Universo da obra
Universo da obra
O desenlace desta situação desigual entre um homem frio e uma mulher apaixonada parece que devera ser a queda da mulher: foi a queda do homem. Para triunfar da viúva, Félix contava apenas com a sua resolução; mas a viúva, além do seu amor, tinha dois auxiliares ativos e latentes: o tempo e o hábito. Cada dia que passava caía como uma gota d'água no coração do médico, e ia cavando fundo com a fria tenacidade do destino.
Ironia da sorte chamará o leitor a este desfecho de uma situação que, algumas semanas antes, tão outra se lhe afigurava. Chame-lhe antes lógica da natureza, porque o coração de Félix, que aparentava ser de mármore, era simplesmente da nossa comum argila. Não era seguramente um coração virginal e puro; tinha uma certa dose do egoísmo que a natureza maternalmente repartiu por todos os homens, e não se pode dizer que não fosse algum tanto cético; mas estes senões exagerava-os ele de maneira que veio a perder, na imaginação dos outros, a sua fisionomia original.
As armas com que lutava eram certamente de boa têmpera, mas se valiam muito para esgrimir, valiam pouco para pelejar. Com uma mulher que apenas tivesse a soma de afeto necessária para dissimular o erro, o nosso herói ficaria na altura da reputação; mas o amor da viúva era um verdadeiro combate. Quando Félix chegou a encarar-lhe o coração, sentiu a fascinação do abismo, e caiu nele.
Esta queda, como disse, foi lenta; o médico começou a sentir que a presença da moça era para ele uma necessidade. Pesavam-lhe as ausências mais longas, e, o que era mais, vinham suavizar-lhas umas saudades, que ele definia por outro modo, mas que, em suma, eram saudades. Quando a ia ver, e à proporção que se aproximava dela, sentia bater-lhe alguma coisa dentro do peito; o médico dizia que era o sangue ainda juvenil e irrequieto. Seria uma razão fisiológica; mas havia também uma razão moral; era a lava da paixão que se ia formando e subindo até romper a garganta do vulcão. Longa foi a gestação do amor; mas quando o médico descobriu o estado de sua alma, não era centelha que se pudesse abafar, mas incêndio que lavrava e consumia tudo.
Decidam lá os doutores da Escritura qual destes dois amores é melhor, se o que vem de golpe, se o que invade a passo lento o coração. Eu por mim não sei decidir, ambos são amores, ambos têm suas energias. O de Félix parecia ter criado no silêncio uma força invencível.
Um potro arisco e selvagem, quando a mão do homem lhe põe o freio pela primeira vez, não se irrita mais do que o nosso herói no dia que sentiu violada a liberdade do seu coração. Cólera singular e insensata, mas amarga e sincera. Planeou desde logo uma separação violenta, que lhe desse tempo e armas para vencer-se a si próprio. A execução seguiu de perto a idéia; e o médico cessou repentinamente as suas visitas a Catumbi.
A ausência, porém, foi ainda um auxiliar da viúva. O despeito do médico não se aplacou, transformou-se; não acusava já a fraqueza do coração, mas a rebeldia dele. O que a princípio lhe parecera necessário para restituir-lhe a paz do espírito, começou a ter a seus olhos o caráter de ingratidão. Ingratidão, era já confessar muito, mas o médico foi além, achou-se ridículo. Aqui já não era possível a resistência. Algum homem pode gloriar-se de ser ingrato; dirá, com um moralista cético, que é uma maneira de ser independente. Mas ninguém é ridículo convencido; convencer-se é emendar-se.
A essas razões que o médico dava a si próprio, e que eram filhas da consciência, acresciam outras que ele não articulava, mas sentia, as saudades, as recordações, os desejos, a voz misteriosa e constante que lhe sussurrava aos ouvidos o nome de Lívia.
Demais, a bela viúva escreveu-lhe. Félix, como um verdadeiro namorado, jurara não abrir as cartas que ela lhe mandasse, e correu à porta para receber a primeira. Não era carta de recriminações, mas de surpresa e de lágrimas. Quando veio segunda carta, já o médico sabia a outra de cor. A segunda era a última, dizia Lívia; eram já recriminações, mas não contra ele, nem contra o destino; eram recriminações contra si mesma. A melancólica resignação da moça comoveu o médico; no fim de uma semana estava aos pés dela, fazendo ato de sincera contrição.
Lívia perdoou-lhe as lágrimas choradas durante aqueles oito dias de angustiosa incerteza. Perdoou-lhas como sabem perdoar as almas verdadeiramente boas, -- sem ressentimento. Mas a causa da ausência não a explicou Félix.
-- Não me perdoou já? disse o médico, quando ela lhe fez uma pergunta direta a este respeito. Isso basta; não queira saber a razão desta singular loucura, que me levou tão longe do único lugar em que me é possível a felicidade. Para minha expiação basta o que sofri também nestes oito dias e a vergonha de ter...
Calou-se; receava dizer tudo. A moça ouviu aquelas palavras com manifesta satisfação, e murmurou:
-- Ciúmes?
Félix estremeceu. Uma sombra ligeira pareceu toldar-lhe os olhos. Lívia inclinou para ele o rosto como querendo ler-lhe na fisionomia a verdade que ele forcejava por esconder.
-- Não, disse Félix, não foram ciúmes. Ciúmes de que e de quem?
-- De ninguém, bem sei; mas está-me a parecer, Félix, que o seu amor é um pouco visionário e melindroso. Oh! não me lastimo por tão pouco; agradeço-lhe até. Que perderia eu com isso? Alguns dias de paz, talvez; mas a certeza de ser amada é uma grande compensação. O Purgatório não é uma porta que abre para o Céu? Cada qual sabe amar a seu modo; o modo pouco importa; o essencial é que saiba amar. Pode ser que eu me engane, continuou ela pondo-lhe as mãos na fronte, mas eu creio que há nesta cabeça muita imaginação, e imaginação doente. Ou então...
-- Ou então? repetiu o médico, vendo que ela fazia uma pausa.
-- Ou então, a doença está aqui, concluiu Lívia apontando-lhe para o coração. Não importa; eu suportarei tudo, contanto que me ame.
-- Oh! Lívia, exclamou Félix, depois de lhe beijar ternamente a fronte, essa resolução será o penhor do nosso futuro. Consulte o seu coração; veja se há nele bastante misericórdia para mim, e prometo-lhe que seremos felizes.
-- Tudo lhe perdoarei, contanto que me ame, disse a moça.
Compreenderia ela então que dolorosa e pesada obrigação contraíra? Talvez não. Confiava em si mesma, no prestígio do seu amor, no coração de Félix, para vencer tudo, e realizar o que era agora o sonho da sua vida.
O caminho melhor para isto era seguramente o da igreja. Que obstáculo podia haver? Um e outro dependiam exclusivamente de si; o casamento era o desfecho lógico e sacramental daquele romance. Mas nem a viúva o insinuava, nem o médico o propunha, e nesta situação mal definida alguns dias correram de tranqüila felicidade.
Aos olhos estranhos buscavam ambos esconder o seu segredo; mas a reserva de Lívia era apenas a que bastava para acatar as conveniências, ao passo que a de Félix era tão completa e calculada que à própria moça iludia. Esta facilidade de dissimulação desconsolou-a. Achava-a perfeita demais. Era um sintoma de tranqüilidade que desdizia com o amor impetuoso de Félix. Demais, que razão haveria para esconder tão misteriosamente dos olhos dos outros, uma coisa que deveria e não tardaria a ser pública?
A indiferença de Félix, entretanto, não era tão completa como parecia, era uma indiferença vigilante. Quando os olhos da viúva procuravam os do médico, este desviava cautelosamente os seus; mas olhava, digamo-lo assim, por baixo da pálpebra.
Foi então que começou para ela uma vida de luta.
Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.
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