Leia agora
Diário Íntimo

Universo da obra

Diário Íntimo

Capítulo 9 · Diário Íntimo

1904 — Parte 7

9 de 13 ≈ 28 min de leitura

*** Imprensa, de fins de 1912: Aventuras do Doutor Bogóloff “Lima Barreto está publicando em fascículos, que sairão sempre às terças-feiras, umas narrativas humorísticas às quais chamou: Episódios da vida de um pseudo-revolucionário russo, dando-lhe aquele título acima. As Aventuras do Doutor Bogóloff não são apenas páginas de boa literatura, são na realidade capítulos e capítulos trabalhados com sadio humorismo, visando claramente criticar os nossos costumes, sem preocupações inferiores de agressão a quem quer. O primeiro fascículo traz uma linda capa colorida” 1913 Fevereiro No volume II dos Retalhos(1), há um artigo do Forjaz de Sampaio; e no III, um de Alberto Olavo, Mário Matos, sobre o lsaías Caminha. *** Sem data. J.R. (P. B.) “Quando ele caiu na cova Remexeu-se bem dengoso Os vermes logo provaram O gordo ‘ioiô’ gostoso”. Não sei de quem é . *** 14 de setembro. Mudei-me ontem, 13-9-13, da casa em que vivi quase dez anos, à rua Boa Vista, 76, Todos os Santos . Lá entrei com uma nomeação no bolso e com muito pouco dinheiro. Nesta entrei sem um vintém na algibeira, tendo recebido antes seiscentos mil-réis. Já é progresso. Major Mascarenhas, 42 . *** Lia: Em mim, não existe absoluto, nem ausência de absoluto, porque não conheci nunca elemento distinto do “eu”. — É de Kant! exclamou alguém. *** 26 de setembro. Desagradar é verbo intransitivo. Pede, portanto, objeto indireto. É o mais grave erro do artigo, pois o pronome devia ser “lhe” e não “o”. Que clássico! Todos são assim. Quanto mais falam em gramática, mais erram por conta própria . *** Sem data. Fetichismo dos Negros do Brasil, pelo padre Etienne Brasil, Revista do Instituto, tomo LXXIV (Parte II, ano de 1911). Este padre é um mistificador de sabedoria. Conheci-o na Associação de Imprensa. 1914 20 de abril Hoje, pus-me a ler velhos números do Mercure de France. Lembro-me bem que os lia antes de escrever o meu primeiro livro. Publiquei-o em 1909 . Até hoje nada adiantei. Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensa - mentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio da minha vida doméstica, do meu viver quotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos. Já prescindo da glória, mas não queria morrer sem uma viagem à Europa, bem sentimental e intelectual, bem vagabunda e saborosa, como a última refeição de um condenado à morte. A minha casa me aborrece. O meu pai delira constantemente e o seu delírio tem a ironia dos loucos de Shakespeare. Meus irmãos, egoístas como eles, queriam que eu lhes desse tudo o que ganho e me curvasse à Secretaria da Guerra. O que me aborrece mais na vida é esta secretaria. Não é pelos companheiros, não é pelos diretores. É pela sua ambiência militar, onde me sinto deslocado e em contradição com a minha consciência. Não posso suportá-la. É o meu pesadelo, é a minha angústia. Tenho por ela um ódio, um nojo, uma repugnância que me acabrunha. Queria ganhar menos, muito menos, mas não suportar aqueles generais do Haiti que, parece, comandaram ou vão comandar em Austerlitz. Demais, o meu feitio é tão oposto àquela atmosfera de violência, de opressão, de bajulação, que me enche de revolta. Não sei o que hei de arranjar para substituir aquilo, e a minha gana de sair de lá é tão grande, que não me promovem, não me fazem dar um passo à frente. Eu fiz parte do júri de um Wanderley, alferes, e condenei-o. Fui posto no índex. Para os jornais daqui estou incompatível. Podia tentar a aventura fora, mas não tenho liberdade; era preciso que estivesse só, só. Enfim, a minha situação é absolutamente desesperada, mas não me mato. Quando estiver bem certo de que não encontrarei solução, embarco para Lisboa e vou morrer lá, de miséria, de fome, de qualquer modo. Desgraçado nascimento tive eu! Cheio de aptidões, de boas qualidades, de grandes e poderosos defeitos, vou morrer sem nada ter feito. Seria uma grande vida, se tivesse feito grandes obras; mas nem isso fiz. *** 13 de julho Noto que estou mudando de gênio. Hoje tive um pavor burro. Estarei indo para a loucura ? *** Sem data Estive no hospício de 18-8-14 a 13-10-14 . *** Basilio Seixas era um rapaz preto tipógrafo, que conheci na Tipografia Altina em 1902, quando fiz, com o Tigre, a Quinzena Alegre. *** Sem data A Notícia de 9-8-14. Afrânio Peixoto, “isto é metonimia”, quando foi por sinédoque. 1915 Março. Fiz o empréstimo no Montepio, em março de 1915. * *.* Sem data. A Noite começou a publicar o meu livro Numa e a Ninfa, em 20 de março de 1915. * *.* Álbum de Pelino. — Porque a girafa tem o pescoço tão comprido ? — Porque tem a cabeça longe do corpo. * .* * “Há meses inaugurou-se iluminação elétrica em uma qualquer cidade. Para evitar desastres pessoais dou-vos o seguinte aviso junto aos dínamos de alta voltagem, os transformadores, etc.: “Perigo! Quem tocar nesses fios será fulminado. Pena de prisão e multa para os contraventores.” Fazer um conto. Pelino, quando vê um sujeito ser fulminado pelo fio elétrico ... *.*.*. Sem data Banco, consignação, a começar a 1o de janeiro de 1916. 1916 Fevereiro. O Policarpo Quaresma apareceu em 26 de fevereiro de 1916. A entrevista comigo na Época saiu em fins de fevereiro, 20 . *.* * Retirei três exemplares: um para Jackson , outro Vinhais e outro Milanez . *** Retirei quatro volumes: dois brochados e dois encadernados, sendo para o Comércio e a Noite. *** Castilhos / 50. *** Brochado, 1. Pereira da Silva. *** Mandei: 1 — João Ribeiro. 1 — Alcindo Guanabara. 1 — Alcides Maia. 1 — Laet . *** Dei: 1 — Antônio 1 — Benedito . 1 — Lima . 1 — Minha irmã. *** Já dei quinze exemplares. *** País. 1 volume. Dei. Gazeta. 2 volumes. Dei. Viriato . Um volume. Dei. Prensa. Um volume. Dei. Tribuna. Um volume. Dei. Noticia. Um volume. Dei. Braule . Um. Dei. Rui . Um Dei. Afonso Celso. Um. Dei. Correio Paulistano. Um. Amadeu Amaral. Estado de São Pauto. Um. Teixeira (Lisboa). Dois . Couto . Um Dei. Fábio . Um. Dei. Biblioteca. Dois. *** Saião . Hilário de Gouveia, 54. Copacabana. *** Adriano de Abreu — 1. Capistrano de Abreu — 1. Mário Behring — 1, dei. Carlos Maul — 1, dei. (Jornal das Moças. Assembléia) *** Notícia da Época sobre Policarpo: 28-2-16. *** Domingos — 1, dei. A Águia — 1 (Porto), dei . Dei 25 exemplares. Osino — 1, dei. Emílio — 1 dei. Dei 28 exemplares. *** Correio de Vassouras: doutor Soares Filho — 1. *** Artur Mota. São Paulo. *.* * Francisco Calmon. Farmácia do Aristides Caire. *** Rui Barbosa, dei. São Clemente, 184. *** Costa Macedo — 1, dei. Jacob — 1, dei. Gilka — 1, dei. Dei 33 exemplares. Lambert — 1, dei. Bilac — 1, dei. Malagutti , dei. *** Carlos Restier — 1, dei. *** Paulo Hasslocher. Nossa Senhora de Copacabana, 72 *** Dei 36 exemplares. Dei um ao tipógrafo. Dei 37. *** Arnaldo Pereira. Arquivo da Prefeitura. *** Mota —? Reis — 1. Dei 38 exemplares. *** Bastos Tigre — 1. Antônio Torres — 1. Araújo Jorge — 1. *** Doutor Afonso Machado. Largo da Lapa, 106. *** Alfredo Morais Rego — 1. *** Dei sete mais = 45. *** Prensa. *** Cartier . 48 livros. *** Dei 49. P. Curio —1. *** Nos nossos militares (exceto a Marinha), a necessidade de mudança de uniformes eqüivale à da moda nas mulheres. *** 1 — Henrique Magalhães. Dei 51. Dermeval — 1, dei. 52. *** Cardim . Rua Fernandes, 91. *** Março Meu livro, o Policarpo, saiu há quase um mês. Só um jornal falou sobre ele três vezes (de sobra). Em uma delas, Fábio Luz assinou um artigo bem agradável. Ele saiu nas vésperas do carnaval. Ninguém pensava em outra coisa. Passou-se o carnaval e Portugal teve a cisma de provocar guerra com a Alemanha. As folhas não se importavam com outra coisa senão com o gesto comicamente davidinesco de Portugal. Enchiam colunas com noticias como esta: “A esquadra portuguesa foi mobilizada. Acham-se em pé de combate o couraçado Vasco da Gama, o cruzador Adamastor, a corveta dona Maria da Glória, a nau Catarineta, a caravela Nossa Senhora das Dores, o brigue Voador e o bergantim Relâmpago”. E não têm tempo de falar no meu livro, os jornais, estes jornais do Rio de Janeiro. *** O Poticarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco, depois publicado em folhetins no Jornal do Comércio da tarde, em 1911. Quem o publicou foi o José Félix Pacheco. Emendei-o como pude e nunca encontrei quem o quisesse editar em livro. Em fins de 1915, devido a circunstâncias e motivos obscuros, cismei em publica-lo. Tomei dinheiro daqui e dali, inclusive do Santos , que me emprestou trezentos mil-réis, e o Benedito imprimiu-o. Os críticos generosos só se lembravam diante dele do dom Quixote. V. Oliveira Lima e Afonso Celso. Audaces fortuna juvat. *** O Numa e a Ninfa foi escrito em vinte e cinco dias, logo que saí do hospício. Não copiei nem recopiei sequer um capítulo. Eu tinha pressa de entregá-lo, para ver se o Marinho me pagava logo, mas não foi assim e recebi o dinheiro aos poucos. Escrevi-o em outubro de 1914. O Marinho era diretor da A Noite. *** Encontrei, na estação, T. S., um vagabundo, companheiro de P. Disse-lhe que tinha estado doente, e ele me confessou que também, à guisa de quem faz uma confidência, explicando-me, ao ouvido, que tinha levado uma navalhada na barriga da perna. Penso que ele tinha perebas. *** W., cantora, interpelou o espectador por ter posto a mão em concha no ouvido. *** Numa dependência do quartel-general, diversos soldados conversavam; diz um a outro: — Foi preso esse Paiva Couceiro. — Quem é? — É um anarquista aí. *** O Isaías, os primeiros quatro capítulos, escrevi-os lentamente; o resto em dias, mas copiando-os, logo que os acabava. *** Os jornais que não noticiaram absolutamente o aparecimento do meu segundo livro foram: o Correio da Manhã e a Tribuna, do Rio de Janeiro. No Correio sou excomungado; e é justo. Na Tribuna, não sei porque, tanto mais que o mandei ao Lindolfo Cólor. *** Sem data. Vilarinho morreu em 8-4-1916 . *.* * Junho. Encontrei em Ouro Fino na boca do povo o neologismo “fumal”, para designar plantação de fumo. E o vício de dizer “ponhar” em vez de “pôr”, em todos os tempos e modos . *** Sem data. Manuel de Oliveira morreu a 8 de novembro de 1916, dia de anos de minha irmã. Eu o conheço desde os onze anos e creio que ele foi para casa, quando eu tinha doze ou treze anos. Viveu conosco cerca de vinte e dois ou vinte e três anos e muito nos serviu e foi útil. Era preto cabinda e tinha de sua nação um orgulho inglês. Hei de escrever-lhe um artigo *** “Amplius ! “, A Época, de 10-9-16. 1917 Março. Devo unicamente ao Lima, pela impressão do Policarpo , a quantia de quatrocentos e quarenta e dois mil réis . *** 7 de março. Hoje, 7 de março de 1917, estive na Garnier, como ontem, como anteontem. Vou agora lá sempre rondar. Troquei palavras com este, com aquele, e cada vez me capacito mais de que eles não tem nenhum ideal de Arte. São muito inteligentes, escrevem e falam como Rui de Pina, mas ideal em Arte não tem nenhum. Não me entendem ao certo e procuram nos meus livros bandalheiras, apelos sexuais, coisa que nunca foi da minha tenção procurar ou esconder. Chamam-me de pudico. Ora bolas ! *** Eu vendi ao Jacinto quatrocentos Policarpos por duzentos mil-réis. Vendi ao Garnier a mil-réis cem, por cem mil-réis. Vendi ao Alves setecentos a oitocentos réis, quinhentos e sessenta mil-réis 1200 = 860 mil-réis. Devo ter recebido uns seiscentos mil-réis de consignações. 860 + 600 + 1.460$000~ Dei cerca de.mil e duzentos exemplares. Tenho ainda a receber cem mil-réis , se tanto. *** Enquanto que Latino Coelho — livro sobre o Marques de Pombal, diversas vezes, nas páginas 357 [......] *** Lutero também condenou o sistema de Copérnico. Ver Latino Coelho, Marquês de Pombal, página 371. *** dona Luisa de Oliveira Costa, poetisa das Mágoas Secretas, Rua da Candelária, 92A. *** Paguei a Gazeta até 14. *** Preço médio do açúcar exportado é de 462 réis o quilo. Vide Correio da Manhã, de 15-9-17 O último da Bruzundanga. veio no A.B.C., de 5-5-17. *** 7 de junho. Minha irmã acaba de chegar da rua (sete e meia da noite) e me traz a notícia de que um grande prédio em construção no Largo do Rossio acaba de desabar, matando quarenta operários. O antigo prédio era uma arapuca colonial, mas que, apesar da transformação, de ter tido as paredes eventradas, resistia impavidamente. O novo ia ser uma brutalidade americana, de seis andares, dividido em quartos, para ser hotel: Hotel New York (que nome!), um pombal, ou melhor: uma cabeça-de-porco. Somos de uma estupidez formidável. O Rio não precisa de semelhantes edifícios. Eles são desproporcionados com as nossas necessidades e com a população que temos. Com pouco mais, o seu construtor adquiria os prédios vizinhos e faria coisa decente, proporcional, harmônica com a nossa vida e os nossos gostos. Mas a mania de imitarmos os Estados Unidos leva-nos a tais tolices. Uma casa dessas, servida por elevadores, povoada que nem uma vila povoada, é sempre uma ameaça para os que a habitam. Em caso de desastre, de acidente, os pequenos elevadores não a poderão esvaziar, a sua população. Mas os americanos... É o que eles chamam progresso. Fresco progresso! . *** Sem data. Há dois acréscimos a fazer no Policarpo: o requerimento do maníaco que quer ser major por ter dois galões, como tenente honorário, e outros dois, como tenente reformado, pois a soma 2 ± 2 = 4 dá o número de galões de major; e falar nas cobras — a morte do Dicomarte. *** Sem data. Para Clara dos Anjos. Ver Correio da Manhã, de 31-5-17. *** Piramidamento. Piramidar — colocar em pirâmide. *** Sobre a vida de João Laje, ver Correio da Manhã, artigo do Edmundo e de 6-9-17 *** Sem data. “Un écrivain ne doit songer, quand il écrit, ni à ses maitrês, ni même à son style. S’il voit, s’il sent, il dira quelque chose; cela sera intéressant ou non, beau ou médiocre, chance à courir.” Remy de Gourmont. Le probleme du Style. p. 31. “Volupté — c’est pour les coeurs libres quelque chose d’innocent et de libre, le bonheur du jardin de la terre, la débordante reconnaissance de l’avenir pour le présent.” Nietzsche. Zarathrusta. *** “Loué par ceux-ci, blâmé par ceux-là, me moquant des sots, bravant les méchants, je me hâte de rire de tout, de peur d’être obligé d’en pleurer.” Figaro, Beaumarchais. *** Carta régia de 30-7-1766, proibindo as fábricas. Vide Matoso Maia, página 222, e a que proíbe a cultura da cana-de-açúcar no Maranhão, de 19-6-1768, no mesmo autor. *** Quando se está perto de uma mulher, ou dizemos asneiras, ou nos calamos. *** Sem data. O Paraná (que em tupi significa mar) toma este nome... Serve de limites às províncias de Minas, Goiás, São Paulo e Paraná; dividindo outrossim o Brasil do Estado Oriental e da Confederação Argentina. Recebe então o Paraguai e o Uruguai, adquirindo o nome de Rio da Prata. Nota do Cônego Fernandes Pinheiro à História do Brasil, de Robert Southey, volume III, página 433. Há aqui um equívoco do Southey. É inexato que o rio Uruguai... serve de limites do Império do Brasil à República Oriental. *** “Cette question de savoir si son (du Grec) toujours grandissant désir de beauté, de fêtes, de réjouissances, de cultes nouveaux, n’est pas fait de vice, de misère, de mélancholie, de douleur?” Nietzsche, L’Origine de la Tragédie. Em que fica a joie de vivre dos gregos? Ora bolas! *** Só em Ciudad Real, a Inquisição, em 1486, processou mais de três mil pessoas; em Sevilha, desde este ano até o de 1489, calcula-se em três mil sentenciados, dos quais perto de quatrocentos foram queimados vivos. Herculano, História do Estabelecimento da Inquisição, página 71 (2a edição). *** 3 de junho. Hoje, depois de ter levado quase todo o mês passado entregue à bebida, posso escrever calmo. O que me leva a escrever estas notas é o fato de o Brasil ter quebrado a sua neutralidade na guerra entre a Alemanha e os Estados Unidos, dando azo a que este mandasse uma esquadra poderosa estacionar em nossas águas. A dolorosa situação dos homens de cor nos Estados Unidos não devia permitir que os nossos tivessem alegria com semelhante coisa, pois têm. Néscios. Eu me entristeço com tal coisa, tanto mais que estou amordaçado com o meu vago emprego público. A escolher, sim senhor, eu preferia mil vezes a Alemanha. Não posso dizer nada e nada direi; mas aqui fica o meu protesto mudo. Coisa curiosa, o Lauro não quis dar o seu assentimento a tal coisa; o Nilo deu. Ao primeiro, chamam de alemão; e ao segundo, de moleque? Em que parará isto? Não sei bem, mas se a sangueira já é grande, julgo que ela vai ser ainda maior depois. Tudo o que é revoltante e grosseiro vai por baixo disso tudo, sob o pretexto de pátria. É de causar horror, tanto mais que os fortes burgueses querem, aproveitando o estado dos espíritos, matar o indivíduo em proveito do Estado, que são eles. Spencer tinha razão: o mundo retrograda. O escopo utilitário matou todo o ideal, toda a caridade e quer cada “besta” na sua manjedoura. Antes o feudalismo! Antes a nobreza! *** 18 de junho. Nada mais devo da impressão do meu livro. O pulha do Vasconcelos, empregado na Secretaria do Exterior, no meio de outros pulhas, cônsules ou coisa que o valha, teve o topete de perguntar-me onde fui buscar um conto e oitocentos mil-réis. Certamente não foram nas gratificações que na repartição dele se distribuem a mancheias. F. da p.! *** Hoje me contaram que o Getúlio das Neves, lente da Escola Politécnica, demitiu-se de diretor da Carteira Cambial do Banco do Brasil, porque, encontrando o câmbio, por exemplo, a 11 1/32, no dia seguinte, julgando que o fazia subir, mandou que o Banco o cotasse a 11 3/32. As cifras não são exatas, mas o fato em si é. *** O Raul Pederneiras fez concurso de anatomia artística, de que deve entender muito pouco. Agora, está tratando de fazer de grego, de que estudou umas coisinhas no Ginásio. Que homem e que país! *** Setembro. A segunda edição do Isaias apareceu em setembro de 1917. *** 5 de setembro. De há muito sabia que não podia beber cachaça. Ela me abala, combale, abate todo o organismo, desde os intestinos até à enervação. Já tenho sofrido muito com a teimosia de bebê- la. Preciso deixar inteiramente. No dia 30 de agosto de 1917, eu ia para a cidade, quando me senti mal. Tinha levado todo o mês a beber, sobretudo parati. Bebedeira sobre bebedeira, declarada ou não. Comendo pouco e dormindo sabe Deus como. Andei porco, imundo. Ia para a cidade, quando me senti mal. Voltei para casa, muito a contragosto, pois o estado de meu pai, os seus incômodos, junto aos meus desregramentos, tornam-me a estada em casa impossível. Voltei, porque não tinha outro remédio. Deitei-me, vomitei e andava com fluxo de sangue, que me levava à latrina freqüentemente. Numa das vezes em que fui, caí e fiquei como morto. Meus irmãos acudiram- me e trouxeram-me a braços, inclusive o Elói, o filho da Prisciliana, meu afilhado e de minha irmã. Não sei o que se passou; o que sei é que as senhoras da vizinhança acudiram e eu despertei duas horas depois com equimoses nos tornozelos e cercado por elas, cheias de susto. Chamaram médico, o Caire, estudante do meu tempo; e estou sofrendo a medicação mais penosa que me podia ser imposta. Estou em dieta de fruta e água de arroz, pois o meu organismo tem deficit. Se não deixar de beber cachaça, não tenho vergonha. Queira Deus que deixe. *** Outubro. “Exmos Srs. Tendo nós notado que artigos de certos dos nossos autores, quando aparecem em publicações difundidas, são lidos com interesse e avidez; e notando também que muitos escritores não possam faze-los com independência e necessária autonomia intelectual, para não ferir interesses e susceptibilidades das grandes empresas dos nossos quotidianos, revistas e magazines; resolvemos editar uma pequena revista quinzenal em que coubessem artigos de semelhante natureza e onde também fossem feitos, sem a dependência de pequeninos interesses do momento, largos e francos comentários aos sucessos da nossa atividade, em todos aqueles departamentos onde os nossos colaboradores entendessem buscar assunto. Não se trata de uma revista de descompostura, não se trata nela de insultar esta ou aquela personagem em evidência. Não precisamos disto. O que nós desejamos é esclarecer fatos e opiniões, sob a luz de uma livre crítica, de forma que aqueles leitores, pouco enfronhados nos bastidores de certos aspectos da nossa vida e deles só tendo diante de si o fato bruto, possam melhor julgar o desenrolar dos acontecimentos políticos, literários e outros, assim também as individualidades envolvidas nesses acontecimentos. Um programa destes é necessariamente assintótico. Começamos modestamente e, com o tempo, a curva irá se aproximando gradativamente, insensivelmente, da assíntota, para nunca atingi-la. É da definição. Com esse espírito, resolvemos pôr, na direção intelectual da publicação, o senhor Lima Barreto, moço autor, cujos livros, por demais conhecidos, são fiadores da diretriz que ele imprimirá a Marginália, de acordo com o que desejamos. Procuraremos o mais breve possível organizar o nosso quinzenário, de forma a torná-lo o mais atraente possível. Na medida do razoável, não fugiremos aos moldes das publicações mais procuradas. Sem faze-la semelhante aos chamados semanários humorísticos, nem tampouco aos modelos das grandes revistas clássicas — o que no nosso meio é quase impossível —, esforçar- nos- emos por editar a Marginália de modo que, participando de um e outro gênero de publicidade, ela possa satisfazer o gosto de qualquer espécie de leitor, sem depender de nenhuma delas. É mais uma tentativa que entre nós se faz nesse gênero de imprensa de período longo; e, seja qual for o seu futuro, ficaremos satisfeitos só em tentá-la. Esperamos, pois, a boa vontade dos senhores para a publicação que encetamos agora e, desde já, agradecemos o acolhimento que derem a Marginália. Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1917. Os Editores. P.S. — Não aceitamos, por ora, assinaturas.” *** Sem data. Otacílio Sampaio de Macedo. Ensaio de uma Psicologia Nacional. Capítulo II. Cita Policarpo. 1918 21 de janeiro. Eu beijei por uma ou duas vezes E., cunhada do H.M. Isto foi há dias e eu estava esquentado. Se aquela ocasião fosse propícia, talvez consumássemos o ato. Ela é casada com um demônio de um inferior da Marinha, estúpido a roçar na idiotice. Tem todas as manifestações da compressão militar, em que o puseram desde a meninice. Tem dois filhos. A E. não é uma beleza, mas é farta de carnes e tem aquele capitoso das caboclas, quando moças. Foi sempre ela quem me provocou. Naquele dia, eu fui adiante... O G. a ronda também, mas penso que não chegou tão longe... O que eu queria dizer é que, agora, quase um mês passado, eu não tenho nenhum interesse em continuar a aventura. Não lhe tenho amor, não me sinto atraído por ela, por isso não encontro justificativa em mim mesmo para arrastá-la, como se diz, a um mau passo. Havemos de ver... (Morreu no fim do ano e o G. também. Gripe). *** Álbum de Pelino Guedes “IDA E VOLTA” A Osório Duque Estrada Quando chorosa partiste, No dorso do mar bravio, Sobre a tolda do navio Vi-te, dolente, a cismar... No ocaso o Sol se escondia, Gemia o mar nos abrolhos Chorava a dor em teus olhos Tudo chorava no lar... Hoje que voltas contente, Do teu sorriso inocente De luz doura-se o arrebol... Ontem — partias chorando, Hoje — sorrindo e cantando Beijam-te as flores e o Sol !“ “Por mais que te escarafunches Por mais que rimas arranjes Serás sempre um pobre Dunshee Um pobre Dunshee de Abranches.” Artur Azevedo, vide A Lanterna, de 30-10-17. *** “Aucun âge n’a le droit d’imposer sa beauté aux âges qui précèdent; aucun âge n’a le devoir d’emprunter sa beauté aux âges qui précèdent. II ne faut ni dénigrer ni imiter, mais inventer et comprendre.” Taine, Essais, página 255. *** Helmholtz, citado por Metchiníkoff: “La Nature. a comme exprès accumulé les contradictions dans l’intention de repéter tous les fondements d’une théorie d’harmonie préexistente entre le monde extérieur et le monde intérieur” — página 100. *** O conto meu “Sua Excelência” foi transcrito na Platéia, de São Paulo, em 24-1-18. *** O doutor Luís Ribeiro do Vale, na sua tese de doutoramento em 1918 (ano letivo de 1917), refere-se ao meu livro Policarpo Quaresma. O título é Psicologia Mórbida na Obra de Machado de Assis. *** Lenine, Trotski, Kólontai. (mulher?). *** Páginas 146, 147, Sóror Mariana Alcof orado, Luciano Cordeiro, sobre adornos pagãos nos conventos de Conceição de Beja e no de Odivelas. *** nasceu — 22-4-1640 Mariana Alcoforado morreu — 28-7-1723 83 anos Convento Conceição (da Nossa Senhora da Conceição) de Beja (Alentejo). *** “Daqui a poucos dias vai fazer um ano que toda me entreguei sem escrúpulos”. Carta II. “Receava muitas vezes que a afeição que parecia ter por mim pudesse de algum modo prejudicá-lo (a Chamilly)”. Carta V. “Em nada mais faço consistir a minha honra e a minha religião do que em amar-te perdidamente toda a vida já que comecei a amar-te”. Carta IV. “Também (Deus?), separando-nos, parece-me que nos fez todo o mal que poderíamos recear dele. Não conseguirá separar os nossos corações: o amor que pode mais do que ele uniu-os para toda a vida”. Carta 1. “O que me fazem por aliviar-me, acirra a minha dor, e nos próprios remédios acho razão particular para me afligir.” Carta II. “Fizeras a sangue frio o propósito deste incêndio em que me abrasaste toda.” Carta III. *** Há dez anos eu não compreenderia estas cartas (1918). *** “Triste de mim! que sinto vivamente a impostura desta idéia (nunca tê-lo visto), conheço, mal a exprimo, que estimo bem mais ser desventurada, amando-te, do que não te haver visto jamais.” Carta III. *** Heloísa diz coisa semelhante. *** “Mas agradeço-te, do fundo do coração, as mortificações que me causas, e aborreço a tranqüilidade em que vivia antes de conhecer-te.” Carta III. “Vi que (o senhor) era menos caro do que a minha paixão e tive mágoas desconformes em combatê-la, depois ainda que os maus procedimentos do senhor o tornaram para mim odioso.” Carta V. “Desconfio muito dos sentimentos violentos para que me aventure a esse.” Carta V. “Parece-me contudo que se os homens pudessem ter mão na razão quando escolhem os seus amores, mais se inclinariam a elas (religiosas) do que a outras mulheres. Carta V (1). *** Sem rival, Chamilly. Eu sou seu rival. *** O indeferimento do meu requerimento de montepio em 1916. *** — Não cobra nada pelas minhas receitas, pois só prescreve remédios para os amigos. Seria muito melhor que o fizesse para os seus inimigos. *** O filho do Leão Veloso aceitou a Legião de Honra. Vide Correio da Manhã, de 5.5.1918. O Júlio Novais agrediu o Álvaro de Oliveira, em 8-5-96, em frente à igreja de São Francisco, por causa de reprovações. *** Fim do governo: Ocupar-se das substâncias Fornecer a abundância Cuidar da segurança Favorecer a igualdade. Bentham — Filon — Literatura inglesa. *** Um epitáfio de um marinheiro grego que naufragou: O marítimo que aqui jaz diz-te: “Veleja! O golpe de vento que nos fez naufragar aqui, fazia vogar ao largo toda uma flotilha de barcos felizes e contentes”. *** A prorrogação do contrato da São Paulo Railway foi no governo do Prudente. O Adolfo Gordo foi o intermediário. *** Frase de Nilsa Faceiro (caso da casa do Faria — retalhos em notas oportunas), tratando do filho que tem no ventre: “Sim, é dele; e só a ele (o amante) é que eu amo”. *** Bolchevismo. *** Conde de Belfort, Visconde de Gurupari — morou na Rua Formosa, perto do velho Antônio Lourenço, num sobradão junto ao Colégio de Santa Cândida. *** Sem data,. O artigo do Amaral tem o mesmo plano que o do Miguel Melo; o do Antônio Torres o mesmo que o daquele último; o do filho de Leão Veloso o mesmo que o do Torres. Parece que o plano foi ditado pelo chefe de polícia, devendo tocar nos seguintes pontos: a) acoimar de estrangeiros os anarquistas, e exploradores dos operários brasileiros; b) debochar os seus propósitos e inventar mesmo alguns bem repugnantes e infames; e) exaltar a doçura e o patriotismo do operário brasileiro; d) julgar que eles têm razão nas suas reivindicações; que a dinamite não deve ser empregada, etc.; que devem esperar, pois a câmara vai votar o código do trabalho, etc., etc. Seria melhor mandar o Celso Vieira redigir uma circular, em papel da chefatura de polícia, e, mediante pagamento razoável, publicá-la em todos os jornais. Viver às claras . *** Hélio Lobo, sua defesa, em A Noite, de 1-12-18. *** Quando eu passo, à noite, pelo Flamengo, que as gentes elegantes, com as suas horríveis casas, fizeram banal, lembro-me do Helesponto, de Leandro e de Hero, que deve estar lá, em Icaraí. Infelizmente, eu não sei nadar. *** A Gazeta, de 1 e 2-12-18, denuncia uma violência do delegado da 17a sob o pretexto de anarquismo. *** João Francisco comprou um apito e uma gaita, para atrair os pardais. *** 27 de dezembro Hoje, aqui, no Hospital Central do Exército, estando na varanda, das seis para as sete, eu vi um grupo de irmãs atravessar o jardim, em demanda a uma outra enfermaria. Uma delas, ao pisar nas terras, recentemente trazidas para um canteiro, passou levantando os pés, como se estivesse a atravessar um terreno encharcado, e levantou a bata com os ademanes bem femininos, com ambas as mãos. Tarda muito a morrer na mulher a coquetterie. A menina burguesa, mais ou menos rica, surgiu debaixo da irmã. *** João Francisco Filho continua a chamar os pardais e a ouvi-los cantar óperas, valsas, etc. *** No retrato de Josefina, que ilustra as minhas memórias de Barras, compradas em segunda mão, havia a seguinte nota, da mão naturalmente do primeiro possuidor: “Veja o retrato na obra de J. Turquan, pág. 1.” *** Escrever alguma coisa sobre o João Francisco e os pardais. Foi meu companheiro no Hospital Central do Exército. João Francisco, alferes reformado, tipo raté da Escola Militar, as suas manias matemáticas, a sua terminologia, megalômano etc. Encontrei no Hospital Central do Exército. Escrevia cartas a todos os reis e potentados, aconselhando isto ou aquilo. Tinha um tratado de mecânica, etc.

Diário Íntimo

Sinopse

Leia Diário Íntimo, de Lima Barreto, grátis no Literunico. Obra clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654363337856837348978
Diário Íntimo

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Diário Íntimo

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Diário Íntimo Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir