Universo da obra
Universo da obra
Tive de assistir a uma cena de ternura: Dona Leonarda, mal avistou meu hóspede, abriu em três pulos uma carreira que foi acabar nos braços dele.
Apertou-o, beijou-lhe os lábios, chorou-lhe sobre o peito a sua velha e crônica saudade.
Castro Malta deixava-se amimar, sem uma palavra de oposição ou de ternura.
-- Tu me amas? -- perguntou-lhe ela com a voz sumida e estrangulada de comoção. -- Tu me amas, Castro?
-- Pois não! -- respondia ele, já impaciente. E, voltando-se para mim, enquanto a velha o estreitava nos braços:
-- Eis a vida, meu amigo! Eis a vida! Pense e reflita sobre este caso e diga-me depois a razão, por que sou tão estremecido por esta mulher.
-- Castro! -- repreendeu a velha, abaixando os olhos, muito séria.
-- Mas se é assim... -- ia continuar o ressuscitado, quando eu, vendo que a cena ameaçava prolongar-se por muito tempo, resolvi cortá-la, dizendo ao amoroso casal que estava defronte dos meus olhos:
-- Bem, jovens pombos apaixonados, agora que já se abraçaram à vontade, agora que, segundo julgo, já não há restos de saudade viva dentro de nenhum de vocês dous, vamos tratar do que a todos nos interessa.
-- A mim nada interessa mais do que isto! -- afirmou minha sogra.
-- E a mim nada interessa absolutamente! -- acrescentou o Castro, deixando-se cair em uma cadeira.
-- Dou-lhes a minha palavra de honra em como estou caindo de fome. Juro que um pedaço de carne assada não me faria agora mal de espécie alguma, mas...
-- Mas... -- ajudei eu, verdadeiramente intrigado.
-- Mas o quê, Sr. Castro?
-- Mas... É verdade! Mas o quê?... Para lhes falar com franqueza, já não me lembro do que dizia...
-- Lembro-me eu -- observei, reunindo na memória os fragmentos esparsos da conversa. -- Lembro-me eu... O senhor dizia que...
-- Nada! Não! -- atalhou Castro. -- Não me lembre nada! Deixemo-nos disso! Para que diabo havemos de lembrarmo-nos de cousas que não nos interessam, isto é, que não interessam ao senhor, porque a mim nada, absolutamente nada, me interessa!...
-- Isso já o senhor repetiu mais de vinte vezes!
O maluco ia dar-me réplica, mas teve de sustê-la com a chegada de alguém, que acabava de entrar.
Todos nós três voltamo-nos para o novo personagem.
Era o Sr. Quintino, compadre de minha sogra.
-- Ah! É o senhor, compadrinho? -- gritou esta. -- Que boa surpresa!
-- É verdade -- respondeu o redator dO Paiz, dirigindo-se mais ao gesto de curiosidade que eu fazia do que mesmo às palavras de Dona Leonarda. -- É verdade! Sou eu, que, descobrindo o grande equívoco em que navegam os senhores todos, apressei-me a vir desvendá-lo!
-- Como?! -- pinchou a velha. -- Como, seu compadre?
-- Quer dizer -- continuou o famoso jornalista. -- Quer dizer que a senhora e este senhor seu genro, se me não engano, têm sido vítimas de uma enorme trapalhada.
-- Não compreendo! -- afiancei.
-- Nem eu! -- reforçou a velha.
-- Explicar-me-ei! -- tornou o Sr. Quintino. -- Explicar-me-ei!
-- Pois então veja se anda com isso! -- disse Dona Leonarda, dominada por grande aflição. -- Veja se anda com isso, porque dou-lhe a minha palavra de honra que já estou farta de toda esta porcariada de Castros Matras e Maltas, e já não me sinto disposta a aturar mais semelhante mexericada! Arre! Arre! Que até fede! Até fede esta questão!
-- Bom! bom! -- cortou o jornalista. -- Não vale a pena arreliar-se por tão pouco, minha senhora. A minha visita a esta casa não teve por fim dar incômodos, mas pura e simplesmente esclarecer o engano que havia.
-- Pois esclareça por uma vez! -- bradou a velha.
-- O Castro Malta de que fala a senhora -- explicou Quintino --, assim como o Castro de que fala o senhor seu genro, nada têm de comum com o Castro Malta de que fala o jornal de que sou redator-em-chefe!
-- Como assim?
-- Quer dizer que nenhum desses dous Castros é o meu, nenhum desses é aquele que O Paiz procurou descobrir! Pelos documentos, que me acaba de fornecer a Santa Casa de Misericórdia e pelos dados obtidos pelo senhor promotor público, sabe-se que o Castro Malta, recrutado, o Castro Malta recolhido ao hospital, o Castro Malta falecido, enterrado e não encontrado no cemitério, nada tem de comum com as pessoas de que me falaram vossemecês!
-- Ora essa! -- resmungou minha sogra. -- Ora essa! Mas em todo caso, não tenho outro remédio senão acreditar nas suas palavras, porque o Castro de que me fala o Sr. Quintino é um Castro morto, ao passo que o Castro, de que eu falava, o meu rico Malta, está mais vivo do que um azougue!
-- Bem! -- retorqui. -- Mas tudo isso não me esclarece no ponto em que eu desejo ser esclarecido! Para mim, tanto se me dá que o Castro Malta fosse assassinado na Polícia, como se morresse tranqüilamente sobre sua cama, ao lado de sua mulher e de seus filhos; o que me interessa, o que me preocupa, é descobrir quem é e onde paira o Castro Malta que seduziu minha mulher.
-- Por esse respondo eu! -- atalhou a velha.
-- Então responda! -- disse, avançando sobre ela.
-- Ei-lo! -- exclamou a velha apontando para o meu hóspede que dormia já a sono solto estirado na cadeira.
-- Este?! -- perguntei pasmo. -- Não! É impossível! Não creio.
-- Pois então, ouça e verá!
Leia Mattos, Malta ou Matta?, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Narrativa clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.