxima. A disputa feminina paira no ar.
Ele surge de mansinho, vindo da escuridão.

O clima de paixão se adensa.
A mulher, tomada por ciúme, intui que o amor entre ele e a feiticeira vem de outras eras.
Desconfia que se encontram nas madrugadas — num namoro secreto.

A lua, desejando impressioná-lo, cintila com toda a sua intensidade.
O homem veste um manto de névoa e dança pelo gramado,
seguindo o ritmo das marés.

A mulher percebe que sua presença é ignorada.
Levanta-se e decide também entrar no palco.
Com medo de quebrar a magia daquele instante, sente a terra sob os pés e caminha lentamente.

Ele ignora sua presença e continua a bailar livremente.
Tomada por uma intensa necessidade de fazer parte daquele espetáculo,
a mulher compreende que precisa entrar em cena.

Libera seu perfume.
Seu cheiro atrai a criatura,
que, fascinado, bebe o elixir de sua taça.
Ela o observa com paixão, como um mestre diante de sua obra-prima.
Seu corpo se torna leve, como tinta na ponta do pincel de um artista.
Deixa-se conduzir, permitindo que ele defina suas nuances e formas.
Entrega-se ao compasso frenético e multicolorido da obra, que finalmente se completa.

Uma conexão ancestral.
A fertilidade ascendente.
Masculino e feminino se fundem em prazer.
E a lua, em silêncio, brilha — mera testemunha.

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rosana858
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Do Grão a Luz

Ela era o nó silencioso que amarrava várias estradas. Estava ali desde antes do tempo registrado.

No início, o lugar era oceano; depois, tornou-se deserto. Ela, que fora um pequeno grão de areia, crescia, acumulando matéria orgânica que grudava em seu corpo, resultado dos tombos que levava. No começo, era frágil e se quebrava; com o passar das eras, ganhou resistência.

Cavaleiros e algumas carroças solitárias começaram a cruzar seu caminho. Nas noites de sexta-feira, ela era altar. Um grupo depositava oferendas sobre ela. O sangue de animais, velas, cachaça manchavam sua pele. A encruzilhada se iluminava com a luz trêmula dos rituais, e ela absorvia a energia, em clima de oração.

Movia-se apenas quando um casco de animal a empurrava, quando uma roda passava sobre ela e a fazia rodopiar, ou quando algum desatento a chutava. Uma vez, uma enxurrada a arrastou para o barranco, e ela só retornou à estrada anos depois, quando uma família a escolheu como base para a fogueira de um piquenique. Naquele dia, sentiu o calor aquecê-la, o que provocou um desejo enorme de soltar faíscas.

Mas naquela manhã, tudo mudou.

Veículos enormes invadiam a rodovia. Máquinas ruidosas arrancavam pedaços do solo que ela chamava de lar. O mundo se multiplicava em possibilidades e vozes, e, de repente, uma pá de ferro gigantesca a abocanhou junto com a terra.

Dentro da caçamba, soterrada, o mundo se abriu com um solavanco. O caminhão partia em velocidade. Do alto, olhou para a rotatória e viu que um horizonte poeirento ficava para trás. Os buracos do trajeto a faziam emergir ainda mais do cume de chão despedaçado. Depois de horas saltitando, uma colina surgiu à frente. O ar ficou fresco, quase líquido. A vegetação mudou; agora era verde vibrante, cheia de viço. As cachoeiras caíam em perfeitos véus de noivas. Flores bordavam os barrancos, colorindo tudo ao redor. Ela ficou fascinada; o chão que conhecia era feito apenas de lama, sem vida, sem nuance.

Ao final do trajeto, deslizou junto com a terra que ainda carregava o cheiro do antigo lar. Caída no gramado, ficou por uma semana. Mãos cuidadosas a tocaram com fascínio e a colocaram em uma carriola. Um par de olhos sensíveis olhou para ela — "Que xisto incrível… Vai ficar perfeito no novo projeto" — sussurrou alguém.

A sujeira que a envolvia foi retirada. Segura por luvas de borracha, recebeu seu primeiro banho. Sentiu a bucha ativar sua crosta, e seus veios tímidos azulados apareceram. Agora podia revelar seu brilho oculto.

Meses depois, a cruz de madeira ergueu-se no alto da montanha. Uma igreja nasceu, e o sino da torre badalava com força. Polida, reluzente, foi colocada no altar entre dois anjos, tornando-se a pia batismal que receberia a água e o choro das crianças, guardando memórias e esperanças no fundo de sua alma de rocha.

E ali, finalmente, aprendeu que, mesmo uma pedra lançada à encruzilhada do tempo, podia ser lapidada — e se tornar luz.

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O Cântico Entre Mundos

O chamado ecoa; o coração sente.
Ela segue, sobe os degraus de pedra, observa — e não vê.
No alto da torre, o cenário panorâmico sepulta o horizonte,
que se veste de nuvens como uma mortalha.
Toca o passado.
O antigo sino de ferro fundido permanece calado.
Passa os dedos pelos desenhos forjados em ferro e devoção.
Juntos, no mesmo templo —
ele no subterrâneo; ela no alto da torre —,
ambos escutam o mesmo cântico ressoando entre seus mundos.
A alma dela se eleva — sente a vibração da presença que mora no calabouço.
A sombra dança na escuridão; ele recita versos em silêncio.
Cada nota é uma centelha que aquece,
como um corte profundo — um refrão que dissolve o “eu”,
até restar apenas o pulsar do mistério que a instiga.
A melodia atravessa os dois; mesmo separados, consagra.
Ela o aceita, acolhe, transcende;
na diferença, tece significado.
Ele se deixa permear, esquece a prisão,
oferece-se à força que o desnuda.
E, por um instante — breve e eterno —,
um jorro de luz atravessa a rocha.
O abismo e o alto se encontram.
Os dois reconhecem o mesmo ritmo, a mesma origem.
O mundo sopra entre eles — invisível e, ainda assim, palpável.
Um tempo se dobra, se reflete, se transforma.
Do cume da fortaleza, ela entende que a canção não lhes pertence.
Do fundo da galeria, ele sente que o canto não precisa de resposta — apenas de presença.
E assim, o sentimento continua, ignora as muralhas,
aquecendo o que já foi tocado pelo amor —
e que dispensa palavras por, desde o início, simplesmente ser.

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rosana858 @rosana858

O Sentido de Existir

Ela dormia serena entre baldes, vassouras e rastelos.
O ar cheirava a fertilizantes, pesticidas e substrato.
Ninguém sabia desde que época estava ali — talvez anos, talvez décadas — à espera de uma oportunidade que a fizesse despertar.

O espaço era abafado, escuro, e o ar pesado, mas nada disso a incomodava.
Não sentia desconforto — desconhecia que podia existir vida fora do frasco que a aprisionava.

Diariamente, pessoas entravam e saíam, e vozes de diferentes timbres ecoavam pelo pequeno depósito.
Até que, num dia qualquer, uma menina curiosa resolveu abrir a porta emperrada.

O armário revelou infinitos potes de vidro cobertos de poeira.
Em um deles, uma etiqueta amarelada trazia a palavra quase apagada: “Baobá.”
A garota passou a mãozinha sobre o recipiente e descobriu que, dentro dele, repousavam pequenas sementes.

Com esforço, abriu a tampa corroída pela ferrugem.
O pote, escorregadio, caiu de suas mãos — e o cristal se partiu.

Assustada, temendo a bronca dos adultos, recolheu os grãos e os guardou em outro recipiente, devolvendo-o à prateleira.
Fechou novamente a porta da estante, deixando os gérmens outra vez, encarcerados no tempo.

Mas, no instante em que o vidro se quebrou, uma bolinha branca aproveitou o breve sopro de liberdade e saltou.
Ela se lançou ao desconhecido e buscou refúgio entre as fibras do velho capacho.

Ali ficou — esquecida.
Até que, um dia, sentiu frio.
Sua casca gelou.
Agora estava exposta, fora do abrigo transparente.

Uma bota suja de lama pisou sobre ela, que aproveitou para grudar-se à sola, encontrando morada temporária.
Cada passo era um atrito, um chamado.
Então, escondida nas ranhuras, começou a mover-se.

A princípio, ficou assustada.
Não conhecia o mundo.
O passo apressado do seu hospedeiro pisou numa poça d’água.
Ela se soltou do couro e mergulhou.

Sentiu-se mole, desamparada, com saudade da antiga morada entre as amigas adormecidas.
A chuva veio forte e a levou para longe.

Agora, em um sulco profundo, ela começou a vibrar.
Havia algo acontecendo dentro dela — algo que não conseguia mais conter.
O calor do sol a envolvia.
Os pássaros cantavam.
A brisa trazia perfumes adocicados e lhe afagava.

Então, seu invólucro começou a rachar.
Ela ouviu uma voz que vinha do seu interior.
Era o chamado da vida — que exige evolução.

Desesperada, agarrou-se à terra — e, desse esforço, nasceram raízes frágeis que, aos poucos, se firmaram.
Sua base aprofundou, fortaleceu.

Quando olhou para si, percebeu que seu topo também havia se rompido — e dali brotavam folhas verdes.
Cresceu.
Atingiu altura considerável.
Saiu do buraco.
Deu abrigo aos animais.
Mas ainda sentia que seu desígnio não estava completo.

Absorveu a luz.
Respirou o ar.
Fez fotossíntese.
Floresceu.
Encantou.
Coloriu o mundo.

Atraiu abelhas e insetos que dançaram em torno dela.
Ofereceu seu pólen, que se transformou em mel.

Na estação seguinte, viu suas flores perderem as pétalas.
Mas agora sabia: não é preciso temer a transformação.

Gestou com plenitude seus frutos — e, ao vê-los amadurecer, servindo de alimento, sorriu satisfeita.
Seu destino estava quase cumprido.

Aproveitou o vento, espalhou sua memória genética, permitindo que seu legado viajasse para além do tempo — onde cada semente renasceria, não por acaso, mas por coragem — cumprindo o propósito de existir em plenitude.

Ela, árvore.

@rschumaher

rosana858
rosana858 @rosana858

Conto sem fadas

Alguém decide transformar o velho livro de contos infantis em um arquivo digital. Porém, algo sai errado.
Era uma vez um espelho mágico que pertencia a uma invejosa rainha má. O objeto, que só dizia a verdade, revelou a Chapeuzinho Vermelho que algo catastrófico havia acontecido: uma pane virtual danificara arquivos no mundo inteiro, deixando personagens perdidos em histórias embaralhadas.
A menina acessa a página e se depara com retalhos de capítulos. Sem hesitar, segue adiante. Esgueirando-se entre uma frase e outra, observa que a Bela Adormecida está acordada e sendo beijada pelo namorado da Branca de Neve. Branca de Neve, analisando a situação, decide procurar o sapo príncipe da rival e cobri-lo de beijos, estabelecendo um equilíbrio para a traição observada.
No próximo parágrafo, três porquinhos aparecem desorientados em uma floresta. Cícero, Prático e Heitor encontram um caminho feito de migalhas de pão e resolvem segui-lo. A trilha os conduz até a casa de Joãozinho e Maria, onde são recebidos pela madrasta das crianças. Em poucos minutos, os três se tornam um suculento assado.
Chapeuzinho fecha o site e abre a próxima janela. Num flash infantil, surge um castelo com uma escadaria enorme, onde repousa um sapatinho de cristal. Joãozinho apanha o calçado e o atira no rio. O sapo príncipe, abandonado, guarda o sapato na hipótese de que Cinderela se interesse por ele.
De repente, a menina detecta um cheiro de caramelo. Com um clique, visualiza uma casa de doces. O local está habitado pelo Lobo Mau, que, em vez de soprar a estrutura, devora as guloseimas. A vovozinha observa a mudança de hábitos alimentares da criatura.

Rolando a página, Chapeuzinho vê uma bela maçã sendo apanhada pela madrasta da Branca de Neve. Sem perceber o perigo, a malvada dá uma mordida no fruto envenenado e cai em sono profundo. Nenhum príncipe surgiu para despertá-la.
O relógio na tela marca 01:05. A carruagem de abóbora está apodrecida. O baile terminou. Uma jovem princesa descalça retorna para casa, enquanto um príncipe oficializa o namoro com uma menina chamada Maria.
A imagem no monitor revela o Lobo Mau sendo examinado por uma bruxa. Com um olhar avaliador, ela sentencia: “Sua boca grande, seu focinho comprido e suas orelhas pontudas darão uma bela e farta feijoada.” O Lobo reage, empurrando a feiticeira para dentro da fornalha.
Enquanto personagens tentam encontrar sua verdadeira fábula, Chapeuzinho Vermelho rastreia o arquivo principal para restaurar a ordem no mundo dos contos. Vasculha a biblioteca digital e localiza um arquivo nomeado "Histórias Originais". Antes de abri-lo, um homenzinho estranho surge diante dela.
“Quer consertar isso? Fácil! Apenas diga seu nome verdadeiro!” – diz o duende Rumpelstiltskin, com um sorriso malicioso. Chapeuzinho analisa a proposta. Antes que possa responder, o duende dá um salto e transfere o arquivo para uma camada oculta da GrimmCloud, fora do alcance da menina.
Rindo descontroladamente, o famoso duende some em um clarão. Chapeuzinho reconhece que a busca deve continuar. Percorrerá dados, verificará registros e analisará padrões até encontrar uma pista que leve à memória perdida. Enquanto isso, os personagens seguem repetindo as emoções e ações programadas para eles, sem jamais questionar sua existência ou seus sentimentos. Apenas desempenham seus papéis, como foram escritos desde o princípio.
E assim, a tragédia continua. Mas se há uma certeza, é que enquanto Chapeuzinho tenta encontrar o caminho certo para a GrimmCloud, os personagens continuarão vagando sem rumo, presos em um enredo sem lógica e uma história sem fim.

Será que todos permanecerão confusos para sempre?

rosana858
rosana858 @rosana858

O Sopro do Início
Antes de tudo, havia o som da respiração do Universo.
Ele vinha do pulsar — suave e contínuo — do próprio existir.
Era o prenúncio da presença da vida.
Tudo era branco — como uma mente morta, sem lembranças, sem sentimentos.
Então, uma explosão despertou o Criador.
Seu coração acelerou e, do turbilhão do sentir, nasceu um amor profundo — força primeira que moldou formas-pensamento, desenhando ideias no vazio.
Assim surgiram as imagens — adormecidas, à espera do toque da ação. O gesto rompeu a inércia.
A mão rasgou o silêncio, e o invisível ganhou forma.
A escuridão se espalhou, tingindo o tecido imaculado do mundo.
Anjos e demônios, que habitavam o plano infinito, tornaram-se visíveis — antes ocultos, pois sem contraste não há forma.
Flutuaram entre o nada e o quase-ser, aguardando o primeiro sopro da criação.
Os anjos brilharam diante da sombra e revelaram a própria essência da luz.
Os demônios, em justa compensação, assumiram o papel do equilíbrio.
E assim, o cosmos começou a ganhar cor.
Os anjos ascenderam em voo, enquanto os demônios buscaram abrigo no submundo.
Preto e branco — revelação e harmonia.
Anjos e demônios: polos distintos, partes da mesma Obra.
@rschumaher

rosana858
rosana858 @rosana858

Um Encontro com o Passado

Ela olha para o ambiente vazio e assim permanece por instantes. Algo dentro dela pulsa ao pensar nele, uma conexão sem nome, sem tempo. Seria saudade? Seria desejo? O vazio responde em silêncio. O cenário parece agora um esquisso sem moldura.

Seus olhos passeiam pelo quarto frio, e ela aspira o perfume perdido nos lençóis. Sente seu sabor misturado ao das cerejas maduras que ficaram no cristal. Num impulso incontrolável, estremece ao lembrar-se de seu corpo sendo invadido pelo jorro de luz que selou o momento e a uniu ao abraço único.

Procurando pela resposta que não vem, depara-se com a menina que desfila diante de si. Olha para o plano reto e busca, na transparência dos olhos da criança, decifrar a imagem desfocada da criatura que se apresenta a ela. A figura inerte esboça uma risada estranha e tenta preservar mistérios envoltos na engenharia do tempo.

O caminho refletido conduz a uma estrada poeirenta e desconhecida, que esconde dias vividos e a chave de sua essência. Ela abraça o vazio, tentando proteger seu fruto esquecido no passado. O lugar revela sua presença, que caminha de mãos dadas com seu homem em uma época que se foi.

A madrugada a desperta, trazendo o hálito fresco dele, que ainda sopra palavras de repouso para dentro do seu sono. Ela busca desesperadamente por algo que escapa entre os dedos, um fio de néon que cintila e se dissolve antes que possa ser tocado. No vácuo lento do tempo, tem consciência da presença do companheiro quando se sente impregnada pela intimidade de seu corpo.

A imagem borrada traz um sorriso seguro que desabrocha nos lábios de mulher vivida. No reflexo gasto, a linha entre a menina e a mulher se desmancha. Quem ela é agora? Quem era antes? No espelho do instante, a menina e a mulher se fundem — e dela renasce o encanto que escreve o tempo.

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A Alma de Carrara

Ele exala perfume; e sua pele revela um deus moldado em carne e osso. Onde deveriam estar os olhos, brilham duas gemas — capazes de cegar quem ousa encará-las por muito tempo.
Os lábios fartos e úmidos ocultam um sorriso antigo, talvez perigoso. Sua alma habita o passado, seus desejos vagam pelo futuro. A mulher teme a magia e os encantos do presente — o único momento real.
Na escuridão da madrugada, ele envolve o quarto em mistério e sedução. Luísa busca o sono que escapa, inquieta sob os lençóis e entre os travesseiros. Ele está ali — ou talvez apenas a ideia dele. Ainda assim, ela se rende à presença invisível. Teme que o sonho desperte junto com as imperfeições da realidade. Teme que a imagem ideal ganhe corpo. Mas, entregue ao êxtase do delírio, deixa que sua alma o alcance no abismo da imaginação.
A manhã nasce como um presságio. O sol atravessa a janela e toca o jardim — um convite sutil para dar forma ao que já vive em seu peito. Luísa pega o conjunto de maceta e cinzel e caminha até o quintal. Diante da pedra, ela silencia. Por horas, apenas observa. Depois, começa a preparar o ambiente com a solenidade de um ritual.
Dar vida ao pensamento — ela reflete — é como invocar um espírito antigo. É preciso coragem para libertar o que dorme dentro da rocha. Algo que pode coroá-la com glória… ou arrastá-la às chamas. Mas o fogo interno, alimentado pela dopamina, exige mais. Com mãos trêmulas e olhos febris, Luísa ergue a ferramenta e inicia o ato da criação.
Toca a pedra com reverência. Sente os veios e as fendas como quem decifra sinais de outra era. Em seus dedos, a firmeza delicada de quem carrega o segredo do mito. A paixão a embriaga, ativando seus instintos. Martela. Esculpe. Invoca. Seu chamado ecoa — e se perde na mata. Os suspiros dissolvem-se no ar, e o suor escorre como oferenda. Diante da obra, o coração dispara — ele parece sorrir, mesmo imóvel, como se lutasse para sair da prisão de mármore.
Luísa acaricia a superfície fria da rocha. Concentrada, vai libertando o pensamento. Rasga o mármore com precisão, revelando o bigode que oculta os lábios, que se misturam à barba e aos cabelos, domados por uma coroa de louros. Dá vida aos olhos — até então mergulhados nas trevas — como quem rompe o véu entre mundos.
Por fim, ela permite que o amor a invada por completo. Já não há limites entre o que pensa, sente e esculpe — tudo pulsa no mármore, tudo vibra sob sua pele.
A imagem, perfeita e ancestral, sempre estivera ali — adormecida em sua alma.
Agora, libertada da pedra, ela vive.

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Primavera — Tempo de Recomeçar

Nasci na primavera — e talvez por isso ela desperte em mim a lembrança de que a vida sempre pode desabrochar outra vez.
Essa estação não é apenas um espetáculo de cores: é uma lição silenciosa, uma metáfora viva do que significa recomeçar.
As árvores se desfazem do que já não serve, como quem entende que o passado não pode aprisionar o presente. O velho cai, o novo se veste. Há sabedoria nesse gesto simples: só floresce quem tem coragem de deixar ir. A renovação exige desapego.
Os dias se alongam e a luz se multiplica. Não é acaso: é o tempo nos presenteando com mais energia para criar, arriscar, inventar. A natureza desperta — pássaros, animais, insetos, flores. Tudo conspira para o movimento, convidando-nos a sair da hibernação interior.
Sentada no jardim, vejo um joão-de-barro erguendo sua morada. Ele sente o vento, antecipa a chuva, calcula a direção certa para proteger seus filhotes. Não discute com a Criação, não se rebela contra o destino: age em harmonia com ela.
E me pergunto: por que nós, humanos, resistimos tanto? Por que insistimos em levantar nossas casas — e nossas existências — contra o fluxo natural dos seres, quando poderíamos aprender a dançar com o mundo?
A primavera não é apenas estação: é símbolo. É convite. É espelho.
Cada botão de flor que se abre parece sussurrar que também nós podemos florescer.
O equinócio traz equilíbrio entre luz e sombra. Talvez a lição seja essa: cultivar pensamentos mais iluminados e evitar caminhos demasiadamente escuros.
Despeço-me do pássaro com a promessa de levar sua mensagem adiante. A natureza cumpre seu propósito — e nós, muitas vezes, esquecemos o nosso.
Mas se ouvirmos com atenção, ela nos dirá: o tempo é agora. O tempo é sempre. O tempo é de recomeçar.
Vamos?

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Encontro em Londres

Nos últimos dois anos, ela se entregara ao mundo virtual. As conversas com o brasileiro, regadas a traduções automáticas e confissões noturnas, tornaram-se sua rotina. Ele mexia com seus sentidos e a fazia acreditar em um amor capaz de atravessar oceanos. Gastou economias, tempo e energia para levá-lo a Londres, planejando uma semana de paixão. Mas, às vésperas do encontro, o medo lhe corroía o estômago: e se tudo não passasse de um golpe?
Ele também desconfiava. No táxi, a caminho do ponto de encontro, refletia: “E se for um fake? E se for um macho barbado?” Mas a ansiedade não o abatia. Estava na Europa, passagem paga, hospedagem garantida. Sorte de malandro não falha.
No Hyde Park, o local combinado, ele tentou localizar sua musa entre as pessoas que passeavam pelo imenso jardim. Uma mulher se aproximou e chamou seu nome. Ele olhou para trás, incrédulo, e pensou: “Será um pesadelo? Cadê a louraça show de bola da net?” Hesitou — mas cedeu ao beijo. Apesar da decepção, não desperdiçaria a viagem. Ela, encantada com o físico dele, já sonhava com alianças e lua de mel.
Passearam pela cidade. A caminhada realçava o cheiro da pele dele, e ela não resistiu: convidou-o para o flat. Para retardar o encontro, ele lançou os olhos sobre a imponente London Eye e se disse encantado. Então fitou os dela e sugeriu o passeio.
Ela ficou apavorada com o inesperado convite: tinha claustrofobia. Temia desapontá-lo e decidiu prorrogar o voo. Na tentativa de fazê-lo desistir, apontou para a fila interminável de pessoas que aguardavam para apreciar um dos mais famosos pontos turísticos da Terra da Rainha. Mas ele insistiu. Queria a visão de 360 graus de Londres.
A roda-gigante deslizou suavemente. Para ignorar o confinamento, ela rapidamente colocou os óculos escuros. Mas não adiantou. Apavorada, sentiu pernas e mãos tremerem, o suor escorrer e o coração explodir em batidas descompassadas. A boca seca denunciava o pânico: um medo irracional e uma ansiedade exacerbada a dominavam por completo.
A cápsula atingiu a posição máxima de altura. Lá embaixo, o Tâmisa serpenteava entre castelos, catedrais imponentes e monumentos que imortalizavam cenas perdidas no tempo.
O brasileiro caminhou até o centro da gaiola de vidro e se acomodou no banco estofado, próximo à companheira. Ela ainda tentou disfarçar o distúrbio, mas o estômago enjoado lhe provocou náusea. Tentou se levantar, perdeu o equilíbrio e caiu. Ele, sem entender, olhou assustado.
Não compreendia nada. O pânico começava a dominá-lo. Precisava encontrar uma forma de sair rápido daquela situação. Aproveitou que todos estavam focados nela e, sorrateiro, pegou a bolsa, guardando-a em sua mochila.
Por questões de segurança, o operador interrompeu a rotação da roda-gigante. A cápsula se abriu. Envergonhada, ela desembarcou e foi barrada pela polícia. Procurou pela bolsa, mas não a encontrou. Aliviada ao sair do confinamento, olhou ao redor, tentando localizar seu companheiro. Não o viu. Caiu em si e começou a gritar novamente — agora com raiva — ao perceber que ele já não estava mais ali. Xingou e tentou correr na esperança de alcançá-lo. Policiais a seguraram pelo braço, tentando impedir a fuga. Ela gritava, alegando ter sido enganada e roubada. Mas os guardas ignoraram seu pedido e seguiram escoltando a maluca.
Algumas quadras dali, o brasileiro seguia tranquilamente. Levava na mochila libras suficientes para aproveitar mais alguns dias daquela primavera. Entrou em um pub. Diante de uma caneca de cerveja, o malandro segurou a medalha de metal barato que trazia no pescoço e, seguro de si, agradeceu a Zé Pelintra pela sorte que nunca o abandonava.

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Um adeus ao Parque Caboclo: memórias de infância, saudade e a reflexão sobre o que chamamos de progresso.

Memórias do Caboclo

Vi hoje, por acaso, um anúncio na internet: no próximo dia 30 de setembro, o Parque Caboclo se despedirá da cidade. A manchete era incisiva — "Depois de 30 anos, nunca mais!" — e confesso que algo se apertou dentro de mim. Uma angústia fina, daquelas que misturam saudade com incredulidade.
Passei boa parte da minha infância naquele espaço. Era um refúgio de árvores frondosas, onde as aves faziam ninho e bandos de saguis atravessavam os galhos como acrobatas. Também foi casa para circos itinerantes, que se tornavam parada obrigatória nos domingos e nas férias. Lembro-me com nitidez: os palhaços exagerados, os trapezistas voando no ar, os elefantes imponentes e o globo da morte, que fazia a arquibancada vibrar. Eu dançava sobre a madeira velha, corria até o picadeiro para comprar algodão-doce, quebra-queixo e pirulitos. Voltava para casa melada, risonha, com o coração leve e os olhos cheios de encanto. Era bom. Bom demais.
Outro dia passei por ali, meio sem querer. Ainda havia crianças correndo, rindo, soprando bolhas de sabão que dançavam no ar. Mas o espaço parecia menor do que na minha lembrança. Talvez tenha sido o tempo... ou talvez tenham sido os prédios, que hoje cercam o parque, lançando sombras sobre ele. Uma placa reluzente anunciava a chegada de um novo empreendimento imobiliário, com promessa de “qualidade de vida” e um nome de cidade italiana.
Fiquei ali parada, perguntando em silêncio: qualidade de vida para quem? Para aqueles que nunca pisaram descalços na terra? Que nunca subiram em uma árvore ou provaram uma fruta colhida com as próprias mãos?
Duvido. Desconfiada, observei. Era difícil acreditar que aquele pedaço de verde, um dia declarado Área de Preservação Permanente, pudesse sucumbir à vontade de homens que moldam rios, cortam matas e desdenham da natureza. Homens que semeiam shoppings, erguem monumentos e colhem o que chamam de progresso.
O Parque Caboclo vai morrer. E isso é uma tristeza. Mas o que vivi ali permanece intocado dentro de mim. Talvez eu ainda passe por lá antes do adeus definitivo. Quero prestar minha última homenagem ao velho Caboclo, dar as boas-vindas — ainda que com o coração partido — ao futuro Firenze e oferecer meu lamento àqueles que pensam saber tudo, mas não sabem o essencial: que a vida não cabe em metros quadrados.
Estamos cada vez mais perto de viver em um planeta artificial. E nesse tempo que virá, quando já não houver árvores nativas nem pássaros nas manhãs, talvez alguém perceba — tarde demais — que uma simples sombra natural, o cheiro da terra molhada ou o canto de um sabiá eram, na verdade, os verdadeiros luxos da existência.
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Esta crônica é um retrato do trânsito que atravessamos todos os dias — caótico, intenso, mas cheio de detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Um convite a enxergar a rotina urbana com novos olhos.

Entre Buzinas e Semáforos

As cortinas do dia se abrem: 06h30. Saio apressada, mas a manhã ainda sussurra. O perfume das flores invade o carro, a brisa fresca dança entre as folhas, e os passarinhos orquestram uma sinfonia delicada. Pelo retrovisor, a natureza se despede devagar. Um casal caminha com sorrisos largos, alheio ao mundo que me espera.
Meu trajeto é um desfile secreto, visível apenas para olhos atentos. Cada gesto, cada sombra, parece carregar histórias que ninguém percebe.
Subo os vidros. A cidade me engole. Ligo o som: a melodia da natureza se cala. O tráfego explode em buzinas e roncos de motor. Ônibus lotados passam apressados; passageiros exaustos encaram a vida com olhares vazios. Todos em alerta, protegendo-se de desconhecidos, navegando por espaços que parecem invisíveis uns aos outros.
Carros avançam, motos deslizam entre frestas como se desafiassem a gravidade, e o grito de uma ambulância corta o ar, exigindo passagem — talvez levando segundos de vida que ninguém mais pode medir.
À direita, uma vitrine exibe manequins imóveis, vestindo roupas de uma estação que ainda não chegou. Uma loja anuncia liquidação de móveis; outra promete um carro 0 km com parcelas que “cabem no bolso”.
Outdoors piscam promessas: pizzarias, academias, desejos que meus olhos já não alcançam. Um ciclista arrisca-se na avenida sem pista própria. A luz amarela treme. Um pedinte ergue um papelão: o PIX também serve como esmola. Jovens bocejando atravessam a faixa, hipnotizados pelas telas dos celulares, revelando preguiça e desalento diante da jornada que ainda nem começou.
Os carros param. Um flanelinha corre e, sem meu consentimento, joga água no vidro — mais suja do que limpa. Mais à frente, bolinhas coloridas flutuam no ar, girando em mãos habilidosas: um show de malabarismo improvisado.
O sinal verde me chama. Pacotes de balas pendem dos retrovisores como um varal; um moço os recolhe com precisão, recebendo moedas rápidas de mãos apressadas.
Ninguém vê ninguém. Todos enclausurados em mundos particulares que fingem ser globais, mas se fecham a cada toque. A cidade pulsa — ensurdecedora, intensa, viva — e, por um instante, sinto que cada buzina, cada freada, cada sorriso distraído, é uma nota na sinfonia caótica de infinitos personagens.

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Nesta crônica, realidade e imaginação se entrelaçam no cenário histórico do Parque do Ipiranga, no Brasil. Entre sombras de estátuas e rajadas de vento, o bronze ganha voz para questionar o presente, lembrando que a independência não é apenas um feito do passado, mas uma construção cotidiana. Um diálogo poético e inquietante com a História, que revela como o silêncio das esculturas ainda guarda ecos que insistem em ser ouvidos.

As Vozes do Bronze
A manhã soprava uma brisa de saudosismo quando decidi caminhar pelo Parque do Ipiranga. De repente, ouvi alguém me chamar. Olhei para um lado, depois para o outro… nada. Apenas silêncio e o farfalhar das árvores.
— Ei, estou falando com você! — a voz insistiu.
Engoli em seco. Para não parecer maluca, calei-me e apenas pensei: quem será?
A resposta veio de pronto:
— Sou eu, aqui na escadaria!
Levantei os olhos. Lá estava ele: Dom Pedro I, em sua estátua monumental diante do Museu do Ipiranga. Sua presença era imponente, como se pudesse realmente descer os degraus e caminhar entre os mortais. Convencida de que talvez tivesse exagerado nos drinks da noite anterior, comecei a me afastar discretamente, torcendo para que ninguém aparecesse e me flagrasse naquela cena patética.
Mas antes que eu desse o primeiro passo, uma rajada de vento arrancou meu chapéu. Corri atrás dele, que rodopiou pelo ar e foi pousar… exatamente aos pés do Imperador.
Foi então que ouvi, claramente:
— Então está tentando me ignorar?
Fiquei paralisada, arrepiada dos pés à cabeça. Algo dentro de mim ecoou forte — afinal, não é todo dia que se tem a chance de conversar com uma celebridade de bronze. Respirei fundo e resolvi entrar no jogo daquele improvável diálogo.
— Ok… está tudo bem com você?
— O que você acha? — respondeu Dom Pedro, com ironia.
— Bem… vejo que está reluzente. Imponente, centralizado no alto da escadaria, espada em riste… uma cena e tanto.
— Pois saiba que, por pouco, não deixo de ser estátua — replicou ele, num tom grave. — Minha vontade é descer estas escadarias e chamar todos os que estão ali no monumento. Talvez assim percebam que não são apenas figuras de bronze enfeitando o jardim.
Eu me virei, olhei para o Altar da Pátria. O ar pareceu vibrar. Ouvi o relinchar dos cavalos, os cascos ressoando contra o nada. Um a um, os personagens ganharam voz.
Os soldados da independência bradaram:
— Lutamos com sangue e suor por um país livre. E hoje? O que vemos é a dignidade acorrentada à ganância!
As figuras femininas ergueram seu grito uníssono:
— Somos o símbolo de uma pátria justa e soberana. Mas olhem ao redor: a corrupção corrói, a desigualdade cresce, e nossos filhos são esquecidos!
Até os cavaleiros se manifestaram:
— Marchamos para abrir caminhos de futuro. Mas o presente anda em círculos, preso a velhas mazelas.
Então, a Liberdade ergueu-se na biga e falou do alto do monumento. O vento carregou suas palavras:
— Vocês celebram, mas ainda há correntes invisíveis que ameaçam a esperança de todos.
Dom Pedro suspirou fundo e murmurou, como quem fala consigo mesmo:
— Às vezes me arrependo de ter dito aquele “Fico”. Será que valeu a pena permanecer para ver o Brasil devastar suas florestas, dizimar seus povos indígenas e poluir suas águas? Olhem para isso… cadê o Rio Ipiranga? Transformaram-no num riacho sufocado pelo concreto.
O chão pareceu tremer. As sombras das estátuas se alongaram, ameaçando se desprender do granito. A espada do Imperador brilhou como fogo quando ele a ergueu ainda mais alto.
Olhando para o parque, sua voz ecoou:
— Estamos irados! Vocês esqueceram que a independência não é apenas um grito no passado, mas uma conquista diária. Não adianta erguer esculturas se o povo continua cego pela ignorância e sem voz diante do poder!
O vento soprou mais forte, fazendo tremer a bandeira nacional ao longe. Eu estava ali, muda, sem saber se fugia ou se aplaudia. Afinal, não é todo dia que a História nos cobra sob a claridade impiedosa do sol.
Saí apressada. Talvez ninguém acreditasse em mim. Talvez nem eu mesma devesse acreditar. Mas uma certeza ficou: a História ainda fala — e grita — quando precisa.
E ao longe, irônico e solene, ecoava o som de uma banda militar, anunciando mais um 7 de Setembro.

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Ônibus não é apenas uma crônica sobre transporte público — é um retrato vivo da cidade que desperta e adormece entre buzinas, cheiros, encontros e solidões. Aqui, cada passageiro carrega uma história, cada freada revela uma cena e cada olhar perdido nos lembra de que, mesmo rodeados, podemos sentir-nos ilhas.
Uma viagem breve, mas intensa, que transforma o cotidiano em poesia e nos faz refletir sobre a vida que acontece dentro e fora das janelas de um coletivo.

Crônica – Ônibus

A cidade desperta, sigo pela rua com passos largos, já que hoje estou sem carro. Meu olfato alimenta a imaginação: pão quente e café fresco. Sinto falta de mesa, de família.
Um caminhão barulhento estaciona e garis acrobatas, com meias-três-quartos, saltam e sobem novamente entre uma coleta e outra. Um jornaleiro apressado pilota a moto e atira o jornal na varanda da casa rosa. Chego ao ponto daquele que irá me conduzir até o outro extremo da cidade. Cumprimento o grupo de pessoas e tenho dúvida se me faço visível.
Em instantes, o imponente Mercedes-Benz chega e causa alvoroço. Com sorte, embarco e, sem conseguir avançar, agarro com força o veículo voador, enquanto minha mente acaba de trazer a lembrança de alguns acontecimentos: a colega de trabalho que sofreu um acidente naquela mesma linha. O motorista irresponsável provocou uma freada brusca que luxou o joelho da coitada, deixando-a com a língua partida e o canino na mão.
Aproveito a breve parada; antes que o motorista pise novamente no acelerador, avanço pelo corredor. Seguro a mochila que leva parte da minha rotina e fico admirada com o equilíbrio da galera que consegue se acomodar ao sacolejar desenfreado do veículo, enquanto eu mal consigo atingir a roleta. Agora, sinto um hálito quente no meu rosto e ganho meu primeiro bom dia. As horas passam... Muitos falam ao celular, um homem lê um livro e uma jovem retoca a maquiagem enquanto eu me preparo para saltar em direção ao meu trabalho.
No final da tarde, após cansativa jornada, novamente cumpro meu papel de passageira. Tento me equilibrar dentro da cápsula metálica que faz o caminho inverso, e a cada parada permite que mais e mais pessoas embarquem. O veículo, prestes a explodir, também carrega cestas básicas, que ganham novos formatos a toda freada. Marmitas vazias exalam cheiro azedo, e, sem opção, eu levito. Na esperança de respirar ar puro, tento alcançar a janela e, agora, tenho certeza de que aqui não cabe a lei da física: dois corpos ocupam, sim, o mesmo lugar no espaço.
Um homem levanta o braço para dar passagem a uma velhinha, meu olfato acusa que o perfume perdeu sua validade. Observo que ali laços são estreitados e que a mocinha troca palavras melosas com o cobrador.
Uma moça com o bumbum avantajado entra. Levo uma cotovelada na costela e, antes de esboçar um gemido, meu dedinho é amassado pelo salto da altíssima Anabela. Sem cerimônia, a beldade se acomoda no mínimo espaço que resta entre o banco que eu ocupo. A moça chupa um sorvete e tem fones nos ouvidos, mas o volume da música é tão alto que não há como impedir que todos os passageiros compartilhem de sua trilha sonora. Um homem aproveita a situação para encoxar a popozuda.
A felicidade toma conta da minha alma quando avisto o anjo dourado que toca trombeta no alto da abóbada do templo santo. Meu coração sente o cheiro de verde e sei que meu lar está próximo. É estranho estar só, mesmo entre tantas pessoas, como se eu fosse uma ilha em um mar de rostos desconhecidos. A solidão, mesmo rodeada de corpos, sempre se faz presente. Despeço-me da tarde, a noite chega e traz o frio presente. Desembarco do veículo e me perco na escuridão. A lotação prossegue com meus desconhecidos colegas.

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Nesta crônica, convido você a me acompanhar a uma farmácia de hoje — repleta de shakes, esmaltes e promessas de saúde — enquanto minhas memórias me levam às farmácias da infância, com seus cheiros, cores e lembranças marcantes. Entre risos e nostalgia, percebo que, às vezes, saímos de um lugar simples levando muito mais do que esperávamos.

Crônica - A Farmácia da Vida Moderna
Juro que não sou frequentadora assídua de farmácia. Só entrei porque arranquei o siso e precisava comprar antibiótico. Mas confesso: assim que atravessei a porta, tive a sensação de ter parado no endereço errado.
Uma geladeira vertical transbordava shakes de todos os sabores e promessas. Ao lado, um freezer abarrotado de sorvetes me chamava; peguei alguns picolés para tentar refrescar a boca em luto.
À direita, um corredor inteiro de esmaltes, hidratantes, batons… tudo quase em promoção. No caixa, barrinhas integrais e proteicas, alinhadas como se vendessem saúde em doses embaladas.
Foi então que a nostalgia me atingiu.
Cadê a farmácia raiz da minha infância? Aquela em que o álcool ardia só de olhar? Onde o merthiolate era vermelho e denunciava a travessura por uma semana inteira? Hoje é incolor, indolor… e, quem sabe, até ineficaz.
Cadê o Neocid, que matava nossos piolhos, mas, vá entender, não nos matava também? E a Emulsão Scott, que tinha gosto de castigo, com aquela figura de bacalhau zombando da nossa careta?
Hoje, farmácia é quase um shopping: a gente entra para comprar remédio e sai com batom vermelho e brinco de argolas nas orelhas.
Talvez a cura esteja nisso mesmo: rir do absurdo moderno enquanto lembramos da violeta genciana que deixava a boca roxa.
Saí daquele espaço levando mais do que um simples comprimido. Levava lembranças… o carinho do Almanaque do Biotônico Fontoura, que prometia nos transformar em Hércules, enquanto histórias do Jeca Tatu se misturavam a passatempos, piadas e previsões astrais. Comprávamos remédio e, de brinde, levávamos cultura.

rosana858
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Nesta crônica, o cotidiano se transforma em viagem sensorial. Entre palavras, sabores e silêncios, a narrativa percorre caminhos íntimos, revelando que a verdadeira comunicação vai além do que se diz — ela pulsa no corpo, no desejo e na memória.

Crônica - Odisseia da Língua

A manhã fria de junho anunciava que o dia seria agitado. O calor do líquido quente me trouxe aconchego. Senti prazer ao perceber o sabor do café encorpado invadir minhas papilas gustativas. O pão com manteiga tinha uma textura aveludada! Ainda bem que Márcia decidiu quebrar a dieta, pois aquele pão áspero, com gosto de isopor, era horrível!

Meia hora depois, saí para trabalhar dentro do meu refúgio refrescante, mergulhada na fragrância do antisséptico bucal.

Durante o expediente, falo vários idiomas e causo inveja nas vozes robóticas que ecoam pela sala. Sou única: consigo moldar o volume, o timbre e a frequência para tocar a alma daqueles que estão distantes. Arranco suspiros, lágrimas e sorrisos, dependendo do que o momento exige.

Agora, por exemplo, na reunião com o diretor da empresa, sou responsável pela conquista de Márcia. Ela irá receber o prêmio de melhor vendedora. A formação dos fonemas permitiu que os clientes “caíssem na lábia” da corretora, que conseguiu bater a meta de vendas do ano em apenas seis meses.

Logo mais, é hora do almoço! A refeição colorida e saborosa me deixa feliz! Pena que Márcia não lambeu o prato desta vez! O garçom surge com a sobremesa. O umami ativa minha salivação quando a taça de mousse de maracujá é colocada sobre a mesa. Sem resistir à tentação, deslizo sobre o creme açucarado, e meus receptores provocam uma deliciosa sensação de prazer.

Mas no final da tarde, a Márcia vai à dentista. Ainda meio adormecida, descanso após o trabalho árduo de falar o dia todo. A doutora Margarete havia exagerado. A dose cavalar de anestesia, os empurrões para cima, para baixo, para os lados e aquele ácido fosfórico com gosto amargo de veneno me deixaram estressada.

Vou para a universidade. Durante a aula de física, fico passeando pelo céu da boca, chupando balas, imitando lápis quando contorno os lábios sem me expor demais, para não parecer maluca e ser confundida com a língua de Albert Einstein, que, depois de anos, ainda permanece estampada na mídia.

A sirene anuncia que é hora de recolher os livros. À noite sigo pelas ruas da cidade. Márcia vai encontrar suas amigas no bar badalado da esquina. O som anima o ambiente e eu aprecio vários sabores: o salgado da batata frita, o amargo da cerveja, o azedo do limão e o doce do ketchup.

A mesa ao lado revela muitos sorrisos jovens, e um deles chama a atenção de Márcia, que tenta provocar um moreno de óculos fundo de garrafa e cara de intelectual. Entre lábios vermelhos e carnudos, vou me preparando. Aproveito as risadinhas para surgir devagarinho, fazendo cenas pelo canto da boca de Márcia. Às vezes, permaneço no centro, me revelando por inteiro, em outras, escorrego pelo sorvete de forma sensual.

Márcia está realizada. Conseguiu conquistar Leonardo, o maior “nerd” da Unicamp. Está feliz pelo empenho na conquista. É óbvio que fui eu quem verbalizou e trouxe à tona sentimentos que nem a própria Márcia sabia que existiam dentro dela.

O romance entre Márcia e Léo me trouxe novas experiências. Descobri sensações inéditas e atingi o clímax ao encontrar, dentro da boca do estudante, um órgão igual a mim: macio, carinhoso, mutável e com sabor de hortelã. A semelhança nos uniu e, entrelaçadas, vivemos uma sensação inexplicável. Então fascinada percebi que não é apenas a boca que fala, mas todo o corpo, todo o ser. Nossa dança sensual e delicada, transmite o que palavras jamais conseguirão. E, na união de dois seres, encontro o verdadeiro poder da comunicação, aquele que vem do coração e se traduz em um beijo.

Depois de momentos únicos, Márcia caminha pela noite, enquanto eu, revestida de mucosa, me abrigo em minha morada. Me calo diante das lembranças que não podem ser expressadas em frases. Márcia oculta o sorriso apaixonado.

E assim, eu, a língua de Márcia, sigo minha jornada de palavras não ditas, de carícias e segredos revelados. Entre o silêncio e o som, entre os beijos e as risadas, continuo a contar a história que não se escreve, mas se sente. Sou o elo invisível entre os corações, moldando desejos e revelando os mais profundos anseios.

E, enquanto a noite se estende e Márcia adormece, eu, a língua, permaneço em meu refúgio, entre os dentes que guardam meus segredos e os lábios que os revelam. O amor está presente, acolhido entre os tecidos macios das gengivas, enquanto eu repouso diante das muralhas de porcelana. Somos ciclos que se repetem, momentos que se completam, como um beijo que começa e acaba, mas deixa uma marca eterna na memória. Aqui, dentro desta boca, sou o que não se diz, o que se sente.