Universo da obra
Universo da obra
-- Então, já não vai para a Europa? perguntou Félix à viúva nessa mesma tarde.
-- Quem lho disse?
-- Seu irmão.
-- Desfiz a viagem, bem contra a vontade dele, que me chamou caprichosa e não sei que mais. Talvez tenha razão. Eu mesma não me entendo às vezes. Esta viagem, que era um desejo ardente, acha-me agora fria. Que lhe parece isto?
-- Alguma razão há de haver, ponderou o médico; e eu sentiria se o motivo...
-- Se o motivo? repetiu a moça.
Calaram-se e ficaram algum tempo a olhar um para o outro. A explicação, que já os lábios não pediam nem davam, começaram a pedi-la e a lê-la os olhos de ambos.
Lívia baixou os seus.
-- Vamos para o terraço, disse ela por fim; a tarde está bonita.
A tarde estava realmente linda. Félix, entretanto, cuidava menos da tarde que da moça. Não queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente. Encostada ao parapeito do terraço que dava para a chácara, a viúva simulava contemplar os esplendores do ocaso; na realidade, afiava o ouvido para escutar a confissão amorosa.
Félix olhava para ela e não ousava romper o silêncio. Quase a soltar dos lábios a palavra decisiva, a si mesmo perguntava se ela não iria pesar no seu destino mais do que imaginava então, e se daquele capricho de momento não resultaria o mal de toda a sua vida. Mas a hesitação foi curta; Félix ia enfim lançar a sorte, quando um escravo apareceu no terraço, a anunciar a visita do Dr. Batista.
-- Não quero falar a ninguém, João, disse a moça; estou incomodada.
-- Que resposta é essa? perguntou Félix, baixinho, quando o escravo voltou as costas.
-- João! disse a moça.
O escravo voltou.
-- Eu hoje só posso receber as pessoas mais íntimas de casa, os amigos de meu irmão. Às outras dize que estou incomodada.
O escravo saiu.
-- Adota esta explicação?
-- Antes essa, respondeu Félix; é melhor para a senhora; sinto-a contudo por mim; não quisera ser envolvido entre os íntimos da casa.
-- Quer que eu corrija a ordem que dei?...
-- Não peço tanto; não tenho direito a isso; e todavia...
-- E todavia?...
Houve um curto silêncio.
-- Não me compreende? disse Félix com voz quase sumida.
-- Compreendo, murmurou ela, depois de uma pausa; mas receio enganar-me.
-- Não se engana, insistiu Félix com calor; amo-a, e seria impossível negá-lo, porque a minha voz e o meu rosto hão de tê-lo dito melhor do que as minhas palavras. Não percebe isso há muito tempo? Não adivinhou já que a esperança do seu amor é para mim toda a felicidade de amanhã? Diga! diga uma palavra só, cruel ou benévola, mas uma e definitiva.
Lívia escutara-o enlevada, e a sua resposta foi mais eloqüente que a declaração do doutor; estendeu-lhe a mão trêmula e fria, e embebeu nos olhos dele um longo olhar de agradecimento e felicidade.
-- Ama-me também? perguntou Félix depois de alguns minutos de muda contemplação.
-- Oh! muito! suspirou a moça.
E ambos ali ficaram silenciosos, ofegantes e namorados, nesse êxtase dulcíssimo que é porventura o melhor estado da alma humana. Ambos, porque o coração do médico, naquele instante ao menos, palpitava com igual fervor.
-- Muito! repetiu Lívia, como se essa palavra fosse apenas um eco do seu pensamento ou uma resposta à muda interrogação dos olhos do médico.
Félix passou-lhe o braço à roda da cintura e puxou-a docemente para si; depois segurou-lhe a cabeça entre as mãos, e inclinou os lábios para lhe imprimir um beijo na fronte. Deteve-o um rumor estranho, uma voz infantil e desconhecida.
Instantes depois apareceu no terraço um menino de cinco anos, criança gentil e esperta, rosada e gorda, como os anjos e os cupidos que a arte nos representa em seus painéis.
-- Mamãe! mamãe! gritava o pequeno, correndo a abraçar-se com a mãe e fugindo à mucama que vinha atrás dele.
Lívia recebeu a criança nos braços; beijou-a e pô-la ao colo.
-- Apresento-lhe meu filho, disse ela ao médico; estava em casa da madrinha; veio ontem para cá.
E voltando-se para o menino:
-- Luís, conheces o Dr. Félix?
O menino olhou para o médico com a expressão pasmada e interrogativa das crianças que vêem uma pessoa pela primeira vez, e voltou-se para a mãe, sem parecer impressionar-se muito. Lívia encheu-lhe as faces de beijos. A criança rindo de prazer, repeliu com as mãozinhas aquela chuva de carícias maternas.
-- Ora bem, disse a viúva, quem te deu ordem de andar a correr por aqui?
-- Ninguém, respondeu o menino, eu pedi a Clara para me deixar vir; ela não quis, mas eu vim. Não fiz bem, mamãe?
-- Fizeste mal. Vai brincar, vai, mas não corras.
-- Quem é esse moço? perguntou Luís, olhando outra vez para Félix.
-- Já te disse: é o Dr. Félix.
-- Ah!
Luís encarou o médico; depois olhou para a mãe, e fez um gesto para descer. Lívia pô-lo no chão.
-- Posso ir à chácara?
-- Podes; leva-o, Clara.
Luís deitou a correr seguido pela mucama. A mãe acompanhou-o com os olhos até vê-lo desaparecer do terraço.
Durante esta cena, Félix parecera completamente estranho a tudo que o rodeava. Não ouvia as repreensões da moça, nem a tagarelice da criança; ouvia-se a si mesmo. Contemplava aquele quadro com deleitosa inveja, e sentia pungir-lhe um remorso.
-- É mãe, repetia o moço consigo; é mãe!
-- Olhe, dizia a moça, debruçada sobre o parapeito que dava para a chácara; veja como ele vai correndo...
Félix debruçou-se também; o menino corria efetivamente adiante de Clara que o acompanhava de longe. De quando em quando, parava o menino aguardando a mucama; mas tão depressa esta se lhe aproximava, a criança negaceava o corpo, e deitava a correr outra vez. A mãe parecia esquecida de tudo mais; Félix contemplava-a com religioso respeito. Estiveram assim calados alguns segundos. De repente Lívia voltou-se para o médico:
-- Vê? disse ela; a pouco se reduz a minha felicidade: o senhor e aquela criança.
Dizendo isto, deixou pender a fronte; Félix beijou-a ardentemente, mas não pôde dizer nada. A comoção embargou-lhe a voz; a reflexão impôs-lhe silêncio.
Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.
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