Universo da obra
Universo da obra
A situação das duas moças demandava um termo. Raquel foi a primeira que resolveu deixar completamente o campo; tinha no seu restabelecimento uma excelente razão para regressar a casa.
Lívia compreendeu a intenção da amiga quando esta lhe comunicou a sua resolução. Era tão simples e tocante o sacrifício, que a viúva não resistiu a um impulso generoso. Respondeu-lhe com um beijo. O beijo era de admiração; Raquel acreditou fosse de agradecimento, e sorriu com tristeza.
Ficou assentado que Raquel iria no domingo próximo, e nesse sentido foi avisado o coronel.
Estavam ainda no dia seguinte ao do episódio do menino. Nenhuma das suas circunstâncias esquecera ao médico. A esquivança de Raquel continuava a preocupar-lhe o espírito, não menos que a infundada suspeita que nutria a respeito da viúva. Era meado do mês de dezembro. A data do casamento estava próxima. Tudo exigia um desenlace a tempo.
Não tardou que o médico descobrisse os sentimentos que a filha do coronel nutria a seu respeito. Surpreendeu-a perto de uma janela interior, a beijar uma página de um álbum de retratos. Aproximou-se cauteloso, lançou os olhos à página e viu nela o seu próprio retrato.
A descoberta fê-lo sorrir. Seria aquilo a razão da mudança que notara nela? Nesse caso sabia já da afeição que o ligava à viúva, talvez do projetado casamento. Era possível também que a volta dela à casa de seus pais não tivesse outro motivo.
Por mais isento que seja o espírito de um homem, é raro que o não lisonjeie uma afeição assim, medrosa e silenciosa, nascida e vivida na soledade da alma. Félix sentiu primeiro essa impressão de egoísmo. Veio depois outro sentimento melhor, -- o de uma respeitosa admiração. Seu pensamento entrou a conjeturar a data daquele singular amor; à proporção que se internava nos dias do passado, ia combinando uma série de episódios esparsos, aparentemente vagos, agora significativos e eloqüentes. Não era recente a afeição dela; era talvez anterior à sua enfermidade.
Chegara o sábado, véspera da partida de Raquel. Era de noite. Félix estava em casa da viúva, e ambos, e Raquel, e até Viana todos pareciam preocupados e tristes. O médico olhava para a filha do coronel, sem reparar que os olhos de Lívia seguiam os seus e como que buscavam ler por eles os sentimentos do coração.
Raquel esquivava-se às atenções do médico. Em certa ocasião, porém, -- achando-se Félix mais afastado, -- aproximou-se dele com um livro.
-- Já leu este romance? perguntou ela.
-- Deixe ver, disse Félix, convidando-a com um gesto a sentar-se.
Raquel não se sentou; estendeu-lhe o livro, e olhou com insistência para o médico.
Félix pegou no livro e consultou a primeira página; ia voltar distraidamente a segunda, quando lhe caiu nos joelhos um papelinho dobrado. Raquel voltou assustada a cabeça para o lado de Lívia, que de pé, junto do piano, tirava notas soltas do teclado, sem olhar para o grupo. Raquel fez ao médico um sinal de silêncio e afastou-se dele. Félix guardou o papel no bolso.
-- Quase uma criança! ia ele pensando quando se retirava para casa depois do chá.
Quando ali chegou não se deu ao trabalho de tirar o chapéu. Abriu a carta logo na sala.
Dizia a carta:
"Pela memória de sua mãe, não seja cruel! Lívia ama-o muito. Não a faça morrer, que seria um pecado!"
Félix esfregou os olhos e releu o bilhete.
Não havia negá-lo; a letra era de Raquel e o conteúdo era uma súplica a favor da rival. Não sorria o médico; estava atônito. A verdade, tão inverossímil desta vez, metia-se-lhe pelos olhos, singela, eloqüente, espontânea. Espontânea seria? Félix fez essa pergunta a si mesmo, e afirmativamente lhe respondeu; não atribuía à viúva tamanha influência, nem à donzela tamanha submissão, que uma inspirasse e a outra escrevesse aquela carta. A coisa pareceu-lhe o que realmente era: um sacrifício de Raquel.
Félix não era homem de grandes expansões; mas, se Raquel estivesse diante dele naquela ocasião, era capaz de cair-lhe aos pés. Abafar uma afeição silenciosa, a primeira talvez, para pedir a felicidade de outra mulher, era abnegação rara, que o surpreendia.
A ação de Raquel fez-lhe esquecer por algum tempo a viúva, objeto da carta que acabava de ler. Raquel não afirmaria tão claramente os sentimentos da amiga, se não tivesse plena certeza deles. Como conciliaria, entretanto, a afirmação de hoje com a suspeita de ontem? A mesma Raquel lhe insinuara diversa inclinação da viúva. Naturalmente reconhecera o contrário. A idéia da reabilitação de Lívia para logo dominou o espírito de Félix. Seu amor existia no mesmo estado de força e viço; fácil de desmaiar, não era menos fácil de se restabelecer. No dia seguinte parecia desfeita a nuvem que por alguns dias o abafara.
Foi à casa da viúva; era uma hora da tarde. Tinha curiosidade de encarar a filha do coronel. Achou-a tão alegre e travessa como era dantes. Era assim aparentemente; os olhos estranhos não viam a mágoa interior e encoberta que lhe roía o coração. Seu infortúnio tinha pudor.
Ao médico era impossível encobrir esse estado. A tocante generosidade da moca fez-lhe bem ao coração. Teve ele a delicadeza de não tratar a viúva por modo que magoasse a donzela; mas, tão outro se mostrava do que fora até então, que a viúva não pôde resistir-lhe, e aquele dia foi muito menos triste que os outros.
As travessuras de Luís faziam coro com as de Raquel. A porta da sala estava aberta. Luís desceu os degraus que comunicavam da sala com o jardim, na ocasião em que Lívia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a viúva deu por falta do filho, correu à porta. O menino corria na direção da porta da rua. A mãe desceu atrás dele.
Raquel ia descer também; Félix pegou-lhe na mão. A moça estremeceu toda; afoguearam-se-lhe as faces, e ela balbuciou:
-- Leu a minha carta?
-- Li, respondeu Félix cravando nela um olhar que era a um tempo de simpatia e de pena. Li, e não sei se deva crer o que lá me diz.
-- É a verdade.
-- Mas então supõe...
-- Que ela o ama; afirmo-lho.
-- E que eu a amo também? perguntou com hesitação.
-- Isso... creio, assentiu Raquel, abaixando os olhos.
Félix calou-se. Decorreram dois ou três minutos de silêncio. Raquel continha com dificuldade os movimentos do coração. Preferia estar a cem léguas dali, mas lembrava-se da outra e isso lhe dava ânimo.
O médico foi o primeiro que falou:
-- Como sabe que ela me ama?
-- Sei, respondeu Raquel sorrindo com afetação, e é quanto basta. Demais, nenhuma moça escreveria semelhante carta a um homem se não tivesse certeza do que afirmava. Só lhe peço uma coisa: destrua essa carta. Nada vale, mas eu não quisera que a conservasse.
Lívia aproximava-se; sentiram passos na escada de pedra. Raquel correu à porta, enquanto Félix tirava a carteira do bolso, e procurava o bilhete de Raquel. Foi nessa ocasião que o coronel e a esposa chegaram. As duas moças desceram a recebê-los. Félix desceu também, e caminhou a alguns passos de distância, com o coração dividido entre o amor de Lívia e a admiração de Raquel.
Os pais da moça jantaram nas Laranjeiras. Lívia acompanhou depois toda a família à cidade. Na ocasião de se despedir do médico, a filha do coronel sentiu que as forças lhe iam faltando. Reagiu, porém, sobre si mesma, e sem olhar para ele, estendeu-lhe a mão, que o médico respeitosamente apertou. Ao voltar-lhe as costas um suspiro lhe saiu do peito; partira-se o último vínculo da esperança.
Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.