Universo da obra
Universo da obra
Como principiava a fechar-se a noite, não perdi tempo, disse ao cara de gato que me esperasse um instante e lancei-me de carreira para o andar de baixo.
Entrava-se no grande cortiço por um largo portão quadrado, em cuja parte superior havia uma lanterna enegrecida de fumo e coberta de pó.
A direita e à esquerda um correr de casinhas conduzia a um coradouro, cheio de gamelas e jiraus de madeira, sobre os quais viam-se algumas peças de roupa, estendidas ou enrodilhadas.
Uma mulher de enormes ancas, a saia apanhada nos rins, a cabeça em um lenço de alcobaça, os pés à vontade em um grande par de tamancos, os braços arremangados até as axilas, retirava de uma corda, suspensa em toda a extensão da estalagem, a roupa que levara a secar durante o dia.
À proporção que ela ia recolhendo a roupa, lançava-a num vasto cesto de vime, que tinha ao seu lado.
-- Ó boa mulherzinha -- disse-lhe eu --, vossemecê dá-me licença que eu tire ali daquela tina um papel que me caiu lá de cima?
-- Pois não, senhor meu genro! -- respondeu ela, voltando-se para mim.
-- Minha sogra!...
-- Em carne e osso!
-- A senhora num cortiço?...
-- É verdade! E que há nisso de extraordinário? Antes lavar que pedir!
-- Sim, mas podia lavar na sua própria casa, como fazia dantes, e não vir meter-se aqui, numa estalagem, num lugar onde se reúne o que há de pior no Rio de Janeiro.
-- Ora! deixe-se de bazófias! Faltou-me água em casa e não convinha perder a freguesia. Assim, disse eu comigo: "Pago um cruzado por dia à Mariquinhas Pepé e lavo na estalagem dela a minha roupa."
-- E desde quando está lavando aqui?
-- Há poucos dias; desde que falei pela primeira vez ao Compadre Quintino. Mas, você não disse que vinha buscar um papel que lhe caiu das mãos? E bom ir buscá-lo antes que ele se extravie.
-- Tem razão -- disse eu, indo buscar a carta. E, ao voltar para junto de minha sogra, perguntei-lhe:
-- Sabe o que me trouxe a esta casa?
-- Diga.
-- Vim à procura de minha mulher.
-- De minha filha?
-- É verdade.
-- E encontrou-a?
-- Ainda não sei, esta carta é que vai decidir.
-- Pois não volte lá, que perde o seu tempo.
-- Como? Explique-se.
-- Já lhe disse o que tinha a dizer. Não vá, que perde o seu tempo. Se quiser encontrar Margarida, espere um pouco por mim. Deixe-me recolher esta roupa e podemos ir juntos.
-- Ao lugar onde ela está?
-- Sim senhor. Eu me comprometo a restituí-la. E, olhe, o que lhe afianço é que ela vai para as suas mãos tão pura ou mais do que quando fugiu de casa.
-- Calculo!
-- Calculo, não, coitadinha! Que ela não cometeu a menor falta; apenas foi vítima de uma trapalhada, da qual o senhor é o único culpado.
-- Homessa agora é melhor! Pois ainda em cima sou eu que levo a culpa?
-- Com certeza, mas deixe-me acabar com isto, que já lhe dou trela.
Dai a meia hora saía eu da estalagem com minha sogra,. que acabava de se preparar para isso.
Ela chamou um carregador de sua confiança, ordenou-lhe que levasse o cesto de roupa para o Campo de Sant'Ana, e, atirando um xale sobre os ombros, segredou-me ao ouvido:
-- Antes de tudo, vamos procurar meu compadre.
-- Onde o vamos procurar?
-- Na Rua do Ouvidor.
-- Na redação dO Paiz?
-- Ai, ai!
A idéia de entrar na redação dO Paiz ao lado de minha sogra pareceu-me a mais ridícula do mundo, mas não havia que hesitar: a mulher prometera restituir-me a filha e isto era todo o meu empenho.
Ao chegarmos ao escritório da folha, ia perguntar a um moço loiro que estava ao balcão, se era possível falar ao Sr. Quintino, quando minha sogra me puxou pelo braço e exclamou:
-- Não esteja a perder tempo! Quando se quer falar com alguém vai-se logo subindo!
E, antes que eu a detivesse, já o demônio da velha galgava as escadas e, com um desembaraço dos diabos, levantava pouco depois o reposteiro da sala privada da redação, gritando para dentro:
-- O compadre dá licença?
-- Entre -- respondeu o redator-em-chefe da folha.
Ela não esperou segunda ordem e ganhou a sala, exclamando para mim, que ia atrás:
-- Entre você também, meu genro!
A estas palavras o redator espichou levemente a cabeça e mediu-me com o seu olhar penetrante e desconfiado.
-- Que deseja a senhora? -- perguntou ele.
-- Venho para saber que há de novo sobre o homem.
-- Se a senhora tivesse lido O Paiz, saberia que se vai proceder amanhã à exumação do cadáver no Cemitério de São Francisco Xavier.
-- De que cadáver? perguntei empalidecendo.
-- Do suposto Castro Malta.
-- Pois é tempo perdido -- disse eu --, porque ele lá não está.
-- Disso já sei eu! -- acrescentou o Sr. Quintino --, mas quero levar a questão avante.
O Castro Malta está em minha casa. Posso apresentá-lo, quando V.S.ª quiser.
-- O senhor está louco?
-- Digo a verdade. Se V.S.ª quiser a prova, eu o trarei amanhã aqui.
-- Não. Quero que traga hoje mesmo -- respondeu o redator, correndo a sua mão pálida por um pesa-papéis que estava sobre a mesa e representava uma luva amarrotada.
-- Mas hoje mesmo não é possível -- retorqui. Daqui tenho de ir com minha sogra a...
-- Não! -- atalhou esta. -- Não! Se você diz que o Castro está em sua casa, vamos lá em primeiro lugar. Quero vê-lo!
-- Mas, esse Castro -- perguntou o Sr. Quintino a Dona Leonarda --, esse Castro não é o mesmo que a senhora me afiançou haver morrido na Casa de Misericórdia?
-- É, ou pelo menos deve ser.
-- Mas então como está vivo?
-- Ora essa! porque não morreu!
Tive ímpetos de confessar ao redator tudo que sabia a respeito do fato do Cemitério; mas por esse tempo a questão Castro Malta havia já tomado tais proporções entre o público que eu, receoso de futuros incômodos, resolvi não dar uma palavra, arrependido até de haver feito a declaração que me escapara dos lábios.
-- Bem! -- disse o Sr. Quintino -- amanhã. Espero-os aqui às 11 horas do dia. Não faltem.
-- E se o homem não quiser acompanhar-me? -- perguntei.
-- Nesse caso irei eu ao encontro dele. Olhe! é até melhor que eu vá justamente. Deixe-me o número de sua casa e espere amanhã por mim às nove horas.
-- Da manhã?
-- Sim, senhor.
Fizemos as nossas despedidas ao Sr. Quintino e, já na Rua do Ouvidor, quis convencer a minha sogra de que devíamos ir primeiro ao encontro de Margarida, mas a velha não cedeu e puxou-me para os lados de minha casa.
"Em que diabo de trapalhada me meti!..." -- pensava eu pelo caminho. -- "Afinal a questão caiu já no domínio público; de dia para dia ela toma um caráter mais sério, e não quero pensar em quais serão para mim as conseqüências de tudo isto! Ah! Margarida, Margarida, mal sabes tu o martírio que me tens feito passar!...
Só às nove da noite chegamos a casa.
Minha sogra arfava de impaciência ao meu lado, enquanto eu abria a porta.
-- Quem é? -- perguntou uma voz de dentro.
-- Ai! o meu rico homem! -- exclamou a velha, levando aos olhos uma das pontas do xale.
E, apesar da escuridão, enfiou de carreira pelo corredor.
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