Universo da obra
Universo da obra
Sorriu, intimamente lisonjeado, e risonho, com um “veremos” entre os dentes, encareceu a distinção que havia no aceitar. Pela s gunda vez, depois e de nascer-lhe a filha, quando novamente Manuel dos Anjos foi lembrar o convite, o Carlos da Silva lhe disse: — Filho, teria muito prazer, mas, tu sabes, com essa canalha de padres não quero conversa. — Seu Silva, obtemperou-lhe o contínuo, a coisa dura instantes, é rápida, num segundo a menina está batizada. O senhor marca um domingo, nós vamos à igreja, e em menos de meia hora está realizada a cerimônia. — Oh! Manuel! Não é lá pela demora, retrucou o amanuense. São outros motivos. Indo batizar, terei que me ajoelhar, que rezar, não é?... e isso constitui uma quebra de opinião. Sou contra padres, como tu bem sabes, foi dizendo ele, erguendo um tanto a voz — e compreendes que, homem de responsabilidades futuras como sou, devo ter uma inflexível linha de conduta. Devo pôr de acordo os meus atos com os meus pensamentos. Não, filho, não. Que dirão os meus inimigos mais tarde, sabendo que fui rezar a uma igreja? Que dirão? Hein? O simples do contínuo, na sua santa simplicidade, não compreendia que alguém jogasse seu futuro só porque fosse rezar um Credo, e uma Salve Rainha, a surdina. Não percebia, e, como não respondesse, Alves da Silva asperamente falou: — Nada... Nada... Precisamos ter firmeza de opiniões. O Brasil nada é por causa dessa nossa mudança contínua de crenças. Hoje liberal, amanhã conservador, depois republicano. Nada... Precisamos de caráter... Não posso... O humilde voluntário ficou estatelado. Todos os seus castelos, todas as suas esperanças derruíam-se. O padroeiro não o queria e ele ia andar pelo mundo sem anjo da guarda. As rugas de seu rosto paralisaram-se e, fazendo esforço por falar, calou-se, porque lhe parecia que, falando, se ia abrir em pranto. Com voz meiga pôde, minutos depois, dizer: — Mas, “Seu” Silva, eu já disse a toda a gente que o senhor era o padrinho. Já preparei tudo. Como há de ser? Com que cara vou ficar, Seu Silva? A isso, sem pronunciar palavra, eles ficaram ao lado um do outro. Alves da Silva ia devagar escrevendo no papel timbrado — “À S. Exa, o Exmo Sr Ministro...”, enquanto o Manuel dos Anjos, encostado à mesa, olhava amorosamente as letras, uma a uma, escorrendo da caneta. Por fim, o Silva levantou a cabeça e ternamente indagou: — Quem é a madrinha? — É Nossa Senhora da Conceição. — Qual Nossa Senhora da Conceição! motejou o Carlos da Silva. Pois Nossa Senhora pode lá ser madrinha de alguém! — É um modo de dizer, Seu Silva. Nossa Senhora é a protetora, mas quem leva à pia é uma amiga de minha mulher. — Bem. ‘Está direito. Pelos reis... É tarde? — Não senhor. — Pelos reis batizarei tua filha. E, depois de uma pequena pausa, o amanuense Silva inquiriu: — Já tem nome a tua filha? Já, sim senhor. Clara foi o que lhe pusemos. Se não lhe agradar, o senhor pode escolher outro. — Não. Não precisa. Fica esse mesmo. O batizado realizou-se na época marcada, e, como Alves da Silva ficasse noivo, algum tempo antes, foi sua noiva a madrinha. O contínuo relutou entre a noiva do amanuense e Nossa Senhora da Conceição, já escolhida para madrinha; e, depois de maduramente refletir, decidiu aceitar a noiva do amanuense. Era mais pronta a proteção, mais fácil de solicitar-se — conveio. Depois de casado, o Alves da Silva e sua mulher passaram a tratar a família do contínuo com uma benévola proteção. Recebiam ao Manuel e à mulher, em sua casa, sentavam-se com o humilde par à mesa, mas sempre, com um mínimo qualquer, faziam sentir a distância que os separava. Longe de se agastarem com esse tratamento, o contínuo e a esposa acolhiam-no com orgulho. Guardando a convicção de sua real inferioridade, um tal tratamento era para eles, como um prêmio conferido à retidão de sua honesta vida de casal. Em começo, o casal Silva levou uma vida trabalhosa. O amanuense, para fazer face às despesas do ménage, foi obrigado a procurar trabalhos fora da secretaria. Pelas casas de comércio, levava as tardes a escriturar e, ao chegar ao lar fatigado, aborrecido, os beijos da mulher estavam longe de lhe tirar o azedume de que vinha forrado. Dois anos depois, porém, devido a influência de parentes de sua esposa, fora promovido e, alguns meses em seguida, recebera, por morte de um parente seu, uma pequena herança, que lhe deu com que comprar uma casa regular no Engenho Novo. Repentinamente a depressão fugiu-lhe, e a pontinha de arrependimento, que já começava a ter do seu novo estado, aparecia-lhe agora como um grande crime. Dormia cedo, satisfeito, convicto de possuir uma vida inabalável; e de manhã, logo aos primeiros albores da madrugada, erguia-se e olhava o sol a escalar o nascente, amaciando o sonho da chefia da sua seção e um bom casamento para a filha que já tinha. Crescendo-lhe a filha, Alves da Silva procurou dar reuniões. Ele por si não gostava, mas era preciso que, desde menina, Olímpia se acostumasse à sociedade, porquanto, com o futuro que lhe preparava, impunha-se que, desde já, ela se fosse habituando. Escolheu alguns dias nos anais da família e nesses dias festejava com ruído os obscuros acontecimentos que simbolizavam. Aos primeiros festejos, o Manuel dos Anjos e a mulher não foram, embora convidados, mas, por fim, animados por convites reiterados, foram sempre. Chegavam cedo, antes de todos; e o contínuo tirava o paletó e ajudava nos últimos preparativos. — Oh compadre! Você me faz um favor, dizia dona Adélia da Silva prazenteiramente. — Pois não, comadre. — Você me vai ali na padaria buscar um quilo de farinha de trigo. Ou senão: — Florência!... Florência! gritava o Alves da Silva da sala de visitas. — Senhor, compadre, respondia. — Faz-me aí uma limonada e me manda trazer. Está ouvindo? De tarde, porém, vestiam-se convenientemente e, cheios de respeito, ficavam na sala de jantar assistindo a festa que ia na de visitas. Mais tarde, com o crescimento da filha, a maneira do casal de Catumbi cumprimentar os seus compadres do Engenho Novo mudou. O pai levava a filha, deixava-a lá, vinha-se, e no dia seguinte ia buscar. *** Nesse ano, o aniversário natalício do padrinho de Clara prometia ter um brilho desusado. Caindo em domingo, era obrigatório que a festa começasse sábado e durasse se prolongando, até segunda-feira de manhã. Ao contrário, porém, de toda a expectativa, o sábado amanhecera chovendo. O céu enfarruscado era atravessado por grossas nuvens a galopar de um quadrante para outro. De quando em quando, uma forte pancada de chuva desabava, interrompendo qualquer esperança de melhor dia. dona Adélia não cessava de se lastimar: — Oh! os doces! Meu Deus! Tanta coisa... e não vem ninguém! Que diabo! E antes do marido sair, recomendou muito que fosse buscar Clara. O Manuel estava adoentado e com certeza ela não tinha com quem vir, dizia dona Adélia. — Demais, acrescentava, você sabe, Carlos, não temos ninguém pro piano. O Zezé toca duas contradanças e mais nada. Sem Clara, filho, não temos festa. Olha bem. Vai até lá. O Silva, cheio ainda das recomendações da mulher, entrou pelas quatro horas em casa do Manuel dos Anjos. O dia continuava chuvoso, e, deixando o guarda-chuva a escorrer na modesta sala de visitas da casa, ele foi entrando para a sala próxima, onde o contínuo repousava numa cadeira de balanço. Vendo o Silva, o velho mulato levantou-se a custo e estendeu-lhe a mão para cumprimentar. O antigo amanuense dirigiu-lhe com amabilidade pequenas perguntas de boa educação. — Não é nada, compadre. Umas dores... O reumatismo que não me deixa. — Tens te tratado, Manduca? — Sim, senhor. Fui aí a um médico, receitou-me umas fermentações, mas, com essa mudança de tempo, piorei. Não há de ser nada com ajuda de Deus. — Assim espero. Você se deve agasalhar melhor, Manuel. Olha, estás sem meias e quase de costas para o vento. — Não é o que te digo, Manuel? interrompeu dona Florência. Há que tempo, compadre, estou dizendo ao Manuel: calça as meias, muda essa cadeira de lugar, e ele teima em ficar; depois... — Qual o que! Aqui não há vento nenhum, objetava o contínuo. Convencido, afinal, de que havia corrente de ar no lugar, o contínuo mudou a cadeira para um canto da sala mais abrigado. A Babá tinha começado a pôr a mesa e, sendo convidado para jantar, o Silva respondeu: — Não, obrigado. Eu vinha buscar Clarinha. Você estava doente, dirigiu-se ao Manuel, e por não ter ela com quem ir, talvez não fosse lá em casa, o que entristeceria a mulher e Olímpia. — Mas, compadre, objetou dona Florência, com esse tempo... e Manuel assim... — Que diabo! Florência, eu não estou à morte. Deixe a rapariga ir... disse agastado o contínuo. — Não é isso que quero dizer. O compadre bem me compreende. Pode-se precisar qualquer coisa, de noite. Babá está velha... — Qual nada! Deixa-te disso, Florência. Clara, disse o contínuo com império, vai te vestir para ir com teu padrinho. O Carlos da Silva que até ali se mantivera calado, disse afinal: — Eu não quero obrigar. Mas se a comadre não acha bom, ela não vai; entretanto... — Não... Não... Porque não há de ir? Não estou à morte. Anda Clara. Dentro de meia hora, Clara voltava vestida e, quando ela se despediu do velho pai, ele lhe disse: — Diverte-te. Diverte-te, minha filha, enquanto sou vivo. O dia continuava chuvoso. Grandes nuvens negras esgarçavam-se aqui, contraíam-se ali e por vezes baixavam tanto, que pareciam roçar na cobertura do veículo em que iam a afilhada e o padrinho. Abriam uma fresta entre elas, em outras, e um pedaço de sol rompia bruscamente aquela espessura macia. A luz, então, respigava pelas encostas, e fracas manchas de tons claros mosqueavam o verde escuro que as atapetava. Depois, continuavam a agitar-se. Acumulavam-se nas dobras das montanhas e vinham de vôo, como grandes aves agoureiras, roçar de novo o carro de ferro. Clara pela primeira vez supôs grave a moléstia do pai. Que seria? Tantas dores, e ainda a noite passada gemera tanto! O padrinho virara-se e, olhando as bandas da Tijuca, prognosticou: — Amanhã não teremos chuva. Aposto até. Clara entrou em casa do Alves da Silva satisfeita e alegre, e recordando muito a recomendação do pai: — Diverte-te, minha filha, diverte-te enquanto sou vivo. II — Oh! como está lindo, madrinha! disse Clara ao chegar à janela da sala de jantar. Venha ver só...vem Olímpia. Olha como se vêem os Órgãos daqui, continuava a menina entusiasmada. — Deixa-te disso, Clara, vem tomar café e depois então te fartarás de ver. Anda. E as três à roda da mesa, sentadas, começaram a mastigar a refeição matinal. A sala estava clara, de uma luz azulada, penetrante e macia; e o ruído do pão entre os dentes era como um cantar de cigarras. Tendo acabada a refeição, todas as três se puseram na janela, olharam em roda; no começo, trocaram algumas palavras, mas depois ficaram minutos a fio caladas, recolhidas, a olhar diferentes pontas de horizonte. Tivera razão o Alves da Silva: amanhecera fazendo bom tempo, e mais do que bom tempo surgira um belo dia. Pelo céu não havia mais nem uma nuvem. Era límpida, tranqüila, azul, a abóbada que se engastava nas colunas verde-negras dos morros. Dava gosto olhar; a claridade jorrava; não havia pelo céu alto um canto escuro; e o olhar, passeando vagaroso, detinha-se tristonho ante aquela massa de montanhas. Ela manchava melancolicamente o esplendor da manhã e espalhava pelo ambiente uma vaga sombra. Dir-se-ia que, apesar de límpido, o céu ainda tinha nuvens e que essas nuvens escondidas debuxavam nas coisas uma fugace tristeza, prestes a fugir a um súbito arrepio de contentamento. Na casa do antigo amanuense se ergueram cedo, e a cantante beleza do dia estimulou-lhes a espera dos convidados. Esperavam com ânsia e i paciência. Pelas duas horas, foram chegando m aos poucos. — Quase não vínhamos, dizia dona Eugênia Gomensoro, ao chegar, acompanhada dos filhos. Imagine, dona Adélia, que o Zezé, o pequenino, tem passado mal... — Que é que ele tem? — Nada. Uma pontinha de febre, que está teimosa. Coisa dos dentes. Demais, essa sua moradia, aqui, tão longe, e com aquele tempo de ontem. Depois, o Chico anda tão atarefado. É chamado pr’aqui; é chamado pr’ali. Inda se pagassem! Não pagam, todos pensam que o médico vive de “brisas”; que não tem mulher e filhos. Um inferno! O Chico, de quem dona Eugênia falava, era seu marido, doutor Francisco Gomensoro, médico clínico em São Cristóvão, que pela monotonia do seu receituário parecia ter descoberto a panacéia universal. No campo de sua visão clínica, só havia uma moléstia; para essa moléstia uma única medicação: um purgante e sulfato de quinina. Era invariável. Um doente tremia de sezões, lá ia o especifico; escarrava sangue, o mesmo. Gozava no entanto de boa reputação. Lhano, afável, todos estimavam: chamavam-no. Às vezes, pagavam, em geral, não. Ele não se incomodava. Continuava a tratar do mesmo jeito e com a mesma solicitude. Receitava pelos bondes e da ponta de um banco inquiria, na janela, do estado de um cliente: — Vai melhor? — Sim, senhor doutor. — Repita. E, o bonde afastando-se, ele se voltava para o companheiro mais próximo, continuando a discutir a queda do gabinete. Não viera com sua esposa, mas pelas quatro horas, quando a casa estava cheia, achava-se lá, na varanda, a conversar com o primeiro oficial Alves da Silva, seu antigo colega de colégio, e alguns outros convidados. O Alves da Silva centralizava a palestra. Sentado em uma cadeira de vime, tinha ao seu lado o doutor Gomensoro, junto ficava-lhe o “seu” Monteiro, um velho português, calvo e gordo, baixo e sangüíneo, em quem um rosto cheio sempre barbeado dava um esquisito realce aos bigodes brancos, cingindo uns lábios polpudos e jovens, O Senhor Monteiro era homem de fortuna, ganha muito, muito honestamente, em empreitadas de estradas de ferro. No interior do Império, onde vivera os primeiros anos, a construção de uma via dessas viera supreende-lo com uma pequena taverna. Em falta de lugar melhor, o engenheiro encarregado da construção tomava refeições em suas casas e animara-o a aceitar a empreitada de um trecho. Ganhara dinheiro na tentativa, experimentara uma segunda. Fora feliz, e daí por diante a fortuna cresceu-lhe com segurança. Há oito anos enviuvara, e os seus filhos educavam-se na Europa, em companhia de parentes de sua mulher. Alves da Silva animava essa amizade, mais do que a do doutor Alfredinho, com quem também conversava, bacharel novel e filho do visconde da Meia Ponte, senador por Goiás. Doutor Alfredo estava em pé, encostado ao gradil da varanda, tendo ao lado o alferes Boaventura, um conhecimento do Feliciano, sobrinho do antigo amanuense, que também fazia parte da sociedade. Boaventura, Boaventura Iperoig da Silva, alferes-aluno, era um rapaz de estatura meã, que roçava então pelos vinte e três anos. Com as bochechas fortemente salientes, o seu rosto redondo e acobreado repousava, atormentado, sobre um pescoço demasiado delgado para o volume da cabeça, que era grande e coberta de grossos cabelos, lisos e muito negros. Acabava na Escola Militar da Praia Vermelha o curso de engenharia militar, gozando nesse estabelecimento de uma fama de geômetra que o próprio Newton invejaria. Se sobre o Boaventura, de qualquer seu colega se fosse ouvir a opinião, seria essa só: — Boaventura! É habilíssimo. Tem talento, sabe muito bem matemática. O curso todo é só distinção e quem tira distinções no templo da Ciência é porque é coisa como diabo! De fato, Boaventura tinha um curso brilhantemente distinto. Seus atos anuais congregavam uma larga assistência. — Hoje, era do “zunzum” dos corredores, Boaventura faz exame — você não vai assistir? A princípio, isso acanhou-o; com a continuação, porém, ele se foi habituando e, como tivesse grandes sonhos de mando, aproveitou para ensaiar efeitos oratórios. Preparava-se para as truculentas sessões das assembléias políticas. Desde muito que abraçara o positivismo científico e filosófico, mas, há alguns tempos atrás, convertera-se à religião da humanidade. Baniu dos seus hábitos o café, o fumo e o álcool. para o qual, justiça lhe seja feita, fora sempre remisso. Transformara-se em quase positivista ortodoxo e a toda a gente se lastimava de ainda não se poder considerar como tal. Com estar já demasiadamente avançado na “doutrina regenadora”, Boaventura, entretanto, não lhe sentia pesar na consciência a sua posição de cientista oficial e, sobretudo, a de militar. Achara (ele ou outro iluminado) pequenos acomodamentos com as “suratas” da Politique; e o apóstolo da extinção de todas as academias — os entraves à total regeneração — continuou a fazer placidamente os seus atos escolares. No exame de Mecânica, já completamente assimilado ao “regímen definitivo”, como incidentemente um examinador se referisse ao teorema de Sturm, raivoso e solene, Boaventura contestou desabridamente — O teorema é de Fourier, porque, na série dos grandes servidores da humanidade, Fourier fica muito mais alto que Sturm, que foi um puro algebrista. O velho docente olhou-o e sorriu com bonomia; e, aprovado grau dez, distinção, pela escola correu, para sua maior glória, que “espichara” o lente F. Vogava assim o distinto Iperoig da Silva envolvido na névoa acariciadora que dá a fama; e ao seu orgulho de oficial (era alferes-aluno), de bom grado juntou o de cientista e filósofo. E a r de ver como ele se referia aos senadores, ministros, à gente em evidência enfim. Uns literatos! Metafísicos! Ignorantes! Literato era na sua boca uma extraordinária infâmia. O que de injurioso havia nesse vocábulo empregado por ele, sobrevalia aos mais soezes que um carroceiro da Saúde empregasse. Não é que Boaventura detestasse a literatura; muito ao contrário, prezava-a, distinguindo somente a alta e “a que anda por aí”. E tanto Boaventura prezava a alta literatura é que, às escondidas, sacrificava as musas. Lia o Guerra Junqueiro e depois pingava em quatorze versos a sua profundeza sabichona. A lei dos três estados merecera-lhe nove sonetos; e a Revolução Francesa, comemorada, data à data, tipo a tipo, uma profusão deles. Os episódios da história pátria estimulavam a sua musa. Tiradentes provocava-lhe um poema. Certa vez, fundaram na escola uma revista e Boaventura, convidado a colaborar, aparecera pelas páginas dela, assinando um soneto “Augusto Comte.” A obra foi lida e relida, e um verso, creio que o último — mostrando aos homens o dever do justo — foi citado, gabado, e viveu durante muito tempo na memória dos seus condiscípulos. Como lhe parecesse que a sua fama exigia um trabalho de ciência ou filosofia, no quinto número, o Boaventura publicou — “A classificação das ciências Estes dois trabalhos muito ajudaram a cimentar a alta autoridade científica de que ele veio a gozar. Boaventura Iperoig da Silva foi sempre, como dessa vez, coerente com a sua teoria — prezou a alta literatura: — Dante, Petrarca, Shakespeare... esses, sim! como ele dizia. Com todos esses predicados, Boaventura tinha uma conversa desagradável. O seu espírito rígido falava por dogmas; e não possuía a flexibilidade precisa para borboletear pelos pequenos assuntos. Em conversa sobre coisas altas, se era fortemente contraditado, fraqueava; e pouco e pouco se acastelava em breves axiomas invariavelmente os mesmos. Seu espírito não amava à análise. Discutindo, do mais insignificante argumento, retrucava com uma suntuosa generalização sabida e decorada. Às vezes, no palestrar, se enfurecia; e por seus olhos perpassavam os mesmos relâmpagos que fuzilaram nos dos chefes árabes, ao tempo da expansão islâmica. Utopista, ele tinha um grande descontentamento da realidade, a se manifestar num constante azedume, agressivo e insolente para tudo e para todos. Tudo o irritava. O que, a qualquer de nos, pareceria coisa de nonada, aos seus olhos ganhava a proporção de um sacrilégio. Bastava a fórmula de um decreto, o comparecimento de um governante a uma festa anódina, uma condecoração conferida ou recebida. Azedo, quase sempre, e hostil, seu gênio lhe valera múltiplas desavenças entre os colegas; e, se não fora o seu prestígio de inteligente e estudioso, teria tido péssimas conseqüências. Sua irritabilidade era uma fúria a lhe perseguir, turvando-lhe os melhores momentos da vida; entretanto, na casa do Alves da Silva, se transformava um tanto. Palestrando polidamente, quase que se não adivinhava nele o feroz dilatador da fé positivista na Praia Vermelha. A palestra, que, na varanda, até ali se mantivera fria, começava a se animar. O velho português, que, com seus hábitos de viúvo vagabundo, bisbilhotava a vida de toda a gente, preparava-se para contar um caso escabroso, acontecido há dias. A criada veio interromper-lhes oferecendo vermute. O velho Monteiro já havia citado os nomes e a parentela das pessoas em jogo, quando de novo foi interrompido por um bando de moças, entre as quais ia Clara. Ele lançou um olhar furtivo sobre o grupo e, quando afastado, recomeçou. Relatou-o em poucas palavras. Uma moça e um rapaz, casados de pouco, se separaram, havia dias, com grande escândalo, trazendo a moça uma moléstia horripilante. Entre risotas, comentou-se compadecidamente o caso. Boaventura fechou o rosto e nada disse. Fez exceção. O Alves da Silva aventou um remédio pra evitar no futuro casos idênticos. — O pai, dizia ele, ao se lhe pedir uma filha em casamento, deve pesquisar não só a limpeza da família de que procede o noivo, como também lhe incumbe descobrir os costumes íntimos do rapaz, os seus defeitos, etc. Só assim, só assim, repetiu, se evitariam desgraças dessa natureza. A opinião do Alves da Silva foi ouvida com acatamento, mas o doutor Alfredo aventurou-se a contradita-la: — Qual, Seu Silva. Isso era inútil, perfeitamente inútil. — Como inútil, doutor? Então, se... — Inútil, retrucou o bacharel. Inútil. A um noivo esperto seria fácil embair o pai; mesmo porque, ao pai, a menos que não fosse um profissional, faltaria a competência científica, legal, por assim dizer. Não acha, doutor Gomensoro? — Perfeitamente. Sou da sua opinião. — Então, não há remédio? perguntou o dono da casa. — Há. Como não há! Na legislação sobre os casamentos, pode-se estatuir que eles não se realizem, senão depois dos noivos apresentarem certidões comprobativas de que não estão afetados de moléstias transmissíveis. O doutor Alfredo falava devagar, pesando bem as palavras, a sua justeza e a propriedade delas. Parecia estar redigindo um artigo de lei; e, quando acabou de expor, disse com firmeza, sacudindo o cigarro na mão esquerda: — É o único remédio plausível, no meu fraco entender. Preguiçosamente o doutor Gomensoro apoiava-o com freqüentes: de acordo, de acordo; e logo que o legista acabou de falar, disse com indolência: — Eu já tinha pensado nisso. Recostou-se na cadeira em que estava sentado puxando uma forte fumaça. O Alferes Boaventura julgava a medida uma exorbitância do Estado, porquanto, afirmou ele, na época de transição em que estávamos, a sindicância, a haver uma, competia às famílias; e quando chegássemos ao regímen normal, em plena sociocracia — então sim! — a situação regular-se-ia perfeitamente com os “casamentos castos”. O auditório ficou surpreso e se entreolhou, prendendo uma gargalhada. Quiseram meter à bulha a “história” dos casamentos castos, mas lembraram-se logo da fúria com que o alferes recebera a troça, feita, há tempos atrás, numa das suas idéias. Afinal o doutor Gomensoro indagou: — Admite, então, o senhor que, enquanto não vem essa época normal, o governo deve consentir nesse contínuo apodrecimento da raça? — Admito, pois não. — O senhor admite isso? inquiriu admirado o velho empreiteiro. — O papel do Estado moderno deve unicamente consistir na manutenção da ordem interna, não intervindo na esfera espiritual de forma alguma, quer seja religiosa, científica, ou mesmo artística, disse Boaventura tal qual como se recitasse um trecho de catecismo. — Dir-me-á o senhor como ele deve manter essa ordem, se?... ia interrogando o Alves da Silva. — Muito simplesmente, cortou-lhe a palavra o Boaventura. Mantendo plenamente a propriedade e... — Se assim é, observou o bacharel, o tenente chega à conclusão que a escravatura deve ser mantida. Mantendo plenamente a propriedade, repisou lentamente o doutor Alfredinho, como querendo fazer melhor compreender o seu raciocínio. — É um sofisma. A escravatura é nos tempos modernos imoral e criminosa. Restabelecida na América, foi um retrocesso na História. A influência do catolicismo, benéfica quando a fez desaparecer da Europa, foi criminosa apoiando-a na América. Portanto, não há fundamento na sua objetação. — Como não, tenente? Bem examinando, nas suas origens, nos seus primórdios, qualquer espécie de propriedade é imoral e criminosa, retrucou com segurança o bacharel novato. — Ora! Ora! meu caro, exclamou o Boaventura. Isso é divagação metafísica muito estimada dos pedantocratas acadêmicos. Não forme opinião por eles. A secura de suas almas, os baixos pendores que os movem, tudo isso não permite que eles tenham um verdadeiro pensamento social, humano e altruístico, pois que, como já resumiu numa admirável máxima um moralista moderno, “os grandes pensamentos vêm do coração”. Estas palavras foram ditas com calor, cheias. A fisionomia do alferes, ao dizer as últimas, tinha uma estranha expressão de beatitude. Os vermutes, nos seus copos, sobre uma cadeira, pacientemente esperavam lábios que os bebessem. O doutor Gomensoro foi o primeiro a servir-se, os outros imitaram-no, exceto o Boaventura, que não bebia O sobrinho do Alves da Silva, que até ali nada dissera, animou-se a entrar na conversa, perguntando: — Você é abolicionista, Boaventura? — Não sou abolicionista nem escravocrata, como não sou nem a favor nem contra os eclipses. Os acontecimentos sociais regidos como quaisquer outros por leis invariáveis, desvendados pelo maior dos filósofos de sempre, realizam-se independentemente da nossa vontade. É em vão querer ou não querer, respondeu o alferes. — Eu, cá para mim, sempre quero alguma coisa, atreveu-se a motejar o antigo amanuense. Não quero a abolição, pois trará desastradas conseqüências econômicas. Deixei os liberais... — Não se preocupe com liberais e conservadores, interrompeu com fogo o alferes. Quer uns, quer os outros, são incapazes de nos dirigir. Ignorando por completo as leis que regem a atividade do homem no planeta, são perfeitamente inábeis para presidir a passagem do regime metafísico para o positivo, porquanto, segundo afirma uma lei de filosofia primeira, todo intermediário deve se subordinar aos extremos, cuja ligação ele opera. Boaventura falara extraordinariamente animado. Excepcionalmente se conduzira polidamente na conversa. Mais ou menos, os convidados do Alves da Silva conheciam o gênio do alferes; e, sabendo a consideração em que o tinha o dono da casa, evitavam agastá-lo; e muito a medo animavam-se a discutir-lhe as idéias. Ele tomava a fraqueza da réplica como uma prova de inferioridade mental dos outros, chegando a adivinhar em alguns uma ponta de conversão à sua magnífica doutrina. O alferes tinha também a mania da catequese, e não é de admirar que a tivesse, quando sem número eram os incrédulos. Já um tanto amável, o Boaventura preparava-se para continuar, quando a presença de uma pessoa no portão cortou-lhe as primeiras palavras: — Que é comadre? disse o Alves da Silva, levantando-se. — O Manuel tem passado mal; arqueja; pergunta por Clara. E eu vinha pedir licença ao senhor pra levá-la. O antigo amanuense coçou a cabeça e por fim, com alguma rudeza, disse: — Licença! Pois é sua filha — leve-a. — O compadre há de me desculpar, mas o Manuel pede... chora, fez dona Florência com humildade. — Deixe estar, minha senhora, interrompeu o doutor Gomensoro, amanhã irei vê-lo. Há de ser uma forma de impaludismo e mais nada. Clara saiu em meio de uma tristeza geral. Levava metade da festa, e com ela o piano também parecia ir. Anunciado o jantar, o Carlos Alves da Silva pôs-se a carregar cadeiras para a sala de jantar; e, como uma se atravancasse no corredor e resistisse os seus arrancos, o despeito contido rompeu-lhe: — É isso! Essa gentinha pilha-se assim, assim, julga-se gente... Tem uns dengues, uns derriços... A mesa esperava-o. Contados antes cautelosamente, os convivas eram quatorze. A sopa fumegava em frente ao anfitrião, na cabeceira. O porco, o assado, o peru, atravancavam a mesa com o arroz de forno, a salada etc. etc. Discutiu-se abolição; e a república também. Boaventura achava a república fatal, porquanto, dizia ele, no Brasil não havia tradições, nem nobreza, e por isso... — Não há nobreza! contestou o Alves da Silva. Há, sim senhor. Está aqui um que é. Sou nobre; por parte de minha mãe, descendo dos marqueses de La Rochart, fidalgos franceses. Há, sim senhor! Como não? O militar evitou a questão e, pela sobremesa, em seguida ao bacharel Alfredo, que brindara ao dono da casa, saudou o belo sexo — a providência moral do homem — na frase do grande filósofo Augusto Comte. Pouco depois de findo o jantar, o médico caridoso despediu-se, saindo em companhia da mulher, as filhas e a ama. A viagem foi feita no mais absoluto silêncio. A negrinha, a cochilar, levava ao colo o pequeno Zezé a dormir. O Oscar, o mais velho, de dez anos, sentado, dormia recostado nos joelhos da mamã. O doutor vinha absorto, cogitante. Olhava fixamente uma fresta do teto. Sonhava... Cismava. De onde em onde, aspirava fortemente o cigarro; e, entre duas fumaças, sua fisionomia vincava-se, contraía-se rudemente. Sua mulher olhava-o de esguelha, com a fisionomia aberta de satisfação. Seguia dobra a dobra as contorsões do seu rosto; parecia querer entrar na sua cogitação, no alto pensamento que o devorava. Logo, ao chegar ao lar, mesmo antes de despir-se, o doutor correu à biblioteca, tirou um volume, consultou-o nervosamente, em seguida outros, e depois veio para sua mulher, exclamando: — Filha! Que desgraça, meu Deus! Que desgraça! Tantos anos perdidos em vão! Soluçando, enchia o quarto com as suas longas passadas.
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