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Capítulo 21 · Ressurreição

Ressurreição: Capítulo 19 - A porta do céu

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Dois dias antes do casamento, Lívia foi jantar à casa do coronel, a convite deste que reunira algumas pessoas de amizade. Félix não compareceu, apesar de instantemente chamado; cedera a um sentimento de delicadeza, não querendo mortificar com a sua presença a filho do coronel, nem perturbar de algum modo o espírito da viúva.

A primeira idéia de Lívia foi não aceder ao convite, a fim de não afrontar a dor de Raquel. Instaram tanto os pais da moça que lhe foi impossível recusar.

As duas moças encararam-se comovidas; a diferença era que Raquel pôde ocultar melhor o seu abalo do que a viúva. Essa vitória da donzela sobre si mesma fez redobrar a admiração da rival. Entendeu-lhe a delicada intenção, e agradeceu-lha na primeira ocasião que se lhe deparou.

-- Sei tudo, acrescentou Lívia; sei da tua carta, que foi a chave com que de novo se me abriram as portas da fortuna. Eu não sei se poderia ser tão heróica como tu. Separa-nos o destino; deixa-me beijar-te as mãos.

O gesto acompanhou estas palavras: Raquel recusou ceder ao desejo da viúva.

-- Seja feliz! murmurou ela.

Tais foram as últimas palavras que houve entre ambas. Quando a viúva saiu trocaram um beijo, a que não se podiam recusar, e que da parte de Raquel foi muito menos espontâneo que da outra. Lívia o sentiu e sinceramente lho perdoou.

Ao entrar no carro, com o irmão, a viúva ia desconsolada e triste. Seu coração sabia amar, e a idéia de que a sua felicidade custaria lágrimas a alguém fundamente lhe doía.

-- Por que razão, pensava ela, me há de lançar a Providência esta gota amarga na taça das minhas delícias? Se eu ao menos o ignorasse... a minha felicidade não seria travada de remorsos... Felicidade? continuou ela dirigindo o pensamento a uma nova ordem de idéias; será deveras felicidade? O sonho, tantas vezes dissipado, realizar-se-á, enfim?... Há quase um ano que eu pus toda a minha existência nesta vaga probabilidade; está próximo o termo, não sei que sorte avessa me repele para longe. Não a mereço talvez, ou então ambiciono demais... Chamam-me bela; devia talvez contentar-me com ser admirada...

Neste ponto foi a moça interrompida por uma observação banal do irmão, que tinha um termômetro infalível nos pés e anunciou que havia trovoada iminente. A irmã olhou silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma a ventura daqueles para quem as tempestades do ar importam mais que as tempestades da vida. Viana faria provavelmente a reflexão inversa se adivinhasse as preocupações da irmã.

Quando chegaram às Laranjeiras, acharam Félix na sala, conversando infantilmente com o filho de Lívia, que lhe pedia a explicação do mecanismo do relógio. Félix aplicava todos os recursos da imaginação para satisfazer a curiosidade do menino. Como ouvisse parar um carro, e logo depois rumor de passos no jardim, o médico disse ao menino que a mamãe estava aí, e aproveitou a ocasião para lhe anunciar que ia casar com ela.

Ao ouvir esta notícia, o menino subiu aos joelhos do médico, e perguntou alegremente se era verdade o que dizia.

-- Sim, é verdade, repetiu Félix.

-- O senhor casa com mamãe?

-- Caso, já disse.

Neste momento assomou à porta a figura de Lívia. O menino desceu dos joelhos de Félix e correu a abraçar a mãe.

-- É verdade que mamãe casa com o Doutor Félix? disse ele depois de receber um beijo da viúva.

-- É, meu filho, respondeu esta entrando e estendendo a mão ao médico.

A presença de Félix e a alegria de Luís mudaram o curso às reflexões da moça. Cinco minutos bastaram para fazer esquecer a tristeza própria e o infortúnio da rival abatida. Raquel verteria naquela ocasião, no silêncio da sua alcova, uma lágrima de saudade? Nenhum deles pensou nisso, nem a viúva, a quem ela tão generosamente servira, nem Félix que era o objeto daquelas dores solitárias.

Félix estava mais jovial que nunca. Perdera de todo as maneiras friamente polidas; tornara-se expansivo, gárrulo, terno, quase infantil. O coração parecia-lhe cheio do presente e do futuro. Não era só a situação que explicava esta mudança; era também a volubilidade do espírito.

A viúva lia-lhe na alma, que, enfim, ressurgira, um poema de inefáveis venturas. Houve um momento em que lhe lembraram as mesmas alegrias da véspera do seu primeiro casamento, e estremeceu; mas a impressão durou pouco; o segundo marido não era, como o primeiro, uma criatura sem alma, era, sim, uma alma sem ação. Mas o amor não começava já a reanimá-la?

Mais quarenta e oito horas, e eles uniriam para sempre os seus destinos. Esse ato decisivo e grave da vida do homem, já o médico o encarava com a tranqüilidade de ânimo resoluto, sem tropeçar na responsabilidade, nem arrecear-se das conseqüências. Antolhava-se-lhe o lar doméstico como a cidade da paz e da concórdia. Não via às portas dela o lívido espectro da dúvida; flores e folhas verdes, não mortíferas, senão vivificantes, pareciam alcatifar-lhe o caminho e convidá-lo a descansar enfim da vida que tão mal vivera.

Lívia saboreava esse renascimento do amante. Estavam sós e iam dar o penúltimo beijo de despedida. O último seria o da noite seguinte. As mãos dela pousavam nos ombros de Félix, e os olhos de ambos procuravam fundir as duas almas no mesmo raio de luz.

O céu não dava razão aos receios de Viana; tinham-se dissipado as nuvens que anunciavam próxima borrasca. Não havia luar, mas a noite estava clara; e as vivíssimas estrelas que luziam no céu, algum poeta imaginoso as compararia a línguas de fogo daquele pentecostes de amor.

-- Jura-me ainda uma vez que me amas! dizia ele. É doce à minha alma ouvir-te essa confissão!

-- Pelo céu, por meu filho, por ti, juro que te amarei sempre! Amava-te ainda quando eras indiferente ao meu afeto, quando o negavas, quando me pagavas com o desdém. Por que te não amaria agora que és todo meu... todo, não?

-- Duvidas?

-- Eu não sei duvidar; recear, sim. Já te disse por que razão. Mas hoje não receio, não; sinto que sou verdadeiramente amada. Quaisquer que fossem as minhas queixas, eu tudo te perdoaria agora, que me abres a porta do Céu.

-- Oh! tu és um anjo!

-- Adeus!

-- Adeus! Amas-me muito, não?

-- Muito!

E um beijo casto, longo, quase divino, selou esta confissão tantas vezes repetida entre eles. Depois apertaram as mãos, e Félix saiu.

A rua estava deserta, o silêncio era profundo. Félix entrou em casa exaltado e alegre. Não tinha sono; recorreu aos livros, mas não lhe aproveitou o recurso, porque se os olhos corriam no papel, o espírito estava ausente, no tempo e no espaço: buscava a amada e planeava futuros.

Com a fadiga veio o sono. Félix adormeceu nos braços dos anjos.

Batiam oito horas quando ele acordou e abriu as janelas. O dia estava triste. Caía uma chuva fina e constante, que havia começado pouco antes dos primeiros albores da manhã. Que lhe importava a ele a melancolia da natureza, se tinha dentro da alma uma fonte de inefáveis alegrias?

Assentou-se à escrivaninha, e durante duas horas fez o inventário da sua vida de solteiro, rasgando com indiferença uma imensidade de cartas que lhe lembravam afeições extintas ou simples relações passageiras. Varria o templo em que devia entrar a escolhida de seu coração. Quando relia algumas dessas epístolas, -- folhas caídas da estação que se fora, -- desenhava-se-lhe nos lábios um sorriso irônico, mas tranqüilo, tal era a transformação de sua alma já indiferente às lutas do passado.

Às dez horas levantou-se para almoçar. Acabava de sentar-se à mesa quando lhe vieram dizer que uma pessoa o procurava.

Era o Dr. Luís Batista.

Ressurreição

Sinopse

Em “Ressurreição”, o mestre Machado de Assis inaugura sua carreira literária com uma trama cativante e reflexiva. Este romance nos transporta para o Rio de Janeiro do século XIX, mergulhando-nos na vida do protagonista Félix, um homem em busca de redenção e significado. A habilidade única de Machado em explorar a psique humana se revela enquanto Félix se depara com dilemas morais, paixões proibidas e a eterna busca pela ressurreição de sua própria existência. Ao longo das páginas de “Ressurreição”, Machado de Assis tece uma narrativa envolvente que transcende as fronteiras do tempo. O autor, conhecido por sua astúcia e ironia literária, constrói um retrato perspicaz da sociedade carioca da época, explorando temas como amor, religião e as complexidades da natureza humana. Este blog é um convite para explorar as camadas profundas desta obra inaugural de Machado de Assis, que não apenas lançou as bases de sua carreira, mas também deixou uma marca indelével na literatura brasileira.

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