Universo da obra
Universo da obra
O segredo comunicado, mútuas promessas de guardá-lo foram feitas; e a viúva do contínuo, embora muito admirada que sua comadre, à vista das suas dificuldades, só achasse valioso falar-lhe dos namoricos da filha, prometeu, todavia, indagar de Clara alguma coisa de positivo. Entrando na sala em que o médico e o seu antigo companheiro de colégio conversavam, Florência não encontrou o Alves da Silva. Recebia, na sala da frente, uma visita de cerimônia. E, enquanto esteve só com o médico, Gomensoro lhe reiterou a promessa, dando-lhe conselhos. — É mude-se. Vá morar pra Laranjeiras ou Botafogo. Por lá arranja trabalho facilmente. Há muitas famílias ricas. Minha mulher poderá mesmo lhe recomendar a algumas de suas antigas colegas bem casadas. Conhece o chefe de esquadra Valadão? Sua mulher foi colega da minha. Mora na Bica da Rainha, e assim muitos outros. *** Andamos pela vida apavorados, trêmulos de medo do futuro e, quando o que se conta no dia seguinte e no de hoje é mediano, nós nos pomos quietos, a olhar os astros, e na nossa alegria há menos palavras que na nossa dor. O júbilo é interno e tememos que o exteriorizando ele se evole como um perfume sutil, contido em frasco frágil. Clara, sua mãe, e a preta velha, acabados os arranjos domésticos, se puseram sossegadas n porta da cozinha. As fraldas de Santa Teresa cobriu-as com a sua sombra a e as três, sentadas no chão, poucas palavras trocavam. Antes, no tempo do contínuo vivo, ele também se sentava e — como homem, andava pelas ruas e lia jornais — tinha sempre o que contar... *** Naquela tarde, pela primeira vez, depois da morte do Manuel, elas voltavam ao seu antigo hábito. Sem acordo algum, as três, uma a uma, se foram chegando, sentando—se, com as suas respectivas tarefas. A velha Florência, de onde em onde, soltava um longo suspiro, olhava a ponta do Corcovado, punha-se de olhos parados para o morro, estupidamente. Parecia temer que ele desabasse... Conforme o costume, ao anoitecer, a conversa se animou. Clara tinha vindo de interrogação em interrogação, nesse salteio caprichoso de diálogo, até perguntar à preta velha como viera até nós... *** A babá, ao saber que a escravatura vai acabar, se admira, não acredita, acha impossível e diz que o mundo vai acabar. Clara retruca-lhe que não, e porque ela (a babá ) indaga quem vai trabalhar nas fazendas: — Os livres, os que quiserem. — Qual! Qual! — Mas porque? Na Inglaterra, na França, não há escravos e há fazendas! — Mas é que lá não há negros (babá). *** A visita do alferes foi o assunto do dia seguinte. dona Florência estava certa que ele viria, mas que ele lhe poderia ser útil não atinava. Se fosse dinheiro, ele lhe teria dado ontem, e, em todo o caso, bem podia ser que, não tendo, fosse adquiri-lo e delicadamente lhe trouxesse. Incapaz de compreender espontâneo o ato do oficial, a viúva procurou inutilmente um motivo, mas, quando comparou o movimento dele com as confidências da comadre. num clarão lhe veio explicada a sua generosidade. Em começo, aquilo lhe pareceu baixo, naturalmente ele lhe iria pedir pequenos serviços de apaixonado, cartas a levar, cartas a trazer, flores, e se não fosse a ela, seria à filha. Mas não tinha razão dona Florência. Boaventura, lhe oferecendo auxílio, procedera muito generosamente e desinteressadamente; e, embora ele já se sentisse tomado de amores pela filha de Alves da Silva, desprezando os comezinhos meios dos namorados de profissão, não queria de Florência nem da filha os serviços que aquela suspeitava. Saindo da estação central, ele subira para uma das portas do quartel-general, até o pavimento superior e, logo ao sair, dera com o capitão Meireles. Era de infantaria, mas tinha suas letras. Fora jubilado no segundo ano do curso da Praia Vermelha, quando tenente, e voltara a servir na sua arma. Nas rodas militares, falava-se muito do seu nome, a sua profusão de anedotas picarescas, a sua jovialidade inquebrantável, e o seu estro de poeta satírico eram os motivos da sua popularidade. Com já estar na casa dos quarenta, desse seu gênio colegial pouco perdera; contudo, de alguns anos para cá, embora não se fechasse em grande taciturno, andava calado e mastigando idéias ultimamente se soubera o que o perseguia. Era nem mais nem menos que a adoção dos pombos correios no Exército. Uma ponta de inveja o movera a isso. Verificando que uma série de oficiais, por gênio tumultuário ou por estudos, atravessavam o âmbito estreito das companhias e estabelecimentos, para viver na fama da plena rua, ele também sonhara ter um nome assim. E estudara para isso os pombos correios, tão importantes na organização dos exércitos europeus. Assimilara ligeiramente noções de anatomia e fisiologia das aves; lera tratados e artigos históricos e, justamente naquela ocasião em que encontrara o Boaventura, trazia o memorial em que lembrava ao ministro da Guerra a conveniência de adotar aqueles mensageiros no Exército. Era um calhamaço de cinqüenta páginas manuscritas em papel almaço, e ele ia lê-lo do começo ao fim, quando o Boaventura objetou-lhe que tinha pressa. — Ah! — lhe respondeu — ouve só uma parte da introdução. Ouve: “A colombofilia militar evidenciou sua utilidade no último cerco de Paris, e nenhuma nação européia desmereceu dos seus meios de defesa a telegrafia aérea. Esse fato veio despertar as grandes nações germânicas e, enquanto estas se aprestavam para defender, os países latinos, renunciando o próprio desdém, suicidam-se. A ciência da guerra é também uma necessidade inerente à conservação social. Diz um insigne intelectual: ‘não crede senão na força temperada por uma longa disciplina’. “A força é a grande lei da natureza, indiscutível e insuprímível. O mundo tem por base a força, mas o olhar dos povos, principalmente os da raça latina, nas crises da sua história, só vê o momento presente. Baldado é o intento de faze-lo alcançar mais longe. Desmintamos estas asserções. Entre os auxiliares do exército se deve contar como um dos mais proveitosos os pombos correios — Bem! Mas você é atrasado, Meireles. A missão do Exército não é mais esta... — Qual é então? — É a regeneração da sociedade. Formados como a elite do povo, a nossa forte cultura científica nos prepara para governarmos no período científico-industrial. Estamos destinados a substituir os bacharéis em Direito. Até logo... E saiu, deixando boquiaberto o capitão, com o calhamaço descansando sobre o peitoril da janela. *** Como houvesse fogos em vários trechos da cidade, e um se queimasse em Vila Isabel, no Boulevard, bem perto da sua casa, Clara, com algumas outras raparigas da vizinhança e um irmão de uma delas, foi vê-los. A rua era cheia, e, se bem que larga, a multidão se espremia, contida entre os dois lados. Aproveitando os largos terrenos vazios que havia nas margens, o povo derivava por eles, enchendo-os. Clara e os companheiros, muito a custo, avançaram por entre o povo até à altura da Rua d’Aldeia Campista e, aí, sendo boa a posição para ver os fogos, ficaram. Tudo ofegava. A noite feia ameaçava chuva; entretanto, ninguém desanimava. Desde quinze... *** — Que é? — Um rolo... — Onde? — Espera, eu vou ver — disse o rapaz que acompanhava as moças. — Pouca coisa — disse ele, voltando. Ali, junto à confeitaria, havia um grupo: um rapaz, filho, parece-me, de um capitão de mar e guerra, a ompanhava umas moças, sendo, me parece, c uma delas namorada dele, e como um sujeito a olhasse muito insistentemente, ele tomou satisfações; o outro, que não era mole, respondeu no mesmo tom, e o final foi que o tal rapaz das moças saiu ferido com a cabeça quebrada... — Coitado! fizeram as raparigas. — Não, pouca coisa: uma racha aqui — e apontou o parietal esquerdo. — Ele desmaiou... Foi pra botica? inquiriu Clara de repente, mostrando muito interesse. — Desmaiou e foi pra botica. — Mas não tem novidade o ferimento? perguntou, ainda, Clara. — Não. Alguns pontos falsos e daqui a dias está curado, não foi nada. — Que diabo! Que interesse! Você conhece o rapaz? — Não conheço, não. Nunca o vi. — Pois não parece, retrucou a outra com malícia. — Está sempre com essas coisas, Adelaide. A gente não pode ter pena, dó, de um rapaz que se fere, que você não venha com “coisas”, disse Clara, meio zangada. — Não te zangues, Clarinha. Estou brincando, disse a outra, animando a rapariga. Quando eles vinham pra casa, Clara ouviu um grupo, que acaso parara junto de onde eles pararam, a narração do caso. Adquiriu certeza de que o caso se passara com o adolescente, mas ao fim da conversa chegou um latagão forte, um desses rufiões de arrabalde, que foi indagando pormenores. — Ah! Se eu estou lá... O sujeito conhecia o jogo? — Não sei. A verdade é que lhe foi assestando a bengala e o Alfredo caiu. — E a noiva, a namorada? — A noiva deu um faniquito e foi levada para o interior da confeitaria. IV A casa de Clara era uma pequena habitação de telhado cortado ao jeito de chalet, edificada ao lado de outras iguais, a correr numa só linha, como o que se denomina atualmente uma avenida... Na frente, um corredor comunicava-as com a travessa, que ia terminar na Rua de São Francisco Xavier. Aos fundos, um capinzal cobria um grande baixado. Essa última rua, por esse tempo, estava parcamente povoada; de extensão a extensão, alguns grupos de casas pontuavam vastas porções de terreno, coberto de capim plantado. Na esquina da travessa em que ela morava com a Rua de São Francisco, havia uma grande chácara, vasta como um sítio, que, murada do lado da rua principal, era na orla da travessa cercada por uma sebe compacta de bambus. Quando Clara desembarcava do bonde, costumava encontrar a babá ou sua mãe que a vinham esperar; nas noites de verão, porém, as duas velhas se poupavam desse trabalho. Na tarde de segunda feira, nenhuma das duas viera, e Clara, de volta do atelier, andando vagarosamente, muito concentrada nos seus pensamentos, foi surpreendida, logo ao dar os primeiros passos, com o encontro do adolescente que a esperava. A lua brincava nas pontas dos bambus que balouçavam, e a projeção da touceira dividia a rua em duas partes, negra e branca, quase iguais. Era como uma bandeira bicolor estendida e, aos meneios da sebe, ela se agitava tal qual uma bandeira que estivesse desfraldada. A angústia daqueles três dias de separação atirou-lhe fremente para o rapazola e se explicaram com palavras entrecortadas pela comoção. Sua mãe, justificava o adolescente, quisera dele uma comissão em Santa Cruz, no curato, e ele fora sem poder avisá-la. Uma carta despertaria suspeitas; não tinha como prevenir; o trem partia cedo, de madrugada, ele foi. — Se te vim esperar aqui, dizia ele, foi porque temi que me recebesses mal, e se isso se desse no bonde seria um destempero. — Oh! Qual! Eu gosto tanto de ti... — E eu, meu anjo, tanto, tanto... que não sei mesmo... — Meu Deus, como eu te gosto, tu não me amas mesmo, hein? — Muito! Muito! Insensivelmente os dois se foram aproximando, de tal jeito o fizeram que não se poderia dizer bem qual dos dois beijou o outro primeiro. Por alguns minutos estiveram aos beijos, e palavrinhas doces, ditas pela metade, entremeavam-nos. Por fim, o rapazola, temendo que alguém viesse a passar e o visse ali com ela, rematou: — Adeus! Aqui não é bom lugar para nos explicar-mos. Espera-me amanhã... Sai um pouco antes e vai-me encontrar no Largo de São Francisco, atrás da Escola Politécnica. Quero-te falar. Saindo dali, o rapazola conteve a comoção, pois que seria feio ele se apresentar aos outros comovido por ter dado uns beijos numa mulata, e foi ao encontro da roda. — Então? indagaram em coro. — Oh! Não conto nada! A mulata está “embeiçada” por mim... Quando me viu... Dá-me um cigarro? — Toma. — Quando me viu quase chorou. Caiu que nem um patinho. Quem tem fósforos? — Eu! — Amanhã me vai esperar. Está tudo arrumado. — Olha lá! — Qual! Não há nada. Se a coisa arrebentar, papai me passa um “carão” e abafa a coisa. Você empresta-me a chave do chateau? Sim? Está ouvindo, Freitas? Ao sair de casa, Clara pediu a sua mãe que a mandas-se esperar, pois, esperando serão, viria mais tarde. No atelier, Clara, pretestando moléstia, obteve da contramestra permissão para sair mais cedo. Pilhando-se na rua, ela apressou o passo em demanda do ponte de encontro. Ia entre sôfrega e inquieta. Que queria ele? Oh! Se fosse isso, nunca! Ela resistiria. Deus a livre guarde. Coitada da sua mãe, se soubesse, morria. Depois ela estaria desgraçada pra sempre. Ainda se... qual... filho de quem ele era, nada aconteceria. O capitão de mar e guerra não deixaria que fosse amante. Havia de pôr empenhos, dinheiro, e a coisa ficaria em nada. Na altura da Rua de Uruguaiana, quis voltar, tomar logo o bonde. Arrependeu-se e continuou. De mais a mais, ela tinha prometido, e em ir não havia mal algum. Quando dobrou a esquina, encontrou o empreiteiro. — Oh, dona Clarinha, onde vai com tanta pressa? — Não... Nada... Vou aqui fazer uma compra e ainda volto ao attelier. Boa tarde. — Boa tarde. O Largo de São Francisco, àquela hora, ainda estava movimentado. Grandes magotes de povo atravessavam-no em várias direções. Da Rua do Ouvidor, a onda a chegar era volumosa, e para lá marchava a maior parte. Nas outras ruas e travessas, o espetáculo era o mesmo. Delgados filetes de gente iam e vinham, cruzavam-se, baralhavam-se. O largo mantinha inalterável a mesma quantidade: era como um reservatório a se encher e a se esvaziar eqüitativamente. Clara atravessou-o aos últimos raios do sol de verão, em procura da travessa atrás da Politécnica. — Tardei? — Não. Chegaste a tempo. — O que é que você quer comigo? Disseram os dois ao se encontrar. —Que pressa; se é com ela que vieste, vai t’embora, que não é coisa pra minuto, disse o rapazola azedamente. O adolescente tinha percebido que Clara estava “arisca” e, certo disso, atirou fora o ar de timidez com que se cobrira durante o namoro todo e armou-se de atitude firme, que melhor lhe parecia servir aos seus fins, Clara, recebendo aquela resposta, ficou rapidamente enternecida. Para que aquilo? Aquele desabrimento? Ela não tinha razão e meigamente respondeu: — Você se zangou? — Não... Não me zanguei... Mas tu vens assim, dessa maneira. Uma pessoa fica espantada. Parece que vou te engolir... — Você sabe, se eu demorar... Se alguém passa por aqui..., retrucou Clara com a voz meio embargada. — Tem razão. Saiamos daqui. Clara como um cachorrinho acompanhou-o. Os dois foram andando calados. A noite caía vagarosamente. As últimas estavam no Largo do Rossio... — Entra, disse o rapazola. Entra. Era uma pequena confeitaria pouco freqüentada. Nas poucas mesas, quase ninguém havia. — Que querem? — Cerveja, não é? indagou o adolescente. Olhe, traga cerveja e uns doces, recomendou ele ao caixeiro. — Cerveja e doces? — Sim. Enquanto ia buscar o caixeiro, o adolescente começou a animar Clara. Ela, inquieta, olhava de um lado a outro. Nada dizia; só pela sua fisionomia transtornada se percebia o desencontrado dos seus sentimentos. — Sabe porque é isso, Clara? — Não. — Faço anos hoje e quis te oferecer um banquetezinho. — Parabéns. Parabéns. — Tanto mais que eu, dando uma fugida de casa, aproveitei a ocasião para te declarar que sou, de hoje em diante, o teu noivo; entretanto, como não quero que se saiba já, peço-te que não o digas a ninguém. Com estas palavras, Clara se acalmou um pouco, e o copo de cerveja que bebeu veio lhe dar uma lassidão, uma vontade de dormir que a dominou. Estiveram algum tempo calados e depois saíram; os combustores já brilhavam acesos. De braço dado, eles seguiram ao longo da grade do jardim. Ao atravessar de novo a praça, numa olhadela, ela percebeu o velho empreiteiro, que a vigiava. Lembrou-se de sua mãe: “Olha, minha filha, esses homens... — Onde é que vamos? disse ela, estacando subitamente. — Vamos aqui. Que diabo, não sou teu noivo? Vamos, disse o efebo imperiosamente. Clara se tinha deixado tomar de inércia. Alcoolizada, com as promessas do rapaz e sobretudo aquele seu temperamento de torrão de açúcar, não lhe ajudavam a resistir ao forte querer do adolescente. Ela se sentia arrastada, puxada. Queria despedir-se, mas não podia. O bafo quente do rapaz, a esquentar-lhe a carne palpitante e sequiosa de outra, impelia-a a ir com ele, ao seu lado, a dar-lhe beijos, abraços; mas, bem depressa, cortando-lhe o frêmito que lhe resolvia as entranhas, surgiam-lhe as recomendações de sua mãe. Então, atemorizada, esforçava- se por despregar-se, por fugir dele, que a prendia magneticamente. Não tinha forças e, amolentada, seguiu-o. Dobrou uma esquina e achou-se num beco. Entrou por uma casa escura, meio suja e, em pé, petrificada, esperou uns instantes que o seu companheiro achasse a chave na algibeira, com a qual abriu a porta do quarto, onde os dois penetraram. Pelas paredes, algumas figuras eróticas despertaram-lhe logo idéias sinistras. Olhou desvairada em roda e na reles cama de ferro, que guarnecia o aposento, sentou-se chorando. Chorava de um choro nervoso, de quando em quando interrompido; quando assim, com os olhos abertos, a lacrimejar, olhava o adolescente em pé, que procurava sossegá-la. — Que é isso, Clara? Deixa-te disso! Olha se ouvem e se vem a polícia. O adolescente, temendo que a ocasião escapasse, ameigava a rapariga, ora terno, ora áspero, ia empregando o velho arsenal da sedução. Ajoelhou-se, jurou por Deus, sob sua palavra de honra, que se casaria, que não faria a infelicidade dela, e para que esperar mais um mês, um ano, dois, quando ela, agora, poderia felicitá-lo, provar o seu amor por ele. Já fatigada e amaciada com aquelas juras, que lhe saíam bem ao paladar, a mulata sentada na cama ficou sem ação. O rapazola, meio inclinado, beijou-a no rosto pela primeira vez, na segunda no pescoço, desabotoou-lhe o casaco, com um fraco protesto dela, beijou-lhe os seios. A rapariga parecia outra. Não arquejava, trepidava de volúpia, como uma caldeira de vapor. Os olhos cheios brilhavam, parecendo querer ver longínquas regiões, satisfações não vistas e muito desejadas. Entontecida de amor e de desejo, foi deixando, deixando. Quando os beijos deixaram de estalar no quartinho, já eram quase dez horas. Clara, mais leve, lepidamente tomou o bonde para o lar. A babá esperava-a e sua mãe angustiada também. — Oh! mamãe! Foi o serão, adiantou-se. Há muitas encomendas. Com as festas que devem haver, tem havido muito serviço. Foi por isso só. — Amanhã haverá ainda? — Creio que não. Se houver, eu não farei. Já disse lá que moro longe e que minha mãe é doente e sozinha. Os encontros no beco se repetiram; agora menos demorados, mas mais gostosos. Clara, habituada e segura que nada se suspeitava, ia para lá contente e dele voltava transbordando de satisfação. *** Clara, de temperamento ardente, apreciava aqueles encontros, mas o adolescente, satisfeito, e temendo as conseqüências judiciárias, procurava fugir. Certa vez, ela lá indo, em vez de encontrá-lo, encontrou um outro. Convidando-a a entrar, ela recusou e, ao sair, mal tinha dado alguns passos, deu com o Monteiro. Dissimulou, mas por melhor que o fizesse, ela não pôde deixar de trair-se. Sua mãe ia aos poucos definhando, apatetara-se e dentro de seis meses definhou de tal forma, que... *** O lugar dos encontros era ainda no tal beco e no mesmo quarto meio sujo, meio escuro, para onde, naquela tarde, o adolescente a levara. Com o gênio ordeiro de Clara, o aposento, entretanto, tinha ganho mais limpeza, e uma arrumação mais cuidada disfarçava a exiguidade de seus móveis. A cama de ferro, calçada, tinha o colchão de capim coberto de lençóis limpos, alvos, e uma colcha de chita de ramagens cobria-a por dois terços. As figuras eróticas das paredes substituíra Clara por cromos de folhinhas, e, disponho-os ingenuamente simétricos, o ar do quarto era de um aposento de moça pobre. As suas relações duravam há oito dias, e, com ser ainda recentes as relações, o adolescente parecia à Clara um tanto aborrecido. Não mais carinhos, pedidos, coisas mínimas, que ela tanto estimava. De tarde, ao sair, ela dirigia-se rapidamente ao beco. Subia, já o encontrava, sentado, esperando-a. Mal chegada, antes mesmo de repousar os embrulhos, ela ia muito humilde, muito doce, amimá-lo. Os carinhos eram quase indiferentemente recebidos pelo rapaz, respondia a um beijo ou a uma carícia e, como fatigado, dizia mal-humorado: — Deixa-te disso... Deixa-te disso... Clara murmurava uma queixa, mas continha-a e ficava em pé com as mãos nos cadarços da saia, a olhá-lo, com os seus olhos redondos, humildes, parados, espantados. O adolescente, então, intervinha e com império mandava: — Despe-te. Anda. Satisfeito, ele se levantava rápido, aborrecido, respondendo monossilábicamente às perguntas da rapariga, obrigava-a a vestir-se de novo, fazia-a sair, e ela, logo que o imaginava longe, saía a se coser pelas paredes, envergonhada, vexada, apreensiva. Dentro de dias, havia já nele um grande arrependimento, nascido do sentimento confuso do temor das leis, da sociedade, da honra, dos preconceitos. Aquelas carícias, aquela intimidade da rapariga não eram próprias, não competiam a ele, era uma confiança. E como mesmo lhe fora tão forte o desejo dela que lhe chegara a prometer casamento? Ele e ela, casados... Oh! Oh! E continha a risada. A risada que queria explodir era contida pelo temor do código, do escândalo, da polícia. Mas daí não havia senão perigo passageiro. Seu pai repreendê-lo-ia, amarraria a cara, evitaria o código, a polícia e, afinal, havia de achar coisa de somenos, pândega de rapaz. Entretanto, o que mais aborrecia-o eram as carícias dela. A demasiada doçura com que o tratava, os afagos de noiva, uma criada, quase. Convinha pôr um termo àquilo; já tinha o que queria, e se a coisa continuasse podia “pegar”, era o diabo! Na última vez que estiveram juntos, no sábado; ele pedira à Clara que viesse segunda-feira cedo, almoçariam juntos no chateau, passariam o dia e a tarde, iriam ver as festas, mesmo porque, acrescentou ele no fim, tinha muita coisa a dizer-lhe, relativamente ao futuro de ambos. Naquele dia, Clara, dizendo à sua mãe que ia com sua companheira assistir as festas da Libertação, saiu de casa por volta das nove horas e foi direito ao quartinho do beco. As ruas cheias eram atravessadas pelo bonde entre ululos, a multidão não satisfeita com as provas públicas de regozijo continuava a enchê-las, percorrendo-as animada, a parecer que, sem destino nem fim, teimava a andar pela via pública de baixo para cima. No quartinho, como de costume, a rapariga encontrou o adolescente e de contrário do habitual ele aparentava mais gentileza e se esforçava por ser prazenteiro. O almoço, que fora frugal e breve, veio pô-los em maior intimidade. — Clara, disse o rapazola, eu te queria dizer alguma coisa, mas espero que, com o que te vou dizer, não te ponhas aí a fazer um escarcéu, mesmo porque não há razão para isso... — Que é? — Vou te dizer, mas primeiro hás de me prometer que tu não farás nada, isto é, não te surpreenderás, nem te irás pôr a chorar e a dizer bobagens... Prometes? — O que é? — Promete, primeiro, senão... — Prometo. Que é, então? — Vê-lá. Prometes? Juras? — Juro. Juro. Diz lá. — Bem. Como você sabe, eu estou estudando, vivo da pensão que meu pai me dá, tenho que lhe dar contas de mim e, nessa época de exames, eu fui reprovado nos últimos que me faltavam para me matricular; sendo a segunda vez, meu pai zangou-se, repreendeu-me, aborreceu-se, mas acontece que agora, num dos Estados do Norte, haverá exames para o mês que vem, uma segunda época, e meu pai, que é amigo do presidente da província e tem muitas relações lá, com os professores do liceu, vai me mandar lá completar os preparatórios. Mas o que e isso? Que cara! Deixa-te disso. Você me prometeu... — Você volta? — Volto. A coisa é segura, os exames lá são fáceis, mesmo com empenhos que levo nem que fossem difíceis, e, dentro de um mês e tanto, estou aqui e matricular-me-ei em medicina. Portanto, como você vê, é uma separação breve, eu voltarei e então tu já sabes. A rapariga tinha ouvido o adolescente, contendo a máxima angústia. De quando em quando, ela queria dizer qualquer coisa, objetar que ela sentia a verdade, que ele não ia só prestar aqueles exames, mas separar-se dela, cortar as relações que ia mantendo, retirar-lhe a promessa e deixá-la por aí, desonrada, isolada, desgraçada, tanto mais que lhe era agora a coisa abominável, pois que já se suspeitava, e já, entre dentes, ela ouvia referência indiretas e aproximações. O trabalho do empreiteiro não fora em vão e, se bem que ela não o visse nas proximidades do quarto, nem tampouco ele lhe houvesse dito qualquer coisa, ela sentia que ele sabia, tinha certeza que ela vinha ali naquele quarto reunir-se com um rapaz. E, ele sabendo, saberia seu padrinho, e ela perderia com isso a única proteção. Que ia ela ser, desonrada, sem ajuda de ninguém, desprotegida? E lhe passou, então, pelos olhos, a visão rápida, dramática, de um futuro doloroso. Seria assim como aquelas que, na janela, passam dia e noite, a chamar homens, a arrebatá-los pelo casaco, viveria assim de tamancos ao meio do pé, vestida com chitas ralas, a se ver a metade do corpo, a bebericar, até que um dia o ciúme de um ébrio, de um mau, com quem naquela vida ela estava arriscada a travar conhecimento, a matasse cosendo de facadas, no fundo horripilante de uma daquelas alcovas. Não pôde então impedir de chorar. Chorava, com um choro seco, em começo, e depois, como se o choro contido tivesse aberto todas as válvulas, ela chorou abundantemente e livremente. O adolescente, sentado, afagava-a, fazia-se terno, amimava-a, e ela, entre soluços, disse-lhe: — Você volta? Você vai me deixar? — Volto, Clara, volto, quem te disse... — Você quer me deixar. Eu sei. Eu sei. Se você não me queria, porque então me namorou, me desviou? Ah, eu logo vi! Logo vi. Bem me dizia minha mãe. — Mas, Clara, ouve. Atende. Se eu te quisesse abandonar, viria te dizer? Eu não poderia ir me embora, sem nada avisar, hein? — É... É... Mas, fez Clara, abalada com a argumentação do rapazola, mas, continuou, mas não sei, eu penso que você não volta, que você vai me deixar. — Mas que interesse tinha eu em te avisar? Para que? Diz? — Não sei. Não sei. — Ouve, Clara, eu volto dentro em breve, e nós haveremos de ser felizes, vamos morar numa casinha, eu, você e tua mãe; eu me empregarei, enquanto tirar meu curso. Então... Clara, pouco a pouco assegurada, acalmou-se; o choro não lhe vinha mais, e, quando de toda sossegada, o rapazola disse-lhe: — Lava o rosto. Endireita as tuas roupas. São quase três horas e eu preciso sair. Obedecendo, Clara pôs-se a concertar o vestuário e a tirar da fisionomia os vestígios da cena que vinha de ter. Servia-se pra isso dos poucos objetos de toilette que havia no chateau e procurava o pente, quando na porta severamente bateram. — Que é? — Não sei, Clara. Eu vou ver, disse ele, abrindo a porta e saindo. — Foi um sujeito, disse ele, em breve, voltando, que, por engano, julgou que morava aqui um tal de Costa. Clara olhou-o algo desconfiada, mas de tal forma a sua fisionomia era leal, que ela continuou placidamente a pentear o cabelo. — Clara, disse o adolescente de repente, você espera aí um pouco, que eu já volto, vou aqui à Rua do Senado levar essa carta, que meu pai pediu-me que levasse e já volto. Saindo o rapazola, Clara nem sequer lembrou-se de fechar a porta, pôs-se em frente ao espelho do lavatório de ferro a dar a última mão no penteado. Quando ela punha o último grampo, ela sentiu que lhe entravam no quarto, virou-se e deu com um rapaz na sua frente: — Não se assuste, benzinho. Não se assuste. Não respondendo, Clara foi olhando o rapaz. Era alto, membrado, de testa quadrada e curta de estúpido obstinado. De repente, como se virasse um pouco, ela viu que, pelo pescoço dele, atrás da orelha, lhe saía uma mancha v rmelha, e lembrou-se logo que o havia visto. Onde? e Quando? Ah, foi na noite dos fogos, com o rapazola que ali a trouxera. E compreendeu, então, a armadilha que lhe fora armada, e nitidamente se lhe desenhou a sua situação. — Benzinho, não se espante. Sou eu, que lhe quero muito bem. O seu andar tortuoso, cambaleante, denunciava-lhe a embriaguez, e o seu olhar de crapuloso desferia chispas. Clara não sabia o que dizer, calada, olhava o rapaz em frente e recuava até a janela. O rapazola ia chegando, aborrecido com aquela resistência, começava a se enfurecer, as suas palavras não eram as mesmas, melosas, de ainda então; um vocabulário de injúrias soezes saía de sua boca. — Vá, sua negra. Deixe-se disso. Clara, aproveitando uma ocasião em que tropeçara no lavatório, empurrou a velha enxerga de ferro para o meio da sala e, de uma das guardas, suplicava: — Deixe-me, pelo amor de Deus. Deixe-me. O latagão do outro lado armava o salto para um lado e outro, no fim de engancha-la. Por fim, de um salto, agarrou-lhe pela toalha, que ela tinha ao redor do pescoço, que lhe ficou nas mãos. Enfurecido, ele corria da direita para a esquerda, atrás de Clara, saltava a cama, enganava- a, e sempre a rapariga, murmurando pedidos, escapava dos seus botes, com um seguro instinto de conservação. Por fim, já sentindo que as forças lhe iam faltar, Clara pôs-se a gritar por socorro; gritou uma, duas, três, seis vezes, ao fim das quais, violentamente empurrada, a porta do quarto se abriu, e algumas pessoas entraram e levaram os dois até o rondante e daí para a subdelegacia. O rapagão, a quem o exercício curara de algum modo a semi-embriaguez com que entrara, tomara acordo de si e, à ordem de prisão recebida, quis resistir a princípio, depois disse que iria só, não com polícia, que era estudante, filho de boa família. Afinal, tendo obedecido, os dois foram à subdelegacia. *** — Vossa Excelência compreende que a situação é delicadíssima. Eu, que o conhecia muito de nome, vendo que ele vinha à tona em semelhante coisa, parei, embaí um pouco e obtive que a coisa ficasse nisso mesmo.
Entretanto, não foi tanto que os jornais não pudessem pegar, e agora, de manhã, ao lê-los, foi com surpresa que vi o nome da rapariga por extenso e o dos rapazes pelas iniciais, com o seu também desse modo, denunciando a filiação... Eu sou velho, tenho perto de sessenta anos, e nos meus tempos de rapaz essas coisas não tinham nenhum valor, eram pândegas de rapazes, muito natural na sua idade, e mesmo com o seu filho a coisa talvez não tivesse nenhuma repercussão, se não fora esse estouvado amigo dele, que, semi-ébrio, e de um comportamento abaixo de qualquer estima, se não fosse, dizia, se não fosse ter consentido que ele se introduzisse no quarto e quisesse violentar a rapariga, mas... — Senhor major, há provas contra meu filho? — Muitas. O depoimento da vítima, da mulatinha, disse ele, emendando logo, a denúncia do valentão, seu amigo, que foi preso quase em flagrante, contou a coisa por miúdo, e o encarregado da casa de cômodos, que, depondo, afirmou que desde um mês ela, a vítima, digo a mulatinha, e um rapaz, com os sinais de seu filho, se reumam ali, entretanto... — E qual é a pena que o código crimina para “isso”? — A não ser que o indiciado queira proceder casamento... — Oh! isso absolutamente não, disse ele com um imperceptível “isso”. Não se compreende que a lei obrigue a se casar gentes de situações diferentes, de cores, de educação, só porque se encontraram... —Vossa Excelência...
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