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Capítulo 6 · Diário Íntimo

1904 — Parte 4

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E o Rafael , no Largo do Rossio, fez um extraordinário — pois fez populares chorar — um extraordinário discurso. Eu não ouvi; tenho pena. *** 20 de fevereiro. Há mais de dez dias que não tomo notas. Nada de notável me há impressionado, de forma que me obrigue a registrar. Mesmo nos jornais nada tenho lido que me provoque assinalar, mas como entretanto eu queria ter um registro de pequenas, grandes, mínimas idéias, vou continuá-lo diariamente. Ontem, estive em casa do Tigre, com Alcides Maia, que na verdade é um rapaz que promete. *** Sem data Saião, amanuense comigo em 1904 e 5. Burro. Pobre. Tonto de sua família — Saião Lobato e Costallat. Ignorante. Fumaças de escritor. Escreveu uns pensamentos e reflexões que eu devo ter entre os meus livros. Curiosos de asnáticos. Como lhe chegassem aos ouvidos que eu estava escrevendo um livro — o Clara dos Anjos — deu-se para espalhar que estava escrevendo outro. Sobre botânica e zoologia. Coisa transcendente. De agora em diante, está no meu trato. Registrarei as suas palavras e as suas coisas. *** É incrível a ignorância dos nossos literatos; a pretensão que eles possuem não é secundada por um grande esforço de estudos e reflexão. Presumidos de saber todas as literaturas, de conhecê-las a fundo, têm repetido ultimamente as maiores sandices sobre o Gorki, que anda encarcerado na Rússia, por motivo dos levantes populares lá havidos. Há dias, conversando com o Tigre, ele me disse que esse Gorki nada valia — escrevera uns contos, coisas de fancaria socialística. É incrível, mas é verdade. Quando eu lhe disse que o Máximo tivera o Prêmio Nobel, ele se admirou — não sabia . Entretanto, Tigre é uma das esperanças da geração moderna. Domingos, bom rapaz, algo mais ilustrado que a maioria dos novéis literatos, cerebrino autor do Sê Feliz, vai fazer um discurso sobre o Bordalo Pinheiro. Não acredito que essa coisa do Bordalo seja sincera. Como caricaturista, ele era um pesadão, a sua caricatura era alguma coisa barroca, com os motivos portugueses desgraciosos, folhas de parra, pipas de vinho, suínos, etc. etc. Desenhista, eu o não conheço. O que se salva nele é o ceramista, e esse só alcança a Portugal, com quem, eu penso, ele não há de querer repartir a glória. Sendo assim, é positivamente idiota e sem razão essa manifestação que lhe vão fazer. Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores. Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, pressentindo isso na tradição dos escritores passados, embora inferiores. É uma literatura de concetti, uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopéia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal: amores ricos, mortes de parentes e coisas assim. A pouco e pouco, vou deixando de os freqüentar, abomino-lhes a ignorância deles, a maldade intencional, a lassidão, a covardia dos seus ataques. *** E como tencione fundar uma revista com o Alcides Maia e mais outros, só me encontro com literatos aos sábados, e com estes do Alcides, que, se não têm todos talento, têm vontade, cavalheirismo e tenção de qualquer coisa. *** Juca Rocha era um conhecido proprietário de casa de jogo. Sustentando, dirigindo estabelecimentos dessa natureza, mantendo a família num luxuoso palacete em Botafogo, e freqüentando ela a “gente” hors ligne de lá. Suas filhas casaram-se com vários magnatas. É um caso curioso e denunciador do relaxamento dos nossos costumes. Da sua casa de jogo, na Rua de São José, eu vi sair senadores, deputados, militares, etc. etc. *** Contou-me o Luís: Um oficial, quando cadete, se amigara com uma mulher, madame Cartomante; ao seu enterro, quando foi esse oficial, o carro, por mais que o cocheiro fustigasse os cavalos, não se movia. O acompanhamento já ia longe, quando o alferes resolveu não acompanhar, mandando que o carro seguisse outro caminho. O carro, então, rolou placidamente. *** Sem data. Amanheci mal, tive até um sonho erótico. Saí às nove horas, fui à missa na igreja da Glória. Como estivesse embotado com a má noite que passei, não pude tomar uma nota. Vim à cidade, almocei com os Batistas, bons rapazes. Fui ao Leme, aborreci-me. O Metelo, um rapaz gago de Mato Grosso, caceteou-me enormemente. O Pereira, burro e sem nenhum relevo, encheu-me de sono a volta. Por desencargo de consciência, fui à casa do César Vilares, um bom rapaz, a quem devo vários favores, mas que é extraordinariamente aborrecido como companhia, pois por falta de hábito é gauche conversador. Em casa voltei. Esquecia-me de dizer que na sexta fui com minha irmã à casa do Artur, dancei e bocejei. É o que tenho a relembrar desses quatro dias. *** Sem data. Eram vulgares no tempo em que morei nos subúrbios os clubes dramáticos. Em Cascadura havia quatro; no Riachuelo, um; no Méier, três; em Todos os Santos, um. Tinham títulos singulares. Um era, Cassino do Méier; outro, Clube Dramático Esperança. Em geral, eram sórdidos, baixos, um simples barracão coberto com telhas de zinco, e um jirau que era o palco. As mulheres se vestiam quase à vista dos homens. Mensalmente davam récitas. As amadoras, além de lhes faltar beleza, porte, gramática, não tinham voz, graça e jeito. Os rapazes ainda piores. Nos papéis dramáticos ou trágicos, presos da ênfase, tornavam-se ridículos. Uma vez, no Esperança, quando um ator invectivava a esposa culposa, a platéia caiu na gargalhada. Quando em papéis cômicos, caíam na palhaçada, na “esculhambação”, como se dizia no tempo. Traduzia perfeitamente o fundo burro, inestético da nossa gente. As peças eram pavorosas sensaborias, velhas e sem mérito, cortadas aqui, ali, surgiam à ribalta, representadas por tais atores, como pantomimas idiotas. Findo o espetáculo, um qualquer dos sócios redigia uma notícia e levava a um amigo de um jornal que a publicasse. Exemplo: *** “Grêmio Jupira — Com o encanto e brilhantismo de sempre realizou, sábado último, esta simpática sociedade mais uma récita, sendo levada à cena a chistosa comédia: Os Amores de um Boticário. Os distintos amadores, a quem estavam confiados os difíceis papéis, saíram-se corretissimamente, sendo dignos de menção as exmas sras d. Januária Teixeira, d. Hilda Nolding e d. Maria Azevedo, que com extraordinário realce tiveram ensejo de demonstrar os seus conhecimentos do palco, e os srs Oscar Amazonas, Joel Braga, J. Júlio, A. Braga e Ribeiro de Sá, que plenamente as coadjuvaram no bom desempenho da peça. Terminando o espetáculo, tiveram início das danças que, sempre animadas, se prolongaram até alta noite.” *** Sem data. É curioso comparar a maneira com que o Debret pinta os negros e os brancos. O ponto de verdade dos dois... *** Sem data. Crisólito — Crisoberilo — Crisópraso. *** Francisco de Castro Morais, governador em 1710. Guarnição — dois regimentos de infantaria, duas companhias de artilharia. *** Aprisionaram uma sumaca, da Bahia. *** Fossem atacar a fortaleza da Praia Vermelha, mandou mestre de campo João Paiva. *** Lei de 24 de janeiro de 1756 sobre negros e mulatos. *** Quilombolas — Lê-se no alvará de 3 de março de 1741: ...... partus sequitur ventrem. *** Peça da índia — negro escravo. *** Pritchard, citado por Gobineau, pretendia provar que o negro moçambique tinha aptidão para grande personagem. Até que ponto o livro do conde Gobineau influiu no Darwin ? Gobineau diz que Darwin e Buckle “ont créé ainsi les dérivations principales du ruisseau que j’ai ouvert”. *** Sem data. O número da folha de pagamento de papai é 46v. *** 10 de julho. Campo de Sant’Ana. Uma mulher me veio ao banco em que eu estava sentado, trazendo uma criança no colo e pediu-me algum dinheiro. Dei-lhe trezentos réis. Rico Brasil! Não há miséria. Disse-me ela que a criança não tinha mãe, mas eu creio que quem lhe faltava era o pai. *** Gobineau — meio-nada. *** Gobineau — dia 10. Guizot: a civilização é um fato. A civilização para ele não é um fato, é uma série de fatos, um encadeamento de fatos mais ou menos logicamente unidos uns aos outros, e gerados por um concurso de idéias muitas vezes múltiplos, idéias e fatos fecundando-se sem cessar. “Civilisation est un milieu dans lequel elle (l’humanité) a réussi à se mettre, qu’elle a créé, qui émane d’elle, et qui à son tour réagit sur elle”. “Civilisations, un état de stabilité relative oü des multitudes s’efforcent de chercher pacifiquement la satisfaction de leurs besoins, et raffinent leur intelligence et leurs moeurs”. Princípio-macho na civilização — útil; princípio-fêmea — sonho. *** Sem data. Seria uma bela obra um romance em que se tratasse a antiga fazenda com escravos... *** 12 de junho. Facada do filho do doutor B ... S ... (quatrocentos réis). *** 18 de junho. Facada de uma pobre mulher no Campo de Sant’Ana (cem). Injustiça: ao filho do almirante não tive pena de dar quatrocentos, mas... *** 14 de junho. Nada de novo. Lobão me comunicou que está no Malho. Grande terra esta! *** Sem data. Eu me lembrava de ter lido não sei onde que Dalloz observava que, quando a desordem anda nos espíritos, as leis tornam-se numerosas e são sem cessar as reclamações de novas leis que nada conseguem, porque o indispensável é reformar os espíritos, para o que elas são impotentes. Que diabo ia eu fazer em casa de jurisconsulto? Que tinha ele de meter-se em questão intelectual? Por acaso a gente que incumbia decidir a questão, não era suficientemente esclarecida para resolvê-la por si mesmo? Mas o tempo era legiferante; e a opinião tinha fé no manipanso da lei e nas coisas rebarbativas e, em geral, falsas dos pareceres dos juristas. As melhores leis foram as que romperam as anteriores. Há quem diga isto; e estamos coincidindo a tal ponto, que a excelente será o que romper todas as demais. O Campo de Sant’Ana estava sempre tranqüilo. Aqueles dois mármores de entrada, muito brancos, nasciam da grama verde, como lírios... *** 9 de julho. Domingo. Amanhã, hoje, ontem, fatídicas palavras com o mesmo significado. Tédio, conseqüência da miséria. Haverá de fato necessidade de submissão? Ou será inútil semelhante coisa, podendo a sociedade existir sem ela? Nansen, Viagem ao Pólo, lida pela quinta vez, hoje, 9 de julho, muito frio, pouco dinheiro, nenhum é melhor dizer. 1905. Encantadora viagem, saborosa como uma ficção; entretanto, aqui, ali, há coisas pueris, reflexões vulgares, que, entre nós, publicada aquela obra, não haveria quem não nas atribuísse ao Conselheiro Acácio, vulgus fecus. Depois de três meses de interrupção, deu-me vontade de escrever, ou continuar a escrever meu livro. Publicá-lo-ei? Terá mérito? En avant . Escrevi um bilhete ao Manuel Ribeiro. *** 17 de julho. Dia 17 de julho de 1905. Secretaria. Dez e meia da manhã. A sala da seção do expediente está completa. Todos vieram. Só falta o S..., o chefe, que a faltar tem levado quarenta dias. Estava doente. Fui visitá-lo. Achei-o mal, abatido, carcomido. A família, agradável, simples. Jantei com ele, bom acolhimento. Tem uma filha que não é feia e possui mesmo uma distinção de busto, um que-quer-que aristocrático que me agradou. É a vida. Bem! Secretaria, dez e meia, segunda-feira. Lauriano, um contínuo, entra na sala. Pelas suas costas, a porta por onde entrou fere o batente com estrépido. A dois passos do primeiro oficial que serve de chefe, o Vaz de Barros, ele pára e diz: — Anuncio que “Seu” Silva morreu. Cada um, ao ouvir aquelas palavras, que ele pronunciara levemente, ergueu as cabeças, cujas fisionomias — maus atores! — se esforçavam por ter um ar de compunção. Ninguém sente. Apesar de viverem, ou terem vivido com ele dez, vinte, trinta anos, a amizade não lhes ligou as almas. Não havia afinidades entre os espíritos deles e os pequeninos atritos de carreira ainda os separou mais. Entretanto, eles se esforçam por ter compaixão e dos traços do seu rosto nada sai e dos seus lábios só um banal: — Coitado! O Belo é o mais aperfeiçoado de todos, como eu já observei algures, é o homem mais sensível às dores formalísticas e de polidez. Logo depressa se apressou no plano das homenagens: que se devia fazer isso, aquilo, etc. etc. É tremendo esse Belo. É desses exemplares de homens que substituíram por completo sua alma pelo papel escrito. Um cartão de pêsames, no seu imaginar, e algumas linhas públicas, no seu pensar, são grandes lenitivos pra dores, pra aflições. Um dia, morreu a filha de um major, com quem ele tinha conhecimento, por tratar em interesse de serviço com ele, aqui na secretaria; pois bem, logo que soube da notícia, encheu de uma ou duas linhas um cartão e mandou-o. E a um seu companheiro que lhe perguntou o que era: — Um cartão de pêsames, disse, ao major fulano de tal. Sou assim, meus amigos, nas horas das aflições, é que vou em busca dos amigos. Com o tal cartão, e ele não gastara nada, nem pecuniariamente, nem doutra qualquer forma. Escrevera-o com parca sintaxe e bela caligrafia, entre risadinhas e comentários alegres, e mandara-o com o carimbo oficial, recebendo-o gratuitamente da casa fornecedora de papel. Bela alma! E eu vou assim também ficando. O Belo, hoje, 18 de julho de 1905, afiançou que, se o Silva morreu, foi devido a essa nossa carreira (administração). Porque, raciocina ele, a moléstia era antiga e ele não se tinha podido tratar. Ganha-se uma miséria. O Silva, horas antes de morrer, disse a um parente: — Siga o cachorro e porco. *** 27 de outubro. Vim, hoje, 27 de outubro de 1905, no trem com o Oliveira, um antigo caixeiro da botica do Vilares, que me apresentou ao senhor Cordeiro, empregado da Casa da Moeda. “Seu” Cordeiro é homem velho, pardo sem ser mulato (?), de pele encarquilhada, a boca pequena calcada para dentro e projetando o queixinho redondo pra fora. Um bigode ralo amarelaço sempre aparado, com uma penugem de pássaro, enquadra-se magnificamente bem em semelhante rosto, a cuja superfície, e, sem exagero, quase no seu plano, brilham uns olhinhos pardos, aureolados com o halo da velhice. Os cabelos, muito lisos, t is como se fossem falsos, a descem untados das bordas internas do chapéu. É, me pareceu, como uma chincha (aquelas múmias do Peru). “Seu” Cordeiro é etimologista. Vai procurar a exata origem da palavra “cigano”, que, etnográficamente, segundo a sua abalizada opinião, são judeus. Disse-me, quando se tratava de superstições, que, embora o metafísico fundamentado fosse uma dúvida, ele não acreditava nessas bobagens: varrer casa de noite, diabos em encruzilhada. Há dias, foi daí que lhe veio o seu cepticismo astronômico, há dias, estando na estação de Engenho Novo, o Sol caía com tanta força sobre um lampião de gás e a luz se refletia com tanta força, que era como um astro de primeira grandeza (sic). Assim — concluiu ele, muito logicamente — são as distâncias calculadas de quarenta milhões e mais de léguas daqui ao Sol. Ao saltar, confessou-me que tinha estudado todas as religiões, e profundamente. Vou explorar esse filão. Deve ser de uma riqueza de estontear. *** Sem data. Há dias, por motivos de minha profissão, fui obrigado a entrar na Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Vestia-me mal, é fato; mas entrava certo de que era cidadão brasileiro, homem de algum cultivo, cumpridor dos meus deveres, e, sobretudo, protegido da crença que, tendo freqüentado uma dessas nossas escolas superiores, mereceria dos contínuos de lá o tratamento que se dá ao comum dos mortais. Enganei-me. Dirigi-me ao contínuo, no primeiro pavimento, que, com a habitual morgue dos altos e baixos funcionários, aconselhou-me que subisse. Até aí pisava no Brasil, agora, parecia-me, passava a fronteira. Dois contínuos, enfardelados em amplas sobrecasacas pretas com botões dourados, ocupavam-se pachorrentamente em cortar jornais, pregando os retalhos num livro em branco. Original ocupação dos contínuos da Secretaria do Exterior! Medroso do meu ato, ousei interromper-lhes a tarefa: — Precisava isso assim, assim; os senhores podem etc. Os dois respeitáveis funcionários olharam-me de alto abaixo e, entre complacente e desdenhoso, um deles disse-me: — Entra. Fiquei atônito, nunca fora assim tratado em departamento da administração brasileira e demais naquele sotaque estrangeiro! Prudentemente entrei, sentei-me, conforme me aconselhava o magnífico auxiliar das nossas relações exteriores. Tinha sob mim uma delgada cadeira dourada meio suja. Em torno, um salão lustrado, amplo e meio escuro; e o teto de estuque tinha pelos cantos o armorial de algum visconde apressado. O estuque encantou-me e, embora sob o peso daquela afronta, interessou-me o relevo dele, as armas do escudo, os florões, os grifos, etc. etc. etc...De quem fora aquilo? Não sabia. O dinheiro que o fizera, entretanto, era fácil de se dizer donde vinha. E, não sei como, eu vi uma grande fazenda: a senhorial casa acaçapada, numa meia laranja de morro branco de cal, enrubescer sob o banho da luz da aurora; as vacas mugiam no curral próximo; o terreiro fronteiro era como vasto lençol estendido. Da senzala, sem que sequer ouvissem o gorjeio dos pássaros, em filas cerradas, saíam, sob o peso do cativeiro, algumas centenas de negros. Aquela viva linha negra a estender, silenciosa, humilde, tinha a energia oculta de um filete que se infiltra pela terra adentro. Depois de furar cem metros, rebenta aqui como uma fonte cristalina; se mais desce, mais pressão e mais temperatura ganha, e complexidade na composição; voltando à flor da terra, é agora termal; se mais baixo vai, mais forte fica, e lá, nos profundos recessos do planeta, complica, revoluciona, baralha, e provoca vulcões. Lá ia a fila negra unida, cerrada, por entre os cafezais... Olhei o escudo, as fantasias heráldicas, as armas de galés e, de mim pra mim, pensei: — Doce fila negra que mourejaste no cafezal, estás ali também naquele níveo escudo; tu entraste nele sem querer; foste aí pela fatalidade das coisas e essa... — Não é isso que você quer?, disse-me o contínuo. E eu acabei de raciocinar: — ... e essa, não há barões, viscondes, duques e reis que a desviem. *** Sem data. Vai se estendendo, pelo mundo, a noção de que há umas certas raças superiores e umas outras inferiores, e que essa inferioridade, longe de ser transitória, é eterna e intrínseca à própria estrutura da raça. Diz-se ainda mais: que as misturas entre essas raças são um vício social, uma praga e não sei que coisa feia mais. Tudo isto se diz em nome da ciência e a coberto da autoridade de sábios alemães. Eu não sei se alguém já observou que o alemão vai tomando, nesta nossa lúcida idade, o prestígio do latim na Idade Média. O que se .diz em alemão é verdade transcendente. Por exemplo, se eu dissesse em alemão o quadrado tem quatro lados seria uma coisa de um alcance extraordinário, embora no nosso rasteiro português seja uma banalidade e uma quase-verdade. E assim a coisa vai se espalhando, graças à fraqueza da crítica das pessoas interessadas, e mais do que à fraqueza, à covardia intelectual de que estamos apossados em face dos grandes nomes da Europa. Urge ver o perigo dessas idéias, para nossa felicidade individual e para nossa dignidade superior de homens. Atualmente, ainda não saíram dos gabinetes e laboratórios, mas, amanhã, espalhar-se-ão, ficarão à mão dos políticos, cairão sobre as rudes cabeças da massa, e talvez tenhamos que sofrer matanças, afastamentos humilhantes, e os nossos liberalíssimos tempos verão uns novos judeus. Os séculos que passaram não tiveram opinião diversa a nosso respeito — é verdade; mas, desprovidas de qualquer base séria, as suas sentenças não ofereciam o mínimo perigo. Era o preconceito; hoje é o conceito. Esmagadoras provas experimentais endossam-no. Se F. tem 0,02 m a mais no eixo maior da oval de sua cabeça, não é inferior em relação a B, que tem menos, porque ambos são da mesma raça; contudo, em se tratando de raças diferentes, está aí um critério de superioridade. As mensurações mais idiotas são feitas, e, pelo complacente critério do sistema métrico, os grandes sábios estabelecem superioridades e inferioridades. Não contentes com isso, buscam outros dados, os psíquicos, nas narrações dos viajantes apressados, de touristes imbecis e de aventureiros da mais baixa honestidade. E hoje é para mim motivo de alegria poder eu dizer tal coisa, poder tratar tão solenes instituições com semelhante desembaraço que não é fingido. É satisfação para minh’alma poder oferecer contestação, atirar sarcasmos à soberbia de tais sentenças, que me fazem sofrer desde os quatorze anos. Oh! A ciência! Eu era menino, tinha aquela idade, andava ao meio dos preparatórios, quando li, na Revista Brasileira, os seus esconjuros, os seus anátemas... Falavam as autorizadas penas do senhor Domício da Gama e Oliveira Lima... Eles me encheram de medo, de timidez, abateram-me; a minha jovialidade nativa, a satisfação de viver nesse fantástico meio tropical, com quem tenho tantas afinidades, ficou perturbada pelas mais degradantes sentenças. Desviei a corrente natural de minha vida, escondi-me em mim mesmo e fiquei a sofrer para sempre. Mas, hoje! Hoje! Já posso alguma coisa e amanhã poderei mais e mais. Não pararei nunca, não me deterei; nem a miséria, as perseguições, as descomposturas me deterão. Sacudi para longe o fantasma do medo; sou forte, penso, tenho coragem... Nada! Nada! Nada! E que senti que a ciência não é assim um cochicho de Deus aos homens da Europa sobre a misteriosa organização do mundo. Quando há dias li numa das histórias do Brasil do senhor João Ribeiro, pág. 234: “Não podemos pensar que o homem de cor, conseqüência semi-híbrida do contato heterogêneo de raças tão distanciadas que, até por eminentes cientistas como Haeckel, são consideradas como espécies diversas, seja a peste da cultura americana, como sentenciam os sociólogos”, ri-me com uma espontaneidade, que até eu mesmo me admirei. Lobriguei no período, debaixo daquele — “eminentes cientistas como Haeckel” — uma excomunhão em regra para os miscigênicos. Até hoje não li Haeckel e tenho pena de não conhecer o inventor de animais curiosos. Um dos traços do meu espírito é a curiosidade pelas criações humanas. Não se me dá que sejam verdadeiras; o principal, para o meu espírito, é o esforço de inteligência que elas representam e que eu amo. Leio-as, compreendo-as até o ponto que quero, depois fecho livros — certo de que o mundo continua ainda [ ] 1906 Sem data Opiniões e idéias de J. Sá Bragança, primeiro oficial da Secretaria dos Cultos. É bacharel em letras pelo antigo Imperial Colégio dom Pedro II, onde foi colega do doutor Joaquim Nabuco. Conhece a psicologia clássica e a metafísica de todos os tempos. É de história sentimental limitada. Não é casado e só amou duas vezes: a primeira vez, a filha de um visconde, num baile de um marquês; a segunda, à sua cozinheira, não sabe em que ocasião. Seguindo o seu favorito método introspectivo, analisou as duas emoções e, ao cabo de análise detalhada, achou-as idênticas em si mesmas e nas aparências. Nunca teve ambições. Filho de um general e titular do Império, podia ter sido “muita coisa”; não quis; era preciso ser doutor, formar-se, o que lhe daria trabalho, amolações... Fez-se praticante e foi indo. Com tão grande saber, Sá Bragança podia ser oráculo de sua repartição, e não o é. As repartições são como a vida em geral — amam os medíocres. Contudo, ele é bom empregado. A Republica veio encontrá-lo a postos, redigindo um decreto do Defensor Perpétuo; e, ao lhe avisarem: — Seu Bragança, o Deodoro proclamou a República no Campo de Sant’Ana. — Qual foi? perguntou As suas reminiscências de história não lhe davam de pronto a idéia nítida do que fosse república. Sabia de tantas e tão diferentes, que o seu embaraço não foi afetado. — República! ... Homessa! ... Governo de todos nós, respondeu o servente. — E você ainda pretende governar? — Eu, não; mas meus filhos... — É de esperar, meu amigo. — Agora, outra coisa: vão restabelecer a escravatura? — Isso não sei, “seu” Bragança. Disse-me ele que, naquela manhã mesmo lera o seu Fustel de Coulanges, a respeito da significação aristocrática do tratamento cidadão. Despido de ambições, acabado o seu curso, não abandonou os livros. Continuou a ler e a comprá-los mensalmente, procedendo a leitura com a ordem e o vagar de quem vai escrever uma tese. Das revistas estrangeiras, a Revue des Deux Mondes é a que mais quer e cita. — É a única que não traz figuras, disse-me ele. Ama as letras pátrias e acompanha o seu movimento com interesse, mas sem paixão. Quando moço, admirou Fagundes Varela e Laurindo Rabelo; hoje, o seu ídolo literário é o senhor barão do Rio Branco. — Mas não tem livros? — É porque não quer. Se os fizesse... E a sua fisionomia se concentrou num olhar que parece estar vendo, ao longe, o triunfo de Tito. Nos dias de bom humor, ele me distingue com as suas piadas críticas: — Na Canaã do Milkau, do doutor Graça Aranha, entrarão o Felicíssimo e aquele simpático “camarada” que dança o miudinho? Não lhe pude responder. A terra de promissão do ilustre romancista fica tão na névoa e no vago — é tão alemã! — que não me atrevi a responder sim. Demais, quem é que precisa de terra de justiça e de amor? Os alemães, sem dúvida! Para Felicíssimo e nós outros, o encorajamento. Lentziano com a carabina do vagabundo da Tijuca, que vem a ser o mesmo. Sá Bragança parece que adivinhou o meu pensamento, quando me perguntou em seguida: — Você já reparou que os nossos [...] *** Sem data. Aos camaradas do Esplendor dos Amanuenses comunica Aff. H. de Lima Barreto, amanuense da Secretaria da Guerra, que vai arejar no Largo da Carioca, onde, durante dois meses, para exercícios variados de artilharia... verbal, continuando, embora com tão árduos trabalhos, a t mar notas para o seu Pequeno Dicionário dos Super-Homens, título esse que o o Rivarol, lá do Inferno onde está, há de gostar muito. Mot de la fin: Rua do Ouvidor. Passa o batalhão naval. — Que te parece? — O que? (para danar o Rui) — O batalhão naturalmente... — Os oficiais são de um país e os soldados de outro. — Um regimento de cipangos. — Um batalhão de sudaneses. — Exato! — Tal e qual! *** Abril O pai de Gonzaga de Sá devia ter nascido em 1813. Gonzaga de Sá, em 1850, e entrou na secretaria dos Cultos em 1872; quando nasceu, o pai tinha 37 anos, e a irmã deve ser mais velha do que ele 12 anos. O concerto do Gottschalk. O benefício da Stoltz. *** O pai de Gonzaga de Sá devia ter morrido em 1874, com, pelo menos, 60 anos — 1814. Fez a campanha do Rio Grande; em 1845 voltou e fez-se professor. Pai Gonzaga N. 1810 1850 1874 57 1850 (40) — G. de Sá Mãe morreu em 12 (1866) General { 1810 Escolástica 1838 (26)..........Mãe morreu em 24 Benefício da Stoltz — 1852 agosto — E. 14 Gottschalk — novembro de 1869. Escolástica Gonzaga de Sá Pai Mãe Benefício da Stoltz 14 anos 2 anos 42 27 Gottschalk 31 19 69 Morta Morte da mãe 20 8 58 O (1858) *** Sem data Opiniões e idéias de J. Gonzaga de Sá, oficial da Secretaria dos Cultos. Encontrei Gonzaga de Sá na Avenida Beira-Mar, numa tarde tépida destes últimos dias. Vinha absorto, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala, de cabeça caída, sem ver as fantásticas mutações nas nuvens altas. Falei-lhe: — Passeando, hein? — Exato. — É uma bela avenida, esta! O meu amigo olhou-me um pouco como que experimentando a minha lealdade. — Não acho, meu caro. Notei as minhas sensações e creio poder resumir o meu exame introspectivo da seguinte maneira: — é o cais da Lapa alargado. Os americanos têm como critério de beleza — a altura; é possível que o nosso venha a ser a largura... — Ainda não está acabada... — Quando estiver, a mais só haverá os passeios, o que é insignificante. — As paisagens? Os pontos de vista? — Não são a avenida propriamente, e já o cais me oferecia o mesmo espetáculo. — Contudo... quis retorquir a minha mocidade entusiasta. — Não se agaste... “Le beau pour le crapaud...”— você sabe não é ? Profunda verdade! ... É possível que, se os homens não precisassem de dois sexos para se perpetuarem, não houvesse surgido entre [ nós ] uma tão curiosa noção. Já não sou um homem mais; a beleza para mim é uma fórmula algébrica, por isso... — Creio que o senhor não maldiz os melhoramentos? — Absolutamente não! Pelo contrário, tenho projeto de novos. Dizendo isto, tirou da algibeira do velho paletó algumas tiras que me deu. — Leia-as. Amanhã me entregue. Eu li então o seguinte: “Nota-se que em geral as grandes cidades, especialmente as européias, não têm um fundo de cordilheira como a nossa. Ora, se as grandes cidades não têm tal disposição natural e se o Rio quer ser das grandes à européia, deve arrasar as montanhas. Não há prejuízo algum com isso. A desvantagem única seria a supressão do Corcovado, montanha internacional e muito procurada pelos estrangeiros. Em substituição, pode-se erguer uma torre semelhante à Eiffel, em Paris. Até será muito melhor, pois ficará o Rio muito parecido com a capital da França. O aterro, proveniente do desmonte dos morros, servirá para alterar a baía, um incômodo, sepulcro de crimes e cuja beleza, no juízo dos políticos, é uma vazia banalidade de retórica. Para o comércio, ficará uma doca; e lá para as bandas de Mauá um lagozinho destinada aos poetas. Nota-se também que as grandes metrópoles ficam sobre rios mais ou menos consideráveis ( Paris, Berlim, Londres, New York, Viena, etc.) — logo se o Rio quer ser grande metrópole deve ficar à margem de um rio respeitável. Poder-se-ia transformar o Maracanã em rio considerável. Com canalizações suplementares às nascentes, o aumento do seu volume d’água poderia ser obtido; mas seria falsificar. O melhor é um rio autêntico e bem catalogado nas geografias.

Diário Íntimo

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