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Mattos, Malta ou Matta?

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Mattos, Malta ou Matta?

Capítulo 13 · Mattos, Malta ou Matta?

Mattos, Malta ou Matta?: Capítulo XIII

13 de 15 ≈ 7 min de leitura
id="ws-author">Aluísio Azevedo

Como principiava a fechar-se a noite, não perdi tempo, disse ao cara de gato que me esperasse um instante e lancei-me de carreira para o andar de baixo.

Entrava-se no grande cortiço por um largo portão quadrado, em cuja parte superior havia uma lanterna enegrecida de fumo e coberta de pó.

A direita e à esquerda um correr de casinhas conduzia a um coradouro, cheio de gamelas e jiraus de madeira, sobre os quais viam-se algumas peças de roupa, estendidas ou enrodilhadas.

Uma mulher de enormes ancas, a saia apanhada nos rins, a cabeça em um lenço de alcobaça, os pés à vontade em um grande par de tamancos, os braços arremangados até as axilas, retirava de uma corda, suspensa em toda a extensão da estalagem, a roupa que levara a secar durante o dia.

À proporção que ela ia recolhendo a roupa, lançava-a num vasto cesto de vime, que tinha ao seu lado.

-- Ó boa mulherzinha -- disse-lhe eu --, vossemecê dá-me licença que eu tire ali daquela tina um papel que me caiu lá de cima?

-- Pois não, senhor meu genro! -- respondeu ela, voltando-se para mim.

-- Minha sogra!...

-- Em carne e osso!

-- A senhora num cortiço?...

-- É verdade! E que há nisso de extraordinário? Antes lavar que pedir!

-- Sim, mas podia lavar na sua própria casa, como fazia dantes, e não vir meter-se aqui, numa estalagem, num lugar onde se reúne o que há de pior no Rio de Janeiro.

-- Ora! deixe-se de bazófias! Faltou-me água em casa e não convinha perder a freguesia. Assim, disse eu comigo: "Pago um cruzado por dia à Mariquinhas Pepé e lavo na estalagem dela a minha roupa."

-- E desde quando está lavando aqui?

-- Há poucos dias; desde que falei pela primeira vez ao Compadre Quintino. Mas, você não disse que vinha buscar um papel que lhe caiu das mãos? E bom ir buscá-lo antes que ele se extravie.

-- Tem razão -- disse eu, indo buscar a carta. E, ao voltar para junto de minha sogra, perguntei-lhe:

-- Sabe o que me trouxe a esta casa?

-- Diga.

-- Vim à procura de minha mulher.

-- De minha filha?

-- É verdade.

-- E encontrou-a?

-- Ainda não sei, esta carta é que vai decidir.

-- Pois não volte lá, que perde o seu tempo.

-- Como? Explique-se.

-- Já lhe disse o que tinha a dizer. Não vá, que perde o seu tempo. Se quiser encontrar Margarida, espere um pouco por mim. Deixe-me recolher esta roupa e podemos ir juntos.

-- Ao lugar onde ela está?

-- Sim senhor. Eu me comprometo a restituí-la. E, olhe, o que lhe afianço é que ela vai para as suas mãos tão pura ou mais do que quando fugiu de casa.

-- Calculo!

-- Calculo, não, coitadinha! Que ela não cometeu a menor falta; apenas foi vítima de uma trapalhada, da qual o senhor é o único culpado.

-- Homessa agora é melhor! Pois ainda em cima sou eu que levo a culpa?

-- Com certeza, mas deixe-me acabar com isto, que já lhe dou trela.

Dai a meia hora saía eu da estalagem com minha sogra,. que acabava de se preparar para isso.

Ela chamou um carregador de sua confiança, ordenou-lhe que levasse o cesto de roupa para o Campo de Sant'Ana, e, atirando um xale sobre os ombros, segredou-me ao ouvido:

-- Antes de tudo, vamos procurar meu compadre.

-- Onde o vamos procurar?

-- Na Rua do Ouvidor.

-- Na redação dO Paiz?

-- Ai, ai!

A idéia de entrar na redação dO Paiz ao lado de minha sogra pareceu-me a mais ridícula do mundo, mas não havia que hesitar: a mulher prometera restituir-me a filha e isto era todo o meu empenho.

Ao chegarmos ao escritório da folha, ia perguntar a um moço loiro que estava ao balcão, se era possível falar ao Sr. Quintino, quando minha sogra me puxou pelo braço e exclamou:

-- Não esteja a perder tempo! Quando se quer falar com alguém vai-se logo subindo!

E, antes que eu a detivesse, já o demônio da velha galgava as escadas e, com um desembaraço dos diabos, levantava pouco depois o reposteiro da sala privada da redação, gritando para dentro:

-- O compadre dá licença?

-- Entre -- respondeu o redator-em-chefe da folha.

Ela não esperou segunda ordem e ganhou a sala, exclamando para mim, que ia atrás:

-- Entre você também, meu genro!

A estas palavras o redator espichou levemente a cabeça e mediu-me com o seu olhar penetrante e desconfiado.

-- Que deseja a senhora? -- perguntou ele.

-- Venho para saber que há de novo sobre o homem.

-- Se a senhora tivesse lido O Paiz, saberia que se vai proceder amanhã à exumação do cadáver no Cemitério de São Francisco Xavier.

-- De que cadáver? perguntei empalidecendo.

-- Do suposto Castro Malta.

-- Pois é tempo perdido -- disse eu --, porque ele lá não está.

-- Disso já sei eu! -- acrescentou o Sr. Quintino --, mas quero levar a questão avante.

O Castro Malta está em minha casa. Posso apresentá-lo, quando V.S.ª quiser.

-- O senhor está louco?

-- Digo a verdade. Se V.S.ª quiser a prova, eu o trarei amanhã aqui.

-- Não. Quero que traga hoje mesmo -- respondeu o redator, correndo a sua mão pálida por um pesa-papéis que estava sobre a mesa e representava uma luva amarrotada.

-- Mas hoje mesmo não é possível -- retorqui. Daqui tenho de ir com minha sogra a...

-- Não! -- atalhou esta. -- Não! Se você diz que o Castro está em sua casa, vamos lá em primeiro lugar. Quero vê-lo!

-- Mas, esse Castro -- perguntou o Sr. Quintino a Dona Leonarda --, esse Castro não é o mesmo que a senhora me afiançou haver morrido na Casa de Misericórdia?

-- É, ou pelo menos deve ser.

-- Mas então como está vivo?

-- Ora essa! porque não morreu!

Tive ímpetos de confessar ao redator tudo que sabia a respeito do fato do Cemitério; mas por esse tempo a questão Castro Malta havia já tomado tais proporções entre o público que eu, receoso de futuros incômodos, resolvi não dar uma palavra, arrependido até de haver feito a declaração que me escapara dos lábios.

-- Bem! -- disse o Sr. Quintino -- amanhã. Espero-os aqui às 11 horas do dia. Não faltem.

-- E se o homem não quiser acompanhar-me? -- perguntei.

-- Nesse caso irei eu ao encontro dele. Olhe! é até melhor que eu vá justamente. Deixe-me o número de sua casa e espere amanhã por mim às nove horas.

-- Da manhã?

-- Sim, senhor.

Fizemos as nossas despedidas ao Sr. Quintino e, já na Rua do Ouvidor, quis convencer a minha sogra de que devíamos ir primeiro ao encontro de Margarida, mas a velha não cedeu e puxou-me para os lados de minha casa.

"Em que diabo de trapalhada me meti!..." -- pensava eu pelo caminho. -- "Afinal a questão caiu já no domínio público; de dia para dia ela toma um caráter mais sério, e não quero pensar em quais serão para mim as conseqüências de tudo isto! Ah! Margarida, Margarida, mal sabes tu o martírio que me tens feito passar!...

Só às nove da noite chegamos a casa.

Minha sogra arfava de impaciência ao meu lado, enquanto eu abria a porta.

-- Quem é? -- perguntou uma voz de dentro.

-- Ai! o meu rico homem! -- exclamou a velha, levando aos olhos uma das pontas do xale.

E, apesar da escuridão, enfiou de carreira pelo corredor.

Mattos, Malta ou Matta?

Sinopse

Leia Mattos, Malta ou Matta?, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Narrativa clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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