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Capítulo 9 · Ressurreição

Ressurreição: Capítulo 7 - O gavião e a pomba

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Iniciando afoitamente esta aventura, era natural que Félix saísse de Catumbi com a vaidade satisfeita de um triunfador. Não era ele amado, e amado sem esforço seu, sem resistência nem combate? E a mulher que lhe acabava de dar francamente o coração não tinha todas as qualidades que podem seduzir um homem e lisonjear-lhe o amor-próprio?

Qualquer outro teria motivo de se julgar superior ao resto dos mortais; mas era a natureza mesma da vitória que vinha travar a felicidade de Félix. A que propósito interviria o coração neste episódio, que devia ser curto para ser belo, que não devia ter passado nem futuro, arroubos nem lágrimas?

-- Fui longe demais, ia ele dizendo consigo; não devia alimentar uma paixão que há de ser uma esperança, e uma esperança que não pode ser outra coisa mais que um infortúnio. Que lhe posso eu dar que corresponda ao seu amor? O meu espírito, se quiser, a minha dedicação, a minha ternura, só isso... porque o amor... Eu amar? Pôr a existência toda nas mãos de uma criatura estranha... e mais do que a existência, o destino, sei eu o que isso é?

Neste ponto, parece que alguma idéia vaga e remota lhe surgiu no espírito e o levou a uma longa excursão no campo da memória. Quando voltou à realidade presente tinha o carro entrado no Largo do Machado. Apeou-se e seguiu a pé para casa.

A viúva tornou a ocupar-lhe o espírito. Recapitulou então tudo o que se passara em Catumbi, as palavras trocadas, os olhares ternos, a confissão mútua; evocou a imagem da moça e viu-a junto dele, pendente de seus lábios, palpitante de sentimento e ternura. Então a fantasia começou a debuxar-lhe uma existência futura, não romanesca nem legal, mas real e prosaica; como ele supunha que não podia deixar de ser com um homem inábil para as afeições do Céu.

-- E que outra coisa quer ela? dizia o médico a si mesmo. Era, sem dúvida, melhor que houvesse menos sentimento naquela declaração, que tivéssemos navegado mais junto à terra, em vez de nos lançarmos ao mar largo da imaginação. Mas, enfim, é uma questão de forma; creio que ela sente da mesma maneira que eu. Devia tê-lo percebido. Fala com muita paixão, é verdade; mas naturalmente sabe a sua arte; é colorista. De outro modo pareceria que se entregava por curiosidade, talvez por costume. Uma paixão louca pode justificar o erro; prepara-se para errar. Não me anda ela a seduzir há tanto? É positivo; mete-se-me pelos olhos. E eu a imaginar que...

Quando Félix chegou a casa, estava plenamente convencido de que a afeição da viúva era uma mistura de vaidade, capricho e pendor sensual. Isto lhe parecia melhor que uma paixão desinteressada e sincera, em que, aliás, não acreditava. Não admira pois que ainda desta vez a lembrança de Lívia lhe não perturbasse o sono, e que o primeiro clarão da aurora, atravessando os vidros da janela da alcova, alumiasse o rosto do médico, tão grave e plácido como na véspera.

Félix voltou a Catumbi naquele mesmo dia. A viúva estava radiante de felicidade, trêmula de alegria. Estendeu-lhe a mão, que ele apertou, não palpitante como ela, mas cheio de delicadeza e graça. A presença de Viana, além disso, impedia qualquer outra manifestação exterior. O parasita, que parecia empenhado em preparar uma aliança de família com o médico, dispôs-se a não ser cruel para os dois namorados; fechou os olhos, cerrou os ouvidos, e, se em todo o caso foi importuno, não o deveu à vontade, mas à situação, porque em tais circunstâncias nem todo o engenho de Voltaire pode fazer um homem interessante.

Amiudaram-se ainda mais as visitas de Félix, que ali encontrou algumas vezes a família do Coronel Morais, e outras, poucas, da intimidade de Lívia. D. Matilde sentia entusiasmo pelo médico; quanto a Raquel olhava para ele com uma espécie de adoração. Dos homens alguns o detestavam cordialmente, outros tinham-lhe medo, não raros inveja, e alguns poucos simpatia.

Félix, entretanto, parecia indiferente aos sentimentos que inspirava, e deste modo obedecia a um sistema não menos que à disposição do seu espírito. O mesmo praticava em relação ao amor. Evitava, quanto podia, animar as esperanças da moça, e posto soubesse a fundo a retórica da paixão, não a empregava sem uma parcimônia, que lhe parecia economia razoável.

Lívia, porém, não dissimulava nem hesitava; deixava transparecer no rosto o que sentia no coração. Jogava com as cartas na mesa sem previsão nem cálculo. Expansiva e discreta, enérgica e delicada, entusiasta e refletida, Lívia possuía esses contrastes aparentes, que não eram mais que as harmonias do seu caráter. Os próprios defeitos dela nasciam de suas qualidades. Era crédula à força de ser confiante, ríspida com tudo o que lhe parecia baixo ou fútil. Tinha a imaginação quimérica, às vezes -- o coração supersticioso, a inteligência austera, mas compensava estes defeitos, se o eram, por qualidades capitais e raras.

Um dia em que ambos conversavam do único assunto que lhes podia interessar -- pelo menos do único que lhe interessava a ela, Félix pediu-lhe explicação de uma coisa que lhe parecia obscura.

-- Obscura? repetiu Lívia.

-- Lembra-se da noite em que a encontrei no Ginásio? disse o médico. Estava preocupada e alheia a tudo. Conversou mal e distraída, interessavam-lhe as cenas amorosas, tudo mais parecia aborrecê-la. No fim do terceiro ato levantou-se e foi-se embora. Diz-me, entretanto, que desde o sarau do coronel já começava a sentir este amor que é a sua vida. Pois bem, não estava eu lá, a seu lado, no teatro?

-- Não.

-- Oh!

-- Estava outro homem, muito diverso deste que eu vejo agora ao pé de mim, porque ainda não me amava. Mas não era só isso; era mais. Pensa que os seus atos, sentimentos e pessoa, não são objeto dos comentários estranhos?

-- Importam-me tão pouco os comentários!

-- Pois bem, falaram-me muito mal do seu coração naquele dia.

-- Que lhe disseram desse viajante incógnito?

-- Viajante? perguntou Lívia.

-- Que foi, emendou Félix.

-- Disseram-me muitas coisas más.

-- Deu-lhes crédito?

-- Não; mas fiquei triste. Eu estava acostumada a admirá-lo de longe. Conhecia-o pouco, mas meu irmão falava-me muita vez a seu respeito nas cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro com ele.

-- Seu irmão tem certo entusiasmo por mim, disse Félix; é natural que exagere os meus méritos. Quanto à filha do coronel, é uma criança, que se acostumou a ver-me com olhos de irmã mais moça.

-- Quer então que eu acredite antes nas coisas más?

-- Nem más nem boas, Lívia; conheça-me primeiro; fará depois juízo seguro.

-- Oh! conheço-te! exclamou ela.

A entrada de Viana interrompeu o colóquio. Félix dirigiu-se à mesa e abriu um álbum, enquanto Viana referia à irmã as peripécias de um jantar a que assistira.

O álbum da viúva, que o médico abria pela primeira vez, estava já alastrado de prosa e verso. Nem tudo era bom, como acontece nesses livros, que são às vezes verdadeiros asilos de inválidos do Parnaso, onde as musas reumáticas e manetas vão soltar os seus gemidos. Uma página havia que lhe pareceu misteriosa: era uma declaração de amor sem assinatura. Leu-a, e não pôde deixar de sorrir: só havia uma coisa pior que a forma, era o pensamento.

-- De que se ri? perguntou a viúva.

Viana aproximou-se de Félix e lançou os olhos para a página aberta.

-- Ah! disse ele estouvadamente, isto é de meu defunto cunhado.

Lívia estremeceu e corou.

-- Viúva de um néscio! pensou Félix. Estava pedindo um homeminteligente.

Ressurreição

Sinopse

Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.

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