Universo da obra
Universo da obra
A velha endireitou os óculos, fungou três vezes, repuxou as saias nos rins e disse, apontando para o ressuscitado:
-- Eis o autor da questão'
-- Este? -- bradei, espantado. -- É impossível!
-- Vai ver -- replicou a velha --, vai ver!
-- Não creio -- repliquei. -- é impossível, repito!
-- Impossível o quê? -- perguntou-me o acusado.
-- Impossível que seja o senhor o autor da grande intriga que se tem feito a respeito de Castro Malta, de mim e de todas as pessoas que se interessam nesta questão.
-- Que questão? -- perguntou-me o Castro.
-- Ora! que diabo de questão pode ser? A questão Castro Malta.
-- Castro Malta?
-- Pois o senhor não conhece a questão de que lhe falo?
-- Eu não conheço senão o que me ensinou o Precioso, o meu mestre.
-- Visto isso -- acrescentei --, o senhor não está a par da grande questão que nos trouxe aqui!
-- Juro-lhe que não.
-- Não sabe do que se trata?
-- Não!
-- Nunca escreveu cartas a minha mulher?
-- Nem a sua, nem a mulher alguma!
-- Então -- exclamei, voltando-me para Dona Leonarda --, então como afiançou a senhora que este homem era o autor de toda aquela trapalhada?
-- Por uma razão muito simples, porque tenho as provas de que ele é o único autor da história.
-- Apresente-as.
-- Não é preciso -- atalhou Quintino --, eu explico tudo.
-- Este senhor -- acrescentou, voltando-se para mim. -- Este senhor não é mais que um simples romancista.
-- Como? -- disse eu.
-- Sim, não é mais do que um simples romancista. A sua intenção dele era somente fazer um romance, um romance para A Semana e, na falta de melhor assunto, agarrou o meu!
-- O seu?
-- Sim, o meu, a minha questão, o meu Castro Malta.
-- Como é lá isso? -- perguntei.
-- Pois não -- respondeu-me Quintino. -- Pois não! O senhor entendeu fazer um romance de uma questão séria, que levantei pelO Paiz e começou a escrever cartas disparatadas e tolas para A Semana.
-- Eu? -- interroguei.
-- Sim, sim, o senhor! -- bradou o chefe da redação dO Paiz agarrando-me pelo braço. -- O senhor! que, sem o menor escrúpulo quis fazer de um assunto sério um pretexto para novelas de mau gosto!
-- Repare que me ofende!
-- Qual ofende, nem meio ofende! O senhor já ouviu muito pior do Jornal do Commercio e nem por isso deu o cavaco.
-- Sim, mas isso é outro caso! O Jornal não é responsável por cousa alguma. Ele não sabe o que faz, coitado!
-- Em todo caso, voltando à questão, posso afirmar que o senhor não passa de um especulador que se apoderou de uma questão que lhe não pertence. O senhor nunca foi casado; nunca teve o emprego público de que falou na sua carta; nunca teve relações com a tal Jeannite de que por várias vezes tratou, e muito menos teve relações com empregados da Santa Casa de Misericórdia.
-- O senhor está me ofendendo!
-- Ora qual, meu amigo, um romancista nunca se pode dar por ofendido com estas cousas; um romancista é um grande mentiroso, que vive a empulhar o público com as suas patranhas. Hoje afirma que o diabo é cor do céu e amanhã jura que Deus é cor de fogo!
-- Eu nunca fiz em minha vida afirmações dessa ordem!
-- Se não fez dessa ordem fez piores. Leia as suas próprias obras, estude-as com atenção; verá que não é mentira o que digo.
E o Sr. Quintino, voltando-se para minha sogra, acrescentou:
-- Creia, minha senhora, que falo verdade. Este homem que está ao seu lado é um intrigante, é um enredador, é finalmente um romancista!
-- Eu?!
-- Sim! sim, o senhor, e escusa negar. Perguntem à Folha Nova, perguntem à Gazeta de Noticias, perguntem à Gazetinha, à Gazeta da Tarde, perguntem ao próprio Jornal do Commercio, e todos esses órgãos afirmarão o que avancei.
-- Estou desmoralizado! -- exclamei, procurando uma saída.
Mas, à porta de entrada se haviam reunido vários reporters e homens de letras que me tolheram a passagem.
Todos riam, e eu sentia já o suor correr-me pela fronte e entranhar-se pelos mistérios do colarinho.
Afinal, vendo que assomavam à porta o Valentim, o Filinto de Almeida, o Alfredo de Souza, o Luiz Murar, o Urbano Duarte, o Artur Azevedo, o Alberto de Oliveira, o Raimundo Corrêa, o Dermeval da Fonseca e muitos outros rapazes conhecidos, não tive remédio senão confessar tudo e abaixar a cabeça, resignado ao que desse e viesse.
-- Então! -- volveu para mim o Sr. Quintino --, creio que defronte desta gente não terá o senhor a mesma petulância de querer fazer acreditar que escreveu de boa fé tais cartas para A Semana. Vamos, explique-se, senhor romancista!
-- Bem! -- respondi, fazendo-me pálido e puxando para trás os meus cabelos. -- Bem! vou falar com franqueza. Ouçam-me com toda a atenção.
O auditório armou um grande ar de concentração; cada uma das pessoas presentes concheou a mão na orelha e inclinou-se para o meu lado.
Senti-me intimidado. Bati na testa, revirei os olhos e disse:
-- Meus senhores, querem encontrar a explicação de toda essa história? Querem? Pois leiam um romance que vai aparecer no rodapé dO Paiz.
-- E como se há de chamar esse romance? -- perguntou-me o Sr. Quintino.
-- Ora faça-se de novas! -- respondi eu. -- O senhor bem sabe qual é o título do romance que vou publicar no seu jornal.
E, dizendo isto, dei por acabado este livro, que não é um romance, nem um tratado científico, nem um catecismo, nem um panfleto político, nem um dicionário, nem tão-pouco um livro de memórias; mas simplesmente -- um prêmio para os assinantes dA Semana.
Leia Mattos, Malta ou Matta?, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Narrativa clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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