Universo da obra
Universo da obra
Um Diário Extravagante
Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escreverei a História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade.
Nasci em segunda-feira, 13-5-81.
O meu decálogo:
Acordei-me da enxerga em que durmo e difícil foi recordar-me que há três dias não comia carne. Li jornais e lá fui para a sala dar as aulas, cujo pagamento tem sido para mim sempre uma hipótese. Tomei café. Escrevi o memorial para o Serrado. Não o achou bom e eu sou da opinião dele.
Continuo a pensar onde devo comer. Há chance de ser com o Ferraz. Ah! Santo Deus, se depois disso não vier um futuro de glória, de que me serve viver? Se, depois de percorrido esse martirológio, eu não puder ser mais alguma coisa do que o idiota Rocha Faria — antes morrer.
E os dez mil-réis! Idiota.
Noite. Ainda não jantei. Às seis horas, com um tostão, comi uma empada. Que delícia! Ah! se o futuro...
E os dez mil-réis do tal visconde! Idiota.
Os protetores são os piores tiranos.
Na eleição. Que bobo é o Everardo; pois não é que ele deixou perceber que exigia do diretório aquele ofício, para disfarçar a sua nula influência junto aos estudantes.
E o Ribeiro? Presidente! Hein? Quem o diria!
E o Carneiro? Distinguiu-se: nem votou.
Todos que somos apegados àquilo e eu... que besta sou! Enfim, o Orlando inda o é maior. Bem, está dito.
Ainda e sempre: sem dinheiro.
Moses furibundo, Justo idem. Levi no centro trabalha para paz. Ribeiro furioso. Tudo em guerra!
O meu concurso. Lá o fiz. Fui de prova em prova num crescendo medonho... como eu sei, hein! E o nomeado foi o Milanes! Com certeza, o bom-bocado não é para quem o faz e sim para quem o come.
O Moses diz que os auxílios dos outros são platônicos
Aflar — ação do vento contra as folhas — José de Alencar. Palejar — empregado por esse mesmo escritor no sentido da luz a lançar reflexos ou ondulações, tornando uma fronte pálida. Exale, adjetivo, do mesmo autor. Gárceo — de garça, à laia de garça — perfil gárceo José de Alencar. Elance — eflúvio — elance de ternura. Rubescência — gradação da cor que se vai ascendendo às faces até chegar rubor.
O Sol ia alto e, pelas encostas do serro, o verde, sob aquela luz, variava de tons; aqui, esmeralda; ali, musgo; e todos, num coro, se confundiam num só, multivirescendo, irisado de azul.
“No esforço voluntário, a reflexão interior se apercebe de um ‘eu’ que quer e de um ‘não-eu’ que resiste.” Maine de Biran.
Curso de filosofia feito por Afonso Henriques de Lima Barreto para Afonso Henriques de Lima Barreto, segundo artigos da Grande Encyclopédie Française du Siécle XIXéme, outros dicionários e livros fáceis de se obter.
O curso será feito segundo a história do pensamento filosófico, devendo cada época ser representada pela opinião dos seus mais notáveis filósofos. Na passagem de uma época para outra, constituirá o grande objetivo do curso estabelecer a ligação dos dois pensamentos, as suas modificações e o que se eliminou de um e porque essa eliminação foi feita, assim como as reações da ciência e da arte. Dessa maneira, o curso será dividido em quatro partes:
1 ) Filosofia em geral. Modo antigo de entendê-la e modo moderno de encará-la. Definição. Divisões. Lógica. Metafísica. Teodicéia. Filosofias particulares das ciências e das artes. O lugar que lhes compete. Fim da filosofia. Utilidade (2 lições).
2 ) Filosofia antiga.
3 ) Filosofia na Idade Média. Filosofia árabe. Escolástica. Pensamento medievo (4 lições).
4 ) Filosofia moderna. Escolas Filosofias (5 lições).
5 ) Filosofia contemporânea. Sociologia. Estudo de raças. Teorias (4 lições). Pensamento atual (1 lição).
6 ) Filosofia chinesa (1 lição).
7 ) Filosofia hindu (1 lição).
8 ) Religiões. Crenças religiosas. Animismo. Fetichismo. Politeísmo e monoteísmo. Panteísmo e materialismo ( 3 lições )
Programa.
objeto da Filosofia (I e II). III — Método. IV —Definição e divisões. Psicologia. Lógica. Teodicéia. Moral. Metafísica e Estética. Modos de encará-la; contribuições diversas do socialismo (estudos sociais), donde modificação de sua significação primitiva.
O resto se fará pelo programa do antigo Colégio Pedro II (está no Paul Janet).
I — A filosofia tem por fim explicar até nos seus últimos fundamentos a existência do mundo, devendo formar um conjunto de nossos conhecimentos particulares a convergir para uma concepção do mundo, do homem e da vida, que satisfaça às necessidades do entendimento e às exigências do espirito humano. Deve ser uma espécie de ciência geral, destinada a constituir, isenta de contradições, um edifício construído com os conhecimentos gerais desvendados pelas ciências particulares.
O seu fim é, portanto, organizar um conhecimento, uma disciplina em métodos seus, teorias organizadas e um plano geral, sendo, pois, arbitrário qualificar de filosóficos os modos de atividade intelectual que consistem em pontos de vista espontâneos, em reflexões sem técnica e sem método, em representações místicas e em crenças. Essas organizações, essa espécie de atividade mental, só pode entrar na verdadeira filosofia como dados, como meros auxiliares, talvez mesmo como fatos, a examinar à luz do critério filosófico. A filosofia é essencialmente uma teoria intelectual organizada. (Artigo Filosofia, da Grande Encyclopédie).
II — Cada órgão de conhecimentos tem um objeto nitidamente marcado pela realidade, pelo fato científico a estudar, e bastante poderoso para esgotar a noção dele. As ciências, portanto, entre si, dividem os objetos primitivamente ou capazes de ser concebidos primitivamente; contudo, sem sair do domínio da ciência, nota-se que o mesmo objeto, que o mesmo fato, que a mesma idéia podem ser examinados de várias maneiras, recebendo explorações diferentes, todas aceitáveis e necessárias. O espaço, por exemplo, é o lugar ideal em que se passam os fenômenos geométricos e mecânicos, para o geômetra; pode ser também — uma idéia sempre presente ao nosso espírito; pode ser ainda — a condição para que possa existir a faculdade de perceber. De maneira que, por tão vários modos de encará-lo, vai fazer parte de disciplinas intelectuais diversas. Seria ocioso mostrar o fato da cor ter significações diversas para o físico, para o químico e para o biólogo, e exemplos seriam não fáceis de encontrar, mas inúteis para a certeza. O que define uma ciência não é o objeto que ela considera, é o ponto de vista em que ela o considera. Se se propõe definir uma ciência pelo seu objeto, é preciso dizer-se que esse objeto não é tal qual existe nas coisas, mas tal qual ele é para a ciência. A ciência vem a ser, portanto, um ponto de vista sobre as coisas. Segue-se, daí, que, sendo as ciências extensivas sobre as coisas, a filosofia a bom título pode constituir um conhecimento, constituindo como que um resíduo, que se vai alterando sem cessar, para se perder finalmente no sistema de ciências. A unidade relativa das ciências, a conexão entre a inteligência e as coisas, a natureza dos princípios científicos, a validade deles, a legitimidade e ilegitimidade das interrogações ‘que se apõem às ciências, e que, às vezes, são postas por elas mesmas, nem respondendo à solução, constituem o objeto da filosofia, donde partirá uma concepção rígida das coisas e da vida, e da sua harmonia geral.
É mais ou menos o artigo de Victor Delbos.
III — O método filosófico, isto é, o processo de que a filosofia se serve para chegar ao pleno conhecimento do objeto de seus estudos, não se distingue absolutamente dos métodos empregados nas demais ciências. Usa da abstração, da determinação, da síntese e da análise, da indução e da dedução. Mas, sendo assim, o seu método possui caracteres específicos, tanto mais que o filósofo sabe que, além de tais processos de chegar à verdade, a inteligência possui outros que o cientista não admite nem emprega, o sentimento, a intuição.
Portanto, fora das teorias a estudar, seria difícil caracterizar perfeitamente o método da filosofia; só no estudo de suas doutrinas pode-se completamente compreendê-lo
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