Universo da obra
Universo da obra
Dois dias depois, estando Félix a vestir-se para ir a Catumbi, entrou-lhe Meneses por casa. Vinha pálido e abatido, olhos vermelhos, passo trêmulo. Não se sentou, deixou-se cair numa cadeira.
-- Que é isso? perguntou Félix.
-- Está tudo acabado, respondeu ele, romperam-se os vínculos fatais. Custou-me muito, mas era necessário; foi agora há pouco; corri para cá; precisava de alguém com quem desabafasse. Isto é ridículo, bem sei; mas que queres? Eu sofro... tenho um coração miserável, e deixo-me levar por ele...
Félix pareceu condoer-se da situação do rapaz, e disse-lhe algumas palavras de animação, que ele ouviu com reconhecimento.
-- Eu já desconfiava, disse Meneses, de que era traído; só tive a certeza ontem. O que mais me dói em tudo isso, continuou ele depois de alguns instantes de silêncio, é que, para servir ao homem que me traiu, desfazia-me eu em obséquios, e até, confesso-te aqui, era seu credor.
-- É por isso que eu não empresto dinheiro a ninguém, respondeu Félix, penteando as suíças.
-- Mas quem pode adivinhar o mal, quando nos apresentam uma fisionomia risonha? Eu confiava em ambos.
Félix encolheu os ombros.
-- Toma um charuto, disse.
-- Não quero fumar.
-- Fuma; eu já observei que o fumo impede as lágrimas, e ao mesmo tempo leva ao cérebro uma espécie de nevoeiro salutar.
-- Vais sair? perguntou Meneses, vendo que o outro punha o chapéu na cabeça.
-- Vou à casa do Viana. Queres vir?
-- Não posso.
-- Devias vir comigo; apresentava-te à irmã dele, e passávamos algumas horas em companhia amável. Esquecerias depressa as tuas penas.
Meneses recusou; Félix levou-o no carro até à Rua do Lavradio, onde ele morava.
Em caminho conversaram dos seus extintos amores. Meneses jurava que era a última aventura a que expunha o seu coração; achava-se curado de uma vez.
-- Não afirmes nada, Meneses; podes errar. Sabes o que te falta? Têmpera. Amanhã, entre duas lágrimas, aparece-te um raio de sol; e eis-te de novo namorado, confiado e arriscado.
-- Oh! não! protestou Meneses.
-- Quem dera que não! Mas eu estou a ler no teu rosto que a única maneira de te consolar deste naufrágio é dar-te outro navio. Só muito tarde te convencerás de que viver não é obedecer às paixões, mas aborrecê-las ou sufocá-las. Os maricas, como tu, choram; os homens, esses ou não sentem ou abafam o que sentem. Isto não tem réplica, meu... amigo, diria eu, se me não lembrasse do teu afortunado rival, que é positivamente um mariola. Vem à casa do Viana; hás de gostar da Lívia; parece-se contigo.
-- Não posso, respondeu Meneses, que só ouvira as últimas palavras de Félix.
-- Mas hás de ir depois?
-- Sim, depois.
-- E se te apaixonas por ela?
Meneses sorriu tristemente; o carro parou; despediram-se um do outro, e Félix seguiu para Catumbi.
Lívia estava só em casa. Fora convidada a um jantar, mas respondeu pretextando um incômodo que não tinha. O irmão encarregou-se de ir representá-la.
-- Tinha o pressentimento, disse ela depois de referir estas coisas ao doutor, tinha o pressentimento de que o senhor vinha cá hoje, e não desejava que lhe acontecesse a mesma coisa que da primeira vez.
-- E acredita em pressentimentos? perguntou Félix.
-- Não os explico, mas acredito neles.
Lívia parecia mais bela que das outras vezes. Não só a luz natural dizia melhor com a sua tez, como também a simplicidade do vestuário era para ela um realce. Félix não dissimulou a impressão que lhe causava aquele novo aspecto da moça. Lívia, que, como toda a mulher bela, e posto não fosse vaidosa, sabia mirar-se na fisionomia dos outros, não deixou de perceber a impressão do doutor.
A cena da portinhola do carro não havia saído do espírito de Félix, que se convencera de duas coisas: primeiro, que a viúva gostava dele; depois, que era fácil triunfar da viúva. As aparências davam fundamento à opinião de que a moça o amava. Félix aproveitou a situação e dispôs-se a tirar dela todo o proveito possível. Pouco se demorou, entretanto, naquele dia. Quando anunciou que se ia embora, pediu-lhe a viúva que não esquecesse a casa.
-- Aproveitarei o tempo, observou Félix, enquanto não embarcam para a Europa. Seu irmão diz-me que a viagem é breve.
-- Se não houver transtorno. Em todo o caso, venha, e não faça visitas de médico.
-- Eu fui médico; fiquei com esse costume, respondeu Félix sorrindo.
-- Já não é médico?
-- Do corpo, não.
-- Mas da alma?
-- Talvez. Deixei agora mesmo um doente da alma, que eu desejaria apresentar-lhe, porque estes ares dão saúde, creio eu.
-- De que sofre o seu doente?
Félix sorriu-se.
-- Vítima de uma inconstância, moléstia vulgar. Está no período agudo. É um pobre rapaz, inocente e singelo, que vai buscar as regras da vida nos compêndios da imaginação. Maus livros, não lhe parece?
Lívia não respondeu; estava embebida a ouvi-lo.
-- Meneses não conhece outros, continuou Félix. Parece filho daquele astrólogo antigo que, estando a contemplar os astros, caiu dentro de um poço. Eu sou da opinião da velha, que apostrofou o astrólogo: "Se tu não vês o que está a teus pés, por que indagas do que está acima da tua cabeça?"
-- O astrólogo podia responder, observou a viúva, que os olhos foram feitos para contemplar os astros.
-- Teria razão, minha senhora, se ele pudesse suprimir os poços. Mas que é a vida senão uma combinação de astros e poços, enlevos e precipícios? O melhor meio de escapar aos precipícios é fugir aos enlevos.
Lívia ficou pensativa alguns instantes.
-- O pensamento é melancólico, disse ela; contudo pode ser verdadeiro. Mas por que razão condenaremos a vida contemplativa dos que não conhecem a vida positiva? Os livros da imaginação... esses livros não são detestáveis, como o senhor disse; não os há detestáveis nem ótimos. Deus os dá conforme a ciência de cada um.
Félix despediu-se de Lívia, não enlevado, não palpitante, mas disposto a uma aventura. Amiudou as suas visitas a Catumbi, a grande aprazimento de Viana, que suspeitou alguma afeição entre os dois, e imaginara uma aliança de família.
A presença de Félix era até vantajosa naquela casa. Entre a viúva e o irmão havia um abismo. Eram dessemelhantes nos sentimentos, nos hábitos de viver, na maneira de pensar. Lívia tinha alternativas de afabilidade e rispidez, ao passo que o irmão era de uma inalterável paz de espírito. Viana tinha coisas más e boas, sendo que as coisas boas eram justamente as que se opunham ao gênio especulativo da viúva. Era homem essencialmente prático; o seu reino era todo deste mundo. Apesar das suas pretensões a rapaz estouvado e extravagante, tinha hábitos de ordem e economia. Lívia era a este respeito negligente e "meia doida", como lhe chamava o irmão; alheava-se muitas vezes das coisas que a cercavam para subir a um mundo superior e quimérico. O médico era entre ambos uma espécie de mediador plástico. Não pertencia à esfera de nenhum deles, mas sabia a maneira de os conciliar.
Félix encontrou algumas vezes em Catumbi o Dr. Batista, que ele vira dançar com a viúva em casa do coronel. Lívia não parecia prestar-lhe atenção, nem o pretendente magoar-se por isso. Era um modelo de dissimulação e cálculo. Conhecia todos os artifícios da campanha amorosa, a indiferença, o desdém, o entusiasmo, e até a resignação.
Uma noite em que saíram de lá juntos, Félix procurou sondar-lhe o espírito a respeito da moça.
-- Nada há, respondeu Batista com indiferença; nem eu pretendo cortejá-la. Mas, se o pretendesse, triunfaria; a paciência é a gazua do amor.
-- Não lhe parece que essa sua máxima é imoral?
-- Efetivamente é assim; mas é por isso mesmo que estes amores são deliciosos.
Quinze dias depois apareceu Viana em casa de Félix. Deu-lhe parte de que a irmã já não ia para a Europa.
-- Por que motivo? perguntou Félix.
-- É justamente o que eu desejara saber, disse Viana com um gesto de mal contido despeito; mas estou certo de que o não saberei jamais. Aquela minha irmã não me parece ter a cabeça no seu lugar.
-- Alguma razão haveria. Estará doente?
-- Está de perfeita saúde.
-- Quem sabe se.... algum namoro?
-- Já pensei nisso, disse Viana; pode ser algum namoro.
-- Naquela idade as paixões são soberanas. Seria inútil querer dissuadi-la, e ainda que não fosse inútil, seria desarrazoado, porque uma viúva moça... Ela amava muito o marido, não?
-- Antes de casar, muito; três meses depois, muitíssimo; ao cabo de alguns meses, nem muito nem pouco. Toda essa história é mistério para mim...
-- Não lhe vejo mistério nenhum; o casamento é justamente isso; acalma os afetos para os tornar mais duradouros. Se a paixão de sua irmã se tornou mais calma...
-- Não se trata disso. Lívia não amava menos; aborrecia o marido... Mas por que nos demoraremos nestas coisas que não podemos explicar? A única explicação que lhe acho é o seu caráter esquisito. O senhor não imagina bem que eterna variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia. Ninguém a entende, e eu menos que ninguém.
-- Não esteja o senhor a exagerar uma coisa naturalíssima. Todos temos essa mesma alteração de humor. Há manhãs tristes e aziagas. Quer que lhe dê um conselho? Não a contrarie nunca, é o melhor.
-- Mas o senhor há de concordar que quando a gente já preparava os beiços para ir saborear a vida parisiense...
-- Há tempo para tudo, disse Félix, e o senhor ainda está moço. Iremos juntos daqui a um ano.
-- Palavra?
-- Palavra.
Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.
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