Leia agora
Til

Universo da obra

Til

Capítulo 22 · Til

Til: Parte II - Capítulo VII

22 de 62 ≈ 7 min de leitura

O tal Gonçalo era um valentão; e tinha-se na conta do mais façanhudo espoleta de toda aquela redondeza.

Não acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas de arromba que blasonava o pábulo; nem tomava ao sério as roncas e bravatas com que andava sempre a azoinar os ouvidos aos mais.

Para dar à sua pessoa um tom ameaçador e ao mesmo tempo disfarçar o senão do rosto, engendrara o Gonçalo sagazmente o apelido de Suçuarana, que a todo o instante atirava à barba dos outros, mostrando as pampas da cara.

Mas à exceção dele, ou de algum súcio que lhe filava a pinga, ninguém o chamava pelo tal apelido; senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o distinguir de outro Gonçalo carafuz, também morador no lugar.

Não aturava, porém, o valentão esse desaforo; e disparatava com quem o tratasse pela alcunha. Para não se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele modo na presença, ainda que muitas vezes pelo costume lá escapava a palavra; mas o Gonçalo fingia não ouvir. Também, segundo contavam, já por vezes lhe tinham chimpado com o Pinta de propósito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse.

Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera, de quem invejava não só a força e valentia, como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, o terror que inspirava aquele nome, e até as mortes de que acusavam o outro, eram para ele façanhas de estrondo.

Chegava o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar o Bugre como o maior criminoso de toda a província de São Paulo. Muitas vezes em seu despeito encavacou seriamente; e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar que ele, Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as perversidades cometidas por este eram travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos.

O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substituíra. Deixava bem descansado de seu o Gonçalo Pinta, que assim podia a salvo gabar-se de ser uma fama sem segundo na arte de matar gente.

Todavia enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza, e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.

Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava a ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido.

Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:

-- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele.

-- Mas decerto, homem!

-- E não sabe onde ele se encafua?

-- Qu'esperança! Pois ainda estava aqui?

-- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?

-- Abra o preço, amigo.

-- Duzentos bicos?

-- Topado.

-- Mas há de ser com um ajuste...

-- Diga lá.

-- Isto fica entre nós dous só. Negócio de muitos não serve.

-- É assim mesmo.

-- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí fora. Passando este morro, atrás do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio aqui outro negocinho.

Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dous passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço de uma sapopema.

Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica, mulher do Tinguá, que fazia no balcão as vezes do marido, na ausência dele, pôs-se a caminho com os companheiros.

Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho, veio parar à porta da venda.

-- Já está por cá? perguntou ao Gonçalo que o esperava no terreiro.

-- Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei já teve tempo de grelar! tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.

-- Pois bom proveito lhe faça a roça!

Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:

-- Quede este homem?

-- Ele não está, nhor não!

-- Onde foi?

-- Na vila, nhor sim.

-- Quando volta?

-- Volta logo.

-- O diabo o leve e mais quem o ature.

Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele; mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro.

-- Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo.

-- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre.

-- O patrão também tem negócio com esse danado? disse Gonçalo.

-- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a cousa me cheira a caçoada.

-- Que quer? O senhor foi se meter com ele; não tinha que ver!

-- Então não é o que dizem?

-- Qual! Gabolice tudo! Não deixa de ser valente. Lá isso é verdade. Mas onde vê, já o encostei, e só com este braço. Não é debalde que me chamam de Suçuarana!

-- Contanto que me avie o diabo depressa.

-- Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta. Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio.

-- Pois vamos acabar com isto de uma vez.

Cavalgaram os dous de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco antes o Filipe com sua troça.

Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dous olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo caminho além:

-- Eh! branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega.

Til

Sinopse

Leia Til, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654504162736992584598
Til

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Til

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Til Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 22 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Til

Capa de Til
Continue a leitura Til: Parte II - Capítulo VII Capítulo 22 · 22 de 62 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 62 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir