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Mattos, Malta ou Matta?

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Mattos, Malta ou Matta?

Capítulo 14 · Mattos, Malta ou Matta?

Mattos, Malta ou Matta?: Capítulo XIV

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id="ws-author">Aluísio Azevedo

Tive de assistir a uma cena de ternura: Dona Leonarda, mal avistou meu hóspede, abriu em três pulos uma carreira que foi acabar nos braços dele.

Apertou-o, beijou-lhe os lábios, chorou-lhe sobre o peito a sua velha e crônica saudade.

Castro Malta deixava-se amimar, sem uma palavra de oposição ou de ternura.

-- Tu me amas? -- perguntou-lhe ela com a voz sumida e estrangulada de comoção. -- Tu me amas, Castro?

-- Pois não! -- respondia ele, já impaciente. E, voltando-se para mim, enquanto a velha o estreitava nos braços:

-- Eis a vida, meu amigo! Eis a vida! Pense e reflita sobre este caso e diga-me depois a razão, por que sou tão estremecido por esta mulher.

-- Castro! -- repreendeu a velha, abaixando os olhos, muito séria.

-- Mas se é assim... -- ia continuar o ressuscitado, quando eu, vendo que a cena ameaçava prolongar-se por muito tempo, resolvi cortá-la, dizendo ao amoroso casal que estava defronte dos meus olhos:

-- Bem, jovens pombos apaixonados, agora que já se abraçaram à vontade, agora que, segundo julgo, já não há restos de saudade viva dentro de nenhum de vocês dous, vamos tratar do que a todos nos interessa.

-- A mim nada interessa mais do que isto! -- afirmou minha sogra.

-- E a mim nada interessa absolutamente! -- acrescentou o Castro, deixando-se cair em uma cadeira.

-- Dou-lhes a minha palavra de honra em como estou caindo de fome. Juro que um pedaço de carne assada não me faria agora mal de espécie alguma, mas...

-- Mas... -- ajudei eu, verdadeiramente intrigado.

-- Mas o quê, Sr. Castro?

-- Mas... É verdade! Mas o quê?... Para lhes falar com franqueza, já não me lembro do que dizia...

-- Lembro-me eu -- observei, reunindo na memória os fragmentos esparsos da conversa. -- Lembro-me eu... O senhor dizia que...

-- Nada! Não! -- atalhou Castro. -- Não me lembre nada! Deixemo-nos disso! Para que diabo havemos de lembrarmo-nos de cousas que não nos interessam, isto é, que não interessam ao senhor, porque a mim nada, absolutamente nada, me interessa!...

-- Isso já o senhor repetiu mais de vinte vezes!

O maluco ia dar-me réplica, mas teve de sustê-la com a chegada de alguém, que acabava de entrar.

Todos nós três voltamo-nos para o novo personagem.

Era o Sr. Quintino, compadre de minha sogra.

-- Ah! É o senhor, compadrinho? -- gritou esta. -- Que boa surpresa!

-- É verdade -- respondeu o redator dO Paiz, dirigindo-se mais ao gesto de curiosidade que eu fazia do que mesmo às palavras de Dona Leonarda. -- É verdade! Sou eu, que, descobrindo o grande equívoco em que navegam os senhores todos, apressei-me a vir desvendá-lo!

-- Como?! -- pinchou a velha. -- Como, seu compadre?

-- Quer dizer -- continuou o famoso jornalista. -- Quer dizer que a senhora e este senhor seu genro, se me não engano, têm sido vítimas de uma enorme trapalhada.

-- Não compreendo! -- afiancei.

-- Nem eu! -- reforçou a velha.

-- Explicar-me-ei! -- tornou o Sr. Quintino. -- Explicar-me-ei!

-- Pois então veja se anda com isso! -- disse Dona Leonarda, dominada por grande aflição. -- Veja se anda com isso, porque dou-lhe a minha palavra de honra que já estou farta de toda esta porcariada de Castros Matras e Maltas, e já não me sinto disposta a aturar mais semelhante mexericada! Arre! Arre! Que até fede! Até fede esta questão!

-- Bom! bom! -- cortou o jornalista. -- Não vale a pena arreliar-se por tão pouco, minha senhora. A minha visita a esta casa não teve por fim dar incômodos, mas pura e simplesmente esclarecer o engano que havia.

-- Pois esclareça por uma vez! -- bradou a velha.

-- O Castro Malta de que fala a senhora -- explicou Quintino --, assim como o Castro de que fala o senhor seu genro, nada têm de comum com o Castro Malta de que fala o jornal de que sou redator-em-chefe!

-- Como assim?

-- Quer dizer que nenhum desses dous Castros é o meu, nenhum desses é aquele que O Paiz procurou descobrir! Pelos documentos, que me acaba de fornecer a Santa Casa de Misericórdia e pelos dados obtidos pelo senhor promotor público, sabe-se que o Castro Malta, recrutado, o Castro Malta recolhido ao hospital, o Castro Malta falecido, enterrado e não encontrado no cemitério, nada tem de comum com as pessoas de que me falaram vossemecês!

-- Ora essa! -- resmungou minha sogra. -- Ora essa! Mas em todo caso, não tenho outro remédio senão acreditar nas suas palavras, porque o Castro de que me fala o Sr. Quintino é um Castro morto, ao passo que o Castro, de que eu falava, o meu rico Malta, está mais vivo do que um azougue!

-- Bem! -- retorqui. -- Mas tudo isso não me esclarece no ponto em que eu desejo ser esclarecido! Para mim, tanto se me dá que o Castro Malta fosse assassinado na Polícia, como se morresse tranqüilamente sobre sua cama, ao lado de sua mulher e de seus filhos; o que me interessa, o que me preocupa, é descobrir quem é e onde paira o Castro Malta que seduziu minha mulher.

-- Por esse respondo eu! -- atalhou a velha.

-- Então responda! -- disse, avançando sobre ela.

-- Ei-lo! -- exclamou a velha apontando para o meu hóspede que dormia já a sono solto estirado na cadeira.

-- Este?! -- perguntei pasmo. -- Não! É impossível! Não creio.

-- Pois então, ouça e verá!

Mattos, Malta ou Matta?

Sinopse

Leia Mattos, Malta ou Matta?, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Narrativa clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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