Universo da obra
Universo da obra
Caso patológico das manias dos militares saídos da Escola Militar há trinta anos. *** Chagas — boêmio. Nezumano — positivista. Nepomuceno — caricato. *** Sem data. Fui aposentado por decreto de 26-12-1918. Presidente da República, vice em exercício, Delfim Moreira e ministro da Guerra, Alberto Cardoso de Aguiar. *** Sem data. No Peau de Chagrin, de Balzac, há o seguinte pensamento muito semelhante a um de Nietzche: “L’homme est un bouffon qui danse sur des précipices. 1919 Janeiro Estive no Hospital Central do Exército, de 4 de novembro de 1918 a 5 de janeiro de 1919. *** 25 de fevereiro O meu Gonzaga de Sá, editado em São Paulo, apareceu no Rio de Janeiro em 25 de fevereiro de 1919. *** “Mais que diable allait-il faire dans cette galère?” Molière, F. de Scapin. *** Março O negócio do Antônio Claro, diretor da fábrica de tecidos, está no artigo de Ramos da Paz, Jornal do Comércio, de 10 ou 11 de março de 1919. *** “Le Latin, qui dans les mots brave 1’honnêteté”... *** A mulher do H., com quem estive em avançadas intimidades, narrou-me há tempos que o pai gastava razoáveis dinheiros para levar toda a família a Petrópolis. Falando-me em passear com ela, lembrei-lhe a Tijuca, o Jardim, o Pão de Açúcar, as Paineiras, o Corcovado. O pai é fiel da Armada e se tem em grande conta. Eles e ela saíram todos assim. *** Eu veria a Vitória de Samotrácia com o mesmo olhar e a mesma emoção com que vejo um manipanso africano. São documentos sociais ambos. *** 13 de março “A Liga contra o football.” Lima Barreto, entrevistado pelo Rio-Jornal expõe os inconvenientes do football. Um jogo de pés que concorre para a animosidade e a malquerença entre os filhos de uma mesma nação. A notícia de que Lima Barreto e alguns companheiros tratavam de fundar uma ‘Liga contra o Football’, levou-nos esta manhã à sua casa, para obter mais esclarecimentos sobre os destinos e fins da liga. Lima Barreto reside, há dezesseis anos, na pacata estação suburbana de Todos os Santos. A sua casa é modesta, porém clara e ampla, cercada de fruteiras e respirando sossego. A sua sala de trabalho, ao mesmo tempo dormitório, é também clara e ampla, tendo livros, móveis, quadros — tudo em ordem. A desorganização de Lima é para uso externo. Estava lendo os jornais matutinos, quando chegamos. — Você por aqui! exclamou ele logo ao ver-nos. — É verdade. Quero saber bem esse negócio da ‘liga’ que você fundou. Nós já nos havíamos sentado e o Lima, na cadeira de balanço, deixou os jornais e respondeu: — O negócio é simples. Há cerca de um ano eu e o Valverde... Você não conhece o Valverde? — Conheço. — Bem. Eu e ele, conversando sobre os sports, em uma confeitaria do Méier, Valverde me expôs, com a sua competência especial de médico que conhece o seu ofício, os prejuízos de toda a ordem que o abuso imoderado dos sports, sobretudo o football, trazia à nossa economia vital. Ele mós explicou singelamente, sem pedantismo, nem suficiência doutoral. Impressionei- me. Dias depois, ele me lembrou a fundação da liga. Passaram-se dias e meses e não mais falamos nisto; ultimamente, porém... — Com a decisão da congregação do Pedro II, proibindo o football? — Não; antes. Eu explico a você. Nos últimos meses do ano passado, estive no Hospital Central do Exército, tratando-me. Lá, sem ter que fazer, nem distrações, eu, por desfastio, lia todas as seções dos jornais, inclusive as esportivas que são as únicas enfatuadas e enfáticas. Verifiquei que havia uma irritação inconveniente entre os players. — Você já sabe a técnica do football? — Isso é técnica? Player está ali no Valdez. — Vamos adiante. —...entre os players, amadores, torcedores, enfim entre o público do bola-pé de lá e o daqui. Você sabe disso? — Sei. — Saindo do hospital, tive notícias mais completas. Entre a gente do football de lá e a daqui há uma rivalidade feroz que se manifesta em chufas, vaias, apelidos deprimentes, até em rolos. A esse respeito escrevi dois ou três artigos... — Onde? — No A.B.C. ... Mas, a coisa não seria tão importante, se nestes últimos dias, realizando- se no Recife, um match entre um club de lá e um daqui, não se repetisse as chufas, as vaias e os rolos. — Concluiu você, daí... — Concluí que, longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral .entre as divisões políticas da União, separava-as: — Não será exagerado, Barreto? — Julgo que não. Entre São Paulo e Rio foi assim; entre Rio e Recife também; e o lógico é provar que as coisas se repetirão entre Rio e Belém, entre Rio e Porto Alegre, etc. etc. — É um argumento. — E não é só este. Os grandes oclubes daqui, aqueles que têm para cerimoniais o caucásico Coelho Neto, são portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça etc., você não pode negar isto! — Não nego; é verdade. — Está aí, uma grande desvantagem social do nosso football. Nos nossos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do pontapé propaga a sua separação e o governo o subvenciona. — Subvenciona? — Sim. Parece que a Liga e a tal Confederação estão inscritas no orçamento da despesa da República. Não estou certo, vou verificar; mas, favores e favorezinhos, elas têm recebido do governo para lançar cizânias entre Estados da União e criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros. — Que favores são esses? — Os poderes governamentais reconheceram de utilidade pública a tal Confederação, o que naturalmente redunda em alguma vantagem de ordem administrativa; e aquela casa de espantos, que é o Itamarati, quando há os tais matches internacionais, subvenciona clandestinamente as équipes que vão para as repúblicas vizinhas ‘defender as nossas cores’, como dizem eles infantilmente. De modo... — Você é capaz de provar que receberam essas subvenções? — Nem eu nem ninguém. O Itamarati, depois de Rio Branco, fez-se a caixa dos segredos e das mistificações da nossa administração. Não há quem arranque de lá a mais simples certidão... — Então, como você? — Como? Digo, sob a responsabilidade de meu nome, denuncio, e chamem-me a juízo. Espero. Contudo... — Mas, Barreto, penso em que vocês não ficarão nesse aspecto político-social- administrativo do footboll — não é? — Não ficaremos aí. Esta é a minha parte, mas a que se refere à higiene pessoal, ao funcionamento da boa saúde, às reações de ordem psicológica, às perturbações ao desenvolvimento mental que ele possa trazer, esta parte difícil, árdua e técnica é com o Valverde. Eu tratarei da minha, no que tenho o apoio de todos, pois nenhum de nós está disposto a admitir que o Brasil pague impostos, para o governo obter dinheiro e ele venha a dar um pouco desse dinheiro à sociedade dos que cavam a separação, não só das divisões políticas da nação, mas entre os próprios indivíduos desta nação. Você pode dizer que nós não estamos dispostos a consentir que se forme, à custa dos contribuintes, uma aristocracia que se baseia nas habilidades dos pés... Representaremos ao Congresso... A conversa ameaçava eternizar-se, despedimo-nos, pois; o serviço do jornal nos esperava. 1920 Sem data. A segunda vez que estive no hospício de 25 de dezembro de 1919 até 2 de fevereiro de 1920. Trataram-me bem, mas os malucos, meus companheiros, eram perigosos. Demais, eu me imiscuía muito com eles, o que não aconteceu daquela vez que fiquei de parte . *** Tenho um conto no Malho, segundo semestre de 1919, que não guardei. Não sei o número . *** Sem data. O cálculo do valor das terras de São Paulo, segundo o Cincinato Braga. Fazer uma charge a respeito . *** Revista da Semana, de 7-8-20. Logo no primeiro artigo aconselha reformas suntuárias na cidade. Em seguida sob o título “Um prado de corridas no Leblon” — pede que a Prefeitura e o Ministério da Agricultura o construam, visto “gastar-se muito dinheiro em coisas inúteis” (textual). Por aí vai nas suas elegâncias . *** A ordenação do Reino (manuelina) que equipara as bestas aos escravos é encontrada no livro IV, título xvi. *** “A saudade escreve entranhado.” Camões, Elegia. 1921 Sem data. Num domingo de fevereiro de 1921, houve um grande rolo, quando, na Praia de Botafogo, jogavam uma partida de water polo os clubes Natação e São Cristóvão. Foi tremendo e dentro d’água. *** Setembro. João Henriques de Lima Barreto. Nasceu em 19 de setembro de 1853. Foi chefe de turma das oficinas de composição da Imprensa Nacional, depois de trabalhar como tipógrafo em várias oficinas particulares e de jornais do tempo; mais tarde, chegou a mestre da referida oficina da mesma Imprensa, donde foi demitido com o estabelecimento da República, em 1889. Pouco depois, foi nomeado para as Colônias de Alienados que o Governo Provisório acabava de fundar, na ilha do Governador, como escriturário; anos após, foi almoxarife, administrador, aposentando-se, em 1902, devido a pertinazes sofrimentos que o impossibilitaram de toda e qualquer atividade até à data do seu falecimento. Era viúvo e deixa três filhos e uma filha, solteiros, todos os quatro, e o mais velho é o escritor Lima Barreto. Traduziu e publicou um volume, o Manuel de l’apprenti compositeur, do célebre impressor francês Jules Claye. *** 21 de setembro. (Cópia). “John C. Branner Stanford University President Emeritus . July 27, 1921. Califórnia Ilmo. Sr. Capistrano de Abreu. c/o F. Briguiet & Cia. Rua Nova do Ouvidor. Rio de Janeiro, Brazil. My dear Capistrano: — I received your letter of April 26, and the book and papers you kindly sent, but I have been in poor health for more than six months on account of my heart, and my correspondance has necessarily been very much neglected. Only a few days ago was I able to read Lima Barreto’s Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. I am delighted with it. I thank you very much for sending it. I don’t remember whether I ever thanked you for calling my attention to some of the writings of Monteiro Lobato. Some of them seem to me remarkably well done. Though I am still shut up indoors by the physicians, such strength as I have is spent in the preparation of an autobiography. Naturally there is a good deal about Brazil in it. Remember me kindly to my friends. Faithfully yours, (a) Branner.” Observação: O original o Capistrano deixou para que eu o visse na livraria Schettino, Sachet, 18, com o Francisco Schettino, em começos de setembro de 1921. Mandei-o traduzir oficialmente pelo Guaraná . *** 13 de dezembro Hoje, 13 de dezembro de 1921, recebi de dona Rafaelina de Barros, que viveu com Emílio de Meneses, um terno de fraque, um de casaca, quatro camisas, gravatas, etc., etc., que foram dele. Obrigado à dona Rafaelina e que Deus fale n’alma do Emílio. Amém. *** Sem data As alfaces de Deocleciano — Diocleciano. *** “Quando a natureza nos deu lágrimas, foi para mostrar que nos criou para a piedade. Juvenal, Diálogo dos Oradores. *** Criptomnésia — conflito do inconsciente com o subconsciente. Vide Delírio em Geral, Franco da Rocha, caderno VIII. Ch. Labitte Divine Comédie avant Dante. Aroux: “Dante hérétique, revolutionnaire et socialiste.” *** Maus quartos de hora de um plantador de mangas, o plantador de mangas. Jurujuba + pescoço louro, amarelo. Papagaio louro. Tamoios assim chamavam os franceses. Vi no Benício. CLARA DOS ANJOS Primeira versão incompleta 1904 “ L’oeuvre d’art a pour but de manifester quelque caractère essentiel ou saillant, plus complètement que ne le font les objets réels “ ( Taine ) I A cidade do Rio de Janeiro é regularmente edificada. Não se infira daí que ela o seja conforme o estabelecido na teoria das perpendiculares e oblíquas; antes se conclua que a cidade se tem erguido, acorde com a topografia do local onde se assentou e com as vicissitudes históricas que sofreu. Se não é regular com a estreita geometria de um agrimensor, é, entretanto, com as colinas e encostas, que a distinguem e fazem-na formosa. Enquadra-se garridamente nelas, explicando-as e continuando-as. Ao nascer, no topo do Castelo, não foi mais que um escolho branco, surgindo no revolto mar de florestas e brejos. Aumentando, desceu pela venerável colina abaixo, coleou-se, pelas várzeas, em ruas estreitas. A necessidade de defesa externa obrigou-as a ser assim, e a polícia recíproca dos habitantes contra malfeitores prováveis fez com que elas continuassem do mesmo modo, quando de piratas pouco tinham a temer. O quilombola e o corsário projetaram a cidade. Surpreendida pela fereza das lavras de Minas, que fizeram dela seu entreposto de exportação, a velha São Sebastião aterrou apressada alguns brejos; e todo e qualquer material foi-lhe útil para tal fim. A população, preguiçosa de subir de novo morros, construiu sobre um solo de cisco, e o rei dom João veio descobrir praias e arredores cheios de encantos, cuja existência ela ingenuamente ignorava. Uma coisa compensou a outra; e logo que a Corte quis se firmar e tomar ademanes solenes... Quem observa uma carta do Rio e tem de sua antiga topografia modestas notícias, define plenamente as preguiçosas sinuosidades das suas ruas e as imprevistas dilatações que elas oferecem. Ali, uma ponta de montanha empurrou-as; aqui, um alagadiço dividiu-as em duas azinhagas simétricas, deixando-o intacto, à espera de um lento aterro. Na fisionomia das casas estereotipam-se as coisas da nossa história. Um observador amoroso e perspicaz não precisa ler, ao alto, a data, entre os ornatos de estuque, para saber quando uma delas foi edificada. Esse casarão de dois andares que vemos na Rua do Sabão ou da Alfândega, é dos primeiros quinze anos da Independência. Vede-lhe a segurança afetada; a força demasiada das paredes; a valentia dos alicerces que se adivinha... Quem a fez, sabia das lutas do Primeiro Reinado, vinha seguro de possuir uma terra sua para viver a vida eterna da descendência. O tráfico de escravos imprimiu ao Valongo e aos morros da Saúde alguma coisa de cubata africana, e a tristeza do cais dos Mineiros é saudade das ricas faluas que não chegam mais de Inhomirim e da Estrela, pejadas de mercadorias. O bonde, porém, perturbou essa metódica superposição de camadas. Hoje, o geólogo de cidades atormenta-se com o aspecto transtornado dos bairros. Não há mais terrenos paralelos; as estratificações inclinam-se; os depósitos baralham-se; e a divisão da riqueza e novas instituições sociais ajudam o bonde nesse trabalho plutônico. No entanto, este veículo alastra a cidade; cria nas pontas de seus trilhos núcleos de condensação urbana. Onde ele chega, desenha-se uma venda, surge um botequim, um quiosque; em torno, edificam-se casebres. Ondulações concêntricas a esse núcleo encontram as de outro próximo, dando nascimento a uma travessa mal povoada, tristonha, esquecida das autoridades municipais, e que vive anarquizadamente, fora de toda a espécie de legislação, a poucas centenas de metros de outras, apertadas num cinto de posturas. Por elas, o capim medra viril e orgulhoso; os cabritos desembaraçadamente pastam; as lavadeiras sem cerimonia coram as roupas; e as poucas casas que há, hesitam entre casa e casebre e dão-se ao luxo de ter jardim na frente. As casas são em geral isoladas, separadas, umas das outras, por cercas de espinheiros ou bambus; mas, às vezes, juntam-se em grupo, cavalgam- se umas às outras, de jeito que, quem as vê, considera a extensão da terra e a muita que por aqueles lugares sobra. A população que as povoa é heteróclita. Na generalidade, operários e pequenos empregados; mas, se algum descuidado se aventura por uma dessas travessas adentro, surpreender-se-á sem razão ao cruzar com algum elegante da Rua do Ouvidor. Cavalheiros de extraordinária exuberância amorosa, e de apoucados rendimentos, resolvem o problema de sua natureza, gastando com a família o mínimo, num desses corredores, e o máximo, nos alfaiates e aperitivos platônicos com as cocottes nas confeitarias. Entre Rio Comprido e Catumbi, numa travessa dessa espécie, residia, em 1886, com sua família, Manuel Antônio dos Anjos, contínuo da Secretaria da Agricultura. Era pequena a família: ao contínuo e à mulher se juntavam unicamente uma filha, a orçar, por esse tempo, pelos dezesseis anos, e uma velha preta, a babá, que, já escrava já livre, rolara até aos cinqüenta e tantos anos, quando viera parar às mãos deles. Desde 1882 que se estabeleceram ali e, como gostassem do lugar e a casa fosse em conta, ficaram. Viviam bem. Os hábitos regulares do marido e a sagaz economia da mulher extraíam do mesquinho ordenado do contínuo o bastante para um passadio medíocre e igual, que satisfazia a todos. Sempre que tinham ocasião de se referir ao seu feijão quotidiano, dona Florência ou seu marido repetiam: — Deus nos dê sempre isso! E quem dera, acrescentavam, que todos o tivessem! De manhã, às oito e um quarto, o Manuel Antônio descia para a cidade em bonde certo; muma-se, na curva da Rua do Conde, de um jornal, lia-o atento até à Rua da Constituição, onde, ao acabar a leitura, dobrava-o cuidadosamente, a fim de que sua filha pudesse ler o folhetim. Findo o expediente, volteava pelas ruas centrais da cidade; dava dois dedos de palestra aqui, ali; e, pelas quatro horas, subia a jantar e a descansar em família. Era assim a sua vida. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, excetuando os de gala e os de descanso, que ficava em casa, nenhum merecia do austero contínuo a honra da menor discrepância naquele programa. Sua mulher, também, pouco saía; em um ou outro domingo, excepcionalmente, assistia à missa em Sant’Ana e dos festejos fugia com resignação satisfeita. Não era de festas, dizia, e o que de divertimento ainda lhe pudesse caber, ela, de bom grado, legava à Clara, que, com efeito, não só recebia esse legado, como também concentrava todas as fortes energias de seu pai. Durante a sua segunda infância, ele de modo decisivo se esforçara por lhe ministrar uma melhor educação. Para isso, aduziu, ao trabalho habitual, outros extraordinários, que lhe deram com que custear a estadia da filha no Externato de Nossa Senhora do Amparo, no Estácio de Sá. Há uns tempos atrás, como se sentisse fatigado com aquela dupla labuta, retirara-a do colégio, embora, para completar o estudo de português faltasse, a Clara, a sintaxe, e do piano trouxesse alguns prolegômenos, suficientes para fazê-la tocar as valsas em voga — o que ela desandou a fazer sofregamente, furiosamente. Fechado esse parêntese da educação da filha, o viver de Manuel dos Anjos voltou a ser aquele equilibrado de antigamente. Para Clara, porém, a vida não era tão monótona e encarrilhada, como para seus pais. Havia sempre uma diversão, um desvio: por novembro e agosto, e algumas vezes em outros meses, ia às festas em casa do padrinho, onde as suas habilidades de pianista eram gabadas e requeridas. Constituíam esses festejos a sua forte preocupação. Em setembro, chegava-se ao pai e dizia: — Papai, preciso de botinas para ir ao aniversário do meu padrinho, em novembro. Em abril era costume ela recomendar: Olhe, papai, em agosto é aniversário de casamento de meu padrinho, e ainda não tenho um vestido para ir. Afagando a face do velho mulato, a filha lhe pedia eloqüentemente o que as palavras só deixavam perceber. Seu padrinho era o senhor Carlos Alves da Silva, primeiro oficial da Secretaria do Império, a quem o Manuel dos Anjos, quando voltou do Paraguai, em 1869, conhecera ainda amanuense. Partindo para o Rio da Prata, logo em começo da companha, o contínuo a fizera até à ocupação de Assunção, onde deu baixa de um batalhão de voluntários. De volta à Corte, obtivera com alguns empenhos e aquele seu título de voluntário um lugar de contínuo interino da Secretaria do Império e pouco depois efetivo na da Agricultura. Durante a interinidade, o antigo voluntário travou conhecimento com o Alves da Silva, ainda nesse tempo um rapazola franzino, tagarela, de qualquer modo poeta, abolicionista, e que viera ter à burocracia com um curso gorado de Direito e o peso da manutenção da mãe, pois que seu pai, major do Exército, morrera em Lomas Valentinas, legando-lhes uma velha escrava, uma casinha em São Cristóvão e o exíguo meio soldo. A entranhada simpatia do contínuo pelo Alves da Silva não nascera, porém, do trato diário da repartição, que era severo e não permitia demasias. Essa afeição nascera-lhe forte em uma tarde, que ficou célebre na sua vida. Havia pouco que o Brasil definitivamente domara o Paraguai: com essa vitória o país tinha tomado consciência de si mesmo — era como um tímido que, superada grave dificuldade de sua vida, acredita na sua energia, no seu valor e, quiçá, na efetividade de sua existência. Um tal sentimento que naquela época se apoderara fortemente da nação, traduzia-se num explosivo desejo de progresso, de engrandecimento. Àquela chuva de borrasca, que foi a guerra, pelo Brasil rebentaram tumultuariamente novos e vigorosos brotos. Conjuntamente, vieram agitar-se as grandes questões de povoamento, de instrução e viação. Mas o que veio a constituir, depois dela, a verdadeira questão palpitante de norte a sul do Império foi a que se chamou a do elemento servil. A guerra, pondo em apertado contato senhores e recentes escravos, fazendo-os sofrer os mesmos perigos e as mesmas agruras, aproximou-os, dando nascimento a uma mútua simpatia entre eles e a uma melhor compreensão das suas necessidades. Com o pleno sucesso das armas imperiais, espalharam-se por todos os recantos do país gente tomada de generosos sentimentos pelos escravos, e essa foi a sementeira donde brotou mais tarde a árvore da abolição. Entretanto, a poesia nacional, que mais ou menos já colaborara em algumas das nossas transformações políticas, muito antes, já começava a preparar os artigos de fundo de alguns anos depois. As escolas de Direito eram o seu centro de irradiação e o Carlos Alves da Silva, chegado do Recife, vinha impregnado dela, e mesmo para o seu gasto pessoal trazia alguns tropos escolhidos e cinco ou seis argumentos irrespondíveis, que, ao seu julgar, seriam as pedras com que o minúsculo David havia de matar o Golias negreiro... Fora o Manuel dos Anjos, como bom contínuo que era, ajudar a servir na festa que o seu chefe dava pelo batismo do seu primeiro neto. Bailara-se e já o baile ia em meio, quando, no fito de descansar os pares infatigáveis, alguém lembrou que se recitasse. dona Adelaide, a filha mais moça do dono da casa, convidara já a quatro rapazes, quando convidou o amanuense Alves da Silva. — Seu Carlos, recite qualquer coisa, disse a moça. — Oh! Minha senhora, estou constipado (tossiu.), rouco e não tenho toda a poesia de cor, retrucou, desculpando-se. — Não faz mal. Recite o que souber, objetou dona Adelaide, logo interrogando, indagou: — Qual era? — As Vozes d’África... Conhece? — Sim, senhor! Não é de Castro Alves? — Pobre rapaz; refletiu o chefe, que estava em frente sentado num sofá. Na flor da idade, com aquele talento, continuou ele, abanando desconsoladamente a cabeça, morrer assim — foi uma pena! De que morreu ele, senhor Silva? perguntou, fechando a reflexão. O amanuense não teve tempo de responder, pois, como essa conversa parecesse querer se prolongar e desviá-lo recitativo, algumas moças pressurosas vieram reiterar o pedido de dona Adelaide. Instado, o Alves da Silva acedeu. Encostando-se ao piano, onde já havia quem acompanhasse, começou: “Deus! ó Deus, onde estás...” Continuando, as estrofes voavam pela sala, impetuosas, guindadas, enquanto o piano respondia com notas veladas e dolentes. Em meio do recitativo, o Carlos estava extraordinariamente animado. A gesticulação não correspondia à letra do poema, e, com um murro erguido ao teto, foi que ele sublimou: “O universo, após ela — doido amante Segue cativo” etc. A assistência não notava as discordâncias. Hipnotizada, bebia as suas palavras como se contivessem grandes e novas verdades. Percebendo o efeito, o Carlos Alves dobrava a sua incongruente dramatização, continuando: “Negro, sombrio, pálido” etc. No fim, com toda a ênfase de que era capaz, imprecou, erguendo as mãos espalmadas à altura do olhos: “Escuta o brado meu lá no infinito, Meu Deus! Senhor, meu Deus!” A sala recebeu o final com um triplicado bravo, e o Carlos, agradecendo e enxugando o suor, partiu em direção à sala de jantar. Foi durante esse recitativo que a alma do Manuel dos Anjos se sentiu invencivelmente presa à do amanuense. Da porta que ligava a sala de visitas ao corredor, ele ouvira-o todo e quando, com trêmulos na voz, o amanuense Alves disse: “Se choro... bebe o pranto a areia ardente!” — o pobre do contínuo quase chorou, abrangendo de um só lance de vista o hediondo e vazio espetáculo das fazendas. O eito, o tronco, o banzo apavorante, a encher de aluados as melancólicas senzalas, para ele, naquele instante, tiveram existência concreta. Ele os sentiu em si e palpou-os; e, conquanto não houvesse sido escravo, se julgava preso à sorte dos cativos por fortes laços de sangue e raça. Saiu já alta madrugada. Partilhando o padecer do cativeiro e exuberante de afeição pelo Alves da Silva, o contínuo Manuel vinha descendo o morro vagarosamente. Aquelas retumbantes palavras, compreendidas a meio, tinham-lhe revolvido a alma e a memória. Tênues sentimentos obscuros afloravam; rompiam com reminiscências fugaces a forte couraça de sua rudeza. Quis entrar na causa das coisas, na lógica oculta da vida, no sobrepor fatal dos acontecimentos. O dia surgia. O Sol, ainda escondido por detrás das montanhas, anunciava a aurora com um feixe de claridade aberto em leque para as nuvens. Aos poucos vinha; e antes que o rosicler tingisse de ouro e sangue as franjas do céu, a luz opalescente espalhava-se, esgarçava-se pelos altos morros, cujas curvas doces e caprichosas eram como dobras de pernas, arredondados de colos, anfractuosidades de tórax emergindo de um lençol de gaze. Pareceu-lhe que, pela noite, estreitados, dormiam os dois, aos casais, trocando beijos de paixão, delirando em espasmos, e que, mal vinha a alvorada, despertavam bruscamente para de novo ser os rudes cerros do dia claro. Quantas vezes não vira já o amanhecer? Quantas! Pelos quatro anos de campanha, o sol nascente encontrara-o mil vezes de olhos abertos nas sentinelas regimentais. Mal apontava, as cornetas do Exército estridulavam pela amplidão em fora. Uma seguia outra; as notas delas se perdiam, esvaíam-se ondulando, as da primeira empurrando as da segunda, e por fim um retinido pairava no ar, logo abafado pela agitação da tropa, que se movia desordenadamente, como um formigueiro atacado. Minutos depois, tudo era ordem. Os corpos formavam. Guardas que iam, guardas que voltavam... Fora uma vez — lembrava-se como se fosse hoje — nas vésperas da batalha do Estabelecimento, que esse caso se dera. Ia ele com outro soldado fazer não sei o que... O certo é que ia com o Urbano... Um negro, alto, delgado, de pele macia e reluzente, vindo do Norte, onde, escravo, libertado, fora dado como substituto do filho do barão de Cajaí... Iam os dois de manhã, caminhando. Madrugada ainda. Frio que Deus dava. Num encontro de caminhos, uma moeda de ouro no chão atraira a atenção de Urbano. Um soldado oriental, que a vira também, correra ao mesmo tempo que o nortista. O brasileiro agarrou-a antes do uruguaio, q e não se satisfazendo u com essa prova de propriedade, alterou-o: — És mio. Yo lo vi primeiro (?). — Qual teu o ‘que! É minha, esta aqui, e mostrou a mão fechada. O montevideano olhou Urbano de alto abaixo e, desdenhoso de lábios e ombros, disse: — Suyo... negro... Vá-te (?). Muitas ocasiões depois lembrou-se desse fato. Sempre que o Exército formado se lhe apresentava aos olhos, considerava um a um os homens que o compunham. Via-lhe os matizes da pele e com amargura recordava a frase do gringo. Alguns milhares de suyos levavam pelos pantanais do Paraguai o prestígio do Império e um enxame igual borrifava no país com sangue a sua riqueza! Faziam jus a um futuro melhor, então o gringo... A rua a que chegara começava a se animar. Vacas de leite arrastavam bezerros, plangendo compainhas. As tavernas se abriam, e os sacolejos dos jacás de uma tropa, voltando do mercado, dava um tom de roça à paisagem urbana. Pretos do ganho, quitandeiros, ainda pretos, passavam. De repente, de uma esquina adiante, veio ter à rua uma leva de escravos, em marcha para a casa de comissão. Eram poucos. Dois ou três guardas bastavam. Uma anafada “crioula”, com o bamboleio dos quadris, polvilhava de sensualidade o grupo a andar. Insidiosamente veio-lhe à mente os versos do recitativo. Esforçou-se recordá-los. A memória rebelde resistia. Chegavam duas palavras, as antecedentes não vinham, e as seguintes, arrancadas, não faziam sentido com as que já achara. Por fim, já o grupo se esbatia no fundo da perspectiva, quando na memória boiou-lhe esforçado um verso inteiro: “Quando o chicote do simum dardeja”... A cena da sala se lhe representou novamente. Imaginou, então, o Alves da Silva, armado com milhares daquelas poesias, derrubando senhores de fazenda com a mesma facilidade que as balas do Bahia derrubavam as cristas de Humaitá. A imagem do amanuense brilhou-lhe resplandecente de santidade. Era como um apóstolo e doravante queria a sua benevolência; os seus menores gestos, havia de interpretá-los como os de um orago, como os de um santo padroeiro... Quando chegou em casa — na casa em que morava com sua mulher — tinha decidido que o Senhor Carlos Alves da Silva seria o padrinho do seu filho a nascer. O apaixonado declamador das Vozes d’África entrara em casa momentos antes e, ao entrar, mal sabendo que a sua filantrópica tirada lhe valera um compadreco, repreendeu severamente a velha escrava, porque, aquela hora, ainda não tinha aprontado o café matinal. Eram os restos — quem sabe? — das inflamadas estâncias de Castro Alves. Recebendo o convite do contínuo para levar à pia batismal um filho dele a nascer, Alves da Silva não lhe deu resposta definitiva.
Leia Diário Íntimo, de Lima Barreto, grátis no Literunico. Obra clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.