Universo da obra
Universo da obra
Sr. Redator dA Semana.
Não sei se lhe agradeça o seu procedimento com a minha carta ou se lho censure; o que afianço é que ele me surpreendeu deveras e, se não me magoou, também não me produziu grandes impressões de gosto.
Esperava que V. S.ª, atendendo ao meu justo pedido, se limitasse a extrair; de tudo que lhe enviei, uma pequena noticia e, quando vi a minha carta publicada na sua íntegra e, quando tive ocasião de ver a sensação que ela produziu sobre o público desta Capital, confesso-lhe, Sr. Redator, tive sérios receios de haver cometido uma leviandade.
Porque, cumpre declarar; eu não tenho o hábito de me articular diretamente com as massas populares, e sempre que me vejo alvo de atenções gerais, apodera-se de mim um tal constrangimento e uma tal ansiedade, que chego a ficar doente.
Entretanto, V. S.ª, teve a prudência de ocultar o meu nome e o de outras pessoas que citei, e isso já é para mim não pequena animação.
Nem sei qual seria a minha conduta, se V. S.ª, não tomasse tão delicada resolução. E, já que as cousas seguiram esse caminho, estou disposto a não retroceder; e declarar pra frente tudo que me constar a respeito do assunto.
Como lhe disse na minha primeira correspondência, apenas o que me ficou da investigação da hospedaria foi um cartão de visita onde se lia o nome de Castro Matta.
Pois bem, Sr. Redator; armado desse documento, saí a tomar informações no quarteirão inteiro e vim a saber por um homem do ganho que este próprio levara para a ponte das Barcas Ferri um baú de folha com as iniciais J.A.C.M.
Peço-lhe informações sobre o dono ou dona dessa bagagem, e ele me respondeu que a pessoa que lha entregara era um homem alto, magro, de cabelos pretos e barba à inglesa, vestido com certa elegância, de polainas e chapéu alto, mas que não podia afiançar se ele era ou não o verdadeiro dono da bagagem ou simplesmente um encarregado dela, visto que o sujeito, a cada passo que dava, dizia com um gesto de impaciência. -- "Que maçada! Que maçada!"
E o carregador declarou mais que, indo a tomar uma caixa de chapéu de senhora que o sujeito tinha sobre a mala, ele a defendeu com certo interesse e disse que não se incomodasse com a caixa, que ele mesmo a levaria e que, ao metê-la debaixo do braço, acrescentara:
-- Não! desta não me separo por cousa alguma!
-- E ele não te disse como se chamava? perguntei ao homem do ganho.
-- Saiba vossemecê que não senhor; mas quando cheguei à estação, encontrei-o de braço com uma senhora, que lhe dava o tratamento de "Seu Joãozinho".
Estas duas palavras fizeram-me pulsar o coração com maior força.
-- E essa senhora, que estava com ele -- interroguei de novo --, essa senhora que espécie de gente mostrava ser? Qual era o seu tipo? Era baixa, gorda, ou magra e alta?
-- Nem muito baixa, nem muito gorda, assim pelo feitio daquela madama que ali vem.
E o ganhador apontou com o seu velho chapéu de lebre para uma Francesa que se encaminhava para o nosso lado e que era justamente da estatura de minha mulher.
-- E era morena? -- perguntei em crescente sobressalto.
-- Nem por isso, mas era... era moreninha e com umas faces rosadas que faziam gosto. Lembra-me ainda que, numa ocasião em que o sujeito lhe disse alguma cousa ao ouvido, ela soltou uma risada muito gostosa e eu vi então uns dentes mais alvos que esse peito de sua camisa.
Corri instintivamente os olhos pela minha camisa e lembrei-me da brancura sedutora dos dentes de minha mulher.
-- E como estava vestida? -- inquiritei de novo.
-- Homem! Disso não me lembro!...
-- Diabo! -- praguejei.
-- Ah! agora me recordo! Estava toda de preto e tinha um chapéu de palha escura que lhe escondia os olhos.
-- Os olhos? E de que cor eram eles?
-- Não lhe posso dizer; patrão, porque o chapéu não deixava...
''É a mesma, não tem que ver!" -- pensei, lembrando-me de um chapéu que dous meses antes eu havia comprado para minha mulher na Notre Dame.
E, metendo uma nota de dez tostões na mão do homem, acrescentei:
-- Ora diga-me cá! não reparou se a sujeita tinha algum sestro?
-- Sestro?
-- Sim! Pergunto se ela não tinha o costume de fazer alguma cousa particular com as feições ou com alguma parte do corpo.
-- Parte do corpo?
-- Quer dizer; se ela não tinha algum cacoete.
-- Que diabo vem a ser isso?
-- Mau! Agora é você que me interroga! Pergunto-lhe, homem de Deus, se a sujeita não piscava com os olhos, não mexia com a boca ou não sacudia os ombros.
-- Mexia, patrão, sacudia e piscava.
-- Tudo a um tempo?!
-- A um tempo, como?
-- Bem, já vejo que não arranjamos mais nada. Adeus, obrigado.
-- Ah! É verdade -- disse o homem, voltando a ter comigo --, ela, patrão, todas as vezes que falava, lambia os cantos da boca...
-- Lambia os cantos da boca?! Ah!
Já não podia haver dúvida! Era ela! Era minha mulher! Era Margarida.
Quando voltei a mim da última revelação do carregador; este já não estava em minha presença, ao passo que a Francesa, que lhe servira de comparação para me dar idéia do tamanho da sujeita, permanecia ao meu lado e observava-me de um modo estranho.
Eu, porém, não me sentia disposto a prestar-lhe atenção e corri a tomar o bonde das Barcas Ferri.
Eram cinco e meia, ainda tinha tempo talvez de encontrá-los nas ruas de Niterói. Entrei na estação como um louco, procurando descobrir em todas as pessoas, em todas as cousas um indício que me pudesse elucidar naquela conjuntura.
Nada! nada!
Fui para bordo, assentei-me ao canto de um banco no tombadilho, e confesso que nunca achei que as Barcas Fervi caminhavam tão devagar. Sentia ímpetos de atirar-me ao mar; uma vontade dolorosa de chorar estrangulava-me a garganta. Não podia estar quieto, ergui-me, dei algumas voltas pelo tombadilho e afinal desci.
Imagine, Sr. Redator; qual não foi a minha surpresa quando, na primeira fisionomia que meus olhos descobriram, reconheci a mesma Francesa que servira de comparação ao homem do ganho.
"Será talvez uma coincidência..." -- pensei, e resolvi não mais cuidar disso.
Mas a Francesa se havia levantado e, vindo ter comigo, disse em meia-língua:
-- Se quiser saber o que foi feito deles, acompanhe-me, quando chegarmos.
Quis pedir mais algumas explicações, mas a Francesa, como se a cousa não fosse com ela, afastou-se e retomou na barca o lugar que havia abandonado e a leitura de um livro que tinha interrompido.
Sou de V. S.ª
At.º cr.º e ven.or
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