Universo da obra
Universo da obra
No vão de uma janela conversava Luís Galvão com alguns de seus convidados, entre os quais havia mais de um antigo camarada, rapaz de seu tempo.
Voltados para o terreiro, observavam de longe as folias, de que tinham saudades; e muitos porventura invejavam ainda aos moços o prazer das estrepolias, que já lhes permitiam a gravidade dos anos e a rijeza dos músculos.
-- O Afonso é endiabrado!
-- Tem a quem sair.
-- Oh! Se tem! Cá o Luís foi de truz!
-- Um maganão chapado!
-- Como se enganam! retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!
-- Da sonsa, talvez!
-- O que sei é que no nosso tempo ninguém punha pé em ramo verde!
-- Mas não pescava senão peixões.
-- Que história estão vocês aí a inventar? tornou o fazendeiro com disfarce.
-- E a filha do Guedes, lembra-se?
-- A que o marido abandonou?
-- A Besita, sim!
-- Essa não! exclamou involuntariamente Galvão contrariado.
-- Ora negue! Antes e depois.
-- Do parto?
-- Do casamento!
-- Que tal o cujo? exclamaram diversos.
Uma risada geral acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.
-- Mudemos de conversa! disse ele com algum vexame.
D. Ermelinda que se tinha aproximado da janela vizinha, à procura da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.
Esquecendo-se do que a trouxe à janela, submergiu-se em uma triste cogitação, com a face apoiada na palma da mão; nem viu mais o que se passava no terreiro, ali quase em face dela.
Miguel continuava a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas não escutava a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se da voz palpitante que penetrava lhe a alma como a suave melodia de um hino de amor.
Avistara Berta a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade que tão rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel, correra para disfarçadamente avisar à amiga da presença da mãe, e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.
Outra vez se esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa desforrava-se por aquele modo, com mais um impulso de abnegação, do esquecimento dos dois amantes?
Foi nessa mesma ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro, o qual oscilava com fortes vibrações e ameaçava partir-se ou arrancar-se do chão, ao peso excessivo que de repente lhe carregara a ponta.
No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás encarapitado no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.
O isolamento e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou em seu bestunto sobre a causa dessa mudança. O rude engrolo de idéias que amassou no cérebro grosseiro, não obteria ele jamais exprimir; nem é possível descreve-lo,
A maior alegria era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moças palpitavam à espera da prenda que seu apaixonado alcançaria para ofertar-lhe. Til se afastara e parecia triste; ela, sempre travessa e contente. Devia de ser porque também cobiçava as galanterias que estavam no cabaz preso à ponta do mastro.
Desde então a animalidade do estafermo se resumiu em um só desejo, que tornou-se em ânsia ou desespero de subir ao tope do mastro. Mas como, se ele não se animava a aproximar-se da roda dos rapazes, com receio da vaia que sofreria? Além de que, bem sabia que suas pernas trôpegas não eram para aquele árduo esforço.
Surdiu-lhe uma lembrança. As janelas do mirante ficavam sobranceiras ao tope do mastro, e a última delas justamente defronte, embora em distância que um homem ágil não poderia transpor de um salto.
Que lhe importava! Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse jaez, tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distração de Berta, escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da casa e subiu ao mirante.
Contava com as alças das canastras de Galvão, chegado à tarde de Campinas. Atou uma das cordas à dobradiça da janela, e seguro às pontas, saltou fora, empurrando-se da parede com os pés e embalando-se nos ares.
Em um dos vaivens, soltando a corda, pode abarcar o tope do mastro, e coroa-lo com o improvisado cocuruto que encheu de pasmo aos rapazes; mas arrancou-lhes depois boas gargalhadas.
Com a força do arremesso, o mastro percutido até a base cambou, e sem dúvida iria ao chão, esmagando o Brás na queda, se Miguel advertido pelo alarido, não visse o perigo e corresse ainda a tempo de evita-lo.
Em risco de ser também esmagado, o moço escorou com os braços o pesado madeiro, que tombava, e deu tempo a que os outros rapazes, rompendo o enleio do espanto, e animados pelo exemplo, sustivessem o seu esforço.
Já, porém, o Brás, que havia escorregado até o meio do mastro, se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as mãos cheias de flores e mimos, que havia conquistado com a sua temeridade.
Estava Berta junto de Linda, a quem arrancara de seu doce enlevo; mas não a tempo de evitar que a mãe percebesse a sua intimidade com Miguel. D. Ermelinda descobrira os dois namorados, justamente quando Miguel beijava outra vez com fervor o cravo branco, e a mão mimosa de Linda, querendo tomar a flor, deixava-se colher entre as mãos trêmulas do moço.
Despertada como a dos outros pela algazarra, a atenção de Berta se voltara para o mastro, onde passava o incidente, que ela acompanhou com ansiedade. Quando em face dela parou o Brás, que mal se podia suster de comoção, e lhe estendia desgarradamente as mãos cheias de prendas, sem força de balbuciar uma palavra, o coração da menina exultou.
O aborto humano; a figura estrambótica e ridícula; o monstrengo, caíra como o disfarce do arlequim, e descobrira a feição mais nobre da criatura. O que Berta viu foi um coração, e maior ainda e mais sublime, no seio da brutalidade que o constringia.
Abraçou a menina com veemência ao pobre sandeu, e sentindo úmida a face, enxugou nos pelos ásperos da ruiva melena uma gota que empanara o brilho de seus olhos cintilantes. Outras havia chorado, mas foram bolhas dágua: lágrima, era aquela a primeira.
Depois começou ela a enfeitar-se com as flores que lhe trouxera o idiota, prendendo-as pelo talho do vestido e entrelaçando-as nos cabelos. Não trocaria nesse momento os arroubos que, havia pouco, invejara a Linda, pelo júbilo dessa tosca demonstração de um amor, que não tinha para exprimi-lo senão os esgares de um parvo, e cujo sorriso era um repulsivo engrimanço.
Adivinhava-lhe o instinto que não havia afeto mais puro, extreme e sincero do que o desse coração trancado a todas as ilusões do mundo, o desse afeto de uma alma que abortara?
Linda, que observava sorrindo a faceirice de Berta e a ajudava a prender as flores nos cabelos, voltou-se à voz de sua mãe:
-- Faça o favor de não sair mais da sala, minha filha, disse D. Ermelinda.
Velava o olhar e a voz da senhora um ressumbro de triste severidade, que anuviou o coração de Linda.
Nesse instante um foguete que rasou a terra, listrando na escuridão da noite uma faixa de luz, destacou ao longe na fímbria da mata um vulto de homem.
Berta reconheceu Jão Fera.
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