Universo da obra
Universo da obra
Apenas chegaram à cidade, Félix despediu-se de Meneses e seguiu para as Laranjeiras. Ia palpitante e receoso; pela primeira vez nesse dia lhe lembrou a doença da viúva. Temeu que fosse tarde. Não era; as janelas estavam abertas. Entrou no jardim; subiu as escadas, cabisbaixo; quando levantou os olhos viu Raquel diante de si.
Raquel, cujo coração era menos filosófico, posto soubesse resignar-se como o de Meneses, não viu o médico sem algum abalo interior. Fê-lo entrar e foi ter com a enferma.
Quando Lívia soube que Félix ali estava, sorriu tristemente e fechou os olhos. Abriuos para contemplar a boa amiga que esperava ao pé do leito. Não estavam molhados. Cobria-os um véu de serena melancolia.
-- Agradece-lhe por mim, Raquel, e dize-lhe que me verá quando eu puder sair daqui.
Félix recebeu o recado e sentiu a frieza dele, apesar da doçura da voz que lho transmitia. Era muito contudo; não estaria longe a reconciliação.
A convalescença de Lívia foi mais rápida do que se devera esperar. O intervalo foi aproveitado por Félix em se reconciliar com Viana, que achou dentro de si bastante misericórdia para perdoar o culpado. A submissão do médico o lisonjeou, e o seu arrependimento lhe pareceu o que realmente era, -- sincero. Era natural perguntar-lhe a razão do rompimento. Viana achou melhor calar-se; o que ele queria antes de tudo era a reparação do erro.
Lívia consentiu finalmente em receber o médico. Estava na sala, envolvida num roupão branco, com um resto de palidez que a enfermidade lhe deixara no rosto. Nas circunstâncias em que ambos se tornavam a ver não podia ela estar melhor. O ar da moça não era risonho, mas também não era severo. Félix caminhou lentamente para ela, tímido e fascinado ao mesmo tempo. De novo sentia o império que a viúva sempre exercera em seu espírito.
Quando Félix confessou à viúva todo o seu arrependimento e lhe implorou o perdão da culpa que cometera, escutou-o Lívia com grande serenidade, e afetuosa lhe respondeu:
-- Não lhe nego o perdão que me pede; seria duvidar do seu arrependimento, e eu creio que é sincero. Podia talvez exigir que me dissesse a causa que o levou...
-- A causa é triste de confessar, interrompeu Félix.
-- Não lha peço. Mas quer ouvir o resto?
Félix curvou a cabeça.
-- Creio no seu arrependimento, e não duvido do seu amor, apesar de tudo o que se há passado. Isto lhe deve bastar. O destino ou a natureza não nos fez um para o outro. O casamento entre nós seria uma cerimônia apenas. Seria mais; seria o nosso infortúnio, e mais vale sonhar com a felicidade que poderíamos ter do que chorar aquela que houvéssemos perdido.
Félix ouviu as palavras da moça cabisbaixo e abatido. Não ousava responder-lhe, nem interrogá-la; mas do seu mesmo silêncio colhia a moça a sinceridade da dor e do arrependimento.
-- Se isto lhe dói, continuou ela, vê bem que a culpa não é minha. Eu aceito uma situação não criada por mim, nem também pelo senhor, mas, -- como eu lhe dizia, -- pela natureza ou pelo destino. No ponto a que chegamos é esta a resolução melhor.
-- Não é, interrompeu Félix com impetuosidade, não é a melhor porque ambos perderemos com ela, e nada nos impede a resolução contrária. Creio que não duvide do meu amor; mas digo-lhe que o não compreende, nem avalia. Eu não teria ânimo de lhe propor nas circunstâncias em que nos achamos, um rompimento que...
O sorriso com que a moça o ouvia cortou-lhe a palavra neste ponto. Caiu em si, lembrou-lhe, -- que ele facilmente esquecia tudo -- lembrou-lhe que lhe não cabia falar de rompimento, e murmurou:
-- Não tenho direito de falar assim, e vejo que mereço um castigo...
-- Não é castigo, atalhou a viúva, é necessidade. Se alguma consolação pode levar desta última entrevista, leve a certeza de que o amo como dantes, e de que o meu padecimento será ainda maior do que o seu. O casamento é já agora impossível. Eu não sei o que motivou a sua carta, mas imagino que foi alguma dúvida nova a meu respeito. Se nos casássemos, cessariam elas?
-- Sim! porque eu hoje creio e vejo o que padeceu por mim. Para duvidar do seu amor seria preciso que houvesse perdido a razão. Demais, continuou Félix enquanto Lívia abanava tristemente a cabeça, -- viveremos só para nós, fecharemos a nossa casa aos olhos estranhos...
-- Ainda assim o irá perseguir esse mau gênio, Félix; seu espírito engendrará nuvens para que o céu não seja limpo de todo. As dúvidas o acompanharão onde quer que nos achemos, porque elas moram eternamente no seu coração. Acredite o que lhe digo; amemo-nos de longe; sejamos um para o outro como um traço luminoso do passado, que atravesse indelével o tempo, e nos doure e aqueça os nevoeiros da velhice.
Lívia proferiu estas últimas palavras com a voz trêmula, e uma lágrima lho rolou pela face pálida.
-- Por que nos separaremos agora que estamos à porta do céu? perguntou Félix. Não me cabe o direito de exigir uma felicidade que repeli tantas vezes; mas, se pudesse entrar na minha alma veria que os meus erros, por maiores que sejam, e são grandes, anima-os sempre um sentimento de amor, e que enfim eu cedo sempre ao grito de minha consciência. A mais bela ação seria perdoar-me esquecendo, e o único modo de esquecer seria voltarmos ao tempo de nossas esperanças.
-- Perdoei tudo, e tudo esqueci; apagou-se o passado e nenhum ressentimento me ficou. O que se não apaga é o futuro.
Félix torcia as mãos. Era patente o seu desespero. A viúva mal podia encará-lo. Seguiu-se um longo silêncio, interrompido pela chegada de Luís. O menino pôs termo à entrevista. Félix olhou ainda algum tempo para a moça; mas leu-lhe na fisionomia que a resolução era inabalável. Levantou-se para sair.
-- Conservaremos a estima recíproca, disse Lívia estendendo-lhe a mão, e espero que me conserve também alguma coisa mais... como eu.
Eram as últimas palavras da moça, vieram entrecortadas de soluços. Félix quis pegar-lhe nas mãos e aproveitar esse passageiro desmaio para conseguir a retratação das palavras. Mas a moça abraçou-se ao filho em cujo seio escondeu o rosto.
-- Não faça chorar mamãe, disse Luís enlaçando com os bracinhos o pescoço da viúva.
Félix retirou-se lentamente, com os olhos anuviados, turvo o espírito, o passo vacilante, e transpôs a custo a soleira daquela porta que se lhe ia fechar para sempre.
Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.
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