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O que Trazes pra Mim?

Leitura coletiva · Fogo

O que Trazes pra Mim?

Prólogo · O que Trazes pra Mim?

Prólogo

— De novo nessa obsessão, amigo? — A voz do homem interrompeu os olhos vermelhos que observavam atentamente a mulher tranquilamente adormecida na cama. Enquanto o corpo tentava descansar do outro lado daquela ilusão, os dois viam a projeção dissolver-se numa fumaça branca que se erguia da superfície do cômodo.

— Ela ama a Páscoa, e isso me faz tão bem... — A cabeça do indivíduo se inclinou lentamente, para que pudesse captar os minúsculos traços do rosto dela. analisou a linha suave da sobrancelha, o leve tremor dos lábios entreabertos e o calor que ainda parecia suspender-se na pele.

— Existem mais pessoas que amam a Páscoa, sabia? — disse o outro.

— Só ela importa — retrucou, seus olhos cravaram-se no grande homem na sala, que dominava a penumbra com uma expressão misturada ao cansaço e poder. — Você não tem ninguém para punir por desacreditar na sua existência? — insistiu, provocando uma faísca de irritação na fumaça que envolvia a projeção da moça adormecida.

— Coelho… — foi a repreensão mais curta, quase atravessada pelo ar.

— Noel… — respondeu o outro, o troco era tomado pela ironia.

Ambos se encararam por longos instantes, como se o tempo tivesse ficado em pausa entre eles, até que a tensão finalmente estourou em uma faísca de raiva. As mãos da criatura na sala embaçaram a fumaça que delineava a jovem, e ele respirou fundo com o peito subindo com ruído irritado.

— Não é a sua época. Volte de onde veio. — A voz dele soou mais firme, mais pesada, e, ao terminar, o quarto pareceu perder um pouco da sua própria sombra.

— Vim ver um velho amigo. Não posso? — ele sorriu de canto. — O problema é que, em todas

as visitas que faço, esse amigo está ocupado observando uma humana e, em vez de ir até ela, fica aqui, parado, completamente obcecado.

A criatura ergueu as mãos, como se quisesse mostrar ao grande homem que ambos eram distintos. A figura diante tinha a aparência de algo fofo que deveria ganhar vida em qualquer conto infantil, mas a maldição o transformava em uma criatura que assustava apenas por existir. O corpo, parecia acontecer no limiar entre dois mundos. Tinha o pelo curto e macio que se trajava sobre uma pele que ainda pulsava com calor humano, enquanto as orelhas, longas e flexíveis, tremiam com cada respiração.

A forma de coelho se mesclava ao tronco humano que um dia lhe pertenceu, como se a criatura respirasse a própria dualidade: ternura e perigo, inocência e segredo. Havia partes de pele humana, marrons escuras, intercaladas com áreas brancas de animal, como manchas irregulares que marcavam a fusão de dois mundos. Os dedos pareciam moldados entre as patas, a pele sobressaltando-se em traços que lembravam garras suaves mais do que dedos, enquanto a textura se alternava entre o calor da carne humana e a rigidez do pelo do animal. A pele, em alguns pontos, parecia puxar-se em direções

opostas, denunciando a dualidade da criatura: um corpo que carregava a familiaridade da humanidade e, ao mesmo tempo, os sinais de uma origem bestial.

A criatura tinha aquelas orelhas longas, erguidas com uma precisão quase humana e olhos vermelhos que cintilavam como rubis em meio à penumbra. Da cintura para baixo, a camada animal sobressaía com traços de pelagem densa, desenhando-se em curvas que lembravam uma silhueta híbrida, entre o lobo e o coelho. Os contornos da pele humana pareciam desaparecer onde o pelo ganhava espaço, criando uma linha de junção que parecia pulsar com a própria dualidade da entidade.

O rosto também era um misto com traços humanos macios, quase delicados, entrelaçados com marcações e sutis irregularidades que denunciam a presença do animal. Os olhos brilhavam com frieza, mas, de perto, refletiam a curiosidade. As sobrancelhas arqueadas, finas, davam ao olhar um ar de constante escrutínio. O nariz era reto, ainda que ligeiramente achatado nas bases, como se tivesse sido moldado por duas formas ao mesmo tempo. A boca, de lábios estreitos, insinuava um sorriso ambíguo que não chegava a se fixar, os cantos subiam com uma

sombra de malícia que não era inteiramente humana. A pele ao redor do rosto também alternava entre o tom marrom escuro da humanidade e manchas brancas que lembravam o pelo do animal, criando uma máscara viva que pulsava com a respiração do ser híbrido.

— Como vou aparecer assim? Os humanos nunca entenderiam e ela é humana.

— Uma humana me aceitou.

— Tirando o fato de você ser um velho enorme e forte pra cacete, sua face é idêntica à deles. A senhora Noel poderia ter relutado por você ser esquisito e não uma anomalia — a criatura se distanciou para acariciar a pequena muda de planta no seu ambiente de cultivo. — Minha maldição me afasta do amor dela.

— Essa mulher ama a Páscoa e você é a Páscoa, Hase. — O grande homem deixou escapar um longo suspiro, aproximou-se da criatura e pôs a mão em seu ombro. O toque transmitia calor e o ar cheirava a terra úmida, a flores antigas e a uma magia quase tangível. — Vou te dar um presente.

— Não é Natal.

— Mas estamos quase no seu dia e quero te dar isso. — Os olhos de Noel tornaram-se dourados, e uma vibração percorreu todo o corpo de Hase que esperou, paciente, enquanto aquela potência tomava forma ao seu redor. — Você terá um tempo para ser humano, mas lembre-se de que sua maldição só acabará quando alguém não te abandonar por causa da tua forma de agora. Vá encontrá-la e a faça te aceitar como é.

Um tremor percorreu todo o ambiente, desestabilizando o grande híbrido. Parecia que a terra sob seus pés se partia. Rachaduras serpenteavam pelo teto, levantando faíscas de poeira e o cheiro de ferro se formava no ar. O silêncio, antes pesado, foi interrompido pelo crepitar de rochas se movendo e pelo ranger da madeira que sustentava a estrutura ao redor. O equipamento de cultivo tilintou, e pequenas plantas balançaram como se estivessem presas em uma tempestade invisível. Noel estreitou os olhos, tentando manter o próprio equilíbrio, enquanto Hase sentia a potência que havia sido concedida vacilar entre o desejo de manter a forma humana e a urgência de retornar à sua verdadeira natureza.

— São só alguns minutos, Hase. Então se mostre a ela para não assustar a moça e nem afastá-la.

Hase respirou fundo, sentiu a tensão subir pela pele, e com um último suspiro deixou que a forma humana dançasse em torno dele. A silhueta se construiu com delicadeza, revelando traços que pareciam familiares e ao mesmo tempo recém-nascidos de uma outra essência. Noel lhe ofereceu um sorriso contido, encorajando-o sem palavras.

O que Trazes pra Mim?

Sinopse

Clare sempre foi apaixonada por datas comemorativas e a Páscoa era a sua favorita.

Aos trinta e dois anos, depois de uma série de relacionamentos que nao floresceram, ela já não alimenta esperanças de se casar ou ter filhos. Ainda assim, sua vitalidade permanece intacta, especialmente quando se trata de preparar as surpresas para os primos que tanto ama.

Nas vésperas do feriado, sua pousada em Montes Claros - Minas Gerais se enche de aroma de chocolate para as crianças e tudo esta pronto para recebê-las no grande momento. Mas, quando a noite cai, um visitante inesperado atravessa os limites do real e da imaginação.

Um ser antigo. De olhos vermelhos e intensos, invade seu refúgio e, com ele, Clare descobrirá que algumas tradições escondem certos presentes que vem embrulhados em desejo, medo e maldição.

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