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Diário Íntimo

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Capítulo 5 · Diário Íntimo

1904 — Parte 3

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Vou-lhe dar alguma roupa velha e uns cobres. Não tenho absolutamente a convicção de que seja ele o verdadeiro major, nem tampouco que não é o outro ou um terceiro; entretanto, julgo que a ele competiam as honras; pobre e obscuro, ele precisava qualquer coisa para disfarçar isso, e ainda mais negro... Por falar nisso, o Belo, primeiro oficial, que foi do gabinete do Benjamim, contou-me que a nomeação do Hemetério (é um negro), para professor do Colégio Militar , foi sustada na gaveta por ordem do Lauro Sodré, que sempre lhe recomendava a ele ir lhe pedir para expedir, que esperasse, que esperasse. É singular que, fazendo eles a República, ela não a fosse de tal forma liberal, que pudesse dar um lugar de professor a um negro. É singular essa República. *** Em geral, os homens notáveis do passado são admirados e prezados, não pelo que afirmaram peremptoriamente, mas pelo que supuseram. *** Da Piúca, a maravilhosa Piúca, a belíssima: Um rapaz recitou uns versos, avisando antes que eram do Macedo Papança. A abando de c recitar, ela vai a ele e lhe diz: — Gostei muito desses versos do Sancho Pança. Contou-me o Antônio Noronha Santos, que ouviu do Carlos Silva, com quem se passou o caso. *** 12 de janeiro. Ontem não fui à secretaria. Passo mal. Uma impressão de cansaço, uma vontade de nada fazer, tenho fadiga de corpo. Descendo, vim à Rua do Ouvidor. Encontrei o Carneiro, o Mário Tibúrcio Gomes Carneiro, que sofre de “bovarismo” revolucionário. É um rapaz a quem um desgraçado acidente cortou-lhe as pernas; entretanto ele, em cima das andas, é como se montasse um corcel de guerra. Mata, esfola, derrota exércitos e esquadras. Derruba governos e concerta países. Há nele a alma de um alferes do Exército do Brasil e, se não o foi, deve-o unicamente a seu aleijão. Se o fosse, ele já se teria envolvido em todas as mil mazorcas que tem havido ultimamente. No fundo, é um bom rapaz, algo inteligente, cavalheiro, mas maníaco de possuir um talhe de herói de Plutarco, que o ridiculariza. Ele tem um revólver Nagant, que é mais um canhão, perfeitamente característico do seu gênio: não dispara, quando é apontado ou acionado. Ama a farda, os militares; sabe o nome dos oficiais de cor, seus corpos, suas particularidades. As coisas de caserna tentam-no. No fundo, ele é um alferes que se perdeu pelas pernas. Hoje. Chove pavorosamente. Dia vazio, não há notas a tomar. Do jornal de hoje: “A cura da tuberculose. No meu consultório, à rua Mariz e Barros n.º 35. Uma consulta por semana, fornecendo o meu específico — 30$000. Na tuberculose incipiente, quatro consultas bastam — 120$000. Na tuberculose declarada crônica ou subaguda, para a cura, dez consultas — 300$000, em primeiro período. Na tuberculose, segundo período, não febril, quinze consultas, para cura— 450$000. Na tuberculose aguda, primeiro e segundo períodos, febril, permitindo o doente vir ao consultório, de quinze a vinte consultas — 450$000 a 600$000. Na tuberculose, em começo do terceiro período — um conto a dois, conforme a resistência da moléstia. Haverá mais barateza? Não obstante, propalam que sou um ‘careiro’! E gastam com viagens e outros profissionais ‘contos de réis’ para terem a certeza de ‘falecer’. Dr. Platão de Albuquerque.” *** Veio-me à idéia, ou antes, registro aqui uma idéia que me está perseguindo. Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial e maior sopro de epopéia. Animará um drama sombrio, trágico e misterioso, como os do tempo da escravidão. Como exija pesquisa variada de impressões e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra-prima, adiá-lo-ei para mais tarde. Temo muito pôr em papel impresso a minha literatura. Essas idéias que me perseguem de pintar e fazer a vida escrava com os processos modernos do romance, e o grande amor que me inspira — pudera! — a gente negra, virá, eu prevejo, trazer-me amargos dissabores, descomposturas, que não sei se poderei me pôr acima delas. Enfim — “une grande vie est u e n pensée de la jeunesse réalisé par l’âge mür”, mas até lá, meu Deus!, que de amarguras!, que de decepções! Ah! Se eu alcanço realizar essa idéia, que glória também! Enorme, extraordinária e — quem sabe? —uma fama européia. Dirão que é o negrismo, que é um novo indianismo, e a proximidade simplesmente aparente das coisas turbará todos os espíritos em meu desfavor; e eu, pobre, sem fortes auxílios, com fracas amizades, como poderei viver perseguido, amargurado, debicado? Mas... e a glória e o imenso serviço que prestarei a minha gente e a parte da raça a que pertenço. Tentarei e seguirei avante. “Alea jacta est”. Se eu conseguir ler esta nota, daqui a vinte anos, satisfeito, terei orgulho de viver! Deus me ajude! *** 14 de janeiro. Ontem passei o dia em casa. Um dia bom. Folheei os meus livros, cortei os artigos dos jornais franceses e preguei-os de encontro à lídima prosa de Rui Barbosa. E um perfeito retórico esse tal Rui, glória do Brasil e honra da América do Sul. Pelos dias 16 a 20 de novembro, ele publicou uma carta na Tribuna, fazendo considerações sobre os acontecimentos de 14 e 15. Havia o seguinte: ele dissera que a noite de 14 fora prenhe de ameaças, mas que a providência divina, protegendo o Brasil, permitira que a manhã de 15 fosse clara, radiante e azulada, como convinha a uma manhã cheia de boas novas... Entretanto, choveu muito na tal manhã, que foi feíssima, haja visto o testemunho dos que viveram e viram. Como a retórica exigia, lá vai pura, azulada e radiante. Pois preguei os meus artigos, fumei muito e comi à vontade. Perdi a esperança de curar meu pai! Coitado, não lhe afrouxa a mania que, cada vez mais, é uma só, não varia: vai ser preso; a polícia vai matá-lo; se ele sair à rua, trucidam-no. Coitado, o seu delírio cristalizou-se, tomou forma. Pobre de meu pai! Uma vida cheia de trabalhos, de afanosos trabalhos, acabar assim nesse misterioso sofrimento que me compunge! Hoje, 14, desci da casa, vim à secretaria. O S..., que é o chefe, um curioso tipo de moleza de caráter e de ignorância, quis repreender-me, altercamos e ele retirou-se convencido. Deu-me, entretanto, um grande trabalho. Cópias dos acontecimentos do Juruá. Estou as tirando. A ênfase da linguagem das partes dos oficiais pareceu tratar-se de combates na Manchúria. Palavras bombásticas, frases grandíloquas, a retórica, sempre a retórica. Havia numa delas a palavra da gíria: “corretismo”. O dia acabou morno, sem novidade. *** 16 de janeiro. Um livro que pensei. Tibau, filho de uma rapariga que fugira da casa de seu pai em companhia de um valdevinos, que pouco depois a abandona, educa com grande dificuldade esse filho, que chega a estudar medicina; mas, no terceiro ano, sem o adubo que era sua mãe, a planta fenece sem arrimo e, p r fim, por recomendação de um colega, vai ser professor de História do o Brasil, num colégio em Botafogo; o diretor, notando que era um desar para seu estabelecimento ter um professor sem título algum, arranja-lhe o de major da Guarda Nacional. Eis senão quando o Major Tibau, que do seu avô pouca notícia tivera, vem a saber que ele acabava de morrer no Porto, deixando-lhe (e reconhecendo-o como neto) toda a sua fortuna: dois mil contos. No curso das suas lições de história, Tibau tinha adquirido um grande amor do Brasil e acariciara o sonho de uma Sociedade de Folclore, que se destinava a recolher os cantos, as tradições e a poesia popular da nossa terra. Cultivar e festejar as datas familiares com o sainete nacional e os respectivos manjares. Possuidor dessa fortuna, funda a sociedade, com a qual é explorado por jornalistas, poetas, estudantes, debicado pelos ministros e funcionários, a quem se dirigiu para pedir uma subvenção. Morre numa estalagem, às sete horas da noite, estalagem a que se recolhera com um preto velho, o Nicolau, que, fazendo “ganchos”, ia-o fazendo viver; morre, mandando que se lhe abram a porta e a janela, para ouvir melhor a cantilena da criançada ao luar. *** 17 de janeiro. Desde domingo que não tomo notas. Hoje, 17, vou recapitular estes três dias. Domingo, passei-o em casa. Cortando artigos do Figaro do ano passado e os pregando sobre a lídima prosa do nosso Rui Barbosa. Enchi o dia assim e enchi-o agradavelmente, suavemente. Meu pai freqüentemente me ia apoquentar. Pobre insano. Não quer comer e é preciso forçá-lo, e as perseguições que ele tem no espírito não o deixam sossegar. Às vezes, é preciso obrigá-lo a comer, porque, diz ele, no estado em que está, chamariam-no de cínico, porque come com satisfação. Tendo requerido uma certidão de sua vida ao delegado, veio, nesse dia, o inspetor verificar. O policial entrou na minha casa de cigarro na boca e não o tirou; não atribuo isso à arrogância, pois que ele parecia um rapazola simples, antes a sua absoluta falta de educação. Percebendo a patetice de meu pai, ele apressou o atestado e saiu um tanto acanhado. Coitado, não era mau! Segunda-feira vim à secretaria, passaram-me em mãos cópias das coisas do [ilegível], combate entre brasileiros e peruanos. Não foi combate, pois que cem dos do Peru e cento e pouco dos nossos, que tirotearam durante vinte horas, só podia haver escaramuça. As partes, consoante o jeito nacional, vêm cheias de frases grandíloquas, que fazem crer que se trata da rendição de Porto Artur... A Retórica! A Retórica! Entretanto, elas me deram uma consolação: é a energia e a vitalidade que os brasileiros apresentam naquela região. Não sendo nova essa energia, me parece que ela serve unicamente à humanidade como desbravadora, como batedora, sentinelas avançadas de outra gente que há de vir. Edmundo Bittencourt. Como amostra, pois que não é dos mais primorosos, guardo esse artigo desse jornalista . Os seus processos eram invariavelmente esses; entretanto, com alguns meses de exercício da linguagem, apurara-se um pouco, perdendo os termos rebuscados e antiquados, que ele tinha hábito de usar. É curioso como eu notei, pela primeira vez, a fisionomia desse homem. O filho do Castagnino, hoje Alexandre, fizera exame e seu pai nos convidara a ir jantar no Silvestre, num restaurante que ficava por cima dos bondes. No salão do hotel havia pouca gente, e entre essa pouca me chamou a atenção um senhor magro, de bigodes louros, de olhar de cão de fila ao cio, que em espanhol macarrone perguntava a uma rapariga airada dessa proveniência: — ¿Quiere usted camarones con quiabos? — Si, como non. Acompanhei essa fisionomia e, pouco depois, na Rua da Quitanda, onde o Serrado trabalhava como solicitador, fui-lhe por este apresentado; passando por ele e como ele não me cumprimentasse, decidi também não faze-lo. Meses depois, ele fundou o Correio da Manhã, órgão da regeneração nacional . * *.* Hoje, à noite, recebi um cartão-postal. Há nele um macaco com uma alusão a mim e, embaixo, com falta de sintaxe, há o seguinte: “Néscios e burlescos serão aqueles que procuram acercar-se de prerrogativas que não tem. M”. O curioso é que o cartão em si mesmo não me aborrece; o que me aborrece é lobrigar se, de qualquer maneira, o imbecil que tal escreveu tem razão. “Prerrogativas que não tenho”... Ah! Afonso! Não te dizia... Desgosto! Desgosto que me fará grande. *** 18 de janeiro. Vim no trem com o Viana , pai e filho, neta e irmã. É um tipo curioso de aventureiro esse Viana. Fundou um jornal, a Revista da Época, do qual, por lábias sábias, obrigou-me durante três números a ser secretário, do que me descartei a muito custo. A revista dele é uma espécie de galeria de retratos de varões obscuros. Quando lhe escasseiam os recursos, ele publica um número e, no dia seguinte, corre aos retratados para buscar dinheiro. Anda agora de gorro com um russo. Curioso vagabundo que busca fortuna. Saltou no cais de Pharoux, arranjou um título universitário, é doutor, assim como, se saltasse na gare de Orléans, seria conde ou marques. Dentro do código, como o Galvez e outros, ele com certeza pretende roubar o Brasil. Há ainda com ele o Raposo, tradutor de inglês, um português que foi criado de hotel em New York. Chegado aqui, insinuou-se, e de tal maneira, que em breve fez-se examinador de inglês, em cujo lugar fez uma tabela de aprovações, creio que só. Distinção — duzentos mil-réis; plenamente — cento e cinqüenta mil-réis; simplesmente — cem mil-réis. Para melhor “cavar”, casou-se e, se ainda não fez da mulher um chamariz, foi porque as coisas não apertaram. Ele, com o Viana, estão fazendo um número em inglês. A revista, aparecendo em duas línguas, “morderá” melhor. Além destes, esporadicamente, surgem lá outros: gente honesta, as vezes, mas que, desanimada, se atira ali como a uma gamela de porcos, gente faminta. Eu, graças a Deus, livrei-me dele. *** 19 de janeiro. Dor de dentes pavorosa. É uma coisa soberanamente imbecil, dói-me a cabeça, as faces. Eu vejo o mundo mau através da minha dor. O mundo é decididamente mau, porque o vejo coado na minha dor de dentes. Ela vai passando. As burrices do 5...tiveram o efeito do creosote. O Edmundo Bittencourt foi preso por causa do artigo de que falei há dias; alguns jornais, poucos, protestaram, entre eles a Tribuna, a quem o chefe de polícia mandou avisar, p r um capitão de o sua milícia, que não admitia censura à sua administração. O presidente da República (parece) mandou que o chefe o soltasse, e este soltou-o, fazendo-o constar que o fazia por seu livre alvitre. Esse chefe de polícia, Cardoso de Castro, é a besta mais imbecil que há no Brasil. Irritado, ignorante, esfomeado de dinheiro, babuja-se todo para ficar no lugar em que está. O seu relatório, que é a coisa mais impagável dessa vida, pretende envolver nos distúrbios de novembro platônicos monarquistas, porque, diz ele, fazer propaganda da monarquia é o maior crime possível. A monarquia há de voltar, e eu hei de vê-lo, como chefe de polícia, dizer que a propaganda da República é pior que matar o seu próprio pai. Áulico, esfomeado, imbecil e ignorante, sem capacidade para ser liberal. Desonesto, porque consentia que seus filhos, eu os conheci, recebessem subvenções de bicheiros e morassem em casa de propriedade deles sem pagar. Disso eu sou testemunha. *** 24 de janeiro. Desde sábado, ou antes, desde sexta-feira (20), que não tomo notas. A 20, dia santo de São Sebastião, semi-feriado, vim para minha desgraça à secretaria e de tal forma trabalhei nesse dia, que resolvi não vir no dia seguinte, em que fui à Biblioteca Nacional tomar notas para o meu romance. Pedi maio de 1888; vindo-me, corri o mês, desde 10 até 16, onde recebi confirmação do que pensava. Li, por acaso, algumas páginas do Ateneu e as achei soberbas; entretanto é de desanimar ‘que um livro como aquele não seja lido aos 10.000. O Eça, me parece, escrevia inferiormente, e os seus processos de graça são muito mais grosseiros que os de Raul Pompéia. Entretanto... Ah! O Brasil! À tarde, muito conversei com o Alcides sobre nossa pátria, sobre nossas coisas, nossa política. O Alcides, Alcides Maia, é um inteligente rapaz, inteligência de bom quilate, dessas que não fazem coisas de raio, mas marcham lenta, seguramente, a deixar sulco como uma relha de arado. Conversamos muito e agradavelmente. Éramos eu, o Otávio de Sousa, um bom matemático, que se intromete agora pelas coisas da arte e de sociedade, estreou no positivismo mundano, eu penso rapaz de talento; éramos eu, Otávio e Alcides, depois chegaram o Araújo Viana, músico, e o Cartier , um belo rapaz do Rio Grande, bonito e forte, amplo de gestos e de voz, simpático. Como ficasse tarde, recolhi-me ao quarto do Tigre , paredes e meia do Alcides. Às duas horas, ele chegou e mais dois para buscar o Amarante , para o baile dos Democráticos. É um tipo de literato do Brasil, esse meu amigo Tigre, inteligente, pouco estudioso, fértil, que usa da literatura como um conquistador usa das roupas — adquirir mulheres, de toda a casta e condição. Ia aos Democráticos com o Domingo, que é também literato, e daqueles, que pensa que o literato deve ser o inimigo do casamento, da moral, das coisas estabelecidas, com tintas de darwinismo e haeckelismo, velhíssimas coisas que ele pensa novas, escreveu um romance rebarbativo e idiota, para fazer constar que é um voluptuoso, um lascivo, e põe-se nas ruas a fazer os mais baixos comentários sobre as mulheres que passam: “Que peixão! Que bunda! Oh! A carne!” Isso! Aquilo! É um imbecil. Também o Miguel Austregésilo, gastador dos mais velhos paradoxos que se conhece. Passando seis meses em Paris, ou antes, em Bruxelas, trazia o bolsos cheios de cançonetas que s nós conhecíamos aqui desde dois anos. O outro, Amarante, é um bom menino. É preciso saber que a todos eles eu devo valiosos favores. *** 26 de janeiro. Ontem, quarta-feira, fui a casa do Santos, Antônio Noronha Santos, bacharel, irmão do João, engenheiro, e Carlos. Conversamos amistosamente e inteligentemente. Voltei pra casa, eis senão quando dou com um baile em forma. Eram dez horas da noite. Havia canto, dança, etc. Ora, no estado que meu pai está, com os poucos recursos que temos, positivamente aquilo me aborreceu. Como permitia o meu orgulho que eu recebesse gente, sem oferecer-lhes boas coisas? Como? Demais, meu pai, aluado, na saleta, e o baile, a roncar na de visitas. Não me contive e manifestei logo o meu descontentamento. Isso, ao depois das visitas saírem, deu lugar a um destampatório familiar. A minha vida de família tem sido uma atroz desgraça. Entre eu e ela há tanta dessemelhança, tanta cisão, que eu não sei como adaptar-me. Será o meu “bovarismo”? *** 27 de janeiro. Ontem, ao sair da secretaria, passei pela Rua do Ouvidor e não vi a Palhares. Acho-a curiosa por causa do mestiçamento que nela há, disfarçado pelos cuidados meticulosos da toilette: perfumes, pomadas, pós, etc. Isso aborreceu-me mais do que estava aborrecido e na botica tive sono. Sai e tomei um bonde e fui à Prainha. A rua está outra, não a conheci bem. Se os prédios fossem mais altos, eu me acreditaria em outra cidade. Estive na esquina dela com a avenida, a famosa avenida das indenizações, subi-a a pé, tomei pelo que resta de beco da Rua da Prainha, agora em alargamento, e segui pela Rua Larga de São Joaquim, prolongada e alargada até o Largo de Santa Rita. A rua quebra um pouco do primitivo alinhamento, mas mesmo assim ficará bela. Entretanto, como vêm já de boa administração essas modificações, acredito que o Rio, o meu tolerante Rio, bom e relaxado, belo e sujo, esquisito e harmônico, o meu Rio vai perder, se não lhe vier em troca um grande surto industrial e comercial; com ruas largas e sem ele, será uma aldeia pretensiosa de galante e distinta, como é o tal de São Paulo. Tomei pela Rua Larga e fui à fábrica do Rink ver lá o João, o João Noronha Santos, engenheiro e subgerente lá. Conversamos até às nove horas. Carreguei-lhe umas caixas de papelão, piedosa mania, e uns números do Figaro. Tomei o trem e fui pra casa, a minha espectral casa. Cá estou na secretaria; o barão, em frente, vigia-me por cima dos livros que acumulei nas minhas ventas. O dia vai correr e eu vou trabalhar um tanto. *** 28 de janeiro. Ontem à tarde, fui ao banco receber um empréstimo que propus. É uma casa singular aquela, uma espécie de agiota privilegiado pelo governo. Demorei-me lá duas horas e às oito fui jantar na Estrada de Ferro; paguei ao Chambá o jantar. Voltei para casa e li até à uma hora o bovarismo do Gaultier, um curioso livro que se propondo revelar uma coisa já muito pressentida, entretanto, é duma frescura de brisa fagueira dos poetas. Estou lendo e acho lisonjeiro para mim achar nele vistas que eu já tinha sentido também. Deitei-me e dormi bem, sossegado e satisfeito, porque tinha trezentos e tantos mil-réis em casa. Depois dos grandes sofrimentos por que passou minha casa, eu ando pela vida apavorado, temendo desgraças, moléstias e tal fúria de tal forma vai se apossando de mim, que me vou azedando, e as rusgas que tenho mantido em casa, me parece, se explicam assim. Hoje, ao chegar à secretaria, fui intimado a cumprimentar o Argolo, que fazia anos; lá fui. Idiota esse barão e esse Argôlo. O mês vai se encerrar e o meu livro só tem pronto dois capítulos, e quem projeta trinta, é pouco trabalhar. Vou esforçar-me mais e creio que até fevereiro terei três capítulos mais. Entretanto, que de dúvidas me assoberbam sobre o seu mérito, sobre o seu valor! *** O Bovarismo de Jules Gaultier. Impressões de leitura. O bovarismo, diz seu autor, é um livro que não visa instituir nenhuma reforma, se aplica a matéria que os homens, mais que nenhuma outra espécie, acreditam marcar, eles mesmos, uma forma; trata da evolução na humanidade, isto é, dos modos de mudança nesta parte do espetáculo fenomenal em que o fato da consciência parece atribuir ao ser que sofre a modificação, com o poder de dar causa, o dever de dirigir. Sob essa ilusão, a vontade humana acredita intervir no turbilhão de causas e efeitos que a envolvem. A constatação, verificação do fato, tende na linguagem a se formular em regra moral, porque a ilusão do fato, engendrada pelo reflexo da atividade na consciência, é tão forte que domina as formas da linguagem. O bovarismo, livro, é um aparelho de óptica mental. É do prefácio. O bovarismo é o poder partilhado no homem de se conceber outro que não é. Precisar o papel do bovarismo como causa e meio essencial da evolução na humanidade. O mal, o bovarismo nos personagens de Flaubert, pode ser apreciado com uma rigorosa observação: aumenta com o afastamento que se forma entre o fim a que está voluntariamente assinalado e o fim para que os imantava naturalmente a sua vocação natural. A pessoa humana A imagem que, sob o império do meio, circunstâncias exteriores, educação sujeição, a pessoa forma de si mesmo. Ser real, ideal, tendências hereditárias, etc. As linhas se coincidem quando a impulsão, vinda do meio circunstancial, age no mesmo sentido que a impulsão hereditária. Nos casos de Flaubert, essa convergência não se produz. O ângulo dessas linhas é o índice bovárico, mede o afastamento entre o indivíduo real e o imaginário, entre o que é e o que ele acredita ser. Na Educação Sentimental, de Flaubert, mímica de valor desigual. Diz o Gaultier que, se na Ema Bovary o bovarismo foi negativo, deve-se a sua falta de crítica. *** Sem data. Bem cabível. “Malheureusement ii y avait chez le frère de Mme Pompadour un amour-propre ombrageux, une inquiétude perpétuelle de l’estime qu’on faisait de sa personne, une susceptibilité toujours en quête et en alarme d’une ironie ou d’un mépris, une tendresse pleine de mefiances et de soupçons, un besoin de se tourmenter et de se rendre malheureux dans lequel faisant tout à coup irruption une noire humeur accompagnée de rudesses et de brusqueries”. Mme Pompadour. Goncourts. É curioso verificar que essas linhas descrevem inteiramente o meu caráter e, se de qualquer forma a metempsicose é verdade, e em minha alma há qualquer coisa do desventurado irmão da grande favorita. *** 30 de janeiro. No sábado, fui a casa do Alcides Maia ler o meu livro; acredito que fossem sinceros os elogios que dele me fez, o que me anima a continuá-lo; entretanto, o pensamento foi ainda pouco compreendido, eu o creio, porque ele me tenta a pôr nele um personagem que o livro não comporta. A leitura dos dois capítulos primeiros durou uma hora, e ele fez pequenas observações, emendando, que eu aceitei . Cada vez mais simpatizo com esse Alcides. É inteligente, ilustrado, estudioso, delicado de sentimentos. Ele é muito diverso da maioria dos jornalistas e rapazes de letras com quem tenho relações. Não é que lhe falte orgulho, altaneria, Deus nos livre que ele não o tivesse. Tem- no, mais pautado, discreto; e nele esses sentimentos modelam a sua melhoria. Acho nele dois pequenos defeitos: é jornalista e é político. O primeiro é simplesmente um meio de vida, desculpa-se; o segundo é que n o. Entretanto, como ele nascesse daquele fermentado Rio Grande ã e de família abastada, não poderia escapar a ela. Domingo, fui ao Papa Lebonnard, drama em quatro atos de Jean Aicard. É um drama de moldes velhos, feito por um autor novo e de talento. A Lucinda, a minha querida Lucinda, um gosto que foi meu pai quem mo deu, fez o papel com uma sobriedade, com uma elevação, que admira em língua portuguesa. A Lucinda não tem ênfase e com poucos recursos de fisionomia ela tira um partido excepcional. É como um escritor de pequeno vocabulário, mas com grande conhecimento da sintaxe e um grande sentimento da língua. O Cristiano não é lá essas coisas, esforça-se, trabalha, sabe, mas, como disse um português, não tem o teatro no peito. O Ferreira é melhor; entretanto, com se sentir nele um ator inteligente, vê-se que lhe falta a observação do tipo que representava, um nobre, um marquês. Bom dia! Chovia a cântaros. A francesa de defronte à botica continua a interessar-me. É Louise Léon, costureira. Magra e alourada e eu... Afonso! Afonso! Estou na secretaria a aborrecer-me com os decretos; levemos a cruz ao Calvário, por amor ao meu pai. Hoje vou pagar ao J... P... o último dinheiro que meu pai lhe deve. Procedeu conosco como um carrasco. Aborreceu-me e acirrou-me como um agiota. Graças a Deus vou pagar-lhe e que Deus me dê felicidade suficiente para pagar tudo que meu pai deve. E se eu isso fizer e se conseguir cercar-lhe o resto da vida da abundância que ele tem direito, eu só peço três coisas: Um amor Um belo livro E uma viagem pela Europa e pela Ásia. *** 31 de janeiro. Último dia do mês em que, com certa regularidade, venho tomando notas diárias da minha vida, que a quero grande, nobre, plena de força e de elevação. É um modo do meu “bovarismo”, que, para realizá-lo, sobra-me a crítica e tenho alguma energia. Levá-la-ei ao fim, movido por esse ideal interessado e, se as circunstâncias exteriores não me forem adversas, tenho em mim que cumprir-me-ei. Ontem, saindo da secretaria, fui à Rua do Ouvidor, estive com alguns idiotas e fui à botica. Encontrei o V..., C..., um meu antigo colega de colégio. Bom rapaz, avarento, míope de inteligência e sem nenhum bovarismo. Está a se formar em medicina e com isso enche o seu ideal de fazendeiro médico. Deixando a botica, fui à Rua do Ouvidor; como estava bonita, semi-agitada! Era como um boulevard de Paris visto em fotografia. Fui de trem, meditei durante a viagem sobre o meu livro, e em casa compulsei as notas para acabar o terceiro capítulo. Agora acabo de achar uma pequena cena para o segundo, com a qual dar-lhe-ei mais força, mais vida, mais verossimilhança. Agita-me a vontade de escrever já, mas nessa secretaria de filisteus, em que me debocham por causa da minha pretensão literária, não me animo a faze-lo. Fá-lo-ei em casa. *** 1 de fevereiro. No dia 10 de fevereiro, com mais forte razão que nos outros, eu vim à secretaria. Logo ao chegar, fui chamado a falar com um tal B..., que aqui há. Lá fui. Tratava-se não sei de que maçada tinha que ver comigo. Esse B... é o tipo mais curioso de militar burocrata, e burocrata fraco em ortografia e na sintaxe comum. Enchi-me da precisa altivez para falar com ele, e lá não foi preciso usá-la, porquanto ele nada me disse que a provocasse. Ainda bem. O S..., o chefe, atrapalhou-se de tal modo na folha, que não pudemos receber dinheiro; recebi, entretanto, o de meu pai, no Tesouro, o que constitui para mim um grande aborrecimento. *** 2 de fevereiro. No dia 2, dia das candeias, vim à secretaria receber o dinheiro e por sinal que nela me demorei até as duas e meia horas da tarde. Saindo, fui à igreja da Candelária e, como estivesse algum tanto obtuso, não recolhi nenhuma idéia, nem qualquer emoção. No entanto, com o enterro do Patrocínio não se deu o mesmo. Propalado pelos jornais que esse jornalista tinha sido a alma da Abolição, o populacho à última hora agitou-se e fez-lhe a manifestação de uso: coche puxado a braços, ululos pelas ruas e discursos de cidadãos mais ou menos sequiosos de renome, que aproveitam a ocasião para aumentá-lo um pouco. Quem conheceu o Patrocínio como eu o conheci, lacaio de todos os patoteiros, alugado a todas as patifarias, sem uma forte linha de conduta nos seus atos e nos seus pensamentos, não acredita que pudesse ter sido, como dizem, o apóstolo da Abolição. Necessariamente, ele se serviu da coisa como um meio de arranjar facilmente dinheiro, explorou-a em seu proveito, na parte pecuniária e na parte gloriosa. Isso ele o fez com o máximo interesse e a máxima baixeza. Eu sei bem que b ixos móveis levam a altas coisas, mas isso não a se deu com o Patrocínio. A lei 13 de maio vinha de longe, era convicção da nação a injustiça da escravidão, não precisava jornalistas nem evangelizadores para mostrar-lhe a injustiça. Quem notar — basta faze-lo de 1822 — as referências que os nossos governantes fazem à coisa, sente que eles o fazem com vergonha, com desazo, sentiam-no a ilegalidade, a injustiça; e esse sentimento, que se foi espalhando pelo país, aumentou extraordinariamente depois da guerra do Paraguai e foi como, se dando a lei de 1871, não teve para encarná-la senão o funcionário que a subscreveu, o visconde do Rio Branco, ministro naquele tempo. A lei dos sexagenários foi assim também. E, quando já era quase universal no Brasil esse amargo sentimento, é que apareceu seu Patrocínio, que, sem honestidade e sem grandeza, aproveita-se da história e, pelo “jornalismo”, consegue ser elevado à altura de um apóstolo, de um evangelizador. Demais, há e houve sempre entre nós um grande sentimento liberal, com certas restrições, em favor dos negros. Eu vi o enterro; compungido, do redator do Novidades, o último jornal escravocrata que houve aqui, o Alcindo Guanabara. Se era ao amigo que ele ia ao enterro, mentia; eles nunca o foram; se era ao tribuno, mentia, porquanto sempre foram adversários; tartufo e jornalista, o que é uma e mesma coisa. As ruas cheias tinham um aspecto híbrido, pardo, e os discursos choveram de todas as sacadas da Rua do Ouvidor. Sonetos e mais longas poesias também.

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